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Alcançar boa proficiência em leitura e escrita é um dos maiores desafios da educação básica, e os Anos Finais em especial são uma etapa de consolidação de habilidades


Experiências de pesquisas em leitura e letramento

O direito à literatura é um direito humano, assim como o direito à vida, à liberdade, à educação, ao trabalho e à expressão de nossas opiniões. A defesa dessa ideia, que implica o acesso à instrução, ao livro, à leitura e à escrita, foi uma das grandes bandeiras de um dos maiores pensadores brasileiros, o crítico literário e sociólogo Antonio Candido de Melo e Souza.

Se, como dizia ele, a literatura contribui para o desenvolvimento do ser humano, um dos maiores desafios de nossa educação pública, em especial nos Anos Finais do Ensino Fundamental, é o de fazer valer esse direito. É nessa travessia da infância para a adolescência que vários fatores, internos e externos à escola, entram em campo e acabam afastando os jovens do domínio da leitura e da escrita.

Por vê-las como ferramentas fundamentais para a garantia da formação dos sujeitos e para o exercício da cidadania, quatro dos pesquisadores selecionados pelo edital de pesquisa Anos Finais do Ensino Fundamental – Adolescências, Qualidade e Equidade na Escola Pública trouxeram, cada um a seu modo, estudos para contribuir com a evolução dessas práticas. Leitura, escrita e letramento constituem, assim, o segundo grupo temático a ser divulgado no lançamento deste especial.

Desengavetando livros e textos: a experiência no município de Queimados

Um desses projetos é o Desengaveta meu texto: Práticas de escrita e leitura no Ensino Fundamental 2, da pesquisadora Patrícia Silva Rosas de Araújo, doutora em Linguística pela Universidade Federal da Paraíba. Em sua pesquisa, o foco está nas práticas de leitura e escrita, no papel fundamental que a disponibilidade do livro exerce para ajudar os estudantes a se familiarizarem com a escrita.

Ela já desenvolvia seu projeto em Queimados, pequeno município vizinho a Campina Grande (PB). Trabalhava então com quatro turmas da Escola Municipal Tertuliano Maciel, unidade rural de Ensino Fundamental, quando começou a investigar a falta de acesso à leitura e de proficiência leitora dos cerca de 160 alunos das turmas do 6º ao 9º ano.

Uma realidade não muito diferente daquela com que ela se defrontou a partir de 2019, quando foi selecionada no edital Anos Finais do Fundamental e estendeu seu projeto para cinco escolas da rede estadual em Campina Grande.

Patrícia relata que, na busca de seu primeiro problema de pesquisa – a falta de acesso ao livro –, a realidade que encontrou não foi nada animadora. Livros engavetados, mofados, inacessíveis aos alunos, além da falta de lugares adequados para leitura. “Apenas uma escola tinha espaço para biblioteca, as outras eram somente salas de depósito, não eram lugares de permanência.”

Com seus auxiliares de pesquisa, catalogou os acervos das bibliotecas, que ganharam nomes escolhidos por meio de eleição entre os alunos. A conquista dos espaços exigiu muita negociação, pois teve de dividir salas com outras instâncias das escolas.

Para buscar respostas para a falta de proficiência leitora e de escrita, o projeto partiu de uma ideia de biblioteca viva, em que os alunos não apenas retiravam livros, mas, a partir da leitura, desenvolviam uma série de atividades, muitas delas de escrita. Entre os resultados colhidos, Patrícia Rosas destaca a conscientização dos professores de que a formação de bons leitores se faz a partir de leituras e práticas didáticas cotidianas, mas não só. É preciso usar todos os recursos disponíveis.

“Achei que a escola era um lugar mais fácil para se lutar pela leitura. Mas há um apagamento do lugar da biblioteca. Isso envolve gestão escolar e gestão pública.”

Patrícia Rosas, coordenadora da pesquisa

A escrita como ferramenta do aprendizado

Já a pesquisa de Clemilton Lopes Pinheiro, doutor em Filologia e Linguística Portuguesa pela Unesp (Universidade Estadual Paulista) e professor da UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), procurou encontrar novas saídas para melhorar as respostas dos estudantes dos Anos Finais em termos de aprendizagem de todas as disciplinas.

Em sua proposta – Escrever para aprender: diagnose e dispositivo pedagógico para os Anos Finais do Ensino Fundamental –, o linguista elaborou um dispositivo de ensino (uma metodologia) com base numa escrita não compositiva (escritura para aprender). Nele, o foco não é a escrita em si, mas os conteúdos curriculares dos quais o aluno tem de dar conta por meio da escrita.

“Há trabalhos que mostram que as disciplinas não exploram esse papel instrumental que a escrita oferece, a função epistêmica. Quando o aluno precisa organizar o que está aprendendo, ele começa a usar um raciocínio abstrato”

Clemilton Pinheiro, coordenador da pesquisa

Ou seja, é como se o ato de escrever obrigasse o aluno a pensar no conteúdo que está sendo estudado, como se ele tivesse de arrumar uma forma de organizar esses novos conceitos e, por meio desse exercício, desvendasse os seus significados.

Clemilton sublinha o fato de que os docentes das disciplinas que colaboraram com o projeto relataram ter percebido melhoras significativas na produção dos alunos remanescentes, tanto na escrita quanto no desenvolvimento do conteúdo. A experiência é vista como um piloto, com possibilidades de ser replicada.

Escutar e entender os jovens: propostas convergentes

Os outros dois projetos selecionados no âmbito de leitura e letramento têm um forte ponto de convergência: ambos partem da premissa de que é necessário estabelecer um processo de escuta sobre o que jovens e adolescentes julgam importante e a que gostariam de ter acesso, tanto na escola como na vida.

A pesquisa proposta por Luciene Juliano Simões, professora e pesquisadora da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), parte do que se pode chamar de uma inversão de eixo no processo de construção curricular e aprendizagem. Batizado de Expressão, simbolização e resolução de problemas: tratar a evasão e a desigualdade no pedagógico, tem uma pergunta central: como é a cultura de escrita dos jovens e como isso se relaciona com suas vidas?

Essa inquietação acerca dos significados da escrita tem origem na constatação de que o que a escola oferece ao estudante – a cultura pedagógica baseada em cópia, cadernos e conteúdos estruturados previamente, simbolizada pelo livro didático – traz histórias que carecem de autenticidade. Carecem pelo fato de recortarem o objeto a ser estudado e o apresentarem de forma fragmentada, fazendo da leitura muito mais um instrumento para se entender a gramática do que de fruição e compreensão do mundo.

Em contrapartida a esse universo que afasta o estudante, se opõe outro, feito de histórias populares em vários formatos, como ficções juvenis, personagens populares, música, memes, na maior parte das vezes absorvidos por meio do mundo digital. E, como o acesso a esse mundo é restrito por falta de celulares e computadores, os adolescentes acabam sendo obrigados a interagir mais para compartilhar os conteúdos, muitas vezes usando a escrita para isso.

Com isso, Luciene e equipe propuseram que os alunos de 8º e 9º anos escolhessem livros sugeridos a partir de conversas anteriores, para que os discutissem e escrevessem a respeito, o que resultou num trabalho com o gênero canção. Durante o período de atuação da pesquisa, estudaram questões estruturais das músicas, fizeram uma imersão pelo gênero sertanejo, de suas raízes até os dias de hoje.

A diretora da escola, Priscila de La Veja, considerou a experiência como um curso de mestrado ou extensão para os professores. Abriu um grupo de alfabetização e letramento para os Anos Iniciais e busca oferecer atividades extracurriculares para os estudantes, sempre que possível em projetos conjuntos entre os professores.

Linguagem para libertar os jovens em conflito com a lei

Assim como as aulas de Língua Portuguesa das escolas parecem muitas vezes estar distantes dos adolescentes, essa sensação é ainda maior no universo da socioeducação.

Em escolas que abrigam adolescentes em conflito com a lei, o desafio de oferecer-lhes saídas para que não voltem às mesmas práticas que os levaram ao isolamento social é considerável. A professora Cátia de Azevedo Fronza, a partir do projeto Novos significados para alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental no contexto da socioeducação: linguagens para a autonomia e a cidadania, quis investigar esse universo para saber como os estudantes dos Anos Finais do Fundamental viam e avaliavam as aulas de Língua Portuguesa, do que gostavam e o que queriam aprender. Para isso, trabalhou com estudantes da Escola Estadual Tom Jobim, unidade que fica dentro da Fundação de Atendimento Socioeducativo (Fase).

“A proposta era tentar alargar a visão de mundo desses jovens por meio da linguagem, para criar uma alternativa no momento que saíssem de lá. Percebemos que eles tinham necessidade de falar sobre coisas que iam além da escola e da língua portuguesa, queriam falar sobre a vida.”

Cátia Fronza, coordenadora da pesquisa

Durante o processo de escuta com os alunos, observou-se grande progresso deles em termos da expressão. Os estudantes se soltaram e definiram o seu ideal de escola, fizeram registros, sugeriram imagens para criar a identidade do projeto e mostraram engajamento significativo.

Uma coisa chamou a atenção da professora: a maioria dos alunos ouvidos queria falar sobre a escola ser um lugar mais seguro, com menos violência, e que pudesse oferecer a eles algum instrumental para enfrentar a vida quando saíssem, sem sofrer preconceitos. “Queriam aprendizado, qualidade, respeito e segurança”, resume a pesquisadora. 

Dos relatos dos estudantes, uma recorrência chamou a atenção da pesquisadora: como o 6º ano do Fundamental, o ano de ingresso nos Anos Finais, é marcante para a vida deles, muitas vezes determinantes para suas trajetórias. 

Conhecimento e identidade

As quatro pesquisas iluminaram de forma concreta algumas questões sobre a importância da escrita e da leitura, das quais destacamos duas: a importância do trabalho integrado entre essas duas instâncias no processo de letramento e na construção da identidade de cada sujeito; e se ler abre portas de mundos diversos, escrever permite afirmar aquilo que se conhece e ajuda a construir o que pensamos de nós mesmos e do outro. 

Um outro ponto observado é a urgência para que se encontrem formatos didáticos que tragam um novo modelo às relações entre docentes e estudantes, com dinâmicas que permitam que os alunos se expressem e sintam que seu universo de referências tem o respaldo da escola.

Para ficar por dentro

Descubra mais sobre as pesquisas de leitura e letramento na série de Podcast Anos Finais: pesquisa e ação, uma produção do Itaú Social.

• O valor da leitura: legado e inspirações para a nova década – Venha refletir sobre o valor da leitura a partir deste especial jornalístico produzido pelo Itaú Social. Clique aqui para acessar.

No Polo, ambiente de aprendizagem do Itaú Social, você possui acesso a percursos formativos e cursos sobre a temática de leitura e letramento:

Leitura e escrita – Esse percurso formativo oferece cursos que orientam a prática da mediação como impulso à construção de comportamentos leitores desde a primeira infância. Clique aqui para acessar;

Educação Infantil Percurso que tem como foco permitir a educadores e gestores compreender as especificidades do trabalho pedagógico na Educação Infantil. Entre as habilidades de leitura e letramento. Clique aqui para acessar.

Central de Pesquisas

Com o intuito de oferecer uma visão geral sobre todas as pequisas produzidas no âmbito do edital “Os Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, Qualidade e Equidade na Escola Pública”, o Itaú Social produziu a Central de Pesquisas, um espaço para você acessar os conteúdos, resultados e informações sobre os 14 projetos apoiados. Clique no botão abaixo e conheça mais!

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FICHA TÉCNICA

Coordenação editorial e diagramação: Fernanda F. Zanelli e Lucas Gregório | Texto e edição: Rubem Barros e Ana Claudia Bellintane
Identidade visual: Rodrigo Souza Silva e Juliana Santos de Araújo | Direção de arte: Caronte | Ilustração: Julia Coppa |
Colaboração: Alexandre Moreira, Claudia Sintoni, Patricia Mota Guedes e Raquel Ornellas

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