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Edital apoiou 14 pesquisas com o objetivo de investigar questões específicas daquela que é uma das etapas mais desafiadoras da Educação Básica brasileira.


Superlativo é uma palavra que facilmente se pode atribuir aos Anos Finais do Ensino Fundamental no Brasil. Com um quarto do total de estudantes da Educação Básica (25%), a etapa não é um desafio apenas em termos quantitativos. Em 2020, 22,7% dos estudantes dos Anos Finais do Ensino Fundamental apresentavam defasagem idade-série igual ou maior a dois anos escolares, ou seja, alunos do 9º ano tinham aprendizado equivalente ao adequado para o 7º ano. Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, essa porcentagem era de 9,7%; no Ensino Médio, de 26,2%.

Diante deste cenário, o Itaú Social e a Fundação Carlos Chagas lançaram o edital Anos Finais do Ensino Fundamental – Adolescências, Qualidade e Equidade na Escola Pública, dedicado ao apoio de pesquisas aplicadas que respondessem a aspectos relacionados aos anos finais do Fundamental.

Foram quase 500 propostas inscritas no lançamento do edital em 2018, distribuídas nas cinco regiões do país. Além da representação de diferentes realidades e o apoio a pesquisas vinculadas à prática, a iniciativa se propôs a estimular o desenvolvimento do saber científico com a participação ativa de escolas, redes educacionais e organizações da sociedade civil.

Com o investimento entre R$ 100 mil a R$ 150 mil, e dedicação de cerca de três anos, cada projeto recebeu também o acompanhamento e apoio técnico condizente com a temática estudada.

Mais de 70% das propostas inscritas tiveram enfoque em currículo, práticas e avaliação – o que traz pistas importantes sobre os principais desafios dos Anos Finais do Ensino Fundamental. Já entre as 14 pesquisas selecionadas, os temas emergentes se dividem entre os cinco episódios que serão tratados neste especial.

Confira os temas e navegue na série:

Uma população de estudantes do tamanho de um país

Se considerarmos apenas a educação pública, os Anos Finais têm uma população de estudantes (10,09 milhões) quase do mesmo tamanho que a de Portugal, com 10,3 milhões de habitantes, e cerca de três vezes maior que a do Uruguai (3,5 milhões). Além da importância quantitativa, é nesta fase, do 6º ao 9º ano, que a adolescência começa e com ela se intensifica o processo de autonomia e um importantíssimo salto cognitivo.

Essas grandezas, no entanto, não resultam na atribuição de uma importância estratégica que a etapa exige. Os Anos Finais do Ensino Fundamental se constituíram, do final do século passado para cá, numa espécie de zona cinzenta. Uma etapa que agrega muitos dos desafios mais estruturais da Educação Básica, dentre eles o alto índice de evasão escolar na transição para o Ensino Médio e a ausência de programas e políticas que tenham como objetivo enfrentar estes pontos críticos.

Desde 2000, as principais políticas públicas e programas educacionais priorizaram os Anos Iniciais do Ensino Fundamental – por ser a etapa em que acontece a alfabetização – e o Ensino Médio, por ser o fechamento do ciclo da Educação Básica. Enquanto isso, os Anos Finais seguiram como um grande gargalo, com as maiores taxas de reprovação, abandono, evasão e defasagem idade-série. Nem mesmo para esforços de expansão das matrículas de Ensino Integral, as políticas públicas colocaram foco nessa etapa escolar.

Até o começo da pandemia, houve avanços significativos nos Anos Iniciais, enquanto nos Finais quase não tivemos evolução. E, mais do que isso, o que constatamos foi o agravamento das desigualdades.

Patricia Mota Guedes, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social, ressalta, no entanto, que existem iniciativas no país que apontam caminhos. Em sua análise, os estudos mostram que as redes e escolas precisam olhar para a adolescência – período de transição em essência – não como problema, mas como oportunidade para mudar para melhor a forma de como se vive o ensino e a aprendizagem.

“Não podemos naturalizar o fato de que os estudantes que chegam ao Ensino Médio são sobreviventes. Temos responsabilidade em propor e apoiar formas de reverter os mecanismos de exclusão por trás das altas taxas de reprovação, repetência e abandono escolar nos Anos Finais.”

Patricia Mota Guedes, gerente de Pesquisa e Desenvolvimento do Itaú Social.

Volta ao campo após uma década

Em 2012, a Fundação Carlos Chagas realizou a pesquisa “Anos Finais do Ensino Fundamental: Aproximando-se da Configuração Atual”, encomendada pela Fundação Victor Civita (FVC), com o apoio do Itaú Social e do Itaú BBA, cujo objetivo era investigar especificidades inerentes à essa etapa da educação.

A pesquisa resgatou questões históricas dos Anos Finais e retratou nós críticos sobre o caráter de transição dessa etapa escolar. Como, por exemplo, o fato do Ginásio, como era chamado, ser limitado aos que passavam nos exames. Além disso, aspectos como o momento biológico e cultural dos alunos e a dificuldade de se adaptarem a uma rotina curricular mais fragmentada, foram apontados como principais desafios relacionados ao final do Fundamental.

Quase uma década depois, novamente em parceria com a Fundação Carlos Chagas, surge a ideia de voltar ao campo para investigar o assunto, a fim de desenvolver propostas e conteúdo formativo, desta vez contando com pesquisadores de diferentes regiões brasileiras e redes locais atuantes nas escolas. Assim nasceu o edital de pesquisa aplicada “Anos Finais do Ensino Fundamental – Adolescências, Qualidade e Equidade na Escola Pública”.

As pesquisas trazem ainda recortes temáticos a partir de diferentes realidades, considerando uma etapa escolar que precisa de novos aportes e caminhos para consolidar sua identidade no corpo da Educação Básica.  No processo do edital, não faltaram exemplos desta construção de saberes de forma colaborativa no dia a dia das escolas e redes educacionais. Com a conclusão das pesquisas, fica evidente a riqueza de aprendizados que são gerados a partir de múltiplos olhares.

Para Gisela Tartuce, da Fundação Carlos Chagas, uma boa oportunidade de continuidade no investimento a pesquisas sobre os Anos Finais seria a realização de estudos longitudinais, com o objetivo de acompanhar os estudantes ao longo dos quatro anos do ciclo, tanto em termos quantitativos como qualitativos.

“É preciso que nos aprofundemos nessa etapa dos 11 aos 15 anos, com um olhar também para os alunos mais velhos ali presentes. É preciso conhecer esse adolescente, esse jovem, inclusive para dar mais subsídios aos professores”

Gisela Tartuce, da Fundação Carlos Chagas.

Informações do edital

Modalidade 1 – Pesquisas que partiram de um diagnóstico e sugeriram uma agenda de recomendações para os Anos Finais do Ensino Fundamental;

Modalidade 2 – Pesquisas que sistematizaram e avaliaram um projeto ou programa educacional já implementado ou em implementação;

Modalidade 3 – Pesquisas que orientaram a implementação de um projeto ou programa educacional realizado nas escolas em parceria com OSCS, universidades, coletivos ou redes de ensino.

1. Relativo ao espaço da ação educativa (questões do ambiente escolar ou das relações da escola com seus diversos interlocutores externos);

2. Relativo aos três eixos temáticos (cada um com seus subtemas):

– Currículos, práticas e avaliação;

– Clima escolar e relações interpessoais;

– Processos de gestão escolar e educacional

Para apoiar no desenho do edital e na seleção das pesquisas, foram realizados encontros envolvendo universidades, gestores públicos e fundações e institutos empresariais. Contribuições de um grupo de especialistas que integraram um Conselho Consultivo também fez parte das etapas de construção do formato do edital, justamente para que conseguisse chegar em pesquisadores de todo Brasil, que historicamente não seriam alcançados por um edital convencional.

Recomendações

Um dos produtos finais do edital é a publicação Recomendações aos Anos Finais do Ensino Fundamental. O documento apresenta recomendações para a superação dos desafios e dificuldades dos anos finais do ensino fundamental e, portanto, para a melhoria dos resultados educacionais no Brasil.

Navegue na série

O episódio trata de temas que transcendem à experiência local e sinalizam caminhos possíveis para o enfrentamento de questões latentes da última etapa do Ensino Fundamental. Estamos falando da transição para 6º ano, da convivência e do clima escolar como fatores relevantes para trajetórias educacionais, da importância das crenças de autoeficácia como fator associado ao desempenho e, por fim, da participação de professores na composição de práticas pedagógicas curriculares que possam dialogar com a realidade dos alunos.

As pesquisas que compõem este bloco temático são:

1) Sexto ano, transições e participação: diagnóstico e intervenção no Colégio Municipal Presidente Castelo Branco, Pojuca, Bahia;

2) A Convivência como Valor nas Escolas Públicas: Implantação de um Sistema de Apoio entre Iguais;

3) Sucesso escolar: em busca de estratégias para o fortalecimento de crenças de eficácia;

4) Saberes em diálogo: docência, pesquisa e práticas pedagógicas.

No conjunto de propostas submetidas, houve recorrência de projetos voltados às áreas de Língua Portuguesa em diálogo com as oportunidades e desafios. A hipótese é que a escolha tenha relação com a implementação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular).

Assim, também entre os selecionados, a temática com maior número de projetos foi a de letramento e leitura, que continua a desafiar educadores para que os estudantes não só ganhem maior proficiência, mas também para que encontrem nas palavras os significados que os façam achar seus caminhos de vida e prosseguir nos estudos.

As pesquisas que compõem este bloco temático são:

1) Escrever para aprender: diagnose e dispositivo pedagógico para os Anos Finais do Ensino Fundamental;

2) Novos significados para alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental no contexto da socioeducação: linguagens para a autonomia e a cidadania;

3) Expressão, simbolização e resolução de problemas: tratar a evasão e a desigualdade no pedagógico;

4)  Desengaveta meu texto: práticas de leitura e escrita no Ensino Fundamental II.

Um dos desafios de implementação da Base Nacional Curricular Comum está na especificação de conteúdos que dialoguem com a realidade de cada escola. Isto é ainda mais necessário quando se trata de educação indígena. Neste sentido, o terceiro episódio da série trata da articulação de professores e comunidades escolares no desenvolvimento de práticas pedagógicas aderentes ao contexto cultural indígena.

As pesquisas que compõem este bloco temático são:

1) Laboratórios Socionaturais Vivos como Instrumento de Melhoria Pedagógica nos Anos Finais do ensino Fundamental;

2) Laboratório de Práticas Audiovisuais LAPA.

Ao lado das questões da leitura e da escrita, a matemática reúne um conjunto de competências e habilidades fundamentais para compreensão do mundo. É justamente um recorte temático que carece de investimento em pesquisas e experiências que contribuam para melhorar a relação de professores e alunos com o pensamento lógico, questão que ainda é um gargalo no Brasil.

A preocupação com o letramento matemático e o desenvolvimento de um raciocínio computacional, compõem o quarto agrupamento.

As pesquisas que compõem este bloco temático são:

1) Letramento Multimídia Estatístico LeME: uma interação entre a pesquisa acadêmica e a realidade escolar dos Anos Finais do Ensino Fundamental;

2) Raciocínio Computacional em prática.

A ampliação de oportunidades com vistas ao desenvolvimento integral é uma demanda que se tornou ainda mais urgente no cenário pós isolamento social. Como trazer a cidade e o território para as práticas pedagógicas? Como construir pontes entre as escolas e organizações sociais, centros culturais e outras tantas iniciativas das comunidades? As ligações entre visão geográfica, ocupação da cidade e exercício da cidadania são os temas que fecham o especial.

As pesquisas que compõem este bloco temático são:

1) Nós Propomos!? Goiás: construção do pensamento geográfico e Atuação cidadã dos alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental;

2) A cidade como espaço de aprendizagem: Práticas pedagógicas inovadoras para a promoção da cidadania e do desenvolvimento social sustentável.

FICHA TÉCNICA

Coordenação editorial e diagramação: Fernanda F. Zanelli e Lucas Gregório | Texto e edição: Rubem Barros e Ana Claudia Bellintane
Identidade visual: Rodrigo Souza Silva e Juliana Santos de Araújo | Direção de arte: Caronte | Ilustração: Julia Coppa |
Colaboração: Alexandre Moreira, Claudia Sintoni, Patricia Mota Guedes e Raquel Ornellas

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