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Revisitar os hábitos e a história de seus ancestrais faz com que comunidades descubram o universal ao conhecer o particular


Em busca de identidade e valores próprios

Integrar o conhecimento escolar tradicional a uma outra visão de mundo, não eurocêntrica, com uma ideia diferente de temporalidade, e buscar suas raízes na produção de novas imagens, realizadas pelas próprias comunidades, para construir sua identidade. Estes são dois movimentos voltados à revalorização da cultura de comunidades indígenas que estão no centro de dois dos 14 projetos selecionados pelo edital de pesquisa Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, qualidade e equidade na escola pública, promovido pelo Itaú Social e pela Fundação Carlos Chagas.

Esses focos foram dados pelas pesquisas Laboratórios socionaturais vivos como instrumento de melhoria pedagógica nos Anos Finais do Ensino Fundamental na Educação Escolar Indígena, coordenado por Maxim Repetto, professor da UFRR (Universidade Federal de Roraima) e Laboratório de Práticas Audiovisuais, proposto por Clarisse Alvarenga, docente e pesquisadora da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Este segundo projeto não se restringiu apenas a escolas de comunidades indígenas, sendo também realizado em unidades da região metropolitana de Belo Horizonte (MG) frequentadas por alunos de comunidades vulneráveis.

Tendo como ponto de inflexão a Constituição Federal de 1988, quando foi “assegurada às comunidades indígenas também a utilização de suas línguas maternas e processos próprios de aprendizagem” (parágrafo 2º do artigo 210), a educação dos povos originários não só se expandiu, como também, cada vez mais, vem sendo ministrada por professores nascidos nessas mesmas comunidades.

Aprendizagem a partir do saber local

A partir da década passada começaram a funcionar em várias universidades federais cursos de Licenciatura Intercultural, destinados à formação de novos docentes para que a escolarização de crianças e jovens seja feita com pessoas das próprias etnias onde estão situadas as escolas indígenas. Essa valorização tem se refletido cada vez mais sobre os conteúdos ministrados e os livros didáticos utilizados.

É nesse contexto que se encaixa a pesquisa desenvolvida por Maxim Repetto junto a cinco escolas indígenas de Roraima. Sua proposta foi a de produzir materiais didáticos que promovam a educação a partir da cultura local, entendendo-a e mostrando como esses povos se relacionam com a natureza. E, a partir daí, ensinar também conceitos centrais de disciplinas tradicionais, como português, matemática, história e geografia.

Para a elaboração do material, foram identificadas atividades típicas das comunidades, os seus ciclos e o que representam para o cotidiano desses povos. Elas resultaram em calendários socionaturais, que são mapas que relacionam as atividades das comunidades com as épocas do ano, como no caso das roças. “O calendário é um instrumento pedagógico para a leitura do mundo com uma perspectiva diferente do livro tradicional”, explica Repetto. “Para os indígenas, o conhecimento do mundo se dá a partir das questões locais, particulares, e delas para o universal – o inverso dos livros didáticos tradicionais – por isso é importante pensar nos processos de aprendizagem dessas comunidades”, diz o pesquisador.

Essa proposta de ação está em sintonia com um grande movimento registrado atualmente nas Américas, perspectiva batizada de decolonial, que busca recontar e interpretar a história a partir da visão dos povos originários. 

“Com essa proposta invertemos a lógica de dominação colonial na escola e também aprofundamos o próprio conhecimento indígena estimulando os meninos a pesquisarem como os mais velhos lidavam com as mesmas questões”

Maxim Repetto – coordenador da pesquisa

Produzir as próprias imagens

Em semelhança com a proposta do professor da UFRR, mas voltada ao campo das narrativas audiovisuais, o Laboratório de Pesquisas Audiovisuais LAPA, estudo encabeçado pela professora Clarisse Alvarenga, da Faculdade de Educação da UFMG, parte de uma provocação que busca mexer com o condicionamento na recepção de filmes e vídeos, habitualmente ligado aos padrões do cinema americano e à linguagem televisiva. Para isso, o projeto busca saber se produções realizadas por professores e alunos de três escolas indígenas e quatro outras situadas na região metropolitana de Belo Horizonte podem constituir uma boa estratégia para aproximá-los do universo do audiovisual. Essas experiências tiveram lugar nos espaços de convivência do cotidiano de professores e alunos (escola, família, comunidade). 

Ou seja, ao invés de deixar o contato dos jovens e professores a cargo da cultura de massa (rádio e TV) e das diversas novas produções acessíveis na internet, o intuito aqui é fazê-los gostar do audiovisual à medida que entendem seu processo de realização e que busquem retratar e refletir seu próprio universo.

Se o consumo através dos meios tradicionais acaba por reduzir o universo temático, além de muitas vezes torná-lo superficial, ou estimular conteúdos falsos ou agressivos, o meio de alargar esse horizonte é, novamente, investigar o seu entorno. E, nesse processo, saber mais sobre sua história, origens, hábitos, fatores que ajudam a construir uma identidade própria. 

O manuseio tanto da aparelhagem como de conceitos estéticos foi feito após um ciclo de preparação, com exibição de filmes e oficinas para que professores se apropriassem de técnicas de edição e captação de sons. Posteriormente, trabalharam com grupos pequenos de alunos, limitados pela pandemia de Covid-19. 

Apesar dos problemas causados pela pandemia no decorrer do projeto, seu principal resultado foi, além da resposta positiva em relação à dúvida inicial, a realização de várias produções que já entram nos acervos das respectivas escolas. 

A pesquisadora ressaltou, também, a criação do conceito de filme-aula, uma experiência sensível provocada pela imagem e seguida da produção de outras imagens no contexto da mesma aula. Essa manipulação dos recursos técnicos para a realização de filmes funciona como uma desmistificação do processo, mostrando a capacidade de cada um de também gravar suas obras. A ideia foi concebida em oposição à videoaula, em que uma narrativa audiovisual é mostrada e depois explicada por meio de uma aula discursiva.

Com relação ao trabalho dos alunos das comunidades indígenas, Clarisse Alvarenga frisa o fato de que os estudantes Xakriabá demonstraram maior independência para realizar seus filmes, em comparação com os adolescentes da região urbana. “Tiveram maior domínio na edição de imagens, tanto do ponto de vista técnico como estético. Já mandavam os vídeos editados, com trilha”, conta a coordenadora. Já os alunos das escolas vizinhas a Belo Horizonte pediram mais auxílio e tiveram um pouco mais de dificuldade na questão do domínio técnico.

O aprendizado no cotidiano

Os dois projetos são uma possível resposta a um questionamento feito por muitos críticos da educação mais tradicional, pois trazem para o processo de ensino e aprendizagem os fatos cotidianos da vida dos alunos. Buscam fazer com que eles entendam o mundo a partir de suas próprias realidades e que contribuam com suas próprias culturas para um olhar mais humano no dia a dia. 

“Quando eu sugeri que falaria do sonho e da terra, eu queria comunicar a vocês um lugar, uma prática que é percebida em diferentes culturas, em diferentes povos, de reconhecer essa instituição do sonho não como experiência cotidiana de dormir e sonhar, mas como exercício disciplinado de buscar no sonho as orientações para as nossas escolhas do dia a dia.”

Aílton Krenak no livro Ideias para adiar o fim do mundo

Para ficar por dentro

Descubra mais sobre as pesquisas de educação indígena na série de Podcast Anos Finais: pesquisa e ação, uma produção do Itaú Social.

No Polo, ambiente de aprendizagem do Itaú Social, você possui acesso a dois cursos sobre a cultura dos povos originários a partir da esfera literária e da própria consolidação de saberes dos povos originários:

• Jenipapos – Literatura de autoria indígena: Curso sobre literatura de autoria indígena em um espaço de reflexão, troca e aprendizado. Clique aqui para acessar;

• Jenipapos – Redes de Saberes: Curso sobre saberes indígenas e a maneira como eles são transmitidos para as novas gerações. Clique aqui para acessar.

Central de Pesquisas

Com o intuito de oferecer uma visão geral sobre todas as pequisas produzidas no âmbito do edital “Os Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, Qualidade e Equidade na Escola Pública”, o Itaú Social produziu a Central de Pesquisas, um espaço para você acessar os conteúdos, resultados e informações sobre os 14 projetos apoiados. Clique no botão abaixo e conheça mais!

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FICHA TÉCNICA

Coordenação editorial e diagramação: Fernanda F. Zanelli e Lucas Gregório | Texto e edição: Rubem Barros e Ana Claudia Bellintane
Identidade visual: Rodrigo Souza Silva e Juliana Santos de Araújo | Direção de arte: Caronte | Ilustração: Julia Coppa |
Colaboração: Alexandre Moreira, Claudia Sintoni, Patricia Mota Guedes e Raquel Ornellas

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