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Estratégias de acolhimento e melhoria do clima escolar, quando tratadas como eixo curricular e estruturante da escola, potencializam o processo de aprendizagem


Variedade temática, convergência de objetivo

Quando foi concebido, o edital Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, qualidade e equidade na escola pública, iniciativa do Itaú Social em parceria com a Fundação Carlos Chagas, tinha como um de seus objetivos incentivar a diversidade em seus vários níveis, inclusive no que diz respeito aos campos de conhecimentos trabalhados pelas pesquisas.

Entre as 14 pesquisas selecionadas, quatro, aparentemente muito diferentes entre si, têm um forte elemento agregador: o fato de que todas elas, de um jeito ou de outro, se voltam para a qualidade das relações e da integração dentro do ambiente escolar e das redes públicas de educação. Os trabalhos abordam os temas da passagem dos Anos Iniciais aos Anos Finais, o combate à violência escolar, a dimensão colaborativa entre os docentes e as expectativas que os estudantes possuem sobre os seus processos de aprendizagem.

Olhando por esse ângulo, o projeto sobre a passagem do 5º para o 6º ano do Fundamental (Sexto ano transições e participação) integra não só os alunos das duas etapas, mas também educadores e instituições responsáveis pela Rede de Proteção à Criança e ao Adolescente. Da mesma forma, o levantamento que busca a melhoria do ambiente escolar (A convivência como valor) propõe que os próprios estudantes sejam artífices da construção de um clima escolar positivo, com respaldo de gestores e professores.

A teia proposta em Saberes em diálogo é tecida entre os professores da rede municipal de Canoas (RS), a gestão local e uma universidade parceira. Por fim, a pesquisa que propõe estratégias para o Sucesso escolar, visa integrar e alinhar algo crucial para o bom desempenho da escola como um todo: as expectativas de aprendizagem dos estudantes, trabalhando para que aumentem a crença na própria eficácia.

O mundo em rede

Em tempos de internet e ações coletivas diversas, nada mais natural do que utilizar o potencial da atuação conjunta para dar maior efetividade às ações. No caso da problemática transição do 5º para o 6º ano do Fundamental, são muitos os marcos de passagem. Por exemplo, os estudantes passam de um professor generalista a vários docentes especialistas; da condição de mais velho de sua etapa educacional à de mais novo; e, muitas vezes, passam pela mudança de endereço da escola, o que obriga muitos a se deslocarem sozinhos. Por esses motivos, as escolas não podem ser deixadas isoladas, como diz a pesquisadora Lys Vinhaes, da UFRB (Universidade Federal do Recôncavo Baiano), coordenadora do estudo Sexto ano, transições e participação: diagnóstico e intervenção no Colégio Municipal Presidente Castelo Branco, realizado no pequeno município de Pojuca (BA). O resultado de sua pesquisa foi incorporado como política pública do município, que fica a 67 quilômetros da capital Salvador e tem por volta de 37 mil habitantes.

“As políticas de educação têm de ser pensadas como políticas de redes, da própria educação e também dos serviços de proteção à criança. Para isso, tem de haver um planejamento participativo, pleno”

Lys Vinhaes, coordenadora do estudo.

A convivência escolar como princípio  

O levantamento Sucesso escolar: em busca de estratégias para o fortalecimento de crenças de eficácia, coordenado por Roberta Azzi, professora livre-docente aposentada da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), visou aferir, em diferentes ambientes escolares, a crença que os estudantes têm em si próprios. O indicador é importante para a escola, pois um ambiente em que prevaleça a crença positiva ajuda a criar uma cultura escolar que favoreça a aprendizagem dos alunos.

“Trouxemos para os Anos Finais um quadro que permite muitas discussões. Oferecemos isso como um ponto de partida para o debate”, comenta Azzi. O ponto de referência teórica da pesquisa é a Teoria Social Cognitiva, que estuda as motivações dos alunos e o que contribui para seus resultados de aprendizagem.

Se uma atmosfera positiva, de confiança, ajuda nos processos cognitivos, um dos fatores essenciais para se chegar a ela é que o ambiente escolar preze o convívio respeitoso e que os próprios alunos possam atuar como protagonistas no estabelecimento de modos de convívio que integrem a todos, evitando o bulliyng, por exemplo.

Essa é uma das premissas básicas da pesquisa A Convivência como Valor nas Escolas Públicas: Implantação de um Sistema de Apoio entre Iguais, proposta pela pesquisadora e professora da Unesp (Universidade Estadual Paulista) Luciene Tognetta, doutora em Psicologia Escolar no campus de Araraquara.

Fruto de um extenso levantamento iniciado antes do edital e que foi parcialmente apoiado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, o trabalho começou com uma escuta de grande parte da rede para conhecer sua percepção acerca do clima e dos conflitos escolares.

Depois disso, a ideia foi de realizar, em escolas do projeto-piloto, a sistematização da proposta e os referenciais para formar as equipes de ajuda, compostas pelos estudantes para intervir nos conflitos. Um dos aspectos mais ressaltados pela pesquisadora é que, ao contrário do que acreditavam os professores, houve grande adesão dos alunos. “Investir no jovem é dar a ele a potência que ele tem, é dar um sentido para a vida deles. Nesses casos, a resposta é sempre boa.”

Implementações e referenciais

A última das quatro pesquisas teve como foco uma ação integrativa realizada junto à Rede Municipal de Canoas (RS), sob a coordenação de Rejane Ledur, doutora pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e assessora pedagógica da rede até 2021, quando se aposentou.

Também, nesse caso, houve a continuidade de um processo já existente anteriormente. Em 2017, a rede começou a fazer um processo de formação continuada buscando a participação dos docentes na elaboração dos RCCs (Referenciais Curriculares de Canoas). O projeto apresentado no edital, Saberes em diálogo: Cartografias da Implementação do Referencial Curricular de Canoas nos Anos Finais do Ensino Fundamental, previa o acompanhamento e a implementação dos referenciais e também da BNCC, a Base Nacional Comum Curricular.

O fator distintivo da proposta foi a expressiva participação dos professores da rede, que trabalharam em parceria com docentes-pesquisadores da Universidade La Salle. Essa junção propiciou uma interação crítica entre quem trouxe o conhecimento teórico e aqueles que vivenciam as questões pedagógicas na prática da sala de aula.

Rejane Ledur usa como exemplo a Base Nacional para exemplificar o quanto isso pode modificar a incorporação do documento. “A BNCC é como se fosse um bolo. Pode ser de vários sabores. O como você vai servi-lo tem a ver com a tua realidade. Outra coisa muito positiva desse processo é o fato de que ter a universidade junto ajuda a requalificar a formação inicial desses professores”, diz a coordenadora. E acrescenta uma observação que dá a dimensão do grande desafio que será, agora no pós-pandemia, a implementação da Base: “Para os professores, em geral, a BNCC é vista como muito ampla e complexa.” Mais um indicativo de que trazê-la para o cotidiano escolar implica assentar os dois pés na realidade.

Lidando com os desafios

As problemáticas relacionadas a essa fase escolar são muitas e complexas, mas passíveis de resolução e mitigação. Entender esses múltiplos cenários é uma estratégia para apoiar a formação de políticas públicas que tragam soluções eficazes para os desafios estruturais encontrados nesse período.

As pesquisas aqui apresentadas trazem a reflexão de como agir e o que fazer para provocar mudanças significativas. Acompanhe os outros episódios deste especial e fique por dentro dos caminhos que podemos seguir para transformar positivamente a realidade dos Anos Finais do Ensino Fundamental.

Para ficar por dentro

Descubra mais sobre as pesquisas de desafios estruturais na série de Podcast Anos Finais: pesquisa e ação, uma produção do Itaú Social.

Central de pesquisas

Com o intuito de oferecer uma visão geral sobre todas as pequisas produzidas no âmbito do edital “Os Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, Qualidade e Equidade na Escola Pública”, o Itaú Social produziu a Central de Pesquisas, um espaço para você acessar os conteúdos, resultados e informações sobre os 14 projetos apoiados. Clique no botão abaixo e conheça mais!

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FICHA TÉCNICA

Coordenação editorial e diagramação: Fernanda F. Zanelli e Lucas Gregório | Texto e edição: Rubem Barros e Ana Claudia Bellintane
Identidade visual: Rodrigo Souza Silva e Juliana Santos de Araújo | Direção de arte: Caronte | Ilustração: Julia Coppa |
Colaboração: Alexandre Moreira, Claudia Sintoni, Patricia Mota Guedes e Raquel Ornellas

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