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Conectados com os locais onde vivem, estudantes foram capazes de diagnosticar os problemas de suas cidades e propor soluções com uso de tecnologia


Troca e circulação de saberes

De origem africana, o Griô é um mestre comunitário, uma espécie de repositório vivo que detém e transmite, por meio da narrativa oral, as tradições de um certo lugar. No final dos anos 1990, na cidade de Lençóis, na Chapada Diamantina, sul da Bahia, a ONG Grãos de Luz e Griô deu à luz um projeto que iniciou a recuperação dessa tradição ao trabalhar com escolas e comunidades locais. Anos depois, em 2009, a entidade trabalhava com mais de 160 crianças e adolescentes, estudantes de escolas municipais e estaduais.

Em um planejamento conjunto, educadores da ONG e das escolas, realizavam “atividades de canto, dança, contação de histórias e projetos pedagógicos atrelados a temas que partem de histórias locais, para integrar a tradição oral e os saberes locais ao currículo básico da educação escolar.”

Talvez sem o saber, a população de Lençóis (cerca de 12 mil habitantes), estava colocando em prática vários dos objetivos que estão por trás de duas grandes metas educacionais contemporâneas: a transformação das cidades em territórios educadores e a ampliação do tempo e do espaço escolar, por meio da educação integral.

A experiência dos griôs de Lençóis foi uma das selecionadas como exemplares na publicação Tendências para Educação Integral, um estudo do Itaú Social e Cenpec.

A publicação mostra que há uma convergência em aspectos dos conceitos mais atualizados de educação integral e de cidade educadora. A educação integral, hoje, significa bem mais do que a simples extensão do horário escolar e a oferta de atividades desconectadas da escola no contraturno. Ela deve estar sintonizada com experiências formativas que transcendam os aspectos das disciplinas escolares e proporcionem vivências de outras naturezas, como aquelas ligadas ao esporte, à cultura, ao lazer, ao meio ambiente e à vida saudável.

Já o território se alia a essa concepção nas ofertas tanto de proteção social, como de espaços que propiciem essas experiências, unindo as comunidades à escola e a entidades da sociedade civil. Nessa perspectiva, é estratégica a participação de órgãos públicos de várias áreas em ações intersetoriais.

A Cibricidade aterrissa em São Leopoldo

Dois dos 14 projetos selecionados no edital de pesquisa Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, qualidade e equidade na escola pública, parceria do Itaú Social com a Fundação Carlos Chagas, tiveram como foco principal essa integração entre escola e cidade, tomando o território como um local de expansão da aprendizagem, mas também permitindo o processo reverso e trazendo a comunidade para a escola.

Um deles, proposto pela pesquisadora Eliane Schlemmer, da Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) de São Leopoldo (RS), escolheu a conjugação da cidade física, concreta, com espaços derivados de investigações, aprendizagens e criações digitais, colocando ambas perspectivas em diálogo para formar uma cidade híbrida, chamada de Cibricidade.  Seu projeto foi batizado com o título A cidade como espaço de aprendizagem: Práticas pedagógicas inovadoras para a promoção da cidadania e do desenvolvimento social sustentável.

“Essas aprendizagens híbridas e multimodais são capazes, por exemplo, de ampliar e potencializar, no universo digital, aquilo que a geografia física nos traz ao vivo”,

Eliane Schlemmer, coordenadora da pesquisa

O projeto da pesquisadora também investiu em aspectos de atualização de conhecimentos dos docentes, para que eles pudessem entender melhor a lógica e os processos de uma educação gamificada, aproximando-os dos estudantes. A trajetória formativa proposta envolveu ainda o compartilhamento dos novos conhecimentos entre os pares e a busca de um ecossistema que integrasse parcerias institucionais na cidade, saindo assim dos limites da escola. 

Geografia e cidadania: complementos e singularidades

O segundo projeto, NÓS PROPOMOS!? Goiás: construção do pensamento geográfico e atuação cidadã dos alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental, de autoria de Karla Annyelly Teixeira de Oliveira, da Universidade Federal de Goiás, trouxe para os Anos Finais do Fundamental uma metodologia oriunda de Portugal e já utilizada com sucesso no Ensino Médio. Ela consiste no processo de os estudantes identificarem problemas da cidade, estudarem-no a fundo para produzir um diagnóstico e proporem uma solução para a questão escolhida. Ligada à disciplina de geografia, a metodologia investe na representação em mapas das áreas percorridas pelos alunos.

“Foi uma experiência muito rica, que proporcionou a docentes e discentes o contato com seus pares de Portugal nos seminários de apresentação dos resultados”, relembra Oliveira. No projeto de São Leopoldo, a empolgação dos participantes com a tecnologia os levou a conceber uma startup que não estava prevista. “Foi algo que emergiu do projeto”, diz a coordenadora.

A experiência empolgou a estudante Brenda Severo, da EMEF João Belchior Marques Goulart. “Quando começaram as oficinas de modelagem, achei que ia ser muito difícil, mas conforme fomos tendo mais aulas, ficou fácil. Pelo conhecimento que eu tive do programa Blender [para modelagem, animação e edição de vídeos], tive a oportunidade de ajudar outras pessoas a usá-lo”, relata a aluna. O desenvolvimento desse senso cooperativo foi um de seus principais ganhos, ao lado da paciência, pois “nem sempre as coisas davam certo”.

Já para a coordenadora Karla Oliveira, outro ponto inovador do edital foi a possibilidade de ela, ainda jovem pesquisadora, assumir a coordenação de um projeto da dimensão do Nós Propomos. “Se fosse um edital da Capes ou do CNPq, eu jamais teria essa oportunidade no estágio da carreira em que me encontro. Com isso, me consolidei como pesquisadora”, avalia.

O desafio do espaço público

As duas pesquisas traduziram em ações alguns preceitos importantes garantidos por marcos legais como a Constituição de 1988 e leis derivadas, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, formuladas para garantir proteção social e qualidade da educação. Para que essa educação seja efetivamente integral, os espaços públicos têm de ser locais que garantam a segurança e as possibilidades de convivência e aprendizagem de jovens e adolescentes. 

As propostas vão além. No caso de Goiás, mostram a importância da escuta da população para elaborar os diagnósticos e estabelecer prioridades. Em São Leopoldo, um dos aspectos mais importantes foi a utilização do universo digital para a formação de redes, capazes de conectar jovens e a população em geral com o país e o mundo.

Para ficar por dentro

Descubra mais sobre as pesquisas de cidade e território na série de Podcast Anos Finais: pesquisa e ação, uma produção do Itaú Social.

Central de Pesquisas

Com o intuito de oferecer uma visão geral sobre todas as pesquisas produzidas no âmbito do edital “Os Anos Finais do Ensino Fundamental: Adolescências, Qualidade e Equidade na Escola Pública”, o Itaú Social produziu a Central de Pesquisas, um espaço para você acessar os conteúdos, resultados e informações sobre os 14 projetos apoiados. Clique no botão abaixo e conheça mais!

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FICHA TÉCNICA

Coordenação editorial e diagramação: Fernanda F. Zanelli e Lucas Gregório | Texto e edição: Rubem Barros e Ana Claudia Bellintane
Identidade visual: Rodrigo Souza Silva e Juliana Santos de Araújo | Direção de arte: Caronte | Ilustração: Julia Coppa |
Colaboração: Alexandre Moreira, Claudia Sintoni, Patricia Mota Guedes e Raquel Ornellas

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