Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Boas lições

Relatos remotos

Em textos que escreveram para o jornal Folha de S.Paulo, jovens medalhistas da 6ª Olimpíada de Língua Portuguesa expõem suas reflexões sobre o estudo no período de isolamento


Por Maria Ligia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo

Quatro estudantes de escolas públicas foram convidados pelo jornal Folha de S.Paulo a escrever suas experiências com os estudos em meio à pandemia de coronavírus. Os relatos, publicados em abril, são repletos de significados, pois trazem um pouco da complexidade que tem marcado esse período. Escancaram a face da desigualdade, revelam as dificuldades de concentração, a precariedade da tecnologia — que muitas vezes não dá conta das aulas remotas —, a saudade dos colegas, o medo da Covid-19. Em meio aos desafios, no entanto, eles conseguem ver saídas, têm esperança no futuro e são gratos aos professores, que, como eles, também enfrentam dias difíceis.

Além de cursarem hoje o ensino médio, esses jovens têm em comum o fato de ter sido vencedores, em 2019, na categoria crônica, da 6ª Olimpíada de Língua Portuguesa, iniciativa do Itaú Social em parceria com o Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária) e Ministério da Educação. Quando foram medalhistas do programa, os quatro estavam no oitavo ano do ensino fundamental. 

Criada em 2002, a olimpíada é uma premiação com caráter formativo, como explica Claudia Petri, coordenadora de Implementação Regional do Itaú Social. 

Os quatro estudantes convidados a escrever para a Folha de S.Paulo “relatam situações similares de insegurança e incertezas, e a angústia de viver em um mundo sob a ameaça permanente de um vírus”, destaca o jornal na introdução aos textos. A seguir, um pouco do que traz cada um deles e os links para lê-los na íntegra.

Maria Eduarda de Moraes Silva, do Guarujá (SP): texto sobre a importância da educação e dos educadores. Foto: Arquivo pessoal

“Professores estavam comigo na pior fase da vida”


Ela fez do seu relato uma homenagem aos professores — reconhece o esforço que fizeram para dar conta das aulas on-line em 2020. A dedicação deu frutos e, para Maria Eduarda de Moraes Silva, aluna da Escola Estadual Prefeito Domingos de Souza, no Guarujá (SP), o ano de 2021 começou mais suave, em função desse apoio que recebeu. Sente falta do convívio com os amigos, mas, consciente dos riscos de contaminação na escola, entende que não é possível ter aulas presenciais. No seu caso, a pandemia fortaleceu o vínculo e o gosto pelos estudos. “Hoje em dia eu vejo a importância da educação na vida de uma criança ou adolescente que realmente gosta de estudar e aprender. Hoje dou muito mais valor aos meus professores, pois foram eles que não me deixaram na pior fase da minha vida e na dos demais alunos”, escreve. Leia o texto “Que a população tenha mais consciência e consideração com a sua família e a do próximo“.

Aytan Belmiro Melo, de Santa Bárbara do Leste (MG): reflexão sobre as nuances da desigualdade social. Foto: Arquivo pessoal

“Como estudar à distância sem internet?”


Aytan Belmiro Melo, de 15 anos, é um dos jovens brasileiros, entre tantos, que não dispõem de tecnologia para acompanhar, como gostariam, as aulas on-line. Ele relata as dificuldades que enfrentou em 2020 para assistir às aulas por um canal de televisão e para dar conta das atividades pelo celular. “E quando não tinha internet em casa ou na casa era um aparelho só para os pais e outros dois ou três filhos? Esse era o grupo de alunos do qual eu fazia parte”, conta o estudante, que é aluno da Escola Estadual Monsenhor Rocha, em Santa Bárbara do Leste (MG). Seu texto é a constatação de que a desigualdade tem muitas nuances, que se tornam ainda mais evidentes em tempos de pandemia. O jovem Aytan fala de dificuldades financeiras, luto, problemas de relacionamento e solidão. Em meio à dor, refugiou-se nos livros e na música e tirou para si um ensinamento do que deve ter sido o período mais conturbado de sua trajetória escolar: “Enfrentar os desafios, por maiores que sejam, é a lição mais valiosa desta vida”. Leia o texto “Mais um desafio a ser superado“.

Beatriz Pereira Rodrigues, de Catalão (GO): um olhar para os desafios trazidos pela nova realidade. Foto: Arquivo pessoal

Meu cérebro não estava acostumado a tanto computador”


Beatriz Pereira Rodrigues, de 15 anos, aluna do Instituto Federal Goiano, no campus de Catalão (GO), ressentiu-se do ensino remoto — mas não exatamente pela dificuldade de acesso à tecnologia. A forma como tudo aconteceu, diz, não permitiu aos professores que se preparassem para a nova realidade. Beatriz e os colegas perceberam-se desmotivados com a modalidade. “Se eu perguntar para cada um dos meus colegas suas opiniões sobre o EAD, cada um terá ao menos um ponto negativo para citar”, afirma. Mas, diante dos fatos, sabe que não há alternativa a não ser continuar a fazer sua parte como estudante. Ela reconhece ainda o impacto da pandemia na saúde mental e alerta sobre o quanto é importante cuidar dessa questão. Leia o texto “Um ano de educação na pandemia”.

Jairo Bezerra da Silva, de Caruaru (PE): percepção de que os estudantes precisam ser mais ouvidos. Foto: Arquivo pessoal

“A rotina virou algo exaustivo”


Como levar a realidade do ensino integral, do Instituto Federal de Pernambuco, onde estuda, para a realidade do ensino remoto? Esse é um dos problemas apresentados no texto escrito por Jairo Bezerra da Silva, 15 anos, de Caruaru (PE). Estudar, um ato antes prazeroso para ele, tornou-se fonte de ansiedade e exaustão. No seu entender, houve um descompasso entre os anseios e as limitações dos estudantes e o planejado pela escola. Em seu texto ele diz que os professores sofreram igualmente com a situação imposta, não renderam o desejado e assim o currículo do instituto não foi cumprido. Para Jairo, 2020 foi um ano perdido do ponto de vista do aprendizado. E queixa-se de que os alunos não foram ouvidos. Jairo dá o seu recado, expondo algumas fragilidades da educação, como a escassez de diálogo em algumas situações. Leia o texto “Educação em ambiente virtual ou criadouro de ansiedade?”.