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Polo de desenvolvimento educacional
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CLAUDIA PETRI – Aprender para melhor ensinar — a Olimpíada de Língua Portuguesa

Com inscrições abertas até 30 de abril e muitas novidades, a olimpíada é uma oportunidade para professores e alunos se envolverem, conjuntamente, em um trabalho de leitura e escrita


Dez perguntas para:
Claudia Petri
Pedagoga, mestre em educação e formação de professores e coordenadora de Implementação Regional do Itaú Social

O cartaz da 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, em 2021: novidades na estrutura e no formato, neste ano totalmente on-line. Imagem: Escrevendo o Futuro

Por Maria Ligia Pagenotto, Rede Galápagos, São Paulo

“É um prêmio, mas é formativo”,  faz questão de ressaltar Claudia Petri, coordenadora de Implementação Regional do Itaú Social, ao apresentar a Olimpíada de Língua Portuguesa — voltada à formação de professores e à produção de textos por alunos de escolas públicas do país. A ênfase de Claudia está relacionada à proposta que norteia a premiação, sem dúvida, mas também à sua paixão por educar e por enxergar em cada professor alguém sempre ávido por aprender, em busca de se aprimorar.

À frente do Programa Escrevendo o Futuro, uma iniciativa do Itaú Social que conta com coordenação técnica do Cenpec — Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária, Claudia fala com emoção do grande envolvimento de docentes e alunos com os cursos oferecidos pelo programa e com a olimpíada que está com inscrições abertas.

Pedagoga, Claudia Petri é mestre em educação e formação de professores, com especialização em avaliação educacional e muitos anos de atuação na rede pública de ensino. Ela explica que pelo Escrevendo o Futuro são oferecidas diversas modalidades de formação para educadores e, entre estas, está a Olimpíada de Língua Portuguesa — criada para estimular e reconhecer as produções de alunos (e de seus professores), do 5º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio. Nesta entrevista, Claudia fala sobre essa premiação de forma geral e das novidades desta sétima edição, a primeira após um ano marcado pela pandemia do coronavírus.

Além das novidades que Claudia detalha a seguir, o recente lançamento da 7ª edição da olimpíada deu destaque à autora homenageada deste ano. Em 2019 a Olimpíada de Língua Portuguesa homenageou a escritora mineira Conceição Evaristo, que tem uma história de vida e uma obra literária em sintonia com o tema “O lugar onde vivo” e com a vivência de mulheres negras e em desigualdades raciais. Conceição Evaristo fez parte da comissão julgadora nacional e participou de atividades com professores da rede pública. Neste ano a homenageada é a professora, ativista, poeta e escritora Geni Guimarães. Autora do livro A cor da ternura, que recebeu o Prêmio Jabuti/autor revelação em 1990, Geni também participou de atividades com docentes semifinalistas na categoria Memórias Literárias na olimpíada de 2019, com quem conversou, entre outros assuntos, sobre os desafios de ser a primeira professora negra de sua cidade.

NNotícias da EducaçãoComo nasceu a Olimpíada de Língua Portuguesa? Ela surgiu como forma de incentivar a escrita e a leitura de textos em função de defasagens observadas na educação?

CClaudia Petri — Antes da Olimpíada, havia o prêmio Escrevendo o Futuro (dentro do programa de mesmo nome), fruto de uma parceria do Itaú Social com o Cenpec. A premiação teve três edições, nos anos de 2002, 2004 e 2006. O Programa Escrevendo o Futuro tem 18 anos e foi a partir dele que, em 2008, fomos procurados pelo Ministério da Educação (MEC) para criar a Olimpíada de Língua Portuguesa. O ministério queria levar adiante essa ideia e, ao conhecer a metodologia do prêmio Escrevendo o Futuro, achou que fazia sentido aquilo ser uma premiação nacional, porque já tinha esse caráter. Foi importante essa parceria com o MEC, pois a olimpíada ganhou a força de uma política pública. O programa, e também o prêmio, nasceu sem dúvida em função de algumas defasagens do ensino. Nós temos dívidas anacrônicas na educação. Estamos no século 21 e ainda temos distorções sérias entre idade e série dos alunos, para ficar em apenas um exemplo. 

“O tema ‘O lugar onde vivo’, forte e importante, mexe com raízes; o aluno vai falar de seu território, do seu lugar, uma questão ainda mais relevante no contexto da pandemia”

NDo início para cá a olimpíada passou a incluir mais gêneros textuais, entre outras mudanças. Mas o tema — “O lugar onde vivo” — se mantém ao longo dos anos. Por que vocês trabalham sempre com essa proposta?

CDe fato, a olimpíada mudou bastante. Quando o programa começou, antes de ser a Olimpíada de Língua Portuguesa propriamente dita, trabalhávamos, a título de premiação, com os gêneros poema, artigo de opinião e reportagem turística, para alunos da 4ª e da 5ª série. Fizemos algumas mudanças em relação aos gêneros e ampliamos para outras séries, para que mais alunos possam participar. Em relação ao tema, ele está presente desde o início e fomos vendo que é uma temática forte, importante, porque mexe com raízes. A partir dele o aluno vai falar do seu território, do seu lugar, de algo que está muito próximo dele. E, a partir disso, é possível, tanto para alunos como para professores, explorar um milhão de coisas. Nesta 7ª edição, mais uma vez, o tema se mantém, e sabemos que este ano, em função de todo o contexto de pandemia, essa questão vai ser ainda mais relevante, com esse contorno atual.

Claudia Petri: “Podemos ver quanto a formação contribui para a produção textual e quanto os alunos estão avançando”. Foto: Itaú Social

NQuais são as principais mudanças desta 7ª edição em relação às anteriores?

CA principal mudança diz respeito à premiação dos relatos de prática feitos pelos professores, a partir do trabalho desenvolvido pela turma. Ao final, em vez de premiarmos um texto só, de um aluno da sala, achamos que seria mais interessante ter um trabalho conjunto, de classe. A isso chamamos de Relato de Prática — ele já acontecia, mas agora ele está com outro foco. Para entender melhor, esse relato é um texto reflexivo, produzido pelo professor. Ele deve contar sua experiência, ao longo do percurso, com as atividades realizadas pelos estudantes na produção dos textos.

NAs orientações sobre o Relato de Prática, expostas no site, falam sobre a necessidade de o professor e a classe apresentarem o Álbum da Turma e a Linha do Tempo. Como isso funciona e o que essa novidade significa para os participantes?

CEm relação ao álbum, ele deve conter os trabalhos feitos pelos alunos. A ideia é que o professor e a turma selecionem um registro para ilustrar algum momento expressivo da produção. O regulamento da Olimpíada de Língua Portuguesa diz que os registros podem ser fotografia, vídeo, áudio, storyboard, trailer, meme. O álbum vai contar como foi o processo de produção textual e de ensino e aprendizagem, em suma. Na Linha do Tempo, que chamamos de portfólio, professores e estudantes selecionam uma amostra de produções finais representativas e suas respectivas versões preliminares, de acordo com o gênero. Fazemos questão de ressaltar que as produções finais não precisam ser as “melhores”, mas sim as que representem com fidelidade o trabalho que foi realizado pelas turmas. Importante dizer que todos os alunos vão trabalhar a produção textual. Num determinado momento, a sala vai escolher três textos que representarão a classe na Olimpíada de Língua Portuguesa. O que muda aqui é que esses textos pertencem a três alunos, mas trazem a representação da turma como um todo. O que queremos ver com esse portfólio é o avanço da sala em relação à produção textual, como o trabalho andou ao longo do ano. 

“Parte do concurso já era on-line, como as inscrições. Mas oficinas com professores e alunos eram presenciais. Este ano, no entanto, tudo será on-line, incluindo o encontro final”

NO formato on-line muda muita coisa? Você acha que ele veio para ficar?

CNo ano passado, por causa do contexto da pandemia e da situação das escolas, com ensino remoto, criamos um programa, num rápido espaço de tempo, com cursos autoformativos, disponíveis no Polo, o ambiente de formação do Itaú Social. Também disponibilizamos materiais para equipes de secretaria e gestores para terem subsídios para enfrentar a situação. No início, 88% dos professores, segundo alguns estudos, não se sentiam aptos para o ensino a distância. Hoje isso mudou, pois o ensino remoto acabou acontecendo de diferentes maneiras, com impressão de material em locais sem internet, cada um fazendo de acordo com seu contexto. Agora, aos poucos, estamos entrando num sistema híbrido, mesclando presencial com on-line. Os professores já estão um pouco mais preparados para lidar com isso. E, neste momento, com números da Covid-19 crescendo, a gente chegou à conclusão de que valia a pena fazer o ano de concurso totalmente on-line. Parte já era, como as inscrições, mas oficinas com professores e alunos eram presenciais. Então, este ano, tudo será on-line, incluindo o encontro final. Nas próximas edições, talvez a gente mantenha muita coisa a distância, mas a premiação final, dentro do possível, queremos que seja sempre presencial, pois aquele encontro é uma experiência incrível para todos.

Estudantes vencedores da 6ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, em 2019, com a escritora homenageada, Conceição Evaristo: participação de 42 mil escolas. Foto: Bianca Pimenta

NA questão do ensino remoto trouxe mais à tona muitas desigualdades no ensino e aprendizagem Brasil afora. Como o programa vê essa situação?

CSim, a pandemia escancarou as desigualdades que a gente já sabia que existiam, sem dúvida. Como um dos princípios do Itaú Social é a equidade, uma outra mudança que a gente fez para esta edição do programa, baseada em estudos, foi uma reserva de vaga, de 50%, a partir da etapa semifinal, para as escolas mais vulneráveis. Os indicadores que utilizamos para isso são os que medem o desenvolvimento educacional, mas também aqueles que avaliam o desenvolvimento socioeconômico. Com essa medida, vamos dar luz às escolas que estão em territórios de maior vulnerabilidade. Na semifinal calculamos que vamos ter 210 professores, o que vai dar cerca de 7300 alunos (média por classe de 35 alunos). Desses professores, metade estará na etapa de acordo com o encaminhamento do trabalho feito por ele. E a outra metade será constituída por professores que se destacam nas escolas pertencentes a territórios vulneráveis. Vamos oferecer internet gratuita para quem chegar à semifinal, e o material para formação está disponível no site em formato pdf, para facilitar o acesso.

“Queremos que a prática reflexiva permeie o trabalho do professor, que ele pense como tem se desenvolvido. Acreditamos que, com o Relato de Prática, a sala de aula acabe virando uma oficina do saber”

NVoltando à questão sobre gênero, por que o programa escolheu introduzir a categoria documentário na premiação em 2019?

CEstamos constantemente analisando o programa. Nos últimos anos, em meio a outras reestruturações, achamos que seria importante incluir o documentário, por ser um gênero discursivo interessante para ser trabalhado com o ensino médio. Ele inclui, além da questão do letramento, a possibilidade de explorar múltiplas linguagens e ir para o campo do visual. O texto trabalhado é o roteiro, que gera uma discussão sobre o documentário mesmo. E isso casa muito com o tema. Quando temos esses gêneros — documentário, crônica, memórias literárias —, o aluno vai ao seu território buscar a memória de quem são, às vezes, os seus antepassados. Por isso apostamos nessa temática, pois acreditamos que ela dá margem para o aluno e seu professor desenvolverem muitas coisas ligadas às categorias propostas.

NEm relação à mudança da produção individual para a coletiva, o que pesou?

CEm cima de estudos de monitoramento, vimos com professores que haviam participado de edições anteriores do programa que, se o trabalho de textos fosse feito de uma forma mais colaborativa, certamente haveria um engajamento maior por parte de todos — de alunos e da própria comunidade escolar. Com a premiação do Relato de Prática, achamos também que estamos dando mais luz ao trabalho do professor, o que é muito importante.

NComo você avalia a questão da adesão e interesse dos professores pelos cursos e pela Olimpíada de Língua Portuguesa?

CÉ prêmio, mas é formativo. Faço questão de dizer que o viés muito forte desta olimpíada de conhecimento é que ela é formativa, para permitir que o professor aprimore sua prática pedagógica. O programa acontece bienalmente — em um ano é prêmio e no outro é formação de professores, e esse é um eixo que permeia o Itaú Social. O objetivo da Olimpíada de Língua Portuguesa é reconhecer os professores no trabalho de língua portuguesa, na sua atuação e no processo de ensino, aprendizagem e, principalmente, nessas práticas de ensino. No portal Escrevendo o Futuro, temos uma série de materiais pedagógicos para apoiar o docente. Sempre tivemos muita procura pela formação (são dois cursos com mediadores e três autoformativos), mas no passado observamos um boom. Tivemos 18 mil educadores inscritos (coordenadores pedagógicos, professores de língua portuguesa, estudantes, na maioria profissionais do ensino público), com uma média de 66% de certificação. O que eu sinto é que o professor sempre quer aprender. No ano de premiação, os cursos continuam abertos, mas claro que o viés agora é em cima do concurso, das etapas.

NO Relato de Prática veio para corroborar essa proposta formativa do concurso, pelo seu caráter reflexivo? Como vocês avaliam o impacto dessa formação?

CSim, o relato tem esse objetivo, porque a partir dele estimulamos o professor a não se preparar apenas para o concurso, mas também para o seu dia a dia. Queremos que essa prática reflexiva permeie seu trabalho, que ele pense como tem se desenvolvido. Acreditamos que, com o Relato de Prática, a sala de aula acabe virando uma oficina do saber. Ele vai ter de olhar para a heterogeneidade da sala de aula. Isso já acontece para alguns professores, mas para outros não. Estamos meio que desafiando esses professores, para que olhem para a classe como um todo. Graças a estudos que a gente faz para monitorar resultados, sabemos que a formação impacta muito positivamente no trabalho dos professores. Ela é um fator de melhora dos indicadores da escola, e nossa área de monitoramento e avaliação constata isso. Podemos ver quanto a formação contribui para a produção textual e quanto os alunos estão avançando.