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GENI GUIMARÃES – “Está tudo contra nós, mas nós estamos a favor”

Escritora homenageada pela Olimpíada de Língua Portuguesa, Geni Guimarães fala sobre a importância de ter se tornado professora e mostra como contar histórias é uma poderosa forma de combater preconceitos


Dez perguntas para
Geni Guimarães
Professora, poeta e ficcionista, é a escritora homenageada da 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa

Geni Guimarães, em registro de sua participação na 6ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, em 2019: “A criança negra precisa se ver nas narrativas e a criança branca precisa ter contato com diferentes histórias”. Foto: Itaú Social/Camilla Kinker

Por Priscila dos Anjos, Rede Galápagos, Florianópolis (SC)

Nascida em São Manoel (SP), no ano de 1947, Geni Guimarães fala sobre educação, racismo e literatura por meio de sua escrevivência. Seja em verso ou prosa, a escritora, professora e contadora de histórias destaca a importância de trazer para as salas de aula narrativas negras que ensinam sobre diversidade e superação das desigualdades. Com o tema “O lugar onde vivo”, a 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa tem como escritora homenageada a autora Geni Guimarães. Na edição anterior, em 2019, Conceição Evaristo foi a grande homenageada. Desse modo, a olimpíada celebra de forma consecutiva duas mulheres negras que possuem obras significativas para a literatura brasileira. E enfatiza a importância de suas histórias de vida e de sua produção literária para o combate ao racismo.

Neste ano, a Olimpíada de Língua Portuguesa recebeu mais de 112 mil inscrições. Conta com a participação de professores e alunos de 27.847 escolas públicas em 69,61% dos municípios brasileiros. A Olimpíada de Língua Portuguesa é uma iniciativa do Itaú Social em parceria com o Ministério da Educação, Fundação Roberto Marinho, Undime (União dos Dirigentes Municipais de Educação) e Consed (Conselho Nacional de Secretários da Educação), sob a coordenação técnica do Cenpec Educação (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária).

NNotícias da Educação — Em seu diálogo com a escritora Conceição Evaristo na transmissão de lançamento da 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa, a senhora destaca a sua história de vida e a de Conceição como caminhos que constroem afirmação e quebram preconceitos. Qual a importância de construir esse caminho a partir da literatura?

GGeni Guimarães Quando nós, mulheres negras, escrevemos estamos cumprindo uma missão que é a de nos inscrever na literatura, de existir para que homens e mulheres negras consigam se espelhar e se prontificar a também trabalhar pela consciência negra, contra o racismo e qualquer tipo de preconceito. Há um poema que escrevi que fala sobre isso. Ele diz assim:

Plantei árvores, e poeta fiz poemas redondos. 
Do ventre extraí minhas raízes saudáveis de negrume e altivez. 
No entanto, meus feitos me indefinem e o gosto do que fiz dá-me a fresta. 
Sou inacabada e nem a morte me completa.

Entendo que nós estamos semeando com o nosso exemplo de garra e força, pois para chegarmos aonde chegamos foi à custa de muitas lutas contra barreiras que o preconceito nos impõe.

NComo surgiu o seu interesse pela profissão de professora?

GQuando criança eu não tinha a pretensão de ser professora. Certo dia, eu estava conversando com meu pai e perguntei a ele: “O que gente pobre e mulher poderia ser?”. E ele, querendo mostrar que eu poderia ser o que quisesse, sugeriu uma das profissões mais importantes: professora. Eu me tornei professora e me identifiquei com essa profissão, porque sempre gostei de lidar com pessoas. Sempre gostei de gente. Ser professora é uma experiência que vou levar para o resto da vida.

“Tanto os professores como os pais devem mostrar que é possível, sim, aprender dessa maneira remota. Mas também é necessário dizer aos alunos que tudo isso vai passar, que logo eles poderão voltar às salas de aula, mas que por enquanto temos que continuar aprendendo.”

NQual foi a influência da sua mãe para o seu interesse pelas palavras?

GA minha mãe era uma fonte de vida. À noite, depois que meus irmãos chegavam do trabalho, ela fazia uma fogueira, e a gente sentava em volta e começava a cantar. Era uma tradição das famílias negras. Minha mãe era repentista, então nesses momentos em família ela iniciava com as rimas, e nós tentávamos fazer o mesmo. Tem um refrão que até hoje nós cantamos aqui em casa, eu, meus filhos e netos. Ele diz assim: 

Olha o bambo do bambu do bamboê.  
Olha o bambo do bambu do bamboá. 
Olha o bambo do bambu do bamboê, 
Bamboê bamboê.
Bamboê, bamboá. 

Após esse canto era preciso inventar um versinho. Lembro até hoje de um dos versos que minha mãe cantou:

Quem quiser bate colher.
Quem não quer bate bacia.
Porque a nossa Geni é a mais linda da família. 

Essa foi uma das brincadeiras que me ensinaram a fazer versos ainda criança.

“As histórias dão exemplo de vida. Tudo que a gente vive tem o potencial de ensinar o outro.”

NNeste ano, a senhora é a escritora homenageada pela Olimpíada de Língua Portuguesa. Como é essa experiência? 

GFiquei muito feliz com o convite. Um trabalho com o Itaú Social tem enorme alcance e dimensão. Para contribuir para esse evento trabalho a partir da minha vivência. Como professora sempre fiquei atenta ao comportamento da pessoa, não somente do educando. Eu estava sempre atenta para ouvir o que eles tinham para falar. Tudo que os alunos traziam de histórias e vivências eu aproveitava para pautar minhas aulas. Por isso aprendi muitas coisas com eles. Espero compartilhar um pouco dessa perspectiva de ensino e aprendizado.

NComo as histórias podem combater as realidades desiguais e os preconceitos?

GEstá tudo contra nós, mas nós estamos a favor. Eu acredito que as pessoas precisam ter a consciência de que podemos, somos, viemos e que vamos. As histórias têm o poder de combater os preconceitos porque mostram diferentes realidades e capacidades que as pessoas possuem. As histórias dão exemplo de vida. Tudo que a gente vive tem o potencial de ensinar o outro. Com as nossas histórias estamos construindo a verdadeira abolição. As mulheres, mostrando o que fazem e como superam, vão fazer a escrevivência atual para outros, netos e bisnetos.

Geni Guimarães: “Você não pode deixar que as pessoas te convençam de que você não pode, porque somos capazes. Eu acredito na possibilidade”. Foto: Itaú Social/Livia Wu

NPor que é necessário diversificar as referências literárias dentro das escolas? Ou seja, por que é interessante trazer obras e autores negras e negros para a vivência escolar?

GDa mesma forma que nós, professores, estamos na frente da criança como referência, é importante que histórias de vivências negras estejam em sala de aula para falar das nossas questões e aspirações. A criança negra precisa se ver nas narrativas e a criança branca precisa ter contato com diferentes histórias.

As escritoras negras têm sempre uma história bonita e profunda para contar. Por isso temos de registrar e levar para as escolas porque as crianças negras precisam de espelho, se enxergar.”

NNa sua experiência como professora, quais foram os desafios encontrados e as alegrias compartilhadas com os alunos?

GEm algumas ocasiões é preciso sair pela tangente. É preciso ser ativo e observador. É preciso sobreviver. Certo dia uma aluna não quis entrar na minha sala de aula. Ela ficou parada em frente à porta e quando questionada disse: “Não gosto de professora negra”. Imediatamente a diretora veio para mudar aquela criança de classe. Mas eu falei para deixar a aluna assistindo à aula de fora da sala mesmo. A menina ficou em pé até a hora do intervalo. Quando voltamos do intervalo ela continuava na porta. Antes de iniciar a aula, eu falei para ela: “Você poderia me ajudar? Cuida da minha bolsa para mim?”. Coloquei uma cadeira ao lado da aluna e em cima pus minha bolsa. Ela ficou atenta cuidando da bolsa, e quando eu precisava de alguma coisa que estava lá eu pedia a ela. Eu perguntava: “Pega um lápis pra mim?”. E ela me dava. No final da aula ela veio falar comigo. Perguntou se eu gostava de pão com manteiga e eu falei que sim. Só de lembrar dessa história eu me emociono, porque a partir daquele dia eu conquistei aquela aluna para o resto da vida, nos tornamos amigas.

“A gente tem que ter a coragem de ousar. Para pagar a publicação do meu primeiro livro, eu e meu marido vendemos o nosso fusquinha. Veja quantos frutos deu.”

NDo último ano para cá a vida dos professores e alunos mudou bastante por causa da pandemia. Mesmo nos locais em que as aulas já retornaram, a comunicação remota ainda é necessária. Qual é a sua mensagem para professores e alunos quanto aos desafios que enfrentam todos os dias em sala de aula?

GTenho uma neta de 13 anos e vejo as dificuldades que ela enfrenta nessa forma de ensino. O que é preciso ser feito é continuar incentivando os alunos. Tanto os professores como os pais devem mostrar que é possível, sim, aprender dessa maneira remota. Mas também é necessário dizer aos alunos que tudo isso vai passar, que logo eles poderão voltar às salas de aula, mas que por enquanto temos que continuar aprendendo.

Geni Guimarães, para os jovens escritores: “Não tenha vergonha de mostrar o que escreve para outras pessoas. Produza e publique um livro de forma independente”. Foto: Itaú Social/Camilla Kinker

NO que significa para a senhora escrever a partir das suas vivências?

GDesde criança eu escrevia versinhos. E fui me aprimorando ao escrever. Sempre fiz muito trabalho de escrevivência mesmo, como diz a Conceição Evaristo. Entendo que escrever a partir da vivência é dar exemplo de que a vida da gente negra também é bela e também é possível. As escritoras negras têm sempre uma história bonita e profunda para contar. Por isso temos de registrar e levar para as escolas porque as crianças negras precisam de espelho, se enxergar. A vida da gente é espelho. Muitas das histórias contam sobre superação e são inspiração.

NQual é o seu conselho para jovens escritores que estão buscando um espaço?

GQuem procura acha. É preciso fazer como a autora do Quarto de despejo, Carolina de Jesus: ir escrevendo e guardando o que escreve e não ter vergonha de mostrar para outras pessoas. Produza e publique um livro de forma independente — foi o que eu fiz com o Terceiro filho (1979). Para pagar a publicação do meu primeiro livro, eu e meu marido vendemos o nosso fusquinha. Foi o primeiro livro e veja quantos frutos deu. A gente tem que ter a coragem de ousar. Você não pode deixar que as pessoas te convençam de que você não pode, porque somos capazes a partir do momento em que fazemos. Eu acredito na possibilidade.

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