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CONCEIÇÃO EVARISTO – “A escrevivência serve também para as pessoas pensarem”

Autora, que tem sua obra discutida em seminário e em livro que será lançado nesta semana, fala sobre o papel do texto, escrito ou oral, na evolução do indivíduo e no fortalecimento do coletivo


Conceição Evaristo: “Ninguém chora diante de um dicionário e as palavras estão lá, arrumadas bonitinhas. Mas elas só ganham sentidos, elas só te tocam se você transformar em uma vivência possível, que você já observou, ou até em uma ficção”. Foto: Itaú Social

Por Tayrine Santana, Itaú Social, e Alecsandra Zapparoli, Rede Galápagos, São Paulo

Maria da Conceição Evaristo de Brito é uma escritora mineira, nascida em Belo Horizonte (MG) em 1946. Romancista, contista e poeta, é também pesquisadora na área de literatura comparada e foi professora na rede pública fluminense. Sua matéria-prima literária é a vivência das mulheres negras e seu trabalho tem por base reflexões sobre as profundas desigualdades raciais brasileiras. Com residência em Maricá, Rio de Janeiro, a solidão e o medo impostos pela pandemia fizeram com que Conceição fosse ficar com a família em Contagem, Minas Gerais. “Entrei em uma paranóia e tristeza muito grande. Nos quatro primeiros meses não consegui fazer nada, abrir um livro, escrever uma linha”, conta. “Aos 73 anos, sentia que estava lacrando e de repente vi que sou idosa, estou no grupo de risco e o quanto somos vulneráveis. Essa pandemia me pegou por dentro, sabe?” Conceição felizmente chegou à conclusão de que a maneira de enfrentar esses fantasmas era voltar a trabalhar. 

Nesta semana, a autora participa do seminário virtual A Escrevivência de Conceição Evaristo, iniciativa do Itaú Social em parceria com a MINA Comunicação e Arte, desenvolvida a partir do Projeto Oficina de Autores – Memórias e Escrevivências de Conceição Evaristo, lançado em 2018. O seminário busca ampliar o debate sobre o conceito de escrevivência criado por Conceição Evaristo há 25 anos e marca o lançamento da publicação Escrevivência: a escrita de nós – reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo (Organização: Constância Lima Duarte e Isabella Rosado Nunes; ilustrações: Goya Lopes). O evento reunirá especialistas, autoras e autor dos artigos que compõem a publicação para debater sobre a importância da escrevivência para a cultura nacional nas dimensões da história, artes, educação e comunicação. A versão digital do livro estará disponível aos participantes do seminário, que podem se inscrever gratuitamente aqui.

NNotícias da Educação –  Estamos na véspera da realização de um seminário e do lançamento de uma publicação dedicados a pensar sobre as escrevivências. Qual é a importância dessa publicação e desse seminário no contexto atual?

CConceição Evaristo –  A publicação e o seminário comprovam que nós sempre procuramos meios de saída. Acho que a gente sempre encontra a solução, porque, por exemplo: esse seminário, que seria ao vivo, toma um outro formato, mas vai acontecer. E vai acontecer de uma forma digna, de uma forma bonita. É importante porque é a culminância de um trabalho que tem um caráter coletivo muito grande. Eu acho que o próprio ato de pensar a escrevivência envolveu várias pessoas, pesquisadores, envolveu as oficinas com seus resultados e diálogos… Acho que é uma maneira da gente comprovar que o trabalho coletivo tem as suas dificuldades, mas ele produz um efeito, ele produz resultados.

NComo surgiu o termo “escrevivência”?

CÉ uma longa história. Se eu for pensar bem a genealogia do termo, vou para 1994, quando estava ainda fazendo a minha pesquisa de mestrado na PUC. Era um jogo que eu fazia entre a palavra “escrever” e “viver”, “se ver” e culmina com a palavra “escrevivência”. Fica bem um termo histórico. Na verdade, quando eu penso em escrevivência, penso também em um histórico que está fundamentado na fala de mulheres negras escravizadas que tinham de contar suas histórias para a casa-grande. E a escrevivência, não, a escrevivência é um caminho inverso, é um caminho que borra essa imagem do passado, porque é um caminho já trilhado por uma autoria negra, de mulheres principalmente. Isso não impede que outras pessoas também, de outras realidades, de outros grupos sociais e de outros campos para além da literatura experimentem a escrevivência. Mas ele é muito fundamentado nessa autoria de mulheres negras, que já são donas da escrita, borrando essa imagem do passado, das africanas que tinham de contar a história para ninar os da casa-grande.

A capa do livro, com ilustração de Goya Lopes: reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo em versão digital disponível aos participantes do seminário. Imagem: Reprodução.

“Diante das histórias que incomodam, a escrevivência quer justamente provocar essa fala, provocar essa escrita e provocar essa denúncia. E no campo da literatura é essa provocação que vai ser feita da maneira mais poética possível”

NE qual a é função das histórias hoje?

CÉ incomodar. É jogar no rosto da casa-grande o que é que nos foi feito e, inclusive, marcar esse presente que ainda tem essa marca do passado, se você pensa na condição em que se encontra a grande maioria da coletividade negra brasileira, e não só a brasileira como a diaspórica. Basta a gente olhar o que acontece com o negro nos Estados Unidos para ter certeza que não é só no Brasil. Tem aí uma escrita ou uma proposta de escrita –  e eu torno a afirmar que não é só no campo literário – , uma proposta em que tanto a memória como o cotidiano, como o que acontece aqui e agora, se transformam em escrita. Essa história silenciada, aquilo que não podia ser dito, aquilo que não podia ser escrito, são aquelas histórias que incomodam, desde o nível da questão pessoal, quanto da questão coletiva. A escrevivência quer justamente provocar essa fala, provocar essa escrita e provocar essa denúncia. E no campo da literatura é essa provocação que vai ser feita da maneira mais poética possível. Você brinca com as palavras para dar um soco no estômago ou no rosto de quem não gostaria de ver determinadas temáticas ou de ver determinadas realidades transformadas em ficções.

NA senhora conta que o primeiro sinal gráfico de que se lembra foi com um gesto e uma escrita muito particular feita pela sua mãe. Também conta que não nasceu rodeada de livros, mas de palavras. Qual foi a influência de sua mãe na sua escrita?

CMinha mãe, aliás, está aqui hoje conosco, lúcida, aos 98 anos. Apesar de todas as carências que tivemos na infância, a minha mãe foi sempre uma pessoa muito presente, que estava muito próxima. É engraçado que na casa dela, aqui em Contagem, tem dois pés de jabuticaba e eu fico olhando aquele pés de jabuticaba, as frutinhas negras, pretas, agarradas ao tronco… Me dá sempre a ideia da minha mãe e da gente agarrada com ela, mulher de pouca leitura, mas de muita sabedoria, de muita palavra, de muita capacidade de observação da vida. Sem sombra de dúvida, a minha literatura nasce muito dessa experiência, dessa convivência, desses ensinamentos. Quando eu falo desse sinal gráfico é porque eu me lembro de minha mãe desenhando o sol no chão quando chovia. A gente precisava justamente do tempo seco, ela como lavadeira… Então ela tinha essa simpatia de desenhar o sol no chão, para chamar o sol para secar o tempo. E hoje eu olho e vejo direitinho a imagem daquela mulher agachada, e nós olhando minha mãe desenhar o sol. Então, simbolicamente a minha escrita, meus primeiros traços, vêm dessa lembrança da minha mãe. Isso muito antes até de eu chegar na escola. Mas nos meus primeiros traços de escrita eu só me lembro da minha mãe tendo esse gesto. 
Há também a oralidade. Esse contato com a oralidade vai influenciar todo o meu projeto estético de literatura. Eu quero escrever o mais próximo possível da oralidade. E sem perder essa noção de que estou trabalhando com a arte da palavra. O texto oral me seduz muito porque existe, por exemplo, uma poética do corpo, uma poética da voz. Isso me chama muita atenção, me seduz muito. Eu lembro muito da expressão da minha mãe, das frases suspensas da minha tia, que já faleceu, do meu tio velhinho que quando contava uma história, se o personagem caía no chão, ele também se jogava no chão. Interessante porque o pai da minha filha, o meu falecido esposo, também tinha muito essa performance, de contar muito com o corpo. Como a escrita, se a gente for pensar, é uma traição do corpo… Por mais que você queira, a escrita não traduz o seu corpo. A escrita é silenciosa, ela é sozinha, ela requer que o outro sujeito saiba ler para perceber essa escrita. Já um texto oral, não. O olhar, o gesto, a palavra suspensa no ar. Por exemplo: quando se pergunta à minha mãe alguma coisa e ela só diz: “Hum!” Você deduz esse “hum!” dela dentro de um contexto. Você deduz o que ela quis dizer. Desde o fato dela estar colocando uma dúvida no que você fala, como também ela pode estar dizendo: “Eu não vou perder tempo com isso, não vou responder”, então ela diz: “Hum!” Observar e lidar com essa performance do corpo, foi muito importante no sentido de buscar essa palavra desesperadamente, para traduzir essa performance, ou até para trair essa performance, na medida que a palavra não dá conta. Então eu gosto muito de pensar sobre isso. E opto nesse sentido. Por exemplo: se vou escrever um texto, eu acho que posso optar por uma palavra não erudita. Há poucos dias estava escrevendo um texto e veio uma sugestão para mudar um termo, porque parecia desconhecido ou um erro para quem estava revisando. Aí eu falei: “Vamos ao dicionário!” Aí fui ao dicionário e o termo existe, só que não é a maneira erudita de dizer. Eu opto sempre pela maneira não erudita, que normalmente é a maneira que vivifica a linguagem oral.

“Nasci para ser professora, eu gosto de dar aula, eu tenho uma vocação para isso. Pelo prazer e pelo compromisso ”

NEm 2019 a senhora foi a primeira autora homenageada pela Olimpíada de Língua Portuguesa e trabalhou diretamente com os alunos e com seus textos. Como foi essa experiência?

COlhe, foi o tempo todo uma experiência que me levava diretamente para a escrevivência, na medida que o texto era sempre uma valorização ou uma explicitação do universo do aluno, desde o universo individual ao universo coletivo. É uma escrita em que o sujeito se coloca no seu espaço de pertença, no seu espaço de nascença, no espaço de vivência – porque o deslocamento cria elos afetivos, com o lugar que ele passa a habitar, além da memória do espaço e de onde ele veio. Normalmente, o texto acaba muito fincado nesses espaços, que eu chamo também de geografia afetiva. O sujeito vai narrar fatos muito próximos de sua vida ou da sua coletividade, e isso é uma forma, uma produção, sem sombra de dúvida, de uma escrevivência.

NDesde o ano passado a senhora vem dando oficinas para bibliotecas comunitárias e redes locais. Como foi essa experiência de troca junto a esses jovens autores?

CEu tenho dito que para você dar aula – porque na verdade também era isso – você tem que estar muito atento, muito antenado em relação ao outro. Nas oficinas a grande maioria eram mulheres jovens, com idade para serem minhas filhas e algumas até para serem minhas netas. Estar em contato com o público mais jovem requer de você também um dinamismo e uma esperteza. Você tem que ficar atento para poder acompanhar. Embora às vezes eu estivesse cansada, inclusive pela própria viagem, na hora do trabalho nas oficinas, por mais cansada que estivesse, eu consegui dar conta do recado. Porque também é uma troca de energia e tive a felicidade de ter uma receptividade muito grande em todos os grupos em que passei. Acredito que essa relação de aprendizagem, que tem que ser uma relação mútua, também passa pela afetividade – mesmo quando nós somos adultos.

NEm uma escala de  0 a 10, o quanto a senhora sente falta de lecionar, da sala de aula, dos alunos?

CEu sinto que é 10! Nasci para ser professora, gosto de dar aula e tenho uma vocação para isso. E não é a vocação que a gente pensa: “Ah! Vai passar por isso, por todo o sofrimento, mas ela tem vocação por isso!” Não é isso! É que vou passar pelo prazer e pelo compromisso. Trabalhei com educação desde o jardim de infância até a universidade, então tenho essa experiência de lidar com alunos de várias faixas de idades. Gosto de trabalhar com treinamento de professor também, trabalhei muito com isso principalmente em função da lei 10.639/03 [que trata da inclusão obrigatória da temática “História e Cultura Afro-Brasileira” no currículo oficial da Rede de Ensino]. Então de 0 a 10, dou 10 pela ausência que eu sinto de dar aula.

NNa sua opinião, qual é a força da literatura para reparar injustiças?

CTem a capacidade de transitar, porque o texto literário chega sem grandes intenções. Por exemplo: a literatura não é um texto histórico. Quando eu escrevi Ponciá Vicêncio eu não imaginava, jamais, fazer um inventário histórico sobre o que aconteceu com os negros após a abolição. Eu não tenho nem competência histórica para isso, eu não sei de datas e não sei de artigos. A literatura não é um texto histórico, ela não é um texto religioso, não é um texto sociológico, não é um texto pedagógico. Então, por não ser isso tudo, o texto literário tem essa capacidade de transitar aqui e ali. A literatura dialoga com várias áreas do conhecimento. E mais do que isso, tem a capacidade de convocar as pessoas, de falar na sensibilidade das pessoas. Eu gosto muito de dizer isso: ninguém chora diante de um dicionário e as palavras estão lá, arrumadas bonitinhas. Mas elas só ganham sentidos, elas só te tocam se você transformar em uma vivência possível, que você já observou, até em uma ficção. A palavra “paixão” por si só não significa nada, mas quando você para para pensar sobre a palavra “paixão”, você deve lembrar das suas paixões, dos seus ódios, dos seus jogos de sedução e dos jogos de sedução que fizeram com você. E a literatura é isso. Ela tem a capacidade justamente de convocar as mais diferentes pessoas. Eu tenho experimentado muito isso. Homens, mulheres, brancos, pretos, velhos, jovens, brasileiros e estrangeiros; se sentirem convocados… Porque toca.

“Hoje há um movimento de se pensar que nós podemos inclusive ser musas da nossa própria história”

NO Brasil vive um momento de emergência e crescimento da literatura negra, e principalmente feminina. Qual a relação entre a escrevivência e esse momento literário? Quais são os seus sonhos para os momentos que virão a seguir?

CA relação entre a escrevivência e esse momento na literatura acontece porque as pessoas passaram também a acreditar que suas histórias faziam sentido. E nós também vimos muito nas oficinas. Pessoas percebendo que as suas histórias não eram algo para jogar fora. Eu me lembro que conversando com várias mulheres muitas diziam: “Ah! Eu tenho vontade de contar a minha história, mas às vezes eu tenho vergonha dos fatos…” Fatos dolorosos, eu acho, que as pessoas viveram. E eu sempre disse: “Mas não precisa falar que é você! Inventa uma personagem! Inventa uma pessoa. Tudo que aconteceu foi com a personagem e você transfere a sua experiência.” Acho que a escrevivência serve também para as pessoas pensarem. Cada pessoa que parar e pensar na sua própria vida pode fazer uma ficção, é só ter um pouquinho de vocação para aumentar aqui e para diminuir lá, para contar uma mentirinha aqui, uma verdadinha ali… E se cria uma ficção. Hoje há um grupo de escritoras e de escritores que descobriu essa possibilidade de aproveitar as suas próprias histórias e a observação do cotidiano, com histórias que nunca foram contadas ou que foram contadas de outras maneiras. As mulheres negras, ou as histórias das mulheres negras, dificilmente servem como inspiração para uma autoria branca e de homem. Então, acredito que hoje há um movimento de se pensar que nós podemos, inclusive, ser musas da nossa própria história. O que gera uma diversidade de criação muito grande. A vida está aí para gente também escrever. Um dos meus projetos para ano que vem é ler essa autoria contemporânea, preferencialmente mulheres, e fazer uma antologia crítica sobre esses textos.

NQue futuro a senhora vê para as novas gerações de brasileiros em relação ao racismo e à condição da mulher negra?

CApesar de tudo, vejo o futuro com esperança no sentido de uma tomada de consciência. Acho que em determinados momentos as ações serão feitas com mais sutilezas. Você faz menos barulho em relação àquilo que está sendo feito. Em determinados momentos o povo trabalha em silêncio. E como boa mineira, gosto muito desse termo, desse imaginário em que o mineiro trabalha em silêncio. Em determinados momentos a história acontece em silêncio, até para se fortificar e depois produzir um grito maior. Mas a história não para, ela não volta atrás. Tem aí uma juventude negra que não está – e vou usar um termo bem comum –  uma juventude negra que não vai deixar barato. Não vai deixar, não está deixando e está aí com as suas exigências. Está aí com a sua potência e com seu poder. Acredito que essa juventude vai continuar cobrando da nação brasileira que essa nação se torne realmente uma pátria mãe gentil para todos. Agora, o que eu peço muito a essa juventude é que ela não perca a noção no coletivo. Uma carreira individual ou um sucesso individual tem de ecoar, de uma forma ou de outra, no coletivo. Apesar de a gente viver em uma sociedade ultracompetitiva, em que todo mundo tem que buscar o seu lugar ao sol, essa juventude negra não pode perder a importância do coletivo. E não só a juventude negra. Hoje, a gente está vendo uma luta afirmativa também das comunidades indígenas, com lideranças jovens indígenas. Não se pode perder a noção da importância do coletivo. As pessoas têm todo o direito de buscar a promoção pessoal. Quem não quer? Todo mundo quer. Mas é preciso encontrar formas dessa promoção ser benéfica ao coletivo.