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Carta que abre oportunidades

Reconhecidas por um trabalho de excelência, organizações da sociedade civil recebem convite especial para participar do programa Missão em Foco e avançam em seu desenvolvimento institucional


Em junho de 2019, a festa de São João da equipe da OSC Casa Pequeno Davi, em João Pessoa, já estava programada: como nesse dia chegou a resposta positiva da seleção para o programa Missão em Foco, a animação foi ainda maior. Foto: Divulgação/Casa Pequeno Davi

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

O convite é para poucos: o e-mail informa ao destinatário que ele faz parte de um grupo de OSCs com possibilidade de entrar no programa Missão em Foco, do Itaú Social. Em fevereiro deste ano, 26 organizações receberam o convite. A oferta de fomento é singular: um apoio de longo prazo para aprimorar a gestão técnica e operacional que se baseia em três eixos: recursos flexíveis e adequados às necessidades de cada organização; formação e assessoria técnica para qualificar a gestão institucional; monitoramento e avaliação para acompanhar resultados e articulação em rede, que estimula a colaboração entre pares no âmbito do programa e na atuação conjunta no território onde cada organização está inserida. “Essa carta-convite serve como uma espécie de feedback, de reconhecimento pelo nosso trabalho. É gratificante receber e ao mesmo tempo é um desafio. Vimos como uma oportunidade de aperfeiçoamento e de obter formação e diálogo para o nosso desenvolvimento institucional”, comentou o professor Altair Honorato, da OSC Casa do Sol Padre Luís Lintner, que atua na garantia dos direitos de crianças e adolescentes de Cajazeiras, periferia de Salvador, BA.

Um processo criterioso leva à lista de organizações pré-selecionadas, que em geral já participaram de programas ou foram apoiadas pontualmente pelo Itaú Social ou por seus parceiros – e que a partir dos bons resultados de monitoramento são indicadas a participar desse processo de desenvolvimento institucional. “Costumo falar que o Missão em Foco é um convite para cada OSC conseguir ser, em sua melhor forma, o que ela já é”, diz Elenice Tamashiro, da consultoria Blossom, que ajudou a pensar e estruturar o programa. “Funciona como uma terapia institucional. O Itaú Social vai nutrir o corpo da organização para que ela consiga aumentar a sua musculatura a fim de enfrentar diversos contextos e focar na sua missão”, resume ela. 

E a reflexão dos participantes começa antes mesmo de preencher o formulário (o edital é fechado e só convidados podem se inscrever). “Para nós foi uma surpresa receber a carta-convite, pois somos bem novos, completamos seis anos no ano passado… Mas organizamos praticamente um workshop interno da equipe para fazer a submissão da inscrição”, relembra João Souza, diretor-presidente do Fa.Vela, uma plataforma de educação e aprendizagem empreendedora, inovadora, digital e inclusiva de Belo Horizonte, MG, que participa do Missão em Foco desde 2019. “Entregamos para algumas pessoas responderem o formulário de inscrição e depois nos reunimos antes de fechar a primeira versão, para ver se as respostas correspondiam ao que todos visualizávamos”, relatou Cláudia Costa, coordenadora-geral da OSC Casa Pequeno Davi, de João Pessoa, PB, também desde 2019 no Missão em Foco. 

Depois de entregue a inscrição, o Itaú Social faz uma análise aprofundada de cada organização. Neste ano, uma entrevista on-line substitui a visita presencial para conhecer de perto o trabalho da OSC e seus colaboradores e gestores, o que acontecia antes da pandemia. “Não se compara uma organização com outra, mas se confere sua metodologia pedagógica e o que faz para atender sua missão — é um olhar personalizado para cada uma”, diz Elenice. Segundo a consultora, não há ranqueamento nem avaliação por desempenho. A seleção é atípica e desafia a equipe gestora da OSC a refletir sobre suas práticas já nesse ponto do processo, que começa no preenchimento do formulário de inscrição. Em 2021, é a vez do terceiro grupo convidado (o Missão em Foco iniciou um ciclo em 2017 e outro em 2019). Das 26 OSCs chamadas, serão escolhidas até 15. “Essa etapa envolve muita escuta, diálogo e construção de confiança, pois o Itaú Social será o agente facilitador de um processo de desenvolvimento institucional. E temos a preocupação de garantir acesso a recursos nas cinco regiões do país”, explica Ana Maria Carminato, responsável pelo programa Missão em Foco no Itaú Social. 

“Bom demais para ser verdade”
Em geral, a surpresa com a carta-convite acontece porque ela traz oportunidades de apoio ainda raras no universo das organizações da sociedade civil. A rotina de sobrevivência das OSCs geralmente inclui escrever projetos e participar de editais para captação de recursos, que resultam em apoios com valores predeterminados ou direcionados para iniciativas específicas e pouca autonomia para quem recebe o recurso. “Quando abri o e-mail institucional, não entendi direito se era um convite ou um edital. Parecia ser bom demais para ser verdade”, conta Daniela Nunes Araujo, coordenadora executiva da BemTv, de Niterói, RJ, selecionada para o Missão em Foco em 2019. “É superdifícil ter um parceiro que financie a sua missão. Acho que essa é uma visão do presente e do futuro, de que as OSCs precisam de apoio institucional para qualificar cada vez mais seu trabalho.” Daniela, que foi aluna de um curso de educomunicação na OSC, há mais de dez anos atua na BemTv. Quando entrou para o terceiro setor, ouvia dizer que o papel de toda OSC seria acabar, assim que não houvesse mais crianças na rua. “Considero essa uma visão antiga, da década de 1990; não acho que isso defina as organizações. Sinto que elas precisam se reinventar e continuar acompanhando a comunidade, pois a sociedade civil evolui de forma permanente.”

A relação com a comunidade é observada de perto por quem avalia as OSCs convidadas, entre uma extensa lista de critérios. “Quem visitou a Casa Pequeno Davi percebeu o cuidado com o público com quem a gente trabalha, a empatia das pessoas e a relevância da nossa missão para o território”, diz Cláudia, que de cara enxergou a possibilidade de participar do programa como uma oportunidade única. Depois de muita ansiedade na espera, souberam que fariam parte do Missão em Foco em junho de 2019. “A resposta positiva chegou no dia da festa de São João da nossa equipe! Teve bebida, forró, discurso, microfone, fala e choro… foi o São João mais animado que a gente já comemorou!”, lembra Cláudia. Na época, contavam menos de 40 colaboradores. Fortalecidos pelo suporte do Missão em Foco, hoje são perto de 80 pessoas na Casa Pequeno Davi, que cresceu e alcançou seu potencial pleno, oferecendo para a comunidade do Baixo Roger, em João Pessoa, a sua melhor versão. 

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