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Desenvolvimento institucional potencializa ações sociais

O programa Missão em Foco investe em organizações da sociedade civil que contribuem para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes e para os lugares onde elas atuam


Crianças da E.M. Prof. Vanderlei Rosa de Oliveira, em Campo Grande (MS): participantes de projeto de educação cidadã desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Humano, Social, Econômico e Cultural Maná do Céu para os Povos, uma das 28 OSCs brasileiras que qualificam sua atuação a partir do apoio e das estratégias do programa Missão em Foco do Itaú Social. Foto: Leandro J. Ribeiro

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

Quem se compromete com a transformação de um território, seja ele uma cidade no sertão, um conjunto de comunidades em situação de vulnerabilidade na metrópole, ou das famílias que têm filhos com deficiência depara com uma questão intermitente: como conseguir recursos para continuar trabalhando, apoiando a comunidade e combatendo desigualdades na sua área de atuação. A lógica comum de financiamento para as organizações da sociedade civil (OSCs) se baseia em projetos apoiados pelo setor privado, que enxerga neles um caminho para avanços sociais, mas também ligação com o negócio do investidor. É uma lógica que aos poucos vai mudando. Segundo o Censo GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), a proporção de respondentes que disseram apoiar as OSCs institucionalmente cresceu de 24% para 30% entre 2016 e 2018. O Itaú Social olhou criticamente para essa realidade e questionou: como potencializar o trabalho da organização que já atua com excelência, fortalecendo cada vez mais a instituição? A solução pensada foi repactuar a relação entre as OSCs e o Itaú Social — num movimento que poderá inspirar outros investidores —, concedendo autonomia para aplicar os recursos em RH, comunicação, planejamento, inovação, monitoramento de resultados e sustentabilidade econômica. Só assim seria possível remover barreiras que impedem as organizações sociais de avançar em suas missões. 

Dimensão comunitária
“O programa Missão em Foco apoia o desenvolvimento institucional das organizações da sociedade civil. A princípio ele foi pensado para três anos e, no decorrer do percurso, percebemos que não seriam suficientes. Transformação social exige tempo e investimento. Além de contribuir com um olhar mais interno para questões gerenciais e operacionais, o programa compreende a importância de fortalecer a dimensão externa, ou seja, o valor social que a OSC produz para a comunidade”, explica Ana Maria Carminato, gestora do Missão em Foco. São convidadas as OSCs que já participam de outros programas do Itaú Social com bons resultados.

O primeiro grupo de organizações apoiadas, com 15 participantes, começou em 2017, e o segundo, com 13, em 2019. Elas têm pequeno, médio ou grande porte, tanto em volume de atendimento quanto em orçamento, diferentes estágios de maturidade institucional e estão espalhadas por todas as regiões do país. 

Encontro presencial de participantes do programa Missão em Foco, realizado em Salvador, em 2019: experiências e estratégias para o desenvolvimento das instituições. Foto: Manuela Cavadas

Aprendizado e evolução
Cada ciclo do programa é de cinco anos, divididos em etapas. Por meio do acompanhamento contínuo de uma assessoria em desenvolvimento institucional, é feita uma leitura de cenário de cada selecionado e se estabelece uma relação de confiança, em que há formação, autonomia na utilização de recursos, troca entre pares, monitoramento e assessorias técnicas específicas para fortalecer a atuação. Fabiana Toyama, da consultoria Lemniscata, acompanha um grupo de OSCs, com conversa mensal, escuta atenta e o papel de provocar reflexões. “A cada ano que passa, o programa também aprende, se transforma e evolui, junto com as organizações. Parte da premissa de que o desenvolvimento institucional impulsiona a OSC para se tornar o melhor que ela pode ser”, explica a consultora. A observação sensível de todos os envolvidos fez com que as estratégias do Missão em Foco se desdobrassem, incluindo o estímulo à formação de redes. Leia na imagem a seguir as quatro estratégias do programa. 

Estratégias do programa: foco no desenvolvimento organizacional. Imagem: Reprodução

Nos primeiros três anos do programa é construído um PDI (Plano de Desenvolvimento Institucional), e os líderes e os responsáveis técnicos se organizam para que suas equipes evoluam em aspectos de gestão pedagógica e de gestão operacional (como planejamento estratégico, governança e comunicação, entre outros). Desde o primeiro ano o programa estimula a OSC a aprofundar seu olhar para outros atores no território, um foco de atenção que passa a ter estratégias cada vez mais intencionais nos anos seguintes. Segundo Ana Maria, do Itaú Social, o quarto e o quinto ano foram acrescentados com o objetivo de criar um ecossistema no qual as OSCs possam partilhar, trocar, estreitar os vínculos e articular-se para fortalecer e fomentar um território educativo e de oportunidades. Ele é alcançado pela cooperação entre organizações, coletivos e instituições com missão similar ou complementar, com vista a ações que favoreçam o desenvolvimento integral das crianças e adolescentes na localidade.

Experiências compartilhadas
Entre as estratégias do programa, merece destaque o recurso financeiro flexível, que dá autonomia e revela a confiança nas OSCs. “É uma proposta inusitada no campo do trabalho social: uma instituição financiadora sair da lógica de custear pequenos projetos, pulverizando recursos, para apoiar organizações que têm potencialidade, uma história de luta e de transformação. Isso é dar garantia e condições à instituição para que ela possa fazer aquilo em que acredita”, comentou Tião Rocha, idealizador e diretor-presidente do CPCD – Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento, de Minas Gerais, durante o primeiro encontro entre os representantes das OSCs participantes do Missão em Foco, no primeiro semestre de 2018. O uso estratégico desse recurso é primordial para ações que fortalecem institucionalmente as organizações, seja ele investido em formação e aprimoramento de equipe, seja em melhorias físicas, como uma reforma do local onde acontece a prestação de serviços à comunidade. Os participantes, em diferentes níveis de maturidade e de sustentabilidade, fizeram escolhas mais conscientes. Em 2020, imersos nas precariedades da pandemia, alguns deles optaram por usar o dinheiro para manter a folha de pagamento em dia; outros criaram um fundo emergencial, uma segurança para enfrentar dificuldades no futuro. Nesse período conturbado, todos puderam estreitar laços usando plataformas digitais, com conversas mais frequentes e trocas de experiências.

Presença nacional: a localização das OSCs participantes do Missão em Foco. Imagem: Reprodução

A iniciativa de criar uma rede que, em 2020, promoveu intercâmbio entre os dois grupos do Missão em Foco (ciclo de 2017 e de 2019) foi de Ana Neiry, educadora e fundadora da Associação Cultural Pisada do Sertão, da Paraíba. Depois de três anos participando, ela diz que o programa funcionou como um divisor de águas. “Ele dá voz às OSCs, amplia a valorização no território, faz com que a gente reflita sobre nossa causa, nossa missão e aonde queremos chegar para depois traçarmos caminhos e objetivos”, explica Ana. “Elaborar um plano de comunicação, realizar reflexões estratégicas, estabelecer indicadores para monitoramento… em todos esses processos tínhamos muito amadorismo. Hoje sabemos da importância de definir indicadores para apresentar impactos e resultados, entendemos melhor qual o papel do colaborador e como o desenvolvimento interno impacta tudo, desde avançar na nossa missão até conseguir novas parcerias e financiamentos”, conclui.

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