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Diferentes territórios, uma só rede

Encontros virtuais entre OSCs espalhadas pelo Brasil permitiram trocas de experiências e cooperação durante a pandemia e levaram a identificar causas coletivas, como o direito à comunicação


Voluntária da campanha “Maré Diz NÃO ao Coronavírus”, no Rio de Janeiro: direito à informação foi um dos principais temas discutidos pela rede espontânea formada pelas OSCs participantes do programa Missão em Foco. Foto: Douglas Lopes

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

Em um ano que prometia muito trabalho, 28 organizações da sociedade civil (OSCs) selecionadas pelo programa Missão em Foco estavam prontas para colocar em prática seus planos de desenvolvimento institucional. Aí, em meados de março de 2020, a situação de quem apoia crianças, adolescentes e suas famílias também se complicou diante da pandemia da Covid-19. Mesmo as OSCs em estágio avançado de maturidade, com décadas de experiência, viram-se perdidas. “Todos sentiram a precarização das pessoas nas regiões. E uma dificuldade enorme de saber o que fazer. Até que se deram conta de que participam de um programa com 28 organizações de todo o Brasil; então a solução foi se falarem”, conta Fabiana Toyama, da Lemniscata Consultoria, que faz acompanhamento contínuo de um grupo de OSCs do Missão em Foco.

O pontapé inicial para a criação de uma rede informal foi uma mensagem de áudio enviada por Ana Neiry, educadora e fundadora da Associação Cultural Pisada do Sertão, da zona rural da Paraíba. “Acreditava que, mesmo distantes, já éramos conectados pelo Missão em Foco, então poderíamos nos unir. Lancei o convite para trocarmos experiências, para partilharmos dores e, ao mesmo tempo, encontrarmos soluções”, explica Ana. A receptividade foi incrível e, depois do primeiro encontro virtual, vieram outros nove no ano que passou. De surgimento espontâneo, a rede se resume às equipes das OSCs — e atuar de forma autônoma em relação ao Itaú Social é proposital.

A Maré forma uma rede com a missão de diminuir a desigualdade numa comunidade com 140 mil pessoas: transbordamento de suas próprias ações por meio de apoio a empreendedores sociais locais. Foto: Douglas Lopes

Na terceira reunião, em maio, Eliana Sousa, da Redes da Maré, no Rio de Janeiro (RJ), e João Carlos Guilhermino da Franca, do Camará Calunga, de São Vicente (SP), contaram suas experiências para seguir apoiando os públicos em meio à pandemia. Com o grupo se organizando — tem até comitê gestor e liderança flexível —, uma pesquisa entre os participantes procurou saber quais deveriam ser os objetivos da rede e pediu sugestão de periodicidade e de pautas. Recebeu 32 respostas. Saltou aos olhos a carência das comunidades atendidas de meios para se conectar, o que afetou o aspecto pedagógico, pois há lugares sem internet ou com apenas um celular para uso da família inteira. 

“Pelas conversas, ficou evidente que o direito à informação e à comunicação é um problema comum e grave, que depende não só das OSCs, mas também de outros setores, para ser sanado. Foi aí que se notou o potencial da rede para endereçar causas coletivas”, relembra Fabiana, que é convidada para os encontros mensais. Um grupo de trabalho (GT) de comunicação foi criado para ouvir especialistas e buscar quais órgãos acessar para que esse direito seja assegurado. “Espero que a rede se consolide e consiga construir um legado para outras organizações. Com pautas estratégicas e um movimento conjunto, podemos influenciar políticas públicas a favor do desenvolvimento integral de pessoas e dos territórios educativos”, reforça Ana.

Abrir a casa, alcançar a praça
Para além dessa rede de comunicação criada pelas OSCs, o programa Missão em Foco tem entre suas estratégias o fortalecimento de redes, com objetivo de estimular a ação conjunta com outras organizações e equipamentos públicos no mesmo território, em uma lógica de cooperação e colaboração, para fortalecer a garantia de direitos e a proteção de crianças e adolescentes. “Deixamos aberto para que as OSCs proponham as ações de acordo com a leitura do seu contexto; então a atuação vai ser diversa, abraçando desde questões de parceria e desenvolvimento local até a incidência em políticas para as populações atendidas”, explica Ana Maria Carminato, gestora do programa Missão em Foco no Itaú Social. Com o que aprenderam no programa, as organizações podem estreitar vínculos com outras e passar a atuar no território, promovendo uma ação de transbordamento. 

Se compararmos uma OSC a uma casa, nos primeiros anos, o Missão em Foco a acompanhou para fortalecer seus alicerces operacionais e gerenciais; no terceiro ano, olhou a fachada, ou seja, o planejamento estratégico e a comunicação institucional. “No quarto ano, a ideia é abrir o portão com intenção de transbordar, consolidar suas atividades e atuar com mais gente, somando esforços com outras organizações, a padaria, a escola, a igreja”, diz o professor Eduardo Baptista, que há 30 anos atua em monitoria e avaliação de projetos sociais de base comunitária. Sua consultoria, a Innova, acompanha 15 OSCs do Missão em Foco, que no final de dezembro desenharam propostas de   atuação conjunta com outras organizações do território, para serem iniciadas em 2021. Segundo ele, os perfis das organizações são muito diferentes: há quem já tenha chegado à praça, ou seja, tem forte envolvimento com o entorno e influência política, como a Redes da Maré e o Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), e outras que realizam trabalhos extremamente relevantes, mas ainda possuem grandes desafios para levar sua atuação para além dos muros da OSC. Um exemplo é o Gaia – Grupo de Apoio ao Indivíduo Autista, de São José dos Campos (SP), que hoje dialoga com a Secretaria Municipal de Educação e pensa em transferir tecnologia e conhecimento para outras organizações. 

“Nosso foco é o território e tudo o que tem nele. É o que dá sentido à nossa existência”, comenta Eliana Sousa, fundadora e líder da Redes da Maré, que tem por missão diminuir a desigualdade numa zona urbana com 16 comunidades e 140 mil pessoas, população maior do que a de 96,4% dos municípios brasileiros. “As discussões que mais nos ajudaram no Missão em Foco levaram a construir alternativas de gestão, monitoramento e avaliação, nos mostrando que temos condições de fazer aquilo em que acreditamos.” Estratégias de fortalecimento da sociedade civil já são parte do modus operandi da OSC, que fez parcerias com instituições de base para atacar as diferentes violências, questões educacionais, de saúde e até ambientais. “Nossa proposta de transbordamento é dar apoio a empreendedores sociais locais, escolhidos por meio de editais. Vamos replicar o conhecimento adquirido, aumentando capacidades de gestão, formas de captar recursos, fortalecendo missões específicas. O recurso será suficiente para apoiar pelo menos cinco micro-organizações”, aposta Eliana. É quase como replicar as trocas e a relação parceira do Missão em Foco dentro do Complexo da Maré. Com intencionalidade, experiência no terceiro setor e suporte financeiro, tem tudo para produzir ainda mais mudanças no território.

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