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Notícias Dez perguntas para

ANTJE DAMM – “Filosofar com crianças é fazer perguntas sem dar respostas”

Livro da autora alemã é criado a partir de um método lúdico de construir uma maquete-cenário, fotografá-la e transformar em páginas de história


Antje Damm prepara a maquete-cenário de A Visita: “Quando entra alguém em cena, o palco se torna vivo”. Foto: Silja Damm

Por Kadija de Paula, Rede Galápagos, Leipzig (Alemanha)

Antje Damm é uma célebre autora e ilustradora alemã. Ela estudou arquitetura na Alemanha e na Itália, e trabalhou como arquiteta por vários anos antes de começar a escrever livros infantis no início dos anos 2000. Desde então, publicou mais de 20 títulos. Em 2018, seu livro A Visita foi eleito pelo jornal The New York Times e pela Biblioteca Pública de Nova York como um dos dez livros infantis mais bem ilustrados do ano. A Visita (Editora Claro Enigma) é um dos títulos selecionados, por meio de edital público, para compor a Coleção do programa Leia para uma Criança, do Itaú Social. O outro livro contemplado em 2020 foi Com que roupa irei para a festa do rei? (Editora do Brasil), de Tino Freitas e Ionit Zilberman. Ambos os títulos em formato impresso foram enviados gratuitamente a quem fez o pedido no site Leia para uma criança — e também podem ser acessadas, de modo digital, versões audiovisuais, com múltiplos recursos de acessibilidade. Conversamos com Antje sobre esse livro e sobre o enorme poder que a literatura tem de mudar as pessoas. A seguir, os principais trechos da conversa.

NNotícias da Educação – A Visita conta a história de Elise, uma idosa solitária e amedrontada cuja vida recupera as cores com a ajuda do menino Emil e seu aviãozinho de papel. Como essa história surgiu para você?

AAntje Damm – A ideia para A Visita surgiu na fila da padaria com duas das minhas meninas, tenho quatro filhas. As pessoas estavam irritadas com a espera. A gente entrou e eu disse para as meninas que elas podiam escolher um pedaço de bolo para cada membro da família. Daí elas começaram a pensar e conversar: “ah este bolo é para o papai e este é para a mamãe…” e foi muito engraçado porque elas discutiram todas as possibilidades e as pessoas na fila riam e o clima foi mudando. Foi muito bom. Aquela sensação me marcou: quando uma criança entra em uma sala e muda a situação só por estar lá ou fazer alguma coisa por conta própria. É como quando você tem um palco de teatro e então entra alguém em cena: o palco se torna vivo. Essa era a ideia base.

NA história se passa em um espaço tridimensional com figuras recortadas em papel e efeitos de luz. O que veio primeiro: os personagens, o texto, ou o cenário? Como eles se juntam no seu processo criativo?

ADepois de ter essa ideia-base, construí a maquete com uma caixa de papelão cinza e decidi colocar dentro dela uma mulher muito assustada, a Elise, que receberia esta visita que ia mudar a sua vida. É uma ideia muito simples que também é inspirada em uma vizinha idosa que mora aqui perto de casa. Sempre que faz um bolo, ela liga e diz: “As crianças podem vir buscar o bolo”, e eu sei que ela não quer só dar o bolo para a gente, ela quer a visita das crianças. Então, essas histórias estavam na minha cabeça, mas eu não sabia exatamente o que iria acontecer nesta maquete. Aí eu fui construindo e a história foi se desenvolvendo passo a passo até virar um livro. Eu não sou estruturada quando trabalho. Sou muito impulsiva porque começo algo e não sei como vai terminar exatamente. Não trabalho como uma ilustradora treinada.

“Devemos encontrar nos livros as possibilidades para fazer perguntas, iniciar discussões e conversas. O livro é o começo para um grande universo de perguntas.”

NVocê é arquiteta e mais tarde se tornou autora. Maquetes sempre fizeram parte da sua prática, mas esse é o primeiro livro em que você usa essa técnica. Como foi essa experiência?

AQuando você faz arquitetura tem que construir muitas maquetes, porque é um método muito lúdico e bem-sucedido de encontrar caminhos. Foi muito divertido criar uma maquete real e fotografá-la. Construir uma maquete não é um problema para mim, gosto muito, mas fotografar foi mais complicado. Não sei tirar fotos. Em vários dos meus livros você vê imagens fotografadas, mas não é que eu seja uma boa fotógrafa e isso foi muito desafiador para mim. Porque na minha cabeça eu sei exatamente como a imagem deve ser e então tenho que tentar, e tentar, e tentar, até chegar lá. Foi um trabalho difícil, mas eu gostei tanto que já estou lançado o quarto livro feito com a mesma técnica.

A iluminação acentua o clima das cenas: do sentimento de solidão a um alegre e inesperado encontro. Foto: Silja Damm

N Você construiu a maquete e começou a adicionar as cores à medida que desenvolvia a história. Como isso funcionou?

AÉ uma maneira muito maluca de trabalhar porque quando você chega na imagem que quer, não tem mais como mudar. E aí o livro está pronto. Então, quando terminei o livro, mostrei ao editor e disse: “É pegar ou largar, porque não posso mudar.” Sempre trabalho assim porque preciso ter certeza de que as imagens são exatamente do jeito que quero que elas sejam, e só então mostro para o editor, e isso é um trabalho difícil para um editor, porque ele não pode dizer: “Você pode mudar esta imagem?”

Cena que ocupa duas páginas de A Visita: “Quando você chega na imagem que quer, não tem mais como mudar. E aí o livro está pronto“. Foto: Antje Damm

NHá algumas semanas você publicou no instagram uma foto da sua estante com o livro Wir Müssen Die Welt Verändern (Temos Que Mudar o Mundo) de Oscar Niemeyer, que por enquanto foi publicado apenas em alemão. Como arquiteta, qual a influência de Niemeyer e outros arquitetos em sua obra?

AMuitos arquitetos me influenciaram, principalmente os modernistas, como Niemeyer, Sep Ruf e a escola Bauhaus. Trabalhei como arquiteta por vários anos e durante a minha prática e estudos conheci o trabalho destes arquitetos importantes e ainda gosto muito de ver a forma como pensam. A obra de um autor ou ilustrador, e a de um arquiteto, não são tão distantes. De certo modo, são a mesma coisa. Quando tenho uma ideia é como um exercício para mim: qual a melhor maneira de transportar essas coisas que quero dizer para o mundo real? Na arquitetura é o mesmo, você tem um conceito e tem que tornar este conceito tridimensional. O livro de Niemeyer é interessante porque ele quer mudar o mundo com o que constrói. Ele é um bom arquiteto porque você pode encontrar esse pensamento em seus edifícios.

NFalando sobre mudar o mundo, você já publicou vários livros que fazem perguntas e falam sobre diferentes temas filosóficos com as crianças, como o tempo, o nada, a vida, a morte; e já mencionou em outras entrevistas que podemos e devemos confrontar as crianças com as grandes questões do mundo. Quais são as questões filosóficas que você procura abordar em A Visita?

AA Visita levanta muitas questões filosóficas. Esta é uma parte realmente muito importante do meu trabalho: fazer perguntas. E A Visita parte da questão do medo e da solidão, do envelhecimento e da velhice. Existem tantas perguntas, por exemplo: um menino pode ser amigo de uma mulher idosa, isso é possível? E todas essas pessoas idosas que estão sozinhas, por que estão sozinhas? O que podemos fazer em relação a isso? Um aspecto que considero significante neste livro é que a história não tem fim. Então, existe a possibilidade de as crianças entrarem na história e se tornarem parte dela. E é assim que as crianças passam a entender essas perguntas; isso é muito valioso para mim. Quando dou oficinas para crianças e professores, digo aos professores que eles devem encontrar nos livros essas possibilidades para fazer perguntas, iniciar discussões e conversas. O livro é o começo para um grande universo de perguntas. Não quero dar mensagens com os meus livros, essa não é minha intenção. Não tenho essa ideia de ensinar ou dar algo às crianças. Quero apenas abrir possibilidades, só isso. A minha intenção é que elas reflitam sobre suas próprias vidas. Por isso o que é sempre muito importante para mim é que essas perguntas que podem ser encontradas nos meus livros toquem diretamente na experiência das crianças, para que elas possam falar sobre a sua própria situação. E, claro, esse tema da solidão é um tema muito importante agora.

NNo seu livro O que será de Nós? (What will become of us?) o tema é a natureza. Qual a importância de fazer perguntas sobre esse tema às crianças ?

AA natureza está na minha cabeça há muito tempo. Tive um padrinho que me ensinou todos os nomes de plantas, cogumelos e animais da floresta. Quando pequena eu conhecia os nomes de todas as plantinhas e ele sempre me dizia: “Você tem que saber o nome das coisas da natureza para tratá-las melhor”. Então, sempre pensei em fazer um livro que fizesse perguntas sobre a natureza. Foi um livro muito importante para mim, mas é apenas um início de conversa. São questões iniciais que abrem caminho para uma grande montanha de outras questões. Neste momento, falamos muito sobre a natureza, sobre o nosso futuro, crianças vão às ruas se manifestar pelo planeta. Tem tanta informação vindo de todos os lados agora. Precisamos pensar e questionar e é por isso que escrevi What will become of us? (O que será de Nós?) 

A capa de A Visita: “Se a história não tem fim, há a possibilidade de as crianças se tornarem parte dela.” Imagem: Reprodução

“Temos que confiar mais nas crianças e dar a elas a possibilidade de decidirem o que é bom para elas. Os adultos devem perceber que nem sempre precisam fazer esse trabalho.”

NQual é a importância da leitura para a educação das crianças?

APara mim é muito triste quando visito escolas que não têm bons livros, bibliotecas decentes e se viram apenas com uma pequena coleção de livros antigos e estropiados. Quando uma escola não tem livros, as crianças que a frequentam provavelmente não têm a possibilidade de ler porque também não devem ter acesso a livros em casa. Então, as escolas são os lugares onde os livros devem estar. Isto é muito importante! Na Alemanha essa situação é boa na maioria das vezes, mas estou ciente de que não é assim em todo lugar. Por isso me esforço para fazer leituras públicas, não apenas em situações em que os filhos são levados pelos pais, mas também em bibliotecas e escolas para atingir todas as crianças, não só as que têm acesso à leitura em casa. É fundamental mostrar às crianças o que é uma biblioteca, e que elas podem acessar livros lá, mas também é importante que as crianças possam ter livros. Que possam ler e guardar e voltar ao livro no seu próprio tempo. Minha mãe era professora e trazia muitos livros ilustrados para casa. É muito valioso ter livros. Até hoje ainda tenho muitos desses livros antigos. São um pouco como um tesouro da minha infância e eu quero que todas as crianças possam ter um tesouro de sua infância também, por isso estou muito feliz com este programa.

NAlgumas pesquisas mostram que uma das maiores influências na vida de um leitor é sua mãe. Que papel sua mãe desempenhou em seu interesse pelos livros?

AMinha mãe fez uma coisa muito boa. Morávamos em uma pequena vila e não tinha uma biblioteca perto de nós. Então, quando íamos para a cidade, ela nos levava à livraria e deixava que escolhêssemos nossos próprios livros e eu acho isso ótimo. Agora, quando vejo esses livros com um olhar crítico, sei que alguns deles não são tão bons, ou não são tão bem ilustrados, mas foi importante para mim poder ter escolhido. As crianças precisam ter escolha, aprender que existem coisas diferentes, refletir. O problema é que os adultos escolhem os livros para as crianças. Acho que temos que confiar mais nas crianças e dar a elas a possibilidade de decidirem o que é bom para elas. Os adultos devem perceber que nem sempre precisam fazer esse trabalho. É muito triste quando as crianças não podem escolher seus próprios livros e é por isso também que as bibliotecas são tão importantes, porque as crianças ficam mais livres para escolher o que querem ler.

Antje Damm em uma imagem de quando era criança e em foto recente: o reservatório de ideias e pensamentos da infância no conteúdo da obra literária. Fotos: Adi Damm e Silja Damm/Arquivo pessoal

NSuas filhas foram uma influência para você se tornar uma autora de livros infantis?

AMuitas pessoas me perguntam se me tornei autora de livros infantis por causa das minhas filhas, mas não é bem a verdade. Acho que faço este trabalho porque me lembro muito bem da minha própria infância e esse é o meu maior reservatório de ideias, pensamentos e coisas das quais me lembro muito bem. É claro que minhas filhas me influenciam e algumas das histórias aconteceram com elas, mas só algumas. Elas estão na minha casa, estão à minha volta e fazem parte do meu trabalho, mas a influência delas não é tão importante como a memória da minha própria infância. Agora elas estão grandes demais para livros infantis, mas gosto de mostrar o resultados do meu trabalho para elas e às vezes pergunto o que acham disso e daquilo, se gostam da ilustração, ou o que posso mudar. Quando elas eram menores, eu tinha uma sala com uma parede branca muito grande. Nela pendurei todas as fotos do livro Ask me (Pergunte-me), certamente o livro mais importante da minha carreira, com mais de cem perguntas para crianças. Nessa época, as meninas e os amigos delas entravam lá em casa e viam aquela parede cheia de imagens. Eles me perguntavam porque eu tinha escolhido aquela fotografia ou aquele desenho. Isso foi muito interessante, pois as crianças refletiam sobre o meu trabalho e eu acabei mudando muitas coisas que elas disseram que não entendiam ou achavam muito loucas. Filosofar com crianças é fazer perguntas sem dar respostas. As perguntas mais importantes não têm resposta, mas você sempre pode fazer mais perguntas.

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