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Luz da leitura

A Vaga Lume implanta bibliotecas em comunidades ribeirinhas, indígenas e quilombolas, experimenta ler com as famílias e amplia o aprendizado sobre leitura para crianças


No foco do leitor: a expertise da Vaga Lume acumula anos de aprendizado em contato com comunidades, como a Vila de Moura, em Barcelos (AM), aqui em foto pré-pandemia. Foto: Eny Miranda, Cia da Foto

Por Evandro Almeida Jr, Rede Galápagos, São Paulo

“A biblioteca ficava num flutuante, no meio do lago, que é um braço do rio Solimões. Tínhamos que levar as crianças para lá de barco pegando uma a uma em suas comunidades. Era o único lugar onde podíamos fazer as atividades. No início, alguns pais ficaram receosos de deixar os filhos irem. Uma alternativa era levar os livros para a comunidade e deixá-los com as crianças.” A cena é descrita pelo professor de ensino básico Djaik Nery de Souza, 45, de Tefé, Amazonas, município que fica a 520 km de Manaus. O relato permite vislumbrar um pouco da beleza e dos desafios abraçados por um grupo de educadores e mediadores de leitura que, como Djaik, ajudaram a implantar  — e ajudam a manter — 91 bibliotecas comunitárias em 22 cidades da Amazônia legal. Empoderar crianças de comunidades rurais da região a partir da leitura é a proposta da Associação Vaga Lume, organização da sociedade civil (OSC) criada há quase 20 anos, que é referência no tema. 

A ideia de criar a Vaga Lume começou a tomar corpo em 2001, durante viagem de três amigas de São Paulo (Sylvia Guimarães, Maria Tereza Meinberg e Laís Fleury) pelo interior do Pará. Ao visitar localidades remotas, elas perceberam que poderiam fazer grande diferença para as comunidades incentivando o uso de um poderoso meio de desenvolvimento da linguagem e da ampliação do conhecimento: a literatura infantil. No ano seguinte, passaram dez meses na região e percorreram 53 comunidades levando livros para as crianças e formando mediadores de leitura. Estabeleceram laços que se ampliam e enriquecem seu aprendizado. Entre os numerosos prêmios recebidos pela Vaga Lume está o de Melhor ONG de Educação do Brasil”, conferido em 2018 pelo Instituto Doar.

Uma motivação muito objetiva levou a Vaga Lume a escolher a área geográfica de sua atuação: promover o acesso à leitura em uma das regiões com alta vulnerabilidade no país. Habitada por 24 milhões de brasileiros e cobrindo 61% do território nacional, a Amazônia legal ocupa um quinto da reserva florestal do planeta. Nessa vastidão, os desafios sociais ficam evidentes quando se olham, por exemplo, os Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), calculados a partir de indicadores de educação (alfabetização e taxa de matrícula), longevidade (esperança de vida ao nascer) e renda (PIB per capita). O IDH do Brasil é 0,754 e o IDH da região norte é 0,667, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento.

Assim como dezenas de colegas que também representam a Vaga Lume nas comunidades onde atuam na Amazônia, o professor Djaik passou por treinamentos para a formação de novos mediadores de leitura e desempenha uma função desafiadora.

Djaik Nery de Souza, 45, professor de educação básica em Tefé, no Amazonas, à espera do dia em que o fim do isolamento social permita retomar as atividades presenciais de leitura: “O homem da Vaga Lume chegou! Vai ser bom demais ouvir isso de novo.” Foto: Arquivo pessoal

A convivência com diferentes comunidades, onde passam de três a quatro dias ministrando a formação, permite que esses representantes pratiquem um olhar empático, de quem quer aprender com o outro. “Isso nos faz entender melhor a realidade local e nos adaptarmos para tornar a leitura ainda mais atrativa”, diz. O desenvolvimento do trabalho depende do envolvimento comunitário e das condições locais. Essa solução da biblioteca no flutuante da qual falamos no primeiro parágrafo desta reportagem, por exemplo, durou aproximadamente dois anos, até que se conseguissem locais adequados para continuar com as atividades em terra firme.

Expertise e diversidade
Fazer com que a comunidade seja protagonista na implantação das bibliotecas e das atividades culturais é a alma da Vaga Lume. “O projeto é da própria comunidade. A intenção é que elas possam gerir, fazer as reuniões e construir relações entre os participantes para que tudo dê certo”, explica Thaissa Grossmann, responsável pelo relacionamento Institucional da Vaga Lume. No foco de ação da OSC estão atividades como a produção e compartilhamento do conto com pessoas idosas para promover a cultura local, o convite às famílias para atuarem na promoção da leitura, o incentivo aos leitores para que se tornem escritores e, enfim, o diálogo com a criança, mostrando a ela que sua vida pode ser transformada por meio da leitura. E, na estratégia de conteúdo dos livros, a presença de temáticas indígenas e negras — para que as crianças se vejam nas histórias. 

Essa expertise em entender cada etapa e ouvir as pessoas envolvidas para a promoção da leitura com qualidade fez da Vaga Lume uma parceira importante para o Itaú Social na realização de uma iniciativa que é exemplo no Brasil: o Programa Leia Para uma Criança, que tem como objetivo incentivar a leitura do adulto para e com uma criança.

Inauguração da Biblioteca Comunitária Saberes do Quilombo, em Mirinzal, Maranhão, em 2006: uma das 91 unidades implantadas em 22 cidades da Amazônia legal. Foto: Vaga Lume/Divulgação

O programa já distribuiu mais de 57 milhões de livros físicos nos últimos dez anos. No ano passado o programa recebeu o Prêmio Jabuti, principal reconhecimento literário no Brasil, na categoria Fomento à Leitura.

A leitura não para
Mesmo diante da pandemia a Vaga Lume manteve trabalhos de engajamento com crianças, coordenadores e representantes locais, respeitando o distanciamento social. Com encontros on-line, atividades antes realizadas presencialmente foram adaptadas para a nova situação. A organização produziu materiais e tarefas extras para que os alunos pudessem manter-se ativos, como a criação de contos sobre a vida durante a quarentena, por exemplo. 

A comunidade também se engajou e, com a ajuda de coordenadores voluntários, compartilhou experiências e desafios diários, ampliando a discussão para entender melhor cada situação e pensar alternativas para mitigar impactos. “Tanto as crianças como os adultos têm recebido bem as atividades propostas”, explica Thaissa. Mantendo distância física e presença on-line, o professor Djaik não vê a hora de poder voltar a visitar as comunidades e reencontrar as crianças. “O homem da Vaga Lume chegou! Vai ser bom demais ouvir isso de novo”.

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