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TINO FREITAS – “Quanto mais lemos, mais podemos criar coisas que não existem e melhorar nossa vida”

A literatura infantil pode nos tirar do lugar comum, emocionar e colaborar para a construção da fantasia e da imaginação de crianças e adultos


Tino Freitas: “A literatura está aí para refletir nossa humanidade. E as crianças precisam de liberdade para perguntar tudo o que quiserem”. Foto: Thais Mallon

Por Lívia Piccolo, Rede Galápagos, São Paulo

Tino Freitas é um dos grandes autores brasileiros atuais. Seus livros costumam estar nas listas de melhores publicações infantis e já foram indicados pelo prestigioso catálogo da Feira do Livro Infantil e Juvenil de Bolonha, o mais importante evento mundial do gênero. Ele aborda de forma sensível e criativa temas urgentes do nosso tempo, como o abuso sexual infantil, a fome e a vaidade dos poderosos. Além disso, trabalha com a sonoridade das palavras e cria histórias capazes de prender a atenção de crianças e adultos. “A literatura é um convite para uma dança, você vira a página e dá um passo nessa dança.”

O livro Com que roupa irei para a festa do rei?, com texto seu e ilustrações de Ionit Zilberman, editado pela Editora do Brasil, foi selecionado, por meio de edital público, para compor a Coleção do programa Leia para uma Criança, do Itaú Social e Itaú Unibanco. O outro livro contemplado em 2020 foi A Visita, de Antje Damm, da Editora Enigma. Ambos os títulos em formato impresso são enviados gratuitamente, mediante disponibilidade de exemplares, a quem fez o pedido no site Leia para uma criança (as solicitações foram encerradas dia 23 de outubro) — também foram distribuídas verões em braile e fonte ampliada e podem ser acessadas, de modo digital, versões audiovisuais, com múltiplos recursos de acessibilidade. Conversamos com Tino sobre esse livro e sobre como a imaginação e a literatura podem melhorar o mundo. A seguir, os principais trechos da conversa.

NNotícias da Educação – Com que roupa irei para a festa do rei? é livremente inspirado na história A roupa nova do rei, de Hans Christian Andersen. O que o levou a revisitar essa história clássica?

TTino Freitas – O escritor Stephen King diz uma coisa de que gosto muito: “Meu método é de arqueólogo, descubro que tem um osso ali, mas ainda não sei qual é o bicho. Vou escavando até encontrar com ele.” Foi assim com esse livro. Estava dando uma volta no centro de Fortaleza onde há várias lojas do tipo “O Rei dos Parafusos”, “O Rei do Pastel”, “O Rei da Buchada”, e por aí vai. Olhava aquilo e pensava “é muito rei neste mundo, como faz para organizar tanto rei assim?”. Percebi esse desejo que todo mundo tem de ser rei. Fiquei com esses vários reis na cabeça e decidi contar uma história de uma festa à fantasia. Ainda não sabia o final da história. Quando me sentei para escrever é que me veio o Andersen e a percepção sobre quem é o mais inteligente entre os reis. Todo mundo pode ser rei, mas se você é inteligente consegue ver mais.

NAndersen aborda um tema muito atual, que é a arrogância dos poderosos. Os livros infantis devem trabalhar os assuntos urgentes da nossa época?

TUma das funções de quem produz literatura é, antes de tudo, contar uma boa história, que lide com o que é humano dentro da gente. Só que é impossível não perceber que tem um mundo lá fora. Quando trato temas como a violência com crianças, as questões de gênero ou a fome, dou a chance para professores e pais falarem sobre isso de forma segura. Aos poucos a criança vai absorvendo, perguntando, conversando. E se a gente não conversar, dá ruim. Precisamos estar preparados para dialogar. A literatura tem esse dever, os contos de fadas estão aí faz tempo mostrando que existem os vilões e os heróis. Não dá para fazer um conto de fadas só com heróis. Para mim é uma oportunidade gigante ver o programa do Itaú oferecer esta história neste momento tão singular, em que olhamos cada vez menos um para o outro. A literatura está aí para refletir nossa humanidade. E as crianças precisam de liberdade para perguntar tudo o que quiserem.

A capa, de Raquel Matsushita: uma pergunta convida o leitor a entrar na história. Imagem: Reprodução

“Preciso pensar também no adulto, pois é ele quem escolhe o livro e lê para a criança.”

NO livro apresenta a ideia de que a maior elegância está no conhecimento e não nos trajes. Como fomentar esse valor desde cedo?

TO que é sedutor é a inteligência. É a conversa que vai me dizer se alguém é interessante. A inteligência não tem medida certa na cintura, não tem bíceps e tríceps, e aparece no tamanho que o outro consegue ver. Ela não é uma roupa de grife ou uma roupa de rei. Nessa história o personagem do Jabuti está sempre com um livro na mão. O Jabuti é um animal que não sabe nadar, mas no final você o vê navegando no seu casco, com os livros. Com sua inteligência ele transforma o casco em barco. A inteligência é a maior beleza e a maior força humana. Podemos resolver nossos problemas por meio dela. Além disso, os livros do Jabuti têm outra camada: transmitem a ideia de que quando estamos lendo para uma criança, estamos fazendo um outro tipo de academia. É uma chance para ela fantasiar. E fantasiar é poder criar algo que ainda não existe. A criança está lá pensando “como é esse rabo de dragão”?, “como ele solta fogo?”, e assim por diante. Ler é fortalecer a imaginação, a fantasia, a criatividade. Estamos falando neste momento por um computador, e isso foi imaginado e criado por alguém. Tudo o que não é da natureza, alguém fantasiou. Quanto mais lemos, mais podemos criar coisas que não existem e melhorar nossa vida. A vida da nossa família e do mundo como um todo. Steve Jobs, provavelmente, foi um grande leitor. Atualmente quem está no poder parece não ler absolutamente nada. Está valendo somente o discurso da força, e não o da inteligência. Para quem quiser ver, o livro Com que roupa irei na festa do rei? é um livro político também.

NComo surgiu a ideia de trazer os “reis-celebridades”?

TO ser humano tem essa vontade inerente de ser rei. Eu precisava personificar o “Rei dos Parafusos” que vi em Fortaleza. Achei que com essas referências populares alcançaria visualmente o leitor, criança e adulto. Preciso pensar também no adulto, pois é ele quem escolhe o livro e lê para a criança. Pensei em colocar minhas referências de reis, como Pelé, que é a maior referência no futebol, embora para mim o “Rei do Futebol” seja o Zico. Para o Rei do Rock, a Ionit colocou aquele macacão e pronto, já ficou a cara do Elvis Presley. O Rei do Xadrez traz a ideia de que, se matar o rei, você ganha o jogo. Vale uma conversa sobre cada uma dessas escolhas. São escolhas difíceis. Também escolhemos representar animais da nossa fauna, são todos reis bem brasileirinhos: a anta, o jacaré, o tamanduá. E o porquinho é a criança.

NA história é construída a partir de rimas. Qual papel a poesia desempenha na sua vida como leitor e autor?

TTudo começa com a sonoridade. A literatura convida você a dançar. É um convite, e isso pode estar no ritmo do texto, com as rimas, ou pode estar na página; você vira a página e dá um passo nessa dança. A escritora e ilustradora Angela Lago dizia que virar a página é como virar a esquina, temos que nos encantar com o que o horizonte aponta. Senão, vamos seguir o caminho burocraticamente. O tempo das páginas na narrativa constrói ritmo também. Quando queremos que o leitor pare, mexemos na página, como na passagem em que o Macaco faz “toc toc!” no casco do Jabuti. Opa! Ali o leitor para. Não tem texto ali. Tenho formação como músico e componho até hoje. A ideia de que a rima e o refrão são gostosos de ouvir está dentro de mim. A rima pega pelas orelhas como se pega um coelho, como já disse o personagem de um filme do qual gosto. A rima tem a ver com o começo de tudo, com a poesia lírica que se cantava nos primórdios. Houve um momento em que as histórias ficaram muito longas e precisaram ser transformadas em prosa. Aqui temos a literatura de cordel, toda rimada, com quadras, sextilhas, martelo agalopado, diversas formas rimadas. A rima é como dar um carinho. É um presente para os ouvidos. 

NComo foi sua entrada no mundo da literatura infantil?

TMinha história com a literatura é uma história de amor. Em 2002 conheci a Ana Paula, com quem fiquei casado durante 14 anos. Na sala da casa da Ana tinha uma estante e, enquanto esperava ela se arrumar para sairmos, eu ia puxando um livro ali, outro acolá. E me surpreendia de, mesmo adulto, me emocionar com aquelas histórias. Anos depois ela teve a ideia de criar o projeto Roedores de Livros, no qual fui trabalhar como músico e comecei a observar como ela mediava a leitura, lia para as crianças e lia com as crianças. Aliás, a boa mediação é essa, estar junto com a criança. É uma conversa com ela. Fui aprendendo. Um dia não precisamos mais da música e tive uma vontade muito grande de que alguém pegasse um livro escrito por mim e lesse para uma criança. Desse sonho é que escrevi minha primeira história, em 2009. E olha o tamanho desse sonho agora, 11 anos depois. Milhares de famílias lendo uma história que fiz junto com a Ionit.

Tino Freitas: “A arte surpreende, mexe com você e te tira do lugar comum.” Foto: Thais Mallon

NComo foi o processo de criação e o diálogo com a artista Ionit Zilberman?

TFui mal acostumado desde o princípio. Quando tive a oportunidade de fazer meu primeiro livro, a editora me perguntou quem eu gostaria que ilustrasse. Fui logo na Mariana Massarani, que sempre foi incrível. Desde então fui buscando os artistas visuais. Estudo bastante, gosto de ler e indicar os livros dos colegas e tenho a percepção de que determinado texto fica melhor com um artista específico. Há tempos já queria fazer um livro com a Ionit. O trabalho dela tem uma identidade própria. Para este livro pensei logo na Ionit, porque ela já fazia trabalhos com colagens, bordados, tecidos. Ela tem uma relação muito legal com a construção no tecido. Falei com meu editor e tive a sorte de ele concordar. E aí vem a Ionit e surpreende ainda mais, porque quase todas as ilustrações são feitas no tecido. Ela pegou o tecido, passou gesso, pintou em cima, colocou para secar e depois fotografou. O livro, que aborda roupas e fantasias, foi feito em tecido. Tem um pouco de computação, claro, mas o processo é muito manual. Quem escreve para crianças tem que entender a força que a ilustração desempenha, tem coisa que deve ser dita através dela, para não ficar chato nem redundante. A página final do Jabuti com os livros é toda contada através do desenho. Quando a Ionit desenha o Palácio da Alvorada, ela está dizendo muita coisa, complementando o texto. Ela trouxe muitas outras ideias, com a autoria dela, e fez isso com muita maestria, foi mais do que generosa. Esse livro tem essa assinatura de dois artistas que se encontram para contar uma história que emociona crianças e adultos.

NVocê faz pesquisas antes de conceber um novo livro infantil? 

TNesse livro pesquisei os reis para decidir quais deles estariam presentes. No meu dia a dia, informalmente, estudo e leio muito. No momento estou pesquisando histórias para bebês de até 2 anos e o que é interessante contar nessa faixa etária. Então estou pesquisando Winnicott, fase oral, desfralde, a fase em que o bebê está agarrado ao paninho, objeto de transição, esses tópicos todos. Quando escrevi o livro Leila, sobre abuso sexual infantil, li depoimentos, fui ver o que a psicanálise fala da figura do abusador, se o abuso acontece dentro ou fora de casa e assim por diante. Mas o texto não pode ser uma pesquisa. Gosto de pensar que o que eu faço é literatura, e literatura é arte. Escrever um livro é fazer uma receita de bolo onde o estudo formal é o fermento, e são só duas colherzinhas. O estudo organizado é essa medida pequena, precisa do fermento, claro, mas na dose certa.

“Hoje falamos e discutimos muito mais a literatura infantil, percebendo-a como arte. Literatura infantil é literatura.”

NHá livros infantis que encantam crianças e adultos e atravessam gerações. Entretanto, ainda há uma mentalidade de que a literatura infantil é um gênero “menor.” O que acha dessa percepção?

TO problema está no sentido dúbio da palavra infantil. A Adélia Prado, quando lançou seu primeiro livro infantil, disse que a diferença entre um livro para criança e um livro para adulto é o tamanho. Mas ele tem que ser feito com o mesmo material, ele é feito de arte, de literatura. É infantil por conta do tamanho. Muitas vezes a pessoa pensa que infantil é ser bobo: “Ah! Vou engabelar aquela criança e vai dar certo”. Muita gente vai fazer essa literatura simplista, para engabelar a criança, e muita gente vai entender literatura infantil assim. Não! Infantil não tem nada ver com “bobo”, infantil vem da infância, e a infância está contida dentro do adulto. Hoje falamos e discutimos muito mais a literatura infantil, percebendo-a como arte. Literatura infantil é literatura.

NO que não pode faltar em um bom livro infantil?

TNão pode faltar arte. E arte surpreende, mexe com você e te tira do lugar comum. Emociona, fazendo sorrir ou chorar. A arte pode estar no texto, na ilustração ou no projeto gráfico. Ou no casamento disso tudo. Uma ilustração que vai além daquela coisa redondinha, perfeita, fofinha. É um texto que brinca construindo uma palavra nova, ou que vai acender uma lembrança. Ou é uma provocação e uma surpresa que aparece no final. E isso tem a ver com a pergunta anterior, do porquê o livro infantil às vezes parece menor. Acho que em qualquer gênero literário temos que ser artistas no livro. A arte é o pulo do gato, e esse é meu desejo como autor, apresentar ao leitor um pouco de arte. Está faltando arte no mundo.