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Boas lições

A internet que aproxima e abre portas

Jovens influenciadoras com deficiência narram suas descobertas e desafios nas redes sociais


A criadora de conteúdo Amanda Soares responde a comentários em seu perfil. Foto: Arquivo pessoal

Por Livia Piccolo, Rede Galápagos, São Paulo

A cultura dos influenciadores e criadores de conteúdo veio para ficar. O cenário é complexo: há pessoas ganhando palco propagando fake news enquanto outras prestam serviços valiosos à sociedade, abrindo conversas, possibilitando novos entendimentos sobre velhos temas e inovando na forma de se comunicar, informar e entreter. No segundo grupo estão os jovens influenciadores que têm alguma deficiência. 

Historicamente as pessoas com deficiência estiveram à margem da sociedade, sem poder transitar pelos espaços públicos e, muitas vezes, sem acesso aos direitos humanos básicos, como saúde e educação. A internet possibilitou que diversos jovens com deficiência mostrassem a cara e o corpo, reivindicando seu direito à fala e à existência plena. Imagens têm poder na construção dos valores e do imaginário simbólico de uma geração e, atualmente, circulam imagens diversas, positivas e inspiradoras de pessoas com deficiência. 

Influenciar é conversar
Em especial para as novas gerações, altamente conectadas, esses influenciadores são verdadeiros formadores de opinião. “Pessoas com deficiência podem falar sobre qualquer assunto, assim como as pessoas sem deficiência. Faço ativismo e falo sobre inclusão, mas tenho também outros interesses e procuro conversar sobre eles”, explica Amanda Soares, 21 anos, microinfluenciadora, escritora e professora de Salvador. Amanda começou a escrever na internet aos 13 anos, apenas para seus amigos. Hoje Amanda Soares (@arteamare) tem uma comunidade de mais de 24 mil seguidores no Instagram.

Amanda nasceu com paralisia cerebral causada por falta de oxigenação no momento do parto. “Isso afetou minha locomoção; eu não ando solta, mas é só isso. E não falo muito sobre a paralisia, porque acho que as pessoas têm que parar de focar na deficiência, e sim enfatizar a pessoa.” Ela acredita que é questão de tempo para que seu trabalho na internet também vire uma fonte de renda. “As marcas já entenderam que precisam de pessoas com deficiência. Agora precisam expandir esse trabalho e convidar influenciadores diferentes.”

Amanda Soares em uma sessão de fotos no começo de 2022. Foto: Arquivo pessoal

O valor das interações
As trocas, os diálogos e interações constituem um dos pontos altos da experiência nas redes sociais. “Pela minha escrita na internet, conheci muitas pessoas parecidas comigo e me senti menos sozinha. Fiz amigos maravilhosos e portas se abriram para mim, coisa que não aconteceria se eu não tivesse ousado me abrir”, conta Alice Casimiro, 23 anos, moradora do Rio de Janeiro e criadora do perfil A Menina Neurodiversa (@a_menina_neurodiversa). Amanda Soares concorda, dizendo: “Quando alguém começa a me seguir, procuro dar uma olhada para saber quem é. Gosto de pensar que eu influencio tantas vidas diferentes, pessoas com e sem deficiência”.

Alice no seu quarto, em um momento de escrita. Foto: Arquivo pessoal

Alice conta que pessoas neurodivergentes muitas vezes se expressam melhor através da escrita. “Eu não estava conseguindo fazer a minha monografia da faculdade de letras por causa de problemas de saúde mental, então minha orientadora sugeriu que usássemos textos do meu site. Essa ideia deu tão certo que vou finalmente poder me formar. Se eu não tivesse escrito sobre autismo na internet, não teria todo esse material que está sendo essencial para a minha conclusão de curso.”

Informação com entretenimento
Mariana Torquato, 30 anos, está por trás do maior canal sobre deficiência do Youtube, o Vai uma mãozinha aí?, com mais de 163 mil inscritos. Além de contar sua história de vida, a criadora realiza vídeos didáticos e informativos, ajudando na conscientização e educação do público em geral. Na maioria das vezes, com muito humor.

Pelo próprio nome do canal, iniciado em 2015, percebe-se que a criadora faz da risada uma ferramenta poderosa na sua comunicação — Mariana não tem o antebraço esquerdo. “A coisa que eu mais escondi toda a minha vida foi minha deficiência, para tentar ser uma menina como as outras. Ninguém te ensina a amar a si própria quando você é uma pessoa com deficiência”, diz Mariana. 

Assistindo aos conteúdos da influenciadora é possível aprender que deficiência não é o contrário de eficiência. O contrário de eficiência é ineficiência, e pessoas com deficiência são eficientes em muitas atividades. “Somos pessoas vivendo nossa vida, tentando dar um jeito nas coisas. Assim como todo mundo”, explica Mariana Torquato em um de seus vídeos.

Alice no dia da sessão de fotos para a formatura na faculdade de letras. Foto: Arquivo pessoal

Abrindo conversas
Outro nome forte é o da psicóloga Lorrane Silva, a Pequena Lô. A jovem de 25 anos produz conteúdos de humor desde 2015, mas viu sua popularidade crescer durante a pandemia. Lorrane nasceu com membros curtos por causa de uma síndrome associada à displasia óssea. Pequena Lô é uma das inspirações de Amanda Soares. “Pessoas de todos os tipos compartilham os vídeos da Pequena Lô, pois ela fala para um público muito amplo.” Assim como outros influenciadores e criadores de conteúdo, Amanda diz que em geral as pessoas não veem os indivíduos com deficiência como seres capazes de dar uma contribuição para a sociedade. “E nós podemos muito! Então quero mostrar o que eu penso, o que eu crio, o que imagino.” Ela traz reflexões diversas sobre corpo, amor, sexualidade, arte e outros assuntos.  

Alice também conta que se surpreendeu com o alcance de seus textos sobre autismo. “Eu gosto muito quando leio que meus escritos ajudaram alguém. É realmente emocionante e um privilégio ler coisas como ‘minha relação com meu filho mudou totalmente para melhor depois que passei a te acompanhar’ ou ‘você foi essencial na minha busca por um diagnóstico’. Isso não tem preço. Comecei o trabalho no intuito de atingir apenas pessoas próximas, mas acabei indo bem mais longe e ajudando pessoas que nunca vi presencialmente.” 

Luciana Viegas em uma palestra sobre autismo e acessibilidade. Foto: Arquivo pessoal

Caminhos que se abrem
Luciana Viegas, 28 anos, professora estadual em Várzea Paulista, ativista e criadora de conteúdo, é mãe de Elisa, quatro anos, e Luis, cinco, diagnosticado com autismo moderado a severo. A partir dessa descoberta, Luciana decidiu se entender melhor. “Comecei a lembrar de diversas experiências que tive na vida e passei a me perguntar se eu não teria, também, autismo.”

Ela iniciou uma investigação, foi atrás de especialistas e descobriu que diversas vezes, na infância e adolescência, havia sido negligenciada. “Só recebi meu diagnóstico de autismo adulta e decidi, então, externalizar tudo o que se passava comigo.” 

Desde o momento em que começou a se comunicar através das redes sociais e criou o @umamaepretaautistafalando, muita coisa mudou para Luciana. “Sou uma mulher negra com autismo, comecei a falar na internet para me entender e para servir como um farol para outras mulheres. Quero me expressar, ouvir outras experiências e construir uma comunidade.” Além de receber convites para palestras e aulas, Luciana conheceu mulheres negras autistas de outros países e iniciou novos estudos em sua área. “A internet me dá um campo de trabalho maior. Estou muito feliz com os caminhos que se abriram.” O alcance dos jovens com deficiência que se expressam na internet só cresce. Faltam rampas nas cidades, mas não faltam vozes autorais e fortes, decididas a transformar a realidade para melhor.