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CARLA DE MARIA – “O livro em braile é fundamental para a alfabetização da criança com deficiência visual”

A Fundação Dorina Nowill realiza traduções de livros para o sistema braile há mais de 70 anos, contribuindo para a autonomia e o desenvolvimento das pessoas com deficiência visual


Dez perguntas para
Carla de Maria
Gerente da área de Soluções em Acessibilidade da Fundação Dorina Nowill

Texto e traçado de desenhos com pontos de braile em cena do livro A Visita, de Antje Damm: títulos lançados pelo Leia para uma Criança ganham versão acessível feita pela Fundação Dorina Nowill. Foto:Galápagos

Por Lívia Piccolo, Rede Galápagos, São Paulo. Dramaturga, roteirista e redatora da Maternews

Carla de Maria é gerente da área de Soluções em Acessibilidade da Fundação Dorina Nowill e atendeu o programa Leia para uma Criança, do Itaú Social, quando teve início a parceria entre as duas organizações, em 2012. Além de contar a história da Fundação, nesta conversa a especialista fala sobre as etapas da tradução dos livros em tinta para o sistema braile. Prezando pela excelência e pelo respeito à forma artística dos livros infantis, o trabalho da Fundação Dorina Nowill contribui para que muitas famílias tenham acesso à literatura infantil. “Nosso objetivo é que o livro contribua para a educação, a autonomia e o desenvolvimento da pessoa com deficiência visual”, explica Carla de Maria. 

NNotícias da Educação – Como surgiu a Fundação Dorina Nowill?

CCarla de Maria – A Fundação Dorina Nowill para Cegos é uma instituição com mais de 70 anos. Ela começou com a história da fundadora, a pedagoga Dorina Nowill. Antes, chamava-se Fundação do Livro para o Cego. Tudo teve início com a necessidade da própria Dorina Nowill de ter acesso aos livros. Ela perdeu a visão aos 17 anos e queria continuar estudando. Começou a pesquisar sobre livros para cegos, viajar, fazer parcerias e, então, trouxe o conceito de voluntariado na produção de livros para deficientes visuais. Seu objetivo era ajudar na construção da autonomia das pessoas cegas. Ela queria que essas pessoas pudessem estudar e ter oportunidades na vida. Dona Dorina se formou em escola regular — na Escola Estadual Caetano de Campos, em São Paulo — fazendo uso dos livros em braile. Ela foi precursora desses livros no Brasil. Por meio de parcerias internacionais conseguiu montar a estrutura da Fundação. Temos 70 anos, mas por incrível que pareça foram poucas mudanças nesse período. Claro que houve inovações tecnológicas e de estrutura, mas nosso parque gráfico, nosso coração, é constituído pelas mesmas máquinas de 1940. Fizemos algumas adaptações, mas as máquinas que ela trouxe de fora ainda fazem parte do nosso trabalho até hoje. A história dela pulsa em tudo o que fazemos.

Carla de Maria: “Toda a sociedade ganha com iniciativas de inclusão”. Foto: Fundação Dorina Nowill

“A depender do livro, não é só traduzir; precisa adaptar. Um livro com muitas ilustrações, por exemplo, demanda descrição de imagens que acompanham o texto.”

NA tradução de livros para o braile é a principal atividade da Fundação?

CSim. Além da tradução dos livros para o braile, também temos outros serviços, atendendo a legislação sobre os direitos dos deficientes visuais. Temos estúdios onde gravamos os audiolivros, pois também fazemos livros digitais acessíveis. Os livros são um braço importante de sustentabilidade da Fundação, permitindo a existência da área voltada ao atendimento para a pessoa com deficiência visual. Atendemos gratuitamente as pessoas que nasceram cegas ou perderam a visão e que precisam de orientação e atendimento psicológico. Ajudamos na retomada da vida, na mobilidade, no uso da bengala — se for um recurso que a pessoa vai usar —, até no dia a dia, na cozinha. É uma área multidisciplinar. Também temos um corpo grande de doadores e mantenedores.

Páginas mais elaboradas são feitas a partir de matriz de alumínio, com pontos mais precisos: “A leitura do braile é tátil, a pessoa passa a ponta dos dedos e apreende o significado”. Foto: Fundação Dorina Nowill

NComo é o processo de tradução de um livro para o sistema braile?

CO processo tem uma cadeia produtiva e as máquinas são uma das etapas finais, como em outras editoras. Temos um setor editorial com editores e designers. Recebemos o arquivo original do cliente, em geral em PDF ou InDesign. Fazemos então a adaptação do conteúdo, ou seja, o editor realiza todas as marcações e adaptações para o sistema braile. A depender do livro, não é só traduzir; precisa adaptar. Um livro com muitas ilustrações, por exemplo, demanda descrição de imagens que acompanham o texto. Depois o material vai para o setor de revisão, que inclui leitores cegos e um vidente — ele faz o comparativo do livro em tinta com o que foi transcrito para o braile. Com a revisão finalizada, o livro vai então para as máquinas. Nesse momento há uma divisão. Nas máquinas que são históricas, o processo é em matriz de alumínio. Alguns são feitos dessa maneira, outros vão para a impressora digital. Quando o livro tem desenhos e mapas e precisa de uma elaboração maior, vai para a matriz de alumínio, porque o ponto do braile é mais preciso. Somos pioneiros em desenvolvimento de materiais acessíveis que trazem mapas e gráficos. Temos o maquinário e a expertise técnica.

NComo funciona o sistema braile?

CÉ um sistema universal composto de seis pontos. Há todo um alfabeto, a simbologia e os numerais. A adaptação é feita em papel offset 120 gramas. O vidente enxerga pontinhos em papel branco. Existe uma normativa que organiza a grafia, e na etapa de revisão a pessoa cega precisa ter domínio de toda a normativa. A leitura do braile é tátil, ou seja, a pessoa passa a ponta dos dedos e apreende o significado. Na Fundação Dorina Nowill também fazemos o formato tinta-braile, feito com uma fonte ampliada. O conteúdo está em tinta e também em braile. Esse formato contempla ao mesmo tempo o vidente e a pessoa com deficiência visual.

NQuantas pessoas estão envolvidas em todo o processo?

CPelo menos 40 pessoas. Ele precisa de várias mãos para acontecer, não é automatizado. Temos tecnologia, mas o processo depende de interação humana para que fique completo, bem-feito, com usabilidade para as pessoas com deficiência visual. Não funciona como o Google Tradutor, em que você coloca um texto em um sistema e leva para imprimir. Respeitamos a normativa e temos bastante cuidado com a descrição das imagens. Quem faz essa adaptação é uma pessoa. Queremos que quem tenha o livro em mãos realmente o entenda. Nosso objetivo é que ele contribua para sua educação e desenvolvimento.

NQual o tamanho de um livro em braile?

CO tamanho é variável. Livro literário é um tamanho, didático é outro. Na média eles têm 23 por 31 centímetros, mas há variações. 

“A coleção Leia para uma Criança é de livros literários; é uma delícia de fazer! Procuramos deixá-la o mais próximo possível do original, para preservar a identidade artística, respeitando as formas e cores dos livros.”

NQuanto tempo leva o processo de adaptação?

CPelo menos uns 60 dias. A parte editorial é longa, fazemos toda a adaptação do livro e precisamos também aprovar o layout com o cliente. A parte mais tranquila e rápida é a da gráfica, pois temos um equipamento robusto. Somos uma das maiores gráficas em capacidade produtiva em braile da América Latina; fazemos até 450 mil páginas por dia. O manuseio do material final toma algum tempo também. Fazemos o fechamento do livro e colocamos nos envelopes. E tem o armazenamento. Ele não é igual ao de uma editora que trabalha com tinta, porque se você coloca um livro em cima do outro, o pontinho amassa. O livro precisa chegar ao leitor com o alto-relevo preservado, senão a leitura fica comprometida.

NQuando começou a parceria com o projeto Leia para uma Criança, do Itaú Social?

CO projeto está conosco há vários anos. Eu fui a pessoa que recebeu o Itaú Social quando nos procurou, na época querendo entender melhor desde o conceito de acessibilidade até como poderíamos trabalhar juntos. Deu certo. A coleção Leia para uma Criança é de livros literários; é uma delícia de fazer! Recebemos o envelope com a coleção e fizemos um estudo para deixá-la o mais próximo possível do original. Essa era uma preocupação do Itaú Social, como preservar a identidade artística, respeitando as formas e cores dos livros. Chegamos a uma forma que atendeu aos padrões do projeto. Respeitamos muito os desenhos; afinal, são livros infantis. É bem legal ver como a ilustração casa com o braile. O livro final fica bem parecido com o material em tinta, só um pouco maior, pois eles aumentam de tamanho. Fazemos a seguinte conta: uma página de tinta representa pelo menos três páginas em braile. Isso é importante porque, às vezes, a pessoa acha que vai ficar exatamente igual, e não é assim. Ele precisa ficar harmônico e caber no envelope de envio. Mas essas diferenças respeitam a identidade visual dos livros originais. E eles são um sucesso! A recepção é sempre positiva e somos elogiados pelo projeto. Temos muito carinho pelo Leia para uma Criança e sabemos que os livros realmente chegam às famílias. Fazem diferença.

Produção de livros em braile: foco na usabilidade para as pessoas com deficiência visual. Foto: Fundação Dorina Nowill

NPor que não existem livros em braile nas prateleiras das livrarias?

CA questão da acessibilidade está tomando corpo. Hoje existe uma legislação, chamada Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (a Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015), que obriga o mercado editorial a se adequar e oferecer livros acessíveis. A situação geral melhorou bastante em relação à do passado. A legislação prevê que o livro acessível pode ser digital, então isso acaba levando as editoras para o e-book. O audiolivro é mais rápido e em conta para ser produzido. Já o livro em braile não está disponível no mercado como um todo, é uma produção cara e demorada. Ele acontece quando há uma demanda de uma empresa, um cliente, uma editora específica. Há um assistencialismo que acaba afastando-o de uma visão de mercado. Mas o livro em braile é essencial para a alfabetização da criança, por exemplo. Ela pode receber um audiolivro, mas quando está aprendendo a escrever precisa do contato físico, precisa do livro em braile. Tem um caminho a ser percorrido que passa pelo incentivo, pela informação, pelo investimento em tecnologia e por pessoas que olhem para os livros em braile e enxerguem uma possibilidade de eles estarem nas prateleiras, para o consumidor final. Com certeza a mãe de uma criança com deficiência visual vai gostar de comprar um livrinho em braile na livraria, na mesma época do lançamento do livro em tinta. 

NSe a pessoa com deficiência visual quiser ler um livro que ainda não tem a versão acessível há caminhos possíveis?

CSim, pelo Portal do Livro Acessível ela pode fazer a consulta dos títulos e comprar um determinado livro. A pessoa se comunica com a editora e ela tem um tempo para se preparar. Há movimentos que vieram beneficamente para as pessoas com deficiência. O Portal do Livro Acessível é um site que o Sindicato Nacional dos Editores de Livros  (SNEL) encabeçou para fazer a interface entre a pessoa com deficiência visual e a editora. Ele é totalmente acessível, inclusive foi feito em parceria com a Fundação Dorina Nowill. Por exemplo, digamos que um livro está na lista de best-sellers e a pessoa com deficiência visual quer lê-lo. Ela acessa o portal, faz a solicitação do livro e o portal entra em contato com a editora. Ela indica se tem a versão acessível ou não. Se não tiver, ela avisa quantos dias precisará para produzi-lo. O portal trata a pessoa com deficiência como consumidor. Toda a sociedade ganha quando iniciativas de inclusão efetiva acontecem.