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CARLA MAUCH – “O livro acessível é para todas as pessoas, com e sem deficiência”

Com o trabalho dedicado de equipes multidisciplinares, os livros acessíveis oferecem experiências poéticas singulares para crianças e adultos


Dez perguntas para
Carla Mauch
Pedagoga, pesquisadora de educação inclusiva e coordenadora-geral da organização Mais Diferenças — Educação e Cultura Inclusivas

Carla Mauch, da Mais Diferenças: “Pensamos sempre na perspectiva de incluir todos”. Foto: Arquivo pessoal

Por Lívia Piccolo, Rede Galápagos, São Paulo. Dramaturga, redatora da Maternews e mãe de Raul, de quatro anos

Dificilmente haverá quem negue o poder de uma boa história literária. A literatura é caminho para o acesso ao conhecimento e formação do espírito crítico. Entretanto, o acesso aos livros ainda é restrito no país, como apontou a última edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil. E, para que eles cheguem até as pessoas com deficiência, há mais barreiras ainda. “Todo livro pode e deve ter sua versão acessível”, diz a pedagoga Carla Mauch, coordenadora da associação Mais Diferenças, pesquisadora e profissional na vanguarda da produção de livros acessíveis no Brasil. 

O trabalho de acessibilidade na literatura está na interface da educação e da cultura e dá seus primeiros passos no Brasil. “Lá fora existe uma produção bem maior de livros acessíveis, mas ainda são separados por tipo de deficiência. Nós acreditamos em um livro para todos”, explica Mauch. Criar um livro acessível é um trabalho que envolve diversos profissionais e que aponta caminhos poéticos surpreendentes. Carla e sua equipe na Mais Diferenças são responsáveis pelas versões acessíveis do Programa Leia para uma Criança. Os livros da Coleção de 2020 (Com que roupa irei para a festa do rei? e A Visita), entre outros, estão disponíveis em versões audiovisuais com múltiplos recursos de acessibilidade, como textos e ilustrações originais da publicação, narração em áudio, descrição e animação das imagens, interpretação em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Esses livros acessíveis estão disponíveis para pessoas com deficiência.

Nesta entrevista Carla Mauch fala sobre sua trajetória profissional, as etapas de tradução de um livro acessível e o conceito de desenho universal no contexto da literatura.   

NNotícias da Educação Como começou sua trajetória profissional?

CCarla Mauch — Sempre trabalhei com pessoas com deficiência e comecei muito jovem, com 15 anos. Estou com 51 e só fiz isso na vida. Quando passei a trabalhar com essa pauta, ela era absolutamente invisível, ninguém entendia direito. Comecei com um estágio, naquela época não tinha muita graduação na área. Quando decidi trabalhar fiz um estudo adicional ao magistério, fui uma aluna precoce e com 15 anos tinha terminado o magistério. Só depois fiz pedagogia e educação especial. No meio desse curso abriu um concurso para a prefeitura de Porto Alegre; sou gaúcha. Passei no concurso para a primeira escola pública municipal em Porto Alegre para alunos especiais, a EMEEF Elyseu Paglioli. Eu fazia faculdade e já era professora. Essa escola foi importante porque na época só existia a Apae. Ela foi criada como um modelo de escola especial que contava com fisioterapeuta, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, todos os clínicos considerados profissionais nobres, além dos professores. 

NNessa época a mentalidade em relação à educação especial era outra?

CCom certeza! E a escola teve muita resistência para ser construída, pois ficava na divisa entre um bairro de classe média alta e um bairro de periferia. Os moradores do bairro rico deram as mãos em volta da escola porque não queriam que o terreno fosse desvalorizado por ter uma escola especial. Além disso, não queriam que os alunos “passassem deficiência” para seus filhos. Olha o contexto. Faz bastante tempo. Mas por outro lado parece que foi ontem. Ainda existia o jornal O Pasquim, e saiu até uma crônica, “Escola de Cristal”, porque ela ficava no bairro Cristal. Ao mesmo tempo tínhamos um grupo de professoras muito jovens que começou a se organizar. A Esther Grossi, uma educadora importante, era secretária de Educação na época e começou a falar de alfabetização. Passou a dizer que todas as crianças aprendiam, e fomos estudando esse tema. Começamos a nos mexer e o primeiro movimento que fizemos foi tirar todos os clínicos, porque era uma escola. Se as crianças precisassem de atendimento, elas iam para a saúde. Lá era a escola. Naquela época isso foi inovador e radical. A escola foi possibilitando muitas descobertas, estudos e novas perspectivas em relação à educação especial. 

“O desenho universal inclui quem historicamente ficou excluído e, ao mesmo tempo, melhora a experiência para todos. Quando pensamos o livro a partir do desenho universal, trata-se de uma obra que possa ser acessada por leitores com várias características, com e sem deficiência”

NComo surgiu a Mais Diferenças?

CFui para São Paulo para fazer um mestrado. Quando cheguei fui surpreendida porque as políticas de educação inclusiva eram mais frágeis. Mas fiquei e fui achando lugares. Fui trabalhar em uma organização que estava iniciando o trabalho de inclusão, o  Instituto Paradigma. Depois de um tempo rompemos e um grupo de profissionais que trabalhava no Paradigma criou a Mais Diferenças, hoje com 15 anos. Ela foi fundada por um grupo de profissionais com e sem deficiência, militantes da educação, direitos humanos e cultura. Desde a fundação definimos que trabalharíamos com educação e cultura, entendendo-as como um par complementar e fazendo projetos de assessoria para implementação de políticas públicas inclusivas.

Cena de “A visita”, livro escrito e ilustrado pela autora alemã Antje Damm e traduzido por Sofia Mariutti: versão acessível com locução, legendas, tradução em Libras e audiodescrição poética. Imagem: reprodução do vídeo

NComo começou o trabalho com os livros acessíveis?

CTemos uma editora desde o nascimento da Mais Diferenças. Publicávamos os livros técnicos para os educadores e percebemos que não existia quase nada de literatura acessível. Sempre trabalhando na interface da cultura e da educação, artes visuais, literatura, cinema. Começamos a pesquisar tudo isso empiricamente, pensando nas crianças com deficiência que frequentavam as escolas regulares mas não tinham material pedagógico. O Ministério da Cultura abriu um edital para fazer um projeto de acessibilidade em bibliotecas públicas e percebemos que o edital estava focado só na deficiência visual e um pouco de acessibilidade arquitetônica. Como que o Ministério da Cultura demora todo esse tempo e quando abre um edital só pensa nos cegos e não lembra de todos?! Entramos no edital com uma atitude de guerrilha, como resistência, dizendo “mas e livro para o surdo, e livro para quem tem deficiência intelectual, cadê?!”. Ganhamos o edital. Um dos eixos era a questão do acervo para as bibliotecas, mas não tinha quase nada, só livro em braile ou audiolivro. E como já tínhamos produzido muito conhecimento, trabalhando na perspectiva do desenho universal, começamos a pensar e sonhar em um livro para todos.

“É trabalho de uma equipe enorme, constituída por pedagogos e profissionais de letras e literatura. Sempre tem um leitor surdo e um intérprete. Um cego que geralmente é do mundo das letras também”

NO que é o conceito do desenho universal?

CO desenho universal é um conceito que nasce na arquitetura e no design e que foi muito importante para se pensar a acessibilidade arquitetônica, ou seja, espaços e serviços que possam ser pensados para o maior número de pessoas. A arquitetura está muito pautada no homem vitruviano, e o desenho universal começa a questionar isso. Se o espaço é para todos, uma escada não faz sentido, pois impossibilita o acesso para alguns. Já uma rampa todos podem acessar. Se as portas são mais largas, todos podem passar. A ideia é sempre abarcar o maior número de pessoas. O desenho universal inclui quem historicamente ficou excluído e, ao mesmo tempo, melhora a experiência para todos. E esse conceito foi migrando para outros campos e áreas do conhecimento, chegando à educação e à cultura. Quando pensamos o livro a partir do desenho universal, trata-se de uma obra que possa ser acessada por leitores com várias características, com e sem deficiência.

Versão acessível de “Com que roupa irei para a festa do rei?”: título escrito por Tino Freitas, ilustrado por Ionit Zilberman e adaptado com diversos recursos de acessibilidade. Imagem: reprodução do vídeo

NQual a forma de um livro acessível pensado a partir do desenho universal?

CEle tem um formato audiovisual. No audiovisual o livro tem texto escrito na tela, caso eu queira ler. Posso abaixar o som e ler. Ele tem narração, portanto se sou uma criança pequena, não alfabetizada (com ou sem deficiência), alguém lê para mim. O livro também tem narração em Libras, incluindo a comunidade surda usuária do sistema. Muitos deles não têm o português como primeira língua. Ele também tem paisagem sonora, trazendo vários elementos, ruídos, sons e trilha. E, ainda, a animação das ilustrações. Ou seja, esse livro pode ser acessado por qualquer pessoa. Nesses anos de trabalho fomos percebendo que a descrição das imagens presentes no livro — que a priori seria a forma para as crianças cegas construírem a imagem mental da história — também é muito legal para as outras crianças, porque cria uma relação entre texto e imagem, além das pausas e da paisagem sonora. Fomos vendo uma potência muito grande para todas as crianças, deficientes ou não. Tudo isso fazendo e pesquisando, de forma absolutamente empírica. Nossa perspectiva é que o livro tem vários recursos, e a depender da forma como a pessoa lê, ela vai acessar um ou outro recurso. Apostamos que esses recursos poderiam ser muito legais para todas as crianças. Então basicamente foi esse o nosso começo com os livros de literatura e com o programa Leia para uma Criança.

“As experiências estão se tornando cada vez mais raras. Essa palavra, de certa maneira, foi capturada, ela está por toda parte. Mas entendemos que a experiência é parar, olhar, perceber, sentir”

NQuais são as etapas desse trabalho de tradução?

CA primeira coisa é estudar a obra. Olhar e ler o livro em uma equipe interdisciplinar com pessoas com e sem deficiência. Esse estudo serve para encontrarmos o tom. Então começamos o processo de audiodescrição poética, ou seja, a descrição das imagens do livro. Depois trabalhamos com a narração em Libras. É uma equipe enorme, constituída por pedagogos e profissionais de letras e literatura, principalmente se vamos trabalhar um livro originalmente escrito em outra língua. A tradutora lê no original com a gente. Sempre tem um leitor surdo e um intérprete. Um cego que geralmente é do mundo das letras também. Não adianta ser só cego. Se a pessoa nunca leu um livro, a relação com a literatura não existe. Para produzir o livro acessível a equipe precisa ser formada por pessoas próximas do mundo da literatura e da arte, não pode ser só da acessibilidade. Esse é um cuidado que temos. A locução é sempre feita por atores e atrizes e prestamos atenção nas características do livro e no estilo da voz; não são sempre as mesmas pessoas que narram. No momento estamos fazendo o livro A mulher que matou os peixes, da Clarice Lispector. A atriz que fará a locução já fez várias peças sobre Clarice. É uma atriz que ama, vive e dorme com Clarice. A relação dela com o texto é diferente. Tem também toda a equipe de audiovisual e os músicos, pois produzimos trilha sonora inédita para cada um dos livros.

Início de Pedro vira porco-espinho, escrito e ilustrado por Janaina Tokitaka: “Dá para ficar muito tempo trabalhando com um livro, pois há muitas formas de ler o mesmo texto“, explica Carla Mauch. Imagem: reprodução do vídeo

NQual a duração média de um livro acessível no formato audiovisual?

CIsso depende muito. Mas, sem sombra de dúvida, quando começamos a trabalhar seja com um livro, com cinema ou com prática pedagógica inclusiva, vamos muito provavelmente lentificar o tempo. Porque vamos colocar muitos outros recursos. Inclusive fazemos uma defesa disso. Nesse mundo onde tudo é tão rápido, tudo passa, isso é importante. O conceito de experiência de Walter Benjamin, e depois do filósofo da educação Jorge Larrosa, que faz uma releitura do Benjamim, diz que experiência é algo que nos atravessa, um acontecimento que nos afeta. Temos percebido que as experiências estão se tornando cada vez mais raras. Essa palavra, de certa maneira, foi capturada, ela está por toda parte. Mas entendemos que a experiência é parar, olhar, perceber, sentir. Inclusive o texto Notas sobre a experiência e o saber da experiência, ensaio importante do Larrosa, foi nossa primeira tradução em Libras. Junto com o autor, há cerca de dez surdos e vários intérpretes. Demoramos oito horas para fazer o texto inteiro em Libras. O processo de tradução leva tempo. Mostra para um, para outro, entende qual é o ritmo, o tom. É um trabalho demorado. Eu brinco que ele não conversa muito com o tempo do mercado, porque ele é altamente artesanal. Tem um processo de desdobrar as possibilidades do livro, para que ele fique bem-feito. 

NComo se dá a relação com os autores dos livros nas traduções que vocês criam?

CCom O pequeno príncipe, posso explorar todas as possibilidades e recursos e deixar o livro acessível em aberto na internet, pois está em domínio público. Mas Com que roupa eu irei para a festa do rei?, por exemplo, é outra coisa, porque esbarra nos direitos autorais. O que fazemos acaba sendo uma interferência na obra. A legislação brasileira permite que a gente faça os desdobramentos do livro para garantir a leitura para todos, mas eles precisam estar fechados, ou seja, destinados só para o público com deficiência ou para os profissionais que trabalham com pessoas com deficiência. Deixamos sempre em aberto no nosso site os livros em domínio público com que trabalhamos. Mas os que têm direitos autorais é todo um outro caminho, porque nada disso existia; estamos desbravando o caminho dos livros acessíveis no Brasil. Às vezes demora para falar com a editora, com os autores. Por lei não precisamos da autorização deles, mas achamos importante sensibilizar a cadeia do livro para o que estamos fazendo, para a importância disso tudo e para as possibilidades poéticas e éticas de um livro que inclua o máximo de pessoas possível.

“Leo e a baleia”, escrito e ilustrado por Benji Davies e traduzido por Marília Garcia: “Entrei tanto na história que foi impossível não me apaixonar”, diz Carla Mauch. Imagem: reprodução do vídeo

NQual o livro do Leia para uma Criança teve uma tradução especialmente marcante para você?

CFizemos quase todos os livros do Leia para uma Criança. Ele existe há dez anos e começamos há três, então pegamos os livros das edições anteriores. Para acessá-los é preciso ou ter deficiência, ser da família de alguém que tem deficiência ou trabalhar na área. Os livros ainda estão um pouco escondidos porque estamos entendendo ainda como fazer a comunicação deles. Fizemos algumas ações com os livros do ano passado de forma virtual por causa da pandemia. Com os demais fizemos muitas mediações presenciais. Tenho muitas memórias do processo de tradução e das mediações de leitura do Léo e a baleia. Hoje amo muito mais o livro do que quando o li pela primeira vez. Entrei tanto na história que foi impossível não me apaixonar. Fizemos muitas ações de mediação de leitura, e as possibilidades junto às crianças são sempre incríveis. Qual o tamanho de uma baleia? Vamos esticar 18 metros de barbante no pátio? Quantas crianças precisamos ter para alcançar o tamanho de uma baleia? Trazemos outras ações no momento de leitura. Com Pedro vira porco-espinho, fizemos um boneco com vassoura de piaçava, tal qual o personagem. Dá para ficar muito tempo trabalhando com um livro, pois há muitas formas de ler o mesmo texto. E para nós está claro que essas ações são para todas as crianças. Claro que às vezes fazemos uma ação só com crianças com deficiência. Mas pensamos sempre na perspectiva de incluir todos.