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“A inclusão acontece na prática, não no discurso”

Mães de crianças com deficiência contam suas experiências em escolas regulares


Gael em uma atividade sensorial em casa, em Santo André (SP): antes de fazer a matrícula, sua mãe procurou saber se a escola realmente dá valor à diversidade. Foto: Arquivo pessoal.

Por Livia Piccolo, Rede Galápagos. Roteirista, dramaturga e redatora da newsletter Maternews

Escolher uma escola para os filhos é um momento especial para as famílias. Pairam dúvidas, expectativas e o sonho de que a criança desabroche plenamente com o cuidado e atenção dos professores e funcionários da instituição, seja ela pública ou privada. Se na teoria a escola deve ser o espaço de acolhimento e formação do futuro cidadão, na prática isso pode ser desafiador por razões diversas. O aluno pode não se adaptar aos métodos pedagógicos e os desafios diários aparecem. Se essa é uma realidade para as famílias neurotípicas, para as que têm crianças com deficiência pode ser uma verdadeira batalha. “Quantas vezes já não encontrei mães de crianças com deficiência que começam a chorar quando o assunto é escola”, diz Silvia Colodel, mãe de Davi, seis anos, matriculado na Escola Municipal Edgar Marochi, em Campo Largo, no Paraná. 

Experiência positiva na escola regular
Davi tem apraxia da fala e transtorno do espectro autista (TEA). Ele ainda não fala e sua mãe usa comunicação alternativa no cotidiano em família. Davi experimenta a escola como um lugar de desenvolvimento. “Ele é sempre bem recebido lá e está sentindo falta do convívio com outras crianças desde que começou a pandemia”, conta Silvia. Atualmente ela busca as atividades na escola para que o filho possa fazer em casa, além de acompanhá-lo nas aulas remotas. “A criança com autismo precisa da rotina, e todo dia de manhã eu sento com ele para fazermos as atividades. Quando eu demoro um pouco mais, Davi pega o lápis ou o computador e fica me esperando. Ele realmente gosta da escola e das experiências que ela proporciona.” 

O comprometimento dos profissionais
O que explica a experiência alegre e bem-sucedida de Davi, contrariando as expectativas, uma vez que a realidade escolar das crianças com deficiência caminha a passos lentos no Brasil? Segundo Silvia Colodel, a disponibilidade e o comprometimento dos profissionais são fundamentais. “A diretora e a pedagoga são muito abertas, eu acabo até sendo uma consultora para elas. O Davi também tem uma tutora bem preparada, que colabora com a professora titular.” 

Davi realiza uma atividade enviada pela Escola Municipal Edgar Marochi, em Campo Largo (PR): a preparação dos educadores faz diferença em seu desenvolvimento. Foto: Arquivo pessoal

A prática escolar
O que torna uma escola realmente inclusiva? Quem responde é Tânia Magali Santos, mãe de Gael, três anos, e professora infantil com vários anos de experiência. Gael tem síndrome de Down e Tânia e sua esposa começaram recentemente a visitar algumas escolas do município de Santo André, em São Paulo. “Em primeiro lugar, a escola precisa ter diversidade, ou seja, no quadro de alunos há crianças negras, autistas, com síndrome de Down, filhos de mãe solteira, de dois pais, duas mães? Então ela é inclusiva.” Mas esse é apenas o primeiro passo. “É preciso também acompanhar de perto para ver como se dá o dia a dia; a inclusão acontece na prática e não no discurso.” Tânia explica que as famílias precisam ver a escola em funcionamento. “Não basta uma conversa com a diretora; é necessário observar se os professores adaptam as atividades para que todas as crianças possam realizá-las.”  

Adaptar as atividades: o grande desafio
A história escolar de Francisco, nove anos, mostra os enormes desafios da inclusão quando o assunto são atividades adaptadas. Francisco tem síndrome Arnold-Chiari II, uma malformação congênita rara. “Ele compreende tudo o que falamos, mas tem a fala comprometida”, explica sua mãe, Maria Rita Vieira Fiaukovski. “Entretanto, sabe se comunicar bem. Quando não entendemos suas palavras, ele usa gestos e dá certo.” Francisco frequenta a vida escolar desde o maternal, quando estava matriculado em uma escola particular. “Quando as crianças são pequenas, não vemos exatamente a precariedade da inclusão porque as atividades são todas muito lúdicas”, explica Maria Rita. 

Ela percebia o filho socializando e aprendendo pela repetição, imitando as outras crianças. Quando chegou a hora de ingressar na primeira série do fundamental, tudo mudou. “O material era todo apostilado, nada foi adaptado para ele. Francisco não era um aluno de inclusão, era só mais um na sala. Fomos nos frustrando muito. E naquele momento, talvez por imaturidade nossa, não brigamos pelo nosso direito à inclusão. Acabamos mudando para a escola pública.” Maria Rita relata problemas com a escola em que ele estava matriculado em Campo Largo no primeiro ano da pandemia. “A professora de educação física enviou uma atividade em que ele tinha que pular.” Ela acabou trocando de escola e conta que, mesmo assim, ainda há muitos desafios. 

Francisco na Escola Municipal Madalena Portella, em Campo Largo (PR) desde o maternal a mãe procura transpor sua luta pela inclusão na escola regular. Foto Arquivo pessoal

É preciso melhorar
O sentimento de exclusão na escola é frequente para as famílias de crianças com deficiência. Silvia Colodel conta que Davi foi rejeitado por um centro municipal de educação infantil quando era menor. “Disseram que não era lugar para ele. Quando fui procurar a primeira escola, eu senti medo da rejeição. Felizmente fui acolhida.” Muitas vezes as crianças com deficiência acham que o problema está inteiramente com elas. 

Foi o que aconteceu com Francisco. “Na pandemia ele só foi entender que eu não o estava levando para a escola no final do ano de 2020”, diz Maria Rita, sua mãe. “Ele achava que o problema era ele, não entendia que a escola não tinha se adaptado para recebê-lo de forma segura.” Mesmo com todas as dificuldades e o sentimento de exclusão, Francisco gosta da convivência com as outras crianças. “Ele se apega a quem é amoroso com ele”, diz a mãe, reforçando que é preciso perseverar diante de tantos desafios e continuar na luta pelos direitos de inclusão de Francisco na escola regular.

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