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Responsabilidade compartilhada amplia a inclusão

Descentralizar o cuidado e promover formação para gestores, professores, merendeiras, motoristas, cuidadores e porteiros incrementa a participação de crianças com deficiência na escola


Em fase de alfabetização, Miguel realiza atividade remota e é elogiado pela professora Simone Martins, em Itapevi. Foto: Divulgação do Gaee de Itapevi

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

Quando se fala em inclusão, as maiores barreiras a serem ultrapassadas são as atitudinais. Se ainda por cima forem repetidas, as atitudes levam a modos de fazer e a processos que se consolidam e viram padrão. Não foi diferente na Secretaria de Educação de Itapevi, município da região metropolitana de São Paulo, em que o Gerenciamento de Atendimento Educacional Especializado (Gaee) tinha dois hábitos: centralizar todas as informações sobre o tema e dar ênfase aos diagnósticos médicos na hora de receber as crianças com deficiência e suas famílias. “Foi preciso virar uma chavinha dentro do setor para então provocar a mudança na secretaria como um todo”, rememora Malu Sobreira, da equipe técnica do Gaee. Quem fez a área se repensar foram as formadoras do Instituto Rodrigo Mendes (IRM), parceiro técnico para desenvolvimento da tecnologia educacional Gestão inclusiva: Pessoa com deficiência, disponível no site Melhoria da Educação. 

“A rede de Itapevi atende um número alto de crianças e adolescentes com deficiência e contratou professores de Atendimento Educacional Especializado (AEE) por concurso, isso durante a pandemia. Mesmo assim, como muitas outras redes de ensino, ainda trabalhava com algum viés de integração”, analisa Cecília Barreto, da equipe de formação do IRM. Integração, cabe explicar, é quando o aluno precisa se adaptar ao espaço, ou seja, só vai à escola se tem condições de ir. A inclusão de fato acontece quando a instituição se organiza para receber todos, sem exceção, removendo barreiras.  

Os encontros de formação coordenados pelo IRM no município paulista começaram com a equipe do Gaee, mas depois envolveram 70 profissionais, da secretária ao funcionário administrativo, da nutricionista ao motorista, o que garantiu uma diversidade de olhares sobre as questões de inclusão. Eles foram divididos em quatro grupos e construíram planos de formação e um protocolo de atendimento para ser implementado na rede. “O mérito das formadoras do IRM foi o de colocar uma pulguinha atrás da orelha, fazer a gente repensar o trabalho que havia tanto tempo era igual”, observa Ariane Martins da Cunha, professora que faz parte da equipe técnica do Gaee desde 2019. Funcionava assim: toda vez que recebia da escola o laudo da criança, o Gaee planejava a inserção, marcava uma visita para conhecer a família e falava sobre terapias e outros serviços a que ela tinha direito. Desse modo, os pais procuravam direto a secretaria. “Inconscientemente, tirávamos a responsabilidade da escola. Começamos a trabalhar com gestores escolares para eles construírem o vínculo inicial com a família”, reconhece Ariane. 


Educação inclusiva na prática

A flor colorida ilustra as dimensões da educação inclusiva defendidas pelo Instituto Rodrigo Mendes (IRM), parceiro que realizou as formações na rede de educação de Itapevi, para a co-construção da tecnologia educacional Gestão inclusiva: Pessoa com deficiência. Essa imagem faz parte do livro Educação inclusiva na prática, que está disponível aqui.


Sandra Mara Robles Domingues é professora em Itapevi desde 1998, tem experiência em educação especial e há três anos lidera o Gaee. Segundo ela, um dos paradigmas quebrados nos encontros de formação foi o de que só os especialistas são detentores do saber. Transmitida a ideia de que todos os profissionais da escola são responsáveis pela educação especial e de que é possível se preparar ao longo do caminho, vale a pena buscar recursos e ferramentas pedagógicas para acessar cada situação. “A consultoria do IRM permitiu aos participantes desconstruir a visão assistencialista para com esses estudantes. Nosso papel é o de derrubar barreiras e pensar maneiras de favorecer a aprendizagem, pois toda pessoa é capaz de aprender”, explica Sandra. 

A educação inclusiva não está mais em disputa nas redes públicas brasileiras, já que é prevista em lei. “O que ainda não temos é a garantia de aprendizagem desses estudantes. É preciso mudar a ideia de que a criança com deficiência vai à escola para se socializar e que o professor não está preparado para lidar com ela”, ressalta Katia Cibas, formadora do IRM. “A tecnologia educacional (TE) vem provar que a educação especial não é um bicho de sete cabeças quando se respalda em trabalho colaborativo.” 

Matheus, de oito anos, nunca pôde ir à escola. Durante a pandemia, sua professora da sala de AEE o fez conhecer a professora da sala regular por meio da tecnologia. Foto: Divulgação do Gaee de Itapevi

Rever as práticas para fazer diferente
Para a rede de Itapevi, o resultado dos encontros — que em 2020 foram virtuais — levou a vários frutos. “Quando a comunidade escolar entende que o aluno com deficiência precisa de ações no dia a dia e não é responsabilidade só do Gaee, mas sim da rede toda, isso empodera a escola. Estamos aqui para apoiar e muitos professores nos procuram, contam o que fazem, perguntam se sua postura está correta”, relata Ariane, uma das oito pessoas que compõem a equipe técnica do Gaee. No primeiro semestre de 2021, as escolas de Itapevi atendiam mais de 430 crianças e adolescentes com deficiência, público ao qual se destina a educação especial; esse número varia, pois chegam laudos diariamente à secretaria. Um passo importante para a rede foi enfocar as necessidades do aluno, e não a patologia. “Aprendemos a colocar a pessoa na frente da deficiência. Ele não é o autista fulano de tal, ele é o João, que tem seus gostos e preferências e sua forma de aprender”, explica Malu. 

Não faltam desafios a serem vencidos, e de diferentes magnitudes. Com seus processos cognitivos preservados, aos oito anos, Matheus nunca foi à escola. Devido a seu quadro motor, a equipe médica não aconselha que ele frequente a instituição. Atendido em casa pela professora da sala de recursos, está bem encaminhado na alfabetização, mas não conhecia sua professora de classe. “O menino só se comunica pelos olhos, mas a profissional de AEE não só bolou estratégias para que ele aprendesse usando um iPad adaptado, como chamou sua professora para conhecê-lo on-line”, conta Malu. O encontro, que empolgou a equipe do Gaee durante a pandemia, só foi possível por meio da tecnologia. As professoras da sala de AEE trabalham no contraturno e geralmente nem conhecem a professora da sala comum. Além de aproximar todos — inclusive Matheus de um colega em uma atividade de festa junina —, a tecnologia mostrou a importância de juntar forças, trocar ideias e planejar estratégias diferenciadas. “O período foi marcado pela interlocução entre a professora de AEE e a da sala comum, mesmo de forma remota, e a continuidade dessa colaboração, pois vale pensar em recursos pedagógicos e atividades para integrar o aluno às outras crianças”, comenta Katia, formadora do IRM. O ideal é que essas professoras passem a planejar em conjunto a favor de uma aprendizagem mais lúdica e interativa, que promova o acesso ao currículo para todos os estudantes. 

Acompanhar de perto, observar e mediar as reflexões e as mudanças de prática junto à equipe da rede é tarefa dos consultores. O percurso formativo no site do Melhoria da Educação, mesmo sendo autoinstrucional, insere perguntas inquietantes. “A reflexão sobre a gestão escolar inclusiva precisa dialogar com a realidade do território. A ideia é pensar em soluções para questões concretas de forma criativa, olhando para os potenciais de cada rede”, explica Cecília, do IRM. A semente deixada por questionamentos e discussões já foi plantada na Secretaria de Educação em Itapevi. Quem embarcar na plataforma digital vai poder customizar seu caminho de aprendizagem, analisando e repensando o que faz sentido e o que não faz, apoiado em um diagnóstico da rede de ensino. Mas todo o esforço investido traz resultados (veja os esperados no quadro a seguir), como bem sabem todos os bons gestores. Quem se beneficia não são só os alunos com deficiência, mas toda a comunidade.  

Três tempos


  • Resultados de curto prazo: diagnóstico e análise situacional da rede de ensino produzidos; plano de formação para educadores da rede definido e acordado na Secretaria de Educação (SE); fluxo do Atendimento Educacional Especializado (AEE) sendo discutido na SE; todos os departamentos da SE articulados e alinhados conceitualmente sobre inclusão; processo de monitoramento e avaliação da tecnologia educacional (TE) realizado com correções de fluxo e melhorias implementadas;
  • Resultados de médio prazo: profissionais da rede atuando na perspectiva inclusiva, considerando múltiplas formas de aprendizagem; rede de apoio com fluxo de atendimento elaborado e estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação do município mapeados; educação especial na perspectiva inclusiva refletida nos projetos político-pedagógicos (PPPs) das escolas de forma transversal; equidade e inclusão como princípios de toda a SE;
  • Resultados de longo prazo: todas as crianças, jovens e adolescentes com deficiência em idade escolar matriculados na rede de ensino; garantia de participação e aprendizagem para todas e todos; sucesso escolar ampliado para todos(as) os(as) estudantes.  

Fonte: Tecnologia Educacional Gestão inclusiva: Pessoa com deficiência