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Retorno às aulas depois da vacinação

Com adultos da aldeia vacinados, a expectativa de ter os alunos de volta à sala de aula anima o professor de matemática Magno Amaldo da Silva, da escola indígena Kurâ Bakairi, em Paranatinga, Mato Grosso


Milena Makino, filha do professor Magno, na entrada da aldeia em Paranatinga (MT): retorno à sala de aula depois da vacinação dos adultos. Foto: Arquivo pessoal

Por Lidiane Barros, Rede Galápagos, Cuiabá (MT)
Depoimento de Magno Amaldo da Silva, professor de matemática da Escola Estadual Indígena Kurâ Bakairi, da Aldeia Pakuera, em Paranatinga (MT)

A vacina trouxe de volta a esperança ao nosso território, onde vivem pouco mais de 800 pessoas. Depois de meses angustiantes, em que perdemos oito pessoas e outras 120 foram contaminadas com o coronavírus, agora nos sentimos um pouco mais seguros, mas seguimos vigilantes. Sou da etnia bakairi e a minha aldeia é a Pakuera, localizada na Terra Indígena Bakairi, em Paranatinga (a 411 km de Cuiabá). Atendemos, em nossa escola, alunos de aldeias vizinhas e de fazendas do entorno. Em dois turnos, são mais de 200 estudantes. Nesta terra indígena, com área de mais de 61 mil hectares, há outras duas escolas.

A Secretaria de Educação de Mato Grosso determinou que as aulas do ano letivo de 2021 sigam no formato remoto, principalmente por causa da alta de casos da Covid-19 nas cidades. E a falta de ônibus escolar agora durante a pandemia inviabiliza o acesso de estudantes de aldeias localizadas a mais de 40 km da nossa, bem como de fazendas do entorno. Desde 8 de fevereiro retomamos aulas presenciais para crianças e adolescentes que estão mais próximos da gente e que conseguem vir a pé. Os demais continuam tendo como único recurso as aulas remotas e apostilas para as atividades. Normalmente, nossas turmas têm pouco mais de dez alunos. Assim, dá para manter o distanciamento, ainda mais diante da ausência física de boa parte deles. 

Tomamos essa decisão junto com os pais. Afinal, se todos os dias convivemos no mesmo espaço, agora, com a vacinação, poderíamos ao menos reduzir os danos. Como pouquíssimas famílias têm celular e internet, sem as aulas presenciais o tempo perdido se avoluma. 

Mesmo com a força-tarefa de professores que elaboravam exercícios, imprimiam a apostila, realizavam plantões pelo WhatsApp e a atuação do diretor, que ainda passava de casa em casa deixando e recolhendo as apostilas, a ausência da interação fez com que muitos abandonassem o ano letivo. 

Professor imunizado: Magno já tomou a segunda dose da vacina, assim como todos os outros adultos da aldeia. Foto: Arquivo pessoal

Estamos tentando contornar a situação; afinal, é um tempo que não vamos recuperar. Quem vem do 5º ano para o 6º ano, por exemplo, vai ter que se esforçar muito. Assim como quem estava no 9º ano em 2020 e agora adentra o ensino médio. 

O que vimos é que os alunos estão bastante animados e que, além de buscar o convívio em sala de aula, desejam muito compensar o ano passado. E do nosso lado, dos professores, sabemos que será um ano em que teremos que nos empenhar ainda mais.  

Quando eu tinha 15 anos, na década de 1960, fomos para Brasília. Meu pai, de ascendência negra, era funcionário da Polícia Rodoviária Federal e, transferido para a capital do país, levou toda a família. Minha mãe, então, aproveitou para fazer um curso de enfermagem. Cursei todo o ensino fundamental e o médio na cidade. Parte em escola  pública, parte em escola particular com bolsa.  

Foi assim também na Universidade Católica de Brasília (UCB), onde conquistei uma bolsa integral para estudar economia. À época, início dos anos 1990, essa área estava em expansão. Hoje, aos 50 anos, completo 25 anos de graduação. 

São 25 anos lecionando na aldeia. Voltei para Pakuera logo depois de formado e comecei como professor de 1ª a 4ª série. Por causa do meu conhecimento acadêmico, à época me tornei também uma espécie de consultor da aldeia para assuntos burocráticos. Se tinha papelada para ver, era tudo comigo. Por fim, me tornei professor de matemática. 

Foi por esse mesmo motivo que agora, durante a pandemia, cursei outra faculdade, desta vez à distância. Acabo de conquistar a licenciatura em matemática. Quando as crianças dormiam — tenho dois meninos e duas meninas na faixa entre os oito meses e os 13 anos —, eu aproveitava para estudar.

Estou me aprimorando para poder atender bem meu povo, garantir melhores condições de vida para as crianças e adolescentes. Quero que, assim como eu, eles possam estudar e, tendo o conhecimento como aliado, possam investi-lo em nossa nação. Vale lembrar, as crianças das escolas indígenas precisam se empenhar bastante na sala de aula, pois, além das aulas comuns à grade curricular dos centros urbanos, como matemática, ciências, geografia e história, têm também aulas especiais que visam a conservação da nossa cultura. 

Eles estudam, além do português, por exemplo, a língua materna. É por isso que em nossa equipe, de 16 professores, todos são bilíngues. Têm ainda aulas de tecnologia indígena, práticas agroecológicas, culturais e de sustentabilidade, além de ensino religioso, com foco na cosmologia de cada povo.

Enfim, os desafios não são poucos. Sabemos que há muita coisa ainda para enfrentar, principalmente na tentativa de nivelar o aprendizado desses alunos, sem contar o esforço redobrado que teremos, físico e mental. 

Mas a escola é um dos núcleos principais de nossa aldeia, tendo sido a partir dela que nossa comunidade cresceu. E se há uma coisa que eu tenho em mente para me preparar para este novo cenário, certamente é ter o domínio das tecnologias. 

Meu próximo passo nessa batalha diária de ser um professor em meio a uma pandemia, em que tantos alunos precisam da nossa presença, mesmo virtual, é aprender ferramentas que possam nos conectar. Nos aproximar a tal ponto que essa distância não seja um muro que os afaste do conhecimento. 

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