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Por uma educação escolar indígena intercultural e diferenciada

Professora do Amazonas dedica-se à defesa de direitos, à inclusão de valores indígenas no processo educacional


Professora Alva Rosa Lana Vieira: a luta dos povos indígenas é pela educação diferenciada e intercultural. Foto: Arquivo pessoal

Por Jullie Pereira, Rede Galápagos, Manaus (AM)
Depoimento de Alva Rosa Lana Vieira, professora indígena, participante do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena e do Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas

Sou Alva Rosa Lana Vieira, do povo tucano, nascida no ano de 1974, em um dos afluentes do rio Negro, o rio Waupés, em um local chamado Iauaretê, fronteira com a Colômbia. O distrito de Iauaretê é conhecido como “cidade dos índios” e é um dos maiores distritos indígenas do município de São Gabriel da Cachoeira.

O município de São Gabriel da Cachoeira está localizado no noroeste do estado do Amazonas, na fronteira entre Brasil, Colômbia e Venezuela. Limita-se com os municípios de Japurá e Santa Isabel do Rio Negro. Possuímos a maior diversidade étnica de indígenas do país. Aqui vivem 23 povos indígenas, falantes de 19 línguas, pertencentes a quatro famílias linguísticas: tucano oriental, aruaque, macu e língua geral.

Em 1973, pelas dificuldades encontradas, entre elas a falta de emprego e de acesso à educação escolarizada, meu pai migrou para a sede do município. Depois que nasci, minha mãe também se mudou para se juntar ao meu pai e dar condições de estudos aos filhos. Assim, enfrentaram uma nova realidade. Aos seis anos de idade fui alfabetizada no Colégio São Gabriel, administrado pelas missionárias salesianas da congregação Filhas de Maria Auxiliadora. Cursei ali toda a educação básica, nos anos de 1980 a 1992.

Mesmo distante das minhas raízes, nunca perdi o contato com a minha família e com o meu povo. Sempre fui ligada às minhas origens e, durante as férias escolares, quando possível, estava em Iauaretê. 

Sempre fui envolvida com o movimento dos professores indígenas. Em São Gabriel da Cachoeira, participava do Conselho dos Professores Indígenas do Rio Negro (COPIARN). Em 2010, fui indicada e eleita pelos professores indígenas a assumir o Conselho dos Professores Indígenas da Amazônia (COPIAM). Também fui uma das fundadoras do Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas (FOREEIA), que culminou na criação do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena (FNEEI).

Para nós, indígenas, toda a escola foi um campo de luta. Nós temos três lutas muito fortes: terra, educação e saúde. Então tivemos que aprender a falar outra língua para dialogar com não indígenas. Mas nós queremos uma educação que possa valorizar nossa língua, nossos costumes; nós lutamos muito por uma educação diferenciada, específica, intercultural, justamente conhecendo os dois mundos, indígena e não indígena. 

Queremos, sim, que os indígenas estejam na universidade, mas que a universidade apresente esse nosso pensar também, sem deixar de lado toda a nossa cosmologia. É muito difícil para o sistema de ensino compreender que nós queremos que ele esteja dentro dessa valorização, mas aos poucos estamos conseguindo. 

Aqui no Amazonas hoje temos uma matriz curricular intercultural que foi aprovada no conselho estadual de educação escolar indígena. Então aos poucos, muito aos poucos, a gente vai conseguindo.

A atual conjuntura é muito ameaçadora aos direitos dos povos indígenas no país. Quando se trata da Política de Educação Escolar Indígena, são muitos desmontes e retrocessos que violam os direitos conquistados e assegurados em vários dispositivos legais brasileiros e internacionais. Com isso, não temos como parar de lutar diante de tantas incertezas das futuras gerações indígenas. Minhas origens e minha história de vida pessoal e profissional revelam a minha bandeira de luta: o direito a uma Política de Educação Escolar Indígena Intercultural e pelo bem viver dos povos indígenas. 

Atualmente faço parte do Fórum de Educação Escolar Indígena do Amazonas e também do Fórum Nacional de Educação Escolar Indígena, que atua em prol da Política de Educação Escolar Indígena dos povos indígenas do Amazonas e do Brasil. 

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