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Etnomatemática: a ciência do pertencimento

Professora em escola quilombola no Mato Grosso, Claudicéia usa práticas e tradições culturais da comunidade para ensinar matemática


Durante a pandemia, a professora Claudicéia fez plantão na escola para tirar dúvidas dos alunos. Nesta selfie, com os estudantes Luzia Maria e João Herrera. Foto: Arquivo pessoal

Por Lidiane Barros, Rede Galápagos, Cuiabá (MT)
Depoimento de Claudicéia Celeste da Silva, professora de Matemática na Escola Estadual Tereza Conceição de Arruda, no Quilombo Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento (MT)

Com pouco dinheiro, o que temos de fazer para sobreviver? Calcular bem como vamos usá-lo. Na minha casa foi sempre assim. Éramos em quatro; precisávamos pensar muito bem em como distribui-lo. Para ter e não faltar. Nossa Senhora do Livramento, a 42 km da capital mato-grossense é a cidade onde nasci e vivo. Saí por poucos anos para fazer a faculdade de ciências matemáticas, tamanha a influência que o malabarismo diário de sobrevivência exerceu sobre mim. Toda vida estudando em escola pública. Entre os 11 e os 14 anos já me sobressaía nas aulas de matemática e com outras três colegas formava um grupo que, além de se ajudar, auxiliava outros alunos, voluntariamente. 

Logo que concluí a faculdade dei aulas em uma escola pública em Várzea Grande, cidade próxima a Cuiabá. Foi breve, pois tive um insight e decidi voltar à minha cidade: “Preciso fazer algo por ela”, pensei. O primeiro lugar em que dei aula foi a escola José de Lima Barros, a 75 km da sede do município, na zona rural. Logo, realizei a contagem de pontos e consegui ingressar na Professor Feliciano Galdino, dentro da cidade. Foi assim que entre os anos de 2004 e 2009 circulei de ponta a ponta. Por fim, me estabeleci na Escola Tereza Conceição de Arruda, na comunidade quilombola Mata Cavalo. 

Resolvi investir no ensino da etnomatemática para despertar nos meus alunos a mesma sensação de pertencimento que senti ao retornar e para que, assim como eu, percebam a matemática nas mais diversas situações do cotidiano. Por meio da ênfase nas práticas culturais das comunidades tradicionais, eles têm aulas mais descontraídas. O conteúdo é absorvido intuitivamente. Esse trabalho é ancorado na Lei 10.639/03, que estabelece a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira dentro das disciplinas que já fazem parte das grades curriculares dos ensinos fundamental e médio.  

É uma grande inspiração para mim o trabalho de um teórico pioneiro do ensino da etnomatemática, Ubiratan Ambrósio. Ele realça o poder da educação como ferramenta de resistência, conferindo ao ensino da matemática um caráter de instrumento capaz de reverter a opressão. Afinal, segundo Ubiratan, cada grupo cultural tem suas formas de “matematizar” e cada criança deve ter suas particularidades respeitadas. Ele defende que todo o passado cultural da criança deve ser respeitado, pois só assim ela se doará mais. Ao perceber que suas origens não só são aceitas por seu mestre por seu imensurável valor, a sua entrega é garantida. 

A primeira incursão que realizei foi em 2005, em uma aldeia da etnia umutina, em Barra do Bugres, distante 175 km de Livramento. Observando a aldeia umutina, tudo era alvo de análise matemática. Da quantidade de moradores ao geometrismo da pintura corporal. A matemática científica é descomplicada quando aliada à vivência das comunidades. É a expressão máxima dos etnosaberes que exploramos também ao estudar as raízes da cultura quilombola, por exemplo. A sabedoria popular dialoga com a matemática. 

Tendo como ponto de partida a inspiração nas ciências e saberes quilombolas, “subimos” uma casa de um barro que tem uma composição muito especial. Somaram forças os alunos da comunidade, familiares, funcionários da escola e da Universidade Federal de Mato Grosso. Tínhamos um prazo curto. Para acelerar as coisas, pegamos uma madeira fora do tempo lunar recomendado. Alguns alunos do EJA reprovaram a atitude, dizendo que ia “carunchar”. Não deu outra. Vê como é importante a sabedoria local e popular? Enfim, enquanto íamos construindo, medíamos as dimensões, as quantidades de material… Coisas que os pedreiros da comunidade percebem só no “olhômetro”, não é? Era uma confluência de saberes. Dos científicos ao conquistados a partir de muita vivência. 

Na aula de campo da preparação da banana chips, em 2019: protagonismo compartilhado com a prima Maria Josefina. Foto: Arquivo pessoal

Em 2020 o “tema motivador”, como costumo chamar, seria a farinha de banana. Mas a pandemia nos forçou a descartar nosso planejamento e nos lançar em uma experiência totalmente nova. E é assim que boa parte do meu dia é dedicado aos alunos. Preciso estar alerta quase que o dia todo porque temos de aproveitar qualquer oportunidade que os alunos tenham de interagir.

Antes, o maior problema que acontecia era o transporte para a escola quebrar, ficar parado na estrada por conta da chuva… Agora, se não tiver internet, não tem contato. Por exemplo, tem uma aluna minha, a Luzia Maria, que vez ou outra liga dizendo: “professora, peguei sinal da antena aqui debaixo das árvores”. Como é que não vou atender? E ficamos nós duas ali fazendo cálculos pelo telefone. 

A propósito, essa era a minha maior angústia quando começou a pandemia. Como é que vou dar aula de cálculo? Felizmente participo de uma rede de professores que interagiram muito durante este período tortuoso, a Conectando Saberes Cuiabá. E foi aí que descobri a mesa digitalizadora. Com esse recurso, metade da tela fica tal qual um quadro escolar e com a caneta vou fazendo os cálculos enquanto eles acompanham de casa. Coloquei meu sobrinho Ryan Richard da Silva para estudar tutoriais e me ajudar com os vídeos.

No tempo extraoficial, atendo telefone e WhatsApp de manhã, de tarde, de noite e no fim de semana. Tenho que aproveitar o horário em que os pais estão em casa com seus celulares.

Queria poder fazer muito mais, pois sei que as famílias enfrentam obstáculos. Há alguns meses comecei um plantão tira-dúvidas na escola, todas as quinta-feiras, às 7h30 e às 9h30. Atendo no máximo dois alunos do ensino fundamental 2 e do ensino médio. Os do 6º ano, que estão na transição da unidocência para a pluridocência, precisam muito mais de nossa atenção.  

No meio dessa agenda agitada, têm ainda as aulas para minha filha de 8 anos. Dou aulas para ela e respondo pelos horários de remédio e alimentação do meu pai, que está sob cuidados médicos.

A aluna Luzia Maria: além de tirar dúvidas por telefone, comparece aos plantões da professora. Foto: Arquivo pessoal

A vida precisa ser mesmo assim, intensa. Procuro me aperfeiçoar e fazer jus à profissão que exerço. Estou concluindo um curso à distância de técnica educacional na Universidade Federal de Mato Grosso e já me matriculei em uma pós-graduação de 18 meses em informática na educação, na mesma instituição. Como me sinto? Parece que estou constantemente trocando o pneu do carro em movimento. Se depender de mim, ele não para nunca… estará sempre em movimento, em direção a um futuro digno e igualitário. 

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