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Representatividade na universidade

Ao investigar desigualdades de raça e de gênero entre professores universitários, pesquisadora experimenta metodologias decoloniais de ensino


Priscila: O desafio é fazer com que a ciência seja útil e acessível para a sociedade, e não para um grupo de pessoas. Foto: Arquivo pessoal

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador (BA)

“Optei pelas ciências sociais por perceber que tinha alguma coisa estranha.” A frase pertence a uma mulher negra que teve somente dois professores negros ao longo de todo o ensino básico. Durante a graduação em sociologia, apenas outros dois, em meio a algumas dezenas de docentes brancos. Foi a gota d’água. Desde então, Priscila Elisabete da Silva tem se dedicado a estudar a questão racial na educação, com foco no ensino superior.

Hoje doutora em educação, ela entende que a ausência de representação da diversidade da população entre os profissionais da docência é uma forma de reprodução do racismo estrutural. “A senhora da limpeza, os serventes e o porteiro da faculdade são negros. Por que não vejo pessoas negras sendo professoras universitárias?”, questiona. O incômodo foi tema da sua tese de doutorado, publicada no livro As origens da USP: raça, nação e branquitude na universidade.

Uma análise feita pelo Estadão em novembro de 2021 concluiu que apenas 3% das universidades brasileiras têm equidade racial no seu corpo docente. O critério utilizado pelo estudo foi a equivalência entre a diversidade racial do quadro de professores e a autodeclaração da população no município onde a respectiva instituição de ensino está localizada. Em relação ao gênero, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que, em 2019, somente 46,8% dos professores de ensino superior eram mulheres. Priscila relata ser, constantemente, a única mulher negra na posição de docente em encontros e eventos acadêmicos. “Acho difícil que uma mulher negra consciente não considere a interseccionalidade, já que vivencia as duas coisas [opressões de raça e de gênero], e isso não é uma escolha”, afirma. 

Desde a graduação, Priscila se envolve em projetos de extensão e de formação de professores na área da diversidade. De acordo com a pesquisadora, “é preciso pensar caminhos para fugir da reprodução de um saber que é esvaziado por não considerar a diversidade e as sensibilidades das formas de conhecimento existentes”. Ela leva em consideração as próprias vivências, enquanto mulher negra, para buscar entender os impactos dessas identidades na formação docente. Dessa forma, desenvolveu um método para a formação voltada à diversidade, descrito no artigo “O potencial de práticas decoloniais na formação docente”. A publicação foi selecionada pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica, na categoria Artigo Científico.

O Edital Equidade Racial na Educação Básica buscou a mobilização e articulação de escolas, redes de ensino, coletivos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil para viabilizar e fortalecer estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação. A iniciativa do Itaú Social contou com a realização do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e a parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A publicação digital que reúne todos os projetos selecionados pode ser acessada neste link.

Decolonialidade
O conceito de decolonialidade está relacionado à desconstrução de métodos da produção do conhecimento forjados no eurocentrismo. Para isso, propõe as chamadas práticas decoloniais, que na metodologia desenvolvida por Priscila estão voltadas ao desenvolvimento das sensibilidades. O artigo é baseado nas suas experiências pessoais e acadêmicas. Ela dá aulas no curso de pedagogia, numa universidade privada, e trabalha com cursos de formação de professores e gestores em relação à diversidade étnico-racial.

“Primeiro veem a minha imagem, depois o que estou fazendo. Uma mulher negra não tem como fugir da imagem numa sociedade racista e machista.” Priscila conta que era comum as pessoas acharem que a sua pesquisa era sobre as políticas de cotas. No entanto, a professora estava incomodada justamente com o fato de que havia muitas pesquisas voltadas à discência, o que não se repetia em relação à docência. Ao mesmo tempo, percebeu que a ausência de professores negros não era exatamente uma característica da sua universidade, mas um fato social.

No doutorado, resolveu investigar por que havia tão poucos professores negros na Universidade de São Paulo (USP), instituição de referência no ensino superior brasileiro. “A ausência de diversidade tem grande impacto na formação da intelectualidade do nosso país, pois interfere na escolha das pesquisas que são desenvolvidas, em quem ganha bolsa de pesquisa e em quais temas são estudados.” Priscila defende, ainda, que a docência é fundamental para a formação subjetiva dos estudantes e que a representatividade é importante nesse aspecto.

Socióloga e doutora em educação, Priscila diz acreditar na potência do ensino superior, sobretudo na universidade pública. Apesar disso, ela se diz crítica ao vigente modelo de produção do conhecimento. “Estamos falando de um ensino superior estruturalmente pensado a partir de uma lógica racista”, argumenta. No artigo, ao narrar as experiências da aplicação de metodologias alternativas, a professora universitária chama a atenção para dois aspectos.

O primeiro deles diz respeito ao impacto subjetivo produzido nos participantes das suas formações sobre relações étnico-raciais. “Testemunhei vários relatos emocionantes de pessoas negras e não negras que expressavam quanto tinham sido tocadas pelo conhecimento adquirido e pelo modo como este tinha sido transmitido”, diz trecho da publicação. A segunda percepção da autora deu conta da interseccionalidade entre raça e gênero, evidenciada durante as experiências.

Para pôr em prática a decolonialidade, Priscila recorre a saberes inspirados nas tradições de populações africanas e ameríndias. “Trata-se do estímulo ao diálogo franco, mas terno e acolhedor, das diferenças num contexto em que os envolvidos desejem aprender conjuntamente, isto é, com o outro”, explica no texto. A pesquisadora destaca que é fundamental a criação de um ambiente seguro, onde as pessoas se sintam à vontade para falar e ouvir. A escuta é uma das principais habilidades que pretende desenvolver em quem assiste às suas aulas. “Quando levo vídeos com pessoas falando sobre experiências de racismo, olho para os alunos e eles estão chorando porque viram e escutaram. Vivenciaram a empatia. É diferente de ler num jornal.”

As citações de cientistas utilizadas no artigo dividem espaço com referências mais próximas. Parte da inspiração da socióloga para uma educação baseada nas sensibilidades e nos afetos está na sua família. Ela gosta de ouvir os conhecimentos de seus pais sobre plantas, por exemplo, e defende que essa é uma forma de produção e transmissão de saber tão válida quanto todas as outras. No fundo, este é o objetivo do seu trabalho: validar cientificamente práticas nas quais ela acredita. “Essas metodologias não são novas, mas a academia nunca as olhou como episteme”, lamenta.

A oralidade é um dos recursos resgatados por Priscila. Nas tradições afro-brasileiras, é comum que saberes milenares sejam transmitidos às pessoas mais novas por meio da fala sem que estejam registrados por escrito em lugar algum. “Essas práticas são potentes e devem ser consideradas metodologias de ensino.” A professora vê com bons olhos a popularização de conteúdos em formato de áudio, como os podcasts. “São uma ferramenta muito potente, sobretudo numa sociedade que pouco lê, como a de hoje”, avalia. 

Priscila diz que se sentiu motivada a escrever o artigo, pois queria mostrar que outras possibilidades existem, já estão acontecendo e mostrando a sua potência. “Imagine as crianças pequenas aprendendo matemática jogando mancala, um jogo africano”, sugere. Para a autora do artigo, a decolonialidade pode tornar a educação mais justa e equitativa. Sensível, Priscila quer ser a professora que não teve, formando outros professores atentos às questões étnico-raciais e de gênero. “Só faz sentido quando a gente se reconhece.”


🎧 Ouça um trecho da entrevista com Priscila falando sobre sua pesquisa


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