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Postura antirracista também se aprende na escola

Tecnologia educacional mostra que um olhar realista para a situação dos estudantes negros pode transformar as práticas de professores e gestores, resgatar a identidade e dar oportunidades a crianças e jovens


Imagem do livro A menina das estrelas, da estante digital do Leia para uma Criança, com texto de Tulipa Ruiz e ilustrações de Laurent Cardon, que tem como protagonista uma garota negra: tecnologia educacional “Gestão da educação para a equidade racial” leva profissionais de educação a se perguntarem como a criança negra está representada dentro da escola.

Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo

Alerta 1. Em uma dinâmica com professores em uma escola em Itapevi, na região metropolitana de São Paulo, eles escutam uma história sobre uma princesa. Ao final, quem conduz a formação pede que todos desenhem a personagem principal. Nos esboços, vestidos de festa, mulheres alvas, cabelos longos, lisos e loiros… até que os docentes têm acesso ao livro infantil. A princesa ilustrada na história era negra e nenhum dos desenhos traçados retratava alguém parecido com ela. Nessa hora, todos percebem, estarrecidos, o quanto o estereótipo da princesa branca permaneceu introjetado ao longo dos anos e como ele é fruto de uma narrativa repetida desde a infância. E começam a se perguntar: onde e como a criança negra está representada dentro da minha escola? 

Alerta 2. Dados do Censo Escolar cruzados com relatórios diagnósticos e os números de evasão da rede de Itapevi revelam que os estudantes negros são os que mais têm dificuldade de aprendizagem em matemática e também formam o grupo que mais desiste de estudar. No município, 54% da população se reconhece como negra (preta e parda), chegando perto do número médio do Brasil (em 2018, 43,1% da população brasileira era branca; 9,3%, preta; e 46,5%, parda, segundo o IBGE). Confrontados com essas questões, os gestores se dão conta de que algo precisa mudar para que o ambiente escolar seja mais acolhedor e mais equitativo. 

“Quando os profissionais são informados dos dados e entendem como está a situação, se chocam. Os números não são questionáveis, e isso incomoda. Mas, depois de tomarem consciência do problema, até os profissionais antes resistentes aparecem com ideias maravilhosas”, observa Mário Rogério Silva, sociólogo e pesquisador do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (Ceert), que, em seus programas de educação, atua para promover a igualdade racial nas escolas públicas. Com apoio do Itaú Social, formadores do Ceert foram responsáveis por construir, em conjunto com os profissionais da rede de educação de Itapevi, a tecnologia educacional Gestão da educação para a equidade racial, disponível no site Melhoria da Educação. Transformar um conjunto de dinâmicas de formação em percurso de aprendizado autoinstrucional é uma iniciativa potente que permite transformação, desde que seja implementada a tecnologia educacional nas secretarias e escolas. “O objetivo é tornar a educação mais democrática e equitativa, cuidando das nossas crianças com igualdade, pois é desde cedo que se trabalha a identidade delas, que costumam repetir o que vivenciam e enxergam na família, ou seja, a escola tem papel fundamental para mudar essa realidade”, ressalta Mário. 

A LDB alterada pela lei 10.639/2003

Uma conquista após anos de lutas dos movimentos sociais, em especial do Movimento Negro: em 2003 foi sancionada a Lei 10.639, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação para incluir no currículo oficial a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Africana”. O primeiro parágrafo da lei diz que o conteúdo programático incluirá a luta dos negros no Brasil, a cultura negra e formação da sociedade nacional “resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil”. Mas da teoria para a real inserção do tema no cotidiano escolar de forma significativa ainda existe um longo caminho, que exige estudos e mudança de atitude. Os princípios e fundamentos para o planejamento e execução do conteúdo afro-brasileiro e africano dentro da sala de aula podem ser encontrados e colocados em prática com ajuda do Plano Nacional de Implementação das Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação das Relações Étnico-raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-brasileira e Africana.

Fonte: Ceert 

Elis Regina José da Silva, professora que foi diretora de escola por 11 anos e hoje atua como supervisora na rede municipal de Itapevi, coordenou e acompanhou de perto as formações do Ceert. “Criamos um grupo de estudos para nos aprofundarmos na lei, que nem todo mundo tinha lido na íntegra como ela merece. Conhecê-la bem faz muita diferença”, relembra a supervisora. “Nos encontros, tivemos relatos confessionais, do tipo ‘estava fazendo tudo errado, agi com preconceito com o meu aluno’”, relata ela, que também foi discriminada na infância. Elis soube agir no ambiente escolar, há alguns anos, quando era gestora, ao perceber o sofrimento de uma menina de oito anos, hostilizada e por isso arredia e violenta com as outras crianças. Por meio de conversas, conseguiu fortalecer a autoestima da aluna e convencê-la de que não deveria aceitar o tratamento dos colegas. “Expliquei à turma a gravidade do racismo, que é crime inafiançável para os adultos, e que uma amiga, colega de sala, não deveria ser insultada. Aos poucos a confusão, que era diária, foi melhorando.” 

Diversidade e valorização até nas paredes
Coube a Elis, junto com a supervisora de ensino da rede de Itapevi, Maria Lucia Galli, organizar sete encontros de formação já em meio à pandemia para gestores da rede em 2020 (o primeiro, para os gestores da secretaria, foi conduzido pelo Ceert ainda em 2019). “Foram reuniões on-line muito produtivas, com discussões sobre racismo, legalidade, como abordar os conteúdos dentro da escola. E chamamos professoras já engajadas com a causa, que desenvolvem bons trabalhos, tratando de representatividade, da beleza e do orgulho de ser uma mulher negra”, conta Maria Lucia. Durante o isolamento, diretores aproveitaram para selecionar material nas bibliotecas, como livros que abordam cultura negra e textos para discussão. E cuidar até da decoração da escola, onde painéis com fotos, por exemplo, não mostravam pais e mães negros ou com cabelo crespo. “No retorno presencial o trabalho deve ficar mais evidente, pois as atitudes a ser combatidas vão precisar de ação. Mas já enxergo essa preocupação com o tema.”

Imagens do site Nappy: fotos de pessoas pretas para combater estereótipos

Pessoas de todos os tipos

Para fugir dos estereótipos, veja aqui sugestões de bancos de imagens que podem ser acessados para complementar e produzir materiais para apresentar à comunidade escolar. Vale lembrar que eventualmente as políticas de uso do site podem mudar com o tempo; então, é melhor ficar de olho.

Nappy — Banco de imagens de pessoas pretas. Uso liberado. Não é obrigatório dar o crédito ao fotógrafo, mas é recomendado.
Site: nappy.co

Tem que Ter — Banco de imagens LGBTQIA+. Uso liberado para fins não comerciais. Se for criada alguma arte a partir da foto, ela precisa ser distribuída na mesma licença. (Creative Commons — Atribuição-NãoComercial-CompartilhaIgual 4.0 Internacional — CC BY-NC-SA 4.0)
Site: temqueter.org

Vice — Banco de imagens de gênero. Liberado para uso não comercial. Crédito obrigatório. É proibido modificar as imagens e só é permitido compartilhar na forma como estão no site. (Creative Commons — Attribution-NonCommercial-NoDerivatives 4.0 International — CC BY-NC-ND 4.0)
Site: genderphotos.vice.com

Disabled and Here — Banco de imagens de pessoas com deficiência. Uso liberado. É obrigatório dar o crédito ao autor da imagem.
Site: https://lnkd.in/epXzzvb

Unsplash – Plus Size — Banco de imagens plus size. Uso liberado. Não é obrigatório dar o crédito ao fotógrafo, mas é recomendado.
Site: https://lnkd.in/eiGX2sS

Para contemplar o ensino segundo a lei, sem se limitar ao Dia da Consciência Negra ou ao mês de novembro, como em muitas escolas, mas de uma forma que seja transversal na instituição, é preciso reformular o projeto político-pedagógico (PPP). “Orientamos a olhar para o contexto e fazemos observações para impulsionar as propostas de PPP e subsidiar os planos de ação. Nas consultorias, discutimos sobre a compra de materiais pedagógicos, de brinquedos e quais vídeos mostrar. Além disso, trazemos experiências normativas e cases”, explica Mário. Um dos objetivos é reelaborar a proposta curricular, para que a educação étnico-racial esteja presente em diferentes áreas do conhecimento. 

Quem acessa a tecnologia educacional no site vai ter orientações sobre como implementá-la observando conceitos e diagnósticos sobre a realidade do próprio município. “O programa Melhoria da Educação aborda questões que têm ressonância na sociedade atual. O racismo e os preconceitos influenciam o rendimento e a evasão escolar de crianças e adolescentes negros e negras e das indígenas”, diz Tatiana Bello, gerente de implementação do Itaú Social. Auxiliar as redes a ressignificar seus projetos pedagógicos e de gestão, segundo ela, é trilhar um caminho mais equitativo, que torna a escola sem discriminação um local mais seguro e acolhedor e contribui para a formação de sujeitos antirracistas.  

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