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SARA DA SILVA PEREIRA – Literatura em sala de aula como recurso para uma educação antirracista

A luta antirracista dentro da escola: como contribuir para a desconstrução do racismo a partir de práticas pedagógicas que envolvem a literatura de temática afro-brasileira


Dez perguntas para
Sara da Silva Pereira
Graduada em pedagogia e letras, mestre em diversidade, diferença e desigualdade social em educação. Pesquisadora em educação para as relações étnico-raciais e autora de artigo científico selecionado pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica, do Itaú Social e parceiros.Professora, poeta e ficcionista, é a escritora homenageada da 7ª edição da Olimpíada de Língua Portuguesa

A pesquisadora Sara da Silva Pereira: “Não se ver representado na infância nos mais variados espaços influencia diretamente aquilo que se pode e se deseja ser”. Foto: Arquivo pessoal

Por Ana Luísa Pereira, Rede Galápagos, Curitiba (PR). Jornalista, mãe de três filhos e pesquisadora pela luta antirracista na comunicação

“Ser leitor não é só decifrar um código.” É com esse pensamento do grande patrono da educação brasileira, Paulo Freire, que Sara da Silva Pereira vem norteando seus trabalhos de pesquisa na área de infância e literatura. A mestre em diversidade, diferença e desigualdade social na educação e que hoje dirige o Departamento de Educação Infantil na Secretaria de Educação em São José dos Pinhais, cidade da região metropolitana de Curitiba, é uma grande entusiasta, incentivadora e apaixonada pelas possibilidades que o uso de livros em sala de aula pode trazer para a construção de um mundo melhor e, sobretudo, antirracista.

“Meu avô era um grande contador de histórias; então, toda a minha infância foi rodeada de histórias. E é claro que eu me imaginava sendo a princesa de todas elas. Até que eu fui pra escola. E lá me mostraram que esse lugar não me pertencia; afinal, todas as princesas eram brancas, loiras e de olhos azuis”, conta ela ao relembrar um dos motivos de trazer a questão das relações étnico-raciais para a sua pesquisa.

Além dessas, muitas outras inquietações fizeram Sara dedicar toda a sua carreira na educação ao trabalho de práticas em sala de aula que envolvessem literatura na educação infantil. Autora do artigo “‘Eu sô peta, tenho cacho, sô linda, ó’: o que dizem as crianças sobre a literatura infantil de temática da cultura africana e afro-brasileira”, selecionado pelo Edital de Equidade Racial promovido pelo Itaú Social e parceiros, na entrevista a seguir a pesquisadora nos conta mais sobre sua pesquisa, sua trajetória e sobre o papel da escola na luta antirracista.  

O Edital Equidade Racial na Educação Básica buscou a mobilização e articulação de escolas, redes de ensino, coletivos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil (OSCs) para viabilizar e fortalecer estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação. A iniciativa do Itaú Social contou com a realização do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e a parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância).

Na categoria Pesquisa Aplicada, foram selecionados 15 projetos, desenvolvidos durante um período de 18 meses, a partir de outubro de 2020. Na categoria Artigo Científico foram nove selecionados, sendo três artigos feitos por estudantes de graduação, três de mestrado e três de doutorado. Seis artigos contaram com reconhecimento financeiro e três receberam menção honrosa. Em relação à raça-cor dos inscritos, 74% se declararam pesquisadores negros. Entre os autores de artigos, 77%. A publicação digital que reúne todos os projetos selecionados pode ser acessada neste link

NNotícias da Educação — Você vem se dedicando, ao longo da sua carreira, ao trabalho com a literatura em sala de aula. Conte-nos um pouco sobre a sua trajetória na área da educação e que papel a literatura teve na sua formação como leitora.

SSara da Silva Pereira — O meu trabalho com educação teve início quando eu tinha 17 anos e fiz o magistério. De lá até hoje, consegui terminar uma faculdade de letras e uma de pedagogia, além de três especializações e um mestrado. Agora estou fazendo o doutorado. Além disso, hoje atuo na secretaria municipal de São José dos Pinhais. Toda essa trajetória, esse percurso, não foi fácil. Nunca me achei merecedora de estar neste espaço, na universidade pública. E durante muito tempo deixei a pesquisa de lado. Mas em 2017, quando meu filho se formou, eu decidi: vai ser agora. Todo esse caminho que percorri me trouxe muitas conquistas, como a biblioteca que montei em um CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil) com mais de 2 mil livros e a discussão sobre as relações étnico-raciais nas salas de aula. Conseguir unir a literatura a essa questão da representatividade pra mim foi uma das minhas vitórias, pois, durante toda a minha infância, existiu um vazio de livros e histórias que apresentassem personagens negros, o que se reflete justamente nessa sensação de não pertencimento ao mundo da pesquisa, da criação. Não se ver representado na infância nos mais variados espaços influencia diretamente aquilo que se pode e se deseja ser. Hoje em dia, temos muitas discussões, pesquisas, leis que auxiliam na luta antirracista, mas me interessa muito saber se as escolas trabalham esse conteúdo, de que maneira, e como isso se reflete na construção da identidade das crianças.

“A primeira infância é crucial quando se fala na formação identitária e de caráter. Também queria entender como as crianças se reconhecem por meio dos livros”

NUm dos diferenciais da sua pesquisa foi o trabalho realizado com crianças de três e quatro anos, uma faixa etária que normalmente não é objeto de estudo de pesquisadores. Como foi esse processo e por que essa escolha?

SEssa é uma faixa etária muito importante de se trabalhar. A primeira infância é crucial quando se fala na formação identitária e de caráter. Além disso, essa é uma idade com a qual eu trabalho como profissional da educação; então, um dos meus objetivos era relacionar a minha pesquisa com a minha prática pedagógica, pois eu acredito que ainda existe uma distância quando se fala de teoria e prática. Para além desse ponto, queria entender como as crianças se reconhecem por meio dos livros. Outras pesquisas direcionadas a crianças nessa idade que não estão relacionadas à literatura revelam que muitas delas já passaram por situações de racismo mesmo nessa idade, e meu objetivo era mostrar a necessidade de apresentar referências variadas e observar como elas lidavam com a questão da identidade étnico-racial. O trabalho com o livro em sala de aula não precisa acontecer apenas com crianças alfabetizadas; afinal, como diz Paulo Freire, ser leitor não é apenas decifrar um código. A leitura de mundo antecede a palavra, e o resultado foi surpreendente.

NQual a importância de pesquisas que acontecem dentro da sala de aula? Como isso impacta as práticas pedagógicas?

SAcho que o ponto principal desse tipo de iniciativa é a possibilidade de detectar a realidade da sala de aula. Quando se fala de apresentar narrativas únicas, por exemplo, estamos considerando todo o contexto escolar? A culpa é só do professor? Quais são os fatores que estão impedindo que a diversidade esteja presente na prática? Tudo isso faz com que professores e profissionais da educação reflitam sobre o seu papel e, principalmente, sobre o que cada um está fazendo para transformar essa realidade.

“A Lei de Diretrizes e Bases coloca na pauta das editoras o apoio à produção com essa temática; no entanto, algumas pesquisas ainda indicam uma sub-representação de livros com personagens negros, assim como os indígenas. Outro ponto é a falta de formação continuada”

NUm dos fatores de maior relevância na sua pesquisa foi a constatação de um acervo escasso no que diz respeito à literatura afro-brasileira e africana e também ao fato de que os livros mais relevantes não ficam acessíveis para as crianças. Como conscientizar a comunidade escolar da importância de oferecer livros com histórias diversas e, principalmente, de deixar os livros ao alcance das crianças?

SComo pesquisadora, eu acredito que deveria haver uma mudança nas políticas públicas de fomento à leitura. Hoje, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático Literário acontece de dois em dois anos e no meu entendimento deveria ser anual. Além disso, a diversidade, em todos os seus aspectos, deveria ser um conceito avaliado dentro do programa, com ações afirmativas que estimulem a produção, a circulação e a distribuição de materiais. Temos um artigo na Lei de Diretrizes e Bases que coloca na pauta das editoras o apoio à produção com essa temática; no entanto, algumas pesquisas na área ainda indicam uma sub-representação de livros com personagens negros, assim como os indígenas. Outro ponto é a falta de formação continuada. Muitos dos profissionais da educação não têm olhar para essa escolha, e é preciso investir nisso. Para se ter uma ideia, em 14 anos de atuação em um município, apenas um curso de formação na área de diversidade foi oferecido aos professores. Esse é um dos fatores cruciais, e é por isso que muitas escolas continuam reproduzindo estereótipos, como o Dia do Índio, por exemplo.

Sara da Silva Pereira, em imagem de vídeo no qual fala sobre seu artigo: “Temos que ocupar todos os espaços. Quem pode contar suas histórias e falar sobre si? Nós podemos!”. Imagem: site do Edital Equidade Racial na Educação Básica

NA pesquisa foi realizada na região Sul, onde existe um número maior de pessoas brancas e onde, segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, há um dos maiores números de leitores. Qual a importância e a relevância de trabalhar livros com essa temática com esse público?

SEsse foi um dos pontos mais importantes da pesquisa. Porque, das 18 crianças que participaram da pesquisa, a maioria era branca. E essa era a minha problemática: entender a relação de todas as crianças com a literatura afro-brasileira e africana apesar da cor de cada uma delas. Durante a pesquisa, trabalhamos com o livro Bruna e a galinha d’Angola, de Gercilga de Almeida. Além da contação da história, ainda trabalhamos o livro animado, oferecido pelo projeto A Cor da Cultura. Ao fim dos estudos, pudemos observar que as crianças brancas reconhecem a diferença como algo positivo, e que esse tipo de trabalho pode, sim, formar cidadãos que não toleram o racismo, independentemente da sua identidade racial.

“Numa visão muito adultocêntrica — que tentamos desconstruir durante a pesquisa — comecei a pesquisa achando que o preconceito existiria, e que não haveria reconhecimento nem aceitação. No entanto as crianças mostraram o contrário, e isso me trouxe muita esperança de que a mudança vem acontecendo”

NQuais foram os resultados mais relevantes? O que a pesquisa mostrou de concreto?

SAlém do fato de percebermos que a maioria das crianças reconhece a diferença como algo positivo, um ponto em específico nos chamou muito a atenção. Uma das alunas, que chamamos de Bruna, não só se reconheceu na história, como também se mostrou orgulhosa da sua identidade negra. Durante toda a pesquisa ela dizia que era a personagem do livro, dizia o quanto era bonita e o quanto seu cabelo era bonito. E os amigos a reconheceram na história também, animados. Para ser sincera, todos os resultados foram surpreendentes. Numa visão muito adultocêntrica — que tentamos desconstruir durante a pesquisa — comecei a pesquisa achando que o preconceito existiria, e que não haveria reconhecimento nem aceitação. No entanto as crianças mostraram o contrário, e isso me trouxe muita esperança de que a mudança vem acontecendo. Até porque a construção da identidade é um trabalho conjunto entre escola, família e outras instituições sociais. E essas referências, quando bem trabalhadas, podem trazer novas perspectivas de que podemos, sim, ter essa identidade de forma positiva, sem estar fragmentada.

NVocê citou o termo “adultocêntrica”, e durante a sua pesquisa você relata que esse foi um ponto importante na execução. Qual a importância de buscar o protagonismo das crianças, sobretudo quando se pretende identificar a realidade em que elas vivem?

SEsse talvez tenha sido o meu maior desafio. Mesmo trabalhando com crianças há muito tempo, é muito difícil não partir de uma ideia adulta da concepção de mundo. E isso gerou uma reflexão sobre a prática e a entrada no campo de pesquisa. Até eu ser aceita pelo grupo, as crianças ficavam quietas durante a contação da história — o que mostrava que eu ainda não havia sido aceita. E nessa etapa, em vez de induzir respostas, percebi a importância de perceber o silêncio, os gestos, as feições, a maneira como elas pegavam o livro. Em outras palavras, tive que educar o meu olhar para perceber o que elas estavam me comunicando, sem precisar verbalizar — uma necessidade, de novo, adultocêntrica. O meu objetivo era entender o que elas pensavam, e esse protagonismo foi fundamental para isso.

NVocê acha que a escola vem acompanhando essa mudança na perspectiva racial?

SEu acho, novamente, que falta formação continuada na área. Assim como eu ainda acho que as universidades não oferecem formação de base para que os profissionais consigam colocar em prática essa questão. Além disso, é importante não generalizar. Tem muita coisa bacana acontecendo em muitos lugares, e é preciso reconhecer e dar visibilidade às iniciativas. No entanto, a gente percebe que a rede não oferece suporte para que isso aconteça, e as iniciativas acabam sendo isoladas. Essa não é uma responsabilidade exclusiva do professor. O educador sabe da importância da leitura e que a leitura diária é obrigatória nessa fase de formação. No entanto, que tipos de livro estão sendo oferecidos? De que forma as redes, estaduais e federal, caminham juntas nesse sentido?

“A reflexão sobre o tipo de conhecimento que estou levando para as crianças deve acontecer diariamente. Será que eu, como professor, pedagogo, diretor, estou reproduzindo estereótipos na minha unidade escolar?”

NO movimento Black Lives Matter, que em 2020 ganhou força mundialmente, tem impactado a formação das identidades raciais das crianças, na sua opinião? Como trazer esse tipo de movimento para dentro da sala de aula?

SUm dos caminhos com certeza é a literatura. Como arte, os livros não foram feitos para ensinar determinados conteúdos, mas, mesmo não tendo esse caráter utilitarista, possibilitam uma maneira lúdica de trabalhar com as mais variadas temáticas. Além disso, é preciso reestruturar os espaços da escola. Para quem atua na educação infantil, é fundamental pensar nos tipos de imagens que está levando para a sala de aula. Assim como a escolha dos materiais audiovisuais. A reflexão sobre o tipo de conhecimento que estou levando para as crianças deve acontecer diariamente. Será que eu, como professor, pedagogo, diretor, estou reproduzindo estereótipos na minha unidade escolar? É preciso trazer referências positivas das mais diversas identidades, pois as crianças assimilam isso com mais facilidade. Agora, é claro, quando acontece um ato de racismo entre os alunos, é preciso explicitar isso. Conversar com a criança olho no olho e nomear o racismo, para que ela tenha chance de aprender. Muita gente acha que nessa faixa etária não tem preconceito, mas ele existe, e acontece pois as crianças reproduzem o que veem no seu ambiente. A escola tem o papel de apresentar uma contrarreferência, caso contrário não vai ter possibilidade de mudança.

NAngela Davis, filósofa e ativista, diz que, quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se move com ela. Qual a importância de termos mulheres negras fazendo pesquisa?

SÉ aquela história: não falem de nós sem nós. E a grande Angela Davis está certíssima. E uso meu próprio exemplo para ilustrar. Depois que acessei a universidade pública, minha vida se transformou, em todos os aspectos, inclusive financeiramente. Apesar de ser um movimento bem pessoal, já consegui ajudar muitas pessoas com formações continuadas, compartilhando resultados da minha pesquisa, compartilhando a prática pedagógica. E esse é um movimento muito importante. E olha que nem estamos falando de militância. Estamos falando de identificar e trazer à tona mazelas sociais, problemas, dificuldades e disso buscar resultados positivos. Precisamos ocupar esses espaços, precisamos falar sobre o mito da democracia racial. Durante muito tempo acreditamos no não pertencimento, na falta de capacidade, até pela falta de representatividade, e acabamos reproduzindo esse tipo de coisa, sem nos darmos conta. Por isso repito: temos que ocupar todos os espaços. Quem pode contar suas histórias e falar sobre si? Nós podemos.