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Para entender — e praticar — a inclusão

Educar-se para a comunicação e a convivência que promovam a inclusão de pessoas com deficiência é essencial na construção de um mundo diverso


Detalhe de A visita, livro escrito e ilustrado pela autora alemã Antje Damm e traduzido por Sofia Mariutti, na versão acessível com locução, legendas, tradução em Libras e audiodescrição poética: aprendizagem para a convivência. Imagem: Reprodução do vídeo

Por Livia Piccolo, Rede Galápagos, São Paulo

Em tempos de luta por inclusão e debates acirrados na internet, um dos maiores desafios é se comunicar com clareza. Esse tema é especialmente sensível quando o grupo em questão abrange crianças, adultos e idosos com deficiência. Educar-se para conhecer as expressões certas e referir-se às pessoas com deficiência respeitosamente é um dos primeiros passos rumo a uma sociedade diversa e inclusiva. 

Inúmeros atores da sociedade, mesmo que bem-intencionados, erram ao usar a expressão “portadores de necessidades especiais”, por exemplo. “Só portamos algo que podemos deixar de portar, como uma bolsa. Ninguém deixa de portar uma deficiência; ela é parte constituinte do indivíduo”, explica Carla Mauch, pedagoga, pesquisadora de educação inclusiva e coordenadora-geral da organização Mais Diferenças — Educação e Cultura Inclusivas. Deficiente, incapacitado e inválido são alguns dos termos inadequados. Assim como surdo-mudo, excepcional e pessoa especial. Segundo o IBGE, o país tem 17,3 milhões de pessoas com dois anos ou mais de idade com alguma das deficiências investigadas. Cerca de 67,6% da população com deficiência não tem instrução ou tem o ensino fundamental incompleto, índice que é de 30,9% para as pessoas sem deficiência. São pessoas cujos direitos não estão sendo efetivamente assegurados. Sua inclusão é um desafio que precisa ser abraçado por toda a sociedade, a começar por um aprendizado sobre convivência e linguagem.

Dicas para a convivência
Um ponto que vale ressaltar são as dúvidas frequentes sobre como conviver com as pessoas com deficiência. Oferecer o braço para guiar uma pessoa com deficiência visual ou esperar que ela peça? Empurrar a cadeira de rodas de um cadeirante é ofensivo? Como conversar com adultos que têm algum tipo de deficiência intelectual? São muitas as dúvidas.
Vale conhecer os principais conceitos e a legislação em direitos humanos, acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência. A LBI — Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência — aponta caminhos para que a sociedade promova as mudanças necessárias.

Andrea Werner, mãe, escritora e ativista: “Há pessoas com deficiência se tornando influenciadores e formadores de opinião. É preciso ter uma mudança de atitude, ir atrás e escutar o que essas pessoas estão dizendo”. Foto: Arquivo pessoal

A jornada é longa, e o primeiro passo é ter a clareza de que a tarefa é de todos. Informar-se para entender como conviver com as pessoas com deficiência e incluí-las também é fundamental. Andrea Werner, jornalista, escritora, ativista pela inclusão e acessibilidade e fundadora do Instituto Lagarta Vira Pupa explica que nunca houve tanta informação disponível. “Há diversas vozes na mídia, pessoas com deficiência se tornando influenciadores e formadores de opinião. É preciso ter uma mudança de atitude, ir atrás e escutar o que essas pessoas estão dizendo.”

Deficiência não é questão individual
O Brasil possui um marco legal avançado em relação aos direitos das pessoas com deficiência e, nos últimos anos, vem fazendo um esforço no sentido de implementar políticas, programas e projetos, em todos os setores da sociedade, para efetivá-lo. Profissionais da área têm lutado para que a compreensão da deficiência mude do âmbito individual para o coletivo. Ou seja, a deficiência é entendida como o resultado da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras advindas de atitudes e dos ambientes. 

O foco muda da pessoa cadeirante para o espaço que não possui uma rampa. Essa nova perspectiva deixa de compreender a deficiência unicamente como limitação da pessoa e passa a corresponsabilizar o ambiente, o espaço, as pessoas e as práticas sociais pelas barreiras que inviabilizam a plena inclusão das pessoas com deficiência em diferentes âmbitos da vida. 

As barreiras, por sua vez, têm diferentes naturezas. Podem estar no espaço urbano, no entorno e no interior das casas e edifícios, nos serviços de transporte e na comunicação e informação — qualquer entrave que dificulte ou impossibilite o acesso à informação e à expressão. Aqui entram os recursos de acessibilidade: ferramentas que possibilitam equiparar as oportunidades de comunicação e informação das pessoas com deficiência e são aplicadas a inúmeros produtos e serviços. O sistema de leitura e escrita em braile, a língua brasileira de sinais (Libras), a audiodescrição de imagens, os recursos táteis, entre outros.

Carla Mauch, da organização Mais Diferenças: a inclusão é um desafio que precisa ser abraçado por toda a sociedade. Foto: Arquivo pessoal

Conceito de desenho universal
Para pensar e estruturar os recursos de acessibilidade, entra em jogo, então, o conceito de desenho universal, estratégia que prevê a concepção de produtos, ambientes, programas e serviços a ser usados, na maior medida possível, por todas as pessoas. O desenho universal deve ser amplamente divulgado e implementado na sociedade, visto que atende às necessidades de todas as pessoas, com deficiência ou não.

Em entrevista prévia, Carla Mauch explica o conceito no contexto dos livros infantis, argumentando que o livro acessível é uma experiência singular para todas as crianças. São sete princípios que embasam o desenho universal: equiparação nas possibilidades de uso; flexibilidade no uso; uso simples e intuitivo; informação perceptível; tolerância ao erro; pouco esforço físico; dimensão e espaço para uso e interação. 

Aprende-se a conviver convivendo

Não há manual para a arte da convivência e das relações humanas. Aprendemos a nos relacionar na prática, interagindo uns com os outros, seja com pessoas sem deficiência, seja com aquelas com deficiência.

Entretanto, algumas orientações podem ajudar a compreender melhor o universo das pessoas com deficiência. Carla Mauch e a Mais Diferenças fornecem algumas dessas recomendações:

  • Ao se relacionar com uma pessoa com deficiência, não ignore a deficiência, pois você estará ignorando uma de suas características. No entanto, não esqueça que a deficiência é apenas uma das características, dentre muitas.
  •  As pessoas com deficiência têm o direito, podem e querem tomar suas próprias decisões e assumir a responsabilidade por suas escolhas. Não subestime as possibilidades, não superestime as dificuldades, e vice-versa.
  • As pessoas com deficiência são pessoas como todas as outras. Têm os mesmos direitos, os mesmos sentimentos, os mesmos receios, os mesmos sonhos. Diante delas não se deve ter receio de fazer ou dizer alguma coisa errada — o importante é agir de forma respeitosa, com naturalidade, e tudo dará certo. Se ocorrer alguma situação embaraçosa, uma boa dose de delicadeza e sinceridade costuma não falhar. 
  • Crianças, jovens e adultos com deficiência, como quaisquer outras pessoas, têm vontades, interesses e necessidades que devem ser respeitados e levados em consideração.
  • Cada pessoa com deficiência é diferente das outras, independentemente do tipo de deficiência; é uma pessoa única. Não existem dois adultos com síndrome de Down que sejam iguais, ou dois adultos com deficiência auditiva que respondam ou reajam da mesma forma.
  • As pessoas com deficiência, antes de tudo, são pessoas e têm os mesmos direitos das outras. Os ritmos e as formas de executar tarefas e de se relacionar são próprios. Assim como qualquer outro indivíduo, cada um tem o seu próprio percurso na busca de sua independência e autonomia.

A representação das pessoas com deficiência
Ainda dentro do âmbito da comunicação, vale ressaltar os cuidados necessários no momento de produzir conteúdos sobre a temática de inclusão. Organizações e empresas têm atentado para a necessidade de incluir pessoas com deficiência não somente em seu quadro de colaboradores, mas também nas suas campanhas e ações institucionais. É necessário promover percepções positivas e afirmativas sobre a deficiência e evitar abordagens pautadas em lógicas extremas e dramáticas.

Pessoas com deficiência frequentemente são representadas como heróis, e a narrativa associada a elas está pautada na ideia de superação. “Não é positivo associar o tempo todo as pessoas com deficiência à ideia de superação. Elas reivindicam inteireza e humanidade, e não heroísmo”, diz Andrea Werner. Pessoas com deficiência querem protagonizar outras histórias e falar sobre outros tópicos além da deficiência. Desejam conversar sobre cinema, política, família, crise climática. Se pessoas sem deficiência abordam diariamente esses temas, não há razão para deixar de fora do debate as pessoas com deficiência. 

Na dúvida, vale o lembrete importante: “Nada sobre nós, sem nós”. Se não tiver certeza sobre como conversar ou interagir, pergunte diretamente às pessoas com deficiência. Bom senso, sensibilidade e escuta atenta farão a diferença.

Saiba mais 

Conceitos e legislação em direitos humanos, acessibilidade e inclusão de pessoas com deficiência (PDF)

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