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Os fundamentos para uma educação emancipadora

Centenário de Paulo Freire motivou III Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura, que trouxe temas como tecnologia, formação de leitores e a escola pública em meio à pandemia​. Vídeos com as discussões estão disponíveis


Maria Tereza Perez: “A pandemia está nos obrigando a olhar para a urgência das relações sociais e para a necessidade de relações mais humanizadas.” Foto: Reprodução.

Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

A dedicatória escrita por Paulo Freire no livro Pedagogia do oprimido funciona também como o resumo da obra: “Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”. A epígrafe feita de próprio punho em caneta azul em meio à primavera chilena de 1968 aparece no manuscrito original do livro, publicado pelo Instituto Paulo Freire durante o III Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura — Por uma Educação Transformadora

Pedagogia do oprimido foi editado nos Estados Unidos, Uruguai, Itália, Alemanha e França e só depois chegou ao Brasil. Quando escreveu, Freire teve receio de que o texto fosse confiscado por ser considerado “perigoso”. Com o tempo, a concepção de educação proposta a mão pelo pedagogo passou a ser assimilada, entendida, praticada e dá o tom da terceira edição do seminário. Em homenagem ao centenário do educador, o evento sobrevoou temas para uma educação transformadora: escola pública, tecnologia, informação e formação de leitores.

No prefácio do manuscrito, José Eustáquio Romão e Moacir Gadotti, do Instituto Paulo Freire, sintetizam a obra em pontos-chave que são fio condutor para o encontro: 1) é pela palavra que homens e mulheres revelam a sua humanidade; 2) se essa premissa é verdadeira, é somente na reciprocidade do diálogo que pode existir uma comunicação autêntica; 3) apenas uma “educação problematizadora” pode libertar o oprimido de seu opressor. “Não há, por outro lado, diálogo se não há humildade. A pronúncia do mundo, com que os homens o recriam permanentemente, não pode ser um ato arrogante”, escreve Freire.

Por uma educação transformadora
O Seminário Arte, Palavra e Leitura deste ano foi realizado pelo Itaú Social e Sesc São Paulo, com curadoria da Comunidade Educativa Cedac e do Instituto Emília. “Esse projeto veio de um desejo nosso, com o Instituto Emília, de trazer a questão da relevância da arte e da palavra para a educação, em especial da importância da literatura”, explica a diretora executiva do Cedac, Maria Tereza Perez. A última edição estava prevista para ser realizada em 2020, com foco especial na valorização da escola. Com a pandemia da Covid-19, o evento foi adiado para 2021 e casou com o centenário do nascimento de Freire. 

Segundo Maria Tereza Perez, a pandemia tornou mais evidente a necessidade de uma construção coletiva e da participação social, o que impulsionou o encontro. “Freire já falava: nós temos que olhar para o contexto. Você tem que ter uma perspectiva humanizadora nas relações. Precisamos entender aquilo que está sendo vivido para que a gente possa de fato ajudar, ser um colaborador nesse processo”, afirma.

A fundadora do Instituto Emília, Dolores Prades, reforça a importância da discussão sobre formação de leitores e mediadores de leitura, em especial em um período em que a desinformação ganha espaço. “Freire tem uma frase que é muito pouco compreendida: ‘Antes da leitura da palavra você tem que ter a leitura do mundo’. Quando pensamos em formar leitores, significa formar pessoas que não são fundamentalistas em relação ao mundo”, comenta. “Nós percebemos que essa questão fundamental tinha que ser discutida: a questão da defesa de uma educação humanizadora para todos.”

Paulo Freire, presente!
Na abertura da primeira mesa, a educadora Bel Mayer, do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário, lê um trecho do livro Pedagogia da autonomia, de Freire. Ele escreve:  “Sobre a presença, mais do que um ser no mundo, o ser humano se tornou uma presença no mundo. (…) Presença que se pensa, a si mesma, que se sabe presença, que intervém, que transforma, que fala do que faz mas também do que sonha, que constata, compara, avalia, valora, que decide, que rompe”. Pensando nisso, o foco principal do diálogo foi a permanência do pensamento de Freire nos dias atuais. 

José Romão: “Analistas reconhecem que a grande contribuição de Freire é o conceito de educação popular. Eu diria que essa é a maior contribuição da América Latina ao pensamento pedagógico mundial.”

“Essa mesa trouxe um respiro. Uma manutenção do desejo de transformação, da necessidade de a gente ter isso como pauta, como meta”, avalia Maria Tereza Perez. Ela explica que os participantes José Eustáquio Romão, Sérgio Haddad e Abdeljalil Akkari tiveram experiências na prática com Freire, o que tornou o momento ainda mais especial. Romão é diretor fundador do Instituto Paulo Freire, Haddad é autor do livro O educador: um perfil de Paulo Freire e Akkari é doutor em ciências da educação pela Universidade de Genebra.

Imagem de publicação com o manuscrito original de Pedagogia do oprimido, disponível para download no site do III Seminário Internacional Arte, Palavra e Leitura: “Só existe liberdade plena quando você tira o opressor de dentro de você como hospedeiro”, diz o professor José Eustáquio Romão

O valor da escola pública para além da pandemia​
“Um lugar onde você pode ser exatamente aquilo que você é.” Assim Maria Tereza Perez define o que seria uma “escola transformadora”. A busca por espaços de educação mais diversos e consequentemente mais potentes foi o tema da segunda mesa do encontro. “Eu vejo a escola hoje como um território do afeto, em que você potencializa os saberes de cada um de tal maneira que as pessoas façam da escola a instituição que vai gerar condições para que elas tenham liberdade de escolha.” 

Tawane Theodoro: Para além da educação, o Slam Interescolar mexe com todo o ciclo escolar. Foto: Reprodução.

Uma das iniciativas que conectam a teoria e prática de Freire no dia a dia escolar foi relatada pela poeta e escritora Tawane Theodoro. Ela é formadora no Slam Interescolar, um campeonato de poesia falada das escolas do estado de São Paulo que utiliza a poesia como ferramenta emancipatória proposta por Freire.

“Ver os professores movimentando a escola para trazer o slam e a poesia marginal para dentro da escola é uma sensação única de educação transformadora”, diz a poeta na apresentação. 

Também participaram o educador e produtor cultural Rodrigo Ciríaco e a assessora internacional em cultura escrita e educação de jovens e adultos Rosa María Torres.

Tecnologia e educação
Se a comunicação é tida como tema central para a libertação em Pedagogia do oprimido, o mar de informações que meninos e meninas encontram em meio às ferramentas digitais pode dificultar esse processo. A terceira mesa do seminário atualizou a preocupação de Freire para os dias atuais como forma de entender os desafios que a nova realidade apresenta. Um exemplo é a necessidade de distanciamento social provocada pela pandemia da Covid-19, que obrigou os estudantes a seguir com aulas em formato on-line. Para famílias que dividem um único aparelho celular e que não têm acesso à internet, contudo, esse desafio se torna um impedimento.

Entre os convidados estava o coordenador das bibliotecas escolares da Secretaria de Educação do município de Paulista (PE), Glaucio Ramos. O contador de histórias lembra que para muitos estudantes já era precário o acesso à internet antes da pandemia, problema somado à precariedade da infraestrutura escolar.

Glaucio Ramos: O problema não é o acesso à informação, mas o gerenciamento de tudo que chega para os nossos alunos. Foto: Reprodução

Para ele, a digitalização dos processos de educação exige uma formação de competências e habilidades para que crianças e adolescentes saibam lidar com a nova conjuntura de informação. “Nascer nativo digital não é atestado de competência para o uso”, afirma. 

Para o professor, é necessário um posicionamento ético e olhar crítico. Ele lembra que 62% dos brasileiros não sabem identificar uma fake news, por exemplo. Por isso, Ramos entende que um dos caminhos vinculados à concepção de educação de Freire é o letramento midiático, ou seja, formar o aluno para uma leitura crítica e uso ético da internet. “Freire já falava que a tecnologia é uma ideologia sem face. Hoje temos uma relação dialética com ela. Ao mesmo tempo que ela torna todo mundo visível, esconde muita coisa”, explica. “Freire também diz que a tecnologia não é anjo nem demônio, mas é meio, caminho e instrumento.” 

Dolores Prades: Avançar na questão da leitura, na questão de pensar o leitor, de ver como que a gente implementa políticas e práticas leitoras, implica em avaliar efetivamente de que leitura a gente está falando, de que leitora a gente está falando e de como essa leitura se reflete nesse leitor. Foto: Reprodução.

Que leitores queremos formar?
Para formar leitores é preciso que existam leitores, explica Dolores Prades. “Só o leitor pode sensibilizar o não leitor para a leitura. Nós vivemos em um momento em que é fundamental colocar todos os instrumentos possíveis à disposição dos não leitores, para instrumentalizar, reciclar, dar oportunidade para que conheçam esse mundo da leitura.”

A quarta mesa do encontro, mediada por Dolores Prades, reforça a lembrança de que toda leitura é uma abstração e não pode ser privilégio de uma parte da população. “É impressionante ver, em termos da nossa realidade, o resultado que a literatura tem nos jovens, na periferia, na questão da construção de uma identidade e da construção de um lugar para você ocupar”, diz. Em qualquer cenário, a literatura, quando bem mediada e num contexto de formação de leitores críticos, é a porta principal para a democracia. 

O diálogo também contou com a presença da jornalista Marina Colasanti, da professora da Universidade Federal de Minas Gerais Mônica Correia Baptista e da pedagoga Luciana Gomes.