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A leitura que traz um novo olhar

A 35 quilômetros do centro de São Paulo, um jovem negro lê Geovani Martins. Juntos, leitor e livro contam uma história capaz de influenciar uma vila inteira: a da literatura como direito e instrumento de reflexão


Caminhos da Leitura: localizada dentro de um cemitério, a biblioteca transforma autores periféricos em clássicos. Foto: Imagem do vídeo Itaú Social | Programa Missão em Foco

Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

“Que nossos gritos se escondam debaixo dos travesseiros daqueles que não sabem, daqueles que sabem e calam, daqueles que não querem saber.” A frase, escrita pelo uruguaio Mauricio Rosencof no livro As cartas que não chegaram, é a mesma que assina os e-mails de Bel Mayer, a educadora e coordenadora do Instituto Brasileiro de Estudos e Apoio Comunitário (Ibeac). “Não há inocência diante do nosso passado. Sempre apagaram a nossa história [negra] da literatura. Sempre tentaram nos dar os resumos, e não a obra completa”, explica. 

Mayer, por meio do Ibeac, coordena a Biblioteca Comunitária Caminhos da Leitura — parte da Rede Nacional de Bibliotecas Comunitárias, a RNBC. Mas a Caminhos da Leitura foge de qualquer enredo conhecido. Diferentemente do que se espera de uma biblioteca, esta funciona na casa de um coveiro, dentro de um cemitério localizado no bairro de Parelheiros, extremo sul da capital paulista. Vai além: os livros que estampam as prateleiras contam histórias negras. “Fazer uma biblioteca em um cemitério, na casa de um coveiro, é um jeito de não deixar que nos enterrem vivos”, define Bel. 

A biblioteca nasceu da intensa busca por alternativas educacionais para um território empurrado à margem. A 35 quilômetros do centro de São Paulo, Parelheiros carrega a irônica narrativa presente na constituição do espaço urbano brasileiro: apesar de ali se encontrar um dos reservatórios que abastecem o município, os moradores do bairro nem sempre têm água em casa. O Ibeac analisou esses e outros indicadores que apontavam baixos índices de desenvolvimento humano e, em conversas com a comunidade, descobriu que projetos que olhassem para a juventude estavam no topo das demandas locais. Aconteceu. 

Um menino negro com um livro na mão
Bruno Souza foi um dos primeiros a descobrir a potência das histórias negras dentro da Caminhos da Leitura. “Sete anos atrás, cheguei àquela biblioteca cheia de jovens parecidos comigo, em história e estética. Lá, encontrei um espaço para expressar o meu jeito de existir”, conta. Bruninho, como é conhecido, amadureceu em meio a uma nova literatura, pouco parecida com a que conhecia na escola. Hoje, com 25 anos, é mediador de leitura no local e trabalha para que outros jovens tenham as oportunidades que teve. Bruno transmite o que aprendeu sobre a diferença entre o olhar que só enxerga as carências e o olhar capaz de ver as possibilidades, como ele próprio explica neste vídeo.

“O que a biblioteca comunitária faz é resgatar histórias abandonadas, paralelas, esquecidas”, explica Bel, ao lembrar que os 42 anos dos Cadernos negros são sinal de uma história esquecida nos registros oficiais. “A gente foi resistindo, acreditando que a palavra tem esse poder de libertar, de convocar vontades.” Nesse compasso, ao participarem dos projetos disponíveis na Caminhos da Leitura, muitos meninos e meninas periféricos chegaram à universidade, conheceram autores, reformularam os próprios projetos de vida. No caso de Bruninho, parou de usar boné e assumiu seu cabelo natural para o mundo. “Eu me reconheci negro na biblioteca. Lá encontrei minha voz”, relata. A fala, certeira, revela um impacto percebido: a literatura como instrumento para o autoconhecimento.  

“quero ouvir/ tudo que te silenciaram/ eu quero que você me conte/ a história das suas cicatrizes”

Ryane Leão

A casa do coveiro
O Ibeac foi fundado em São Paulo em 1981 e, desde então, transforma comunidades com base na construção coletiva de saberes e fazeres. Quando chegou a Parelheiros, em 2008, a organização apresentou o próprio portfólio para a comunidade: trabalhos para a melhoria do ensino, da saúde e do meio ambiente, por exemplo.

Bel Mayer: “Fazer uma biblioteca em um cemitério, na casa de um coveiro, é um jeito de não deixar que nos enterrem vivos”. Foto: Imagem do vídeo Itaú Social | Programa Missão em Foco

A escolha foi pela constituição de uma biblioteca na unidade básica de saúde (UBS) da região. Lá se liam “pílulas de leitura”, e os médicos indicavam livros no receituário. A proposta fez sucesso, mas às vezes tinham que deixar a sala onde a unidade funcionava. “A comunidade, então, nos ajudou a encontrar a casa do coveiro, que fica bem atrás da UBS”, explica Mayer.

Desde então, a coordenadora conta que a possibilidade de narrar o que é viver e cavar a vida dentro de um cemitério se tornou uma narrativa provocadora, política. É certo afirmar, então, que a Caminhos da Leitura não é apenas um espaço onde se emprestam livros. “Nós construímos ambientes democráticos e participativos”, explica Bruno, ao lembrar que a biblioteca não cria barreiras para que as pessoas tenham acesso à literatura. Para além dos 4 mil títulos de autores referenciados disponíveis no local, as prateleiras carregam narrativas que fazem sentido para todo o território. “Nós fizemos autores periféricos virarem clássicos”, conclui Bel. O Ibeac foi  selecionado para integrar o programa Missão em Foco, do Itaú Social, que investe em organizações da sociedade civil que contribuem para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes. As OSCs têm autonomia para aplicar os fundos do programa em recursos humanos, comunicação, planejamento, inovação, monitoramento de resultados e sustentabilidade econômica.

“A voz de minha filha/ recolhe todas as nossas vozes/ recolhe em si/ as vozes mudas caladas/ engasgadas nas gargantas. A voz de minha filha/ recolhe em si/ a fala e o ato”

Conceição Evaristo

Segurança alimentar e literária
Os projetos motivados pelo Ibeac despertam olhares curiosos. Entre eles, a organização escreveu com a comunidade o “primeiro livro das crianças de Parelheiros”. A atividade contou com a participação do escritor João Carrascoza e da fotógrafa Juliana Monteiro Carrascoza e aconteceu em oficinas on-line, com apoio do Itaú Social. Além dos empréstimos de obras, a Caminhos da Leitura também promove Cine Debate, Clube de Leitura e dois saraus recorrentes. Um deles, que aconteceu em março de 2020, homenageou a escritora negra Carolina Maria de Jesus (1914-1977), autora do célebre livro Quarto de despejo, que viveu em Parelheiros. O segundo evento costuma ter início em novembro: uma roda de conversa sobre a morte e seus desdobramentos sociais e antropológicos. Todos participam.

Outro momento aguardado é o “esquenta Felipa” — a Festa Literária de Parelheiros: uma série de atividades que tomam os espaços do bairro e falam sobre literatura e direitos humanos, juventude e a palavra, a palavra e a memória. Em 2020, em virtude da pandemia, aconteceu nas redes sociais.

Não por acaso, o Ibeac também se soma ao Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento e realiza um projeto paralelo: o movimento Pão, Proteção, Poesia e Plantio. Quatro “Pês” que asseguram alimento, renda e esperança aos moradores do bairro. A organização conta com o apoio de fundações e aceita doações individuais — ainda mais urgentes durante a pandemia. 

A periferia lê
É raro conversar com Bruninho sem vê-lo sorrir. Ele explica, esperançoso, que a Caminhos da Leitura quer criar espaços mediadores de leitura para uma comunidade que lê, ao contrário do que sustenta o senso comum. Em uma edição da revista Viração, produzida em parceria com o Ibeac, a literatura é afirmada como um direito humano. “Uma necessidade, não um privilégio.”

O sonho, portanto, é que a biblioteca Caminhos da Leitura seja um lugar político e educacional, guardiã de memórias e inspiradora de um território mais justo. Um dos escritores preferidos de Bruninho é Geovani Martins. A comparação entre leitor e autor é inevitável: Martins cresceu na periferia do Rio de Janeiro e contou, em entrevista ao jornal El País, que “percebeu que era negro” quando participou de uma edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty). A biblioteca, conta Bel, é um lugar de livros, mas é principalmente um lugar de conversas sobre livros. Eis a poesia. 

Conheça ações propostas pelo Ibeac para, através da literatura e da contação de histórias, conectar moradores da região de Parelheiros, em São Paulo, durante o isolamento social.

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