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Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Especiais

O sonho é a matéria prima da literatura

A importância da leitura literária é mais um tema da série O valor da leitura: legado e inspirações para a nova década.


Neste especial sobre a leitura literária, parte da série “O valor da leitura: legado e inspirações para a nova década” , não poderiam faltar histórias. Você vai acompanhar, em cada indicação de conteúdo, projetos e experiências inspiradoras, histórias de pessoas e organizações que dedicam à literatura suas trajetórias de vida e atuação. O podcast da vez é com Tino Freitas, autor de Com que roupa irei para a festa do rei, livro da campanha Leia para uma criança 2020. Acompanhe!

O chamado da literatura

Conor tinha pesadelos recorrentes com uma criatura aterrorizante. Tratava-se de uma imensa árvore, com seus galhos retorcidos, olhos faiscantes e passos que fazia o mundo todo estremecer. Bom, pelo menos foi assim que ela apareceu para mim enquanto lia O chamado do monstro, do escritor Patrick Ness. Mas, tudo que a criatura fazia era levar o menino para dentro de três de suas histórias para que, ao final, ele fosse convocado a contar a sua própria história. Não se pode afirmar, no entanto, que a intenção era de todo inocente, “histórias são o que há de mais selvagem”, advertiu a criatura. E continuou: “Você vai me contar a quarta história – repetiu o monstro –, e ela será a verdade”. Este trecho da obra de Ness, retirado do precioso diálogo entre um monstro e um menino, será minha deixa para iniciar este texto sobre a leitura literária e suas imprevisíveis possibilidades.

Na literatura, a ficção costuma contar verdades. Talvez por isso, a muitos de nós, elas causem medo. Afinal, ao entrar no território selvagem das histórias é bem possível que encontremos partes escondidas de nós. A literatura convoca àquilo que “torna humano um ser humano: a capacidade de sair de si mesmo e de se transformar em outro, em outros, modelados pela argila dos nossos sonhos”, afirma o escritor peruano Mário Vargas Llosa. Antonio Cândido, sociólogo e crítico literário, também acredita que a literatura é feita dos sonhos das civilizações, já que, para ele, não haveria equilíbrio social sem isso, da mesma forma que “não é possível haver equilíbrio psíquico sem o sonho durante o sono”, como ele diz.

Ainda que esse encontro com nossas verdades, por vezes, seja habitado por monstros, o real pesadelo começa quando há recusa ao chamado que as histórias nos fazem.

O que acontece a uma sociedade que recusa a sua literatura?

Quais os efeitos de uma sociedade que enxerga seus textos de ficção apenas pelas lentes do treinamento para o domínio do código, ou apreensão de uma lição, “a moral da história”, deixando escapar tudo que a arte pode nos despertar?

Ironicamente, estudos neurocientíficos já comprovam que, para desenvolver novas habilidades em determinado campo, como o da escrita, passar mais tempo em contato com atividades artísticas pode ser muito mais efetivo do que treinar excessivamente a cognição. A prática de atividades sociais e culturais é chave para a conquista de funções cerebrais básicas para nossa vida em sociedade. É nesse ponto que a literatura se conecta a uma proposta de educação que reconhece na realidade a sua base, e a partir dela traça seus objetivos em prol do desenvolvimento humano em todas as suas dimensões: emocionais, culturais, intelectuais ou físicas. 

A forma como concebemos nossas identidades – que são afetadas pelos “germes de mundo” a que estamos expostos – depende do contato com referências que possam ser ressignificadas à luz de nossas particularidades como sujeitos e como nação. Assim, para que essas referências sejam múltiplas, é preciso reafirmar, por exemplo, a presença da literatura negra e indígena (ler vocábulos sobre o assunto a seguir)  pois carregam em seu cerne o fio de um traçado histórico que não pode ser rompido. Só ele pode nos guiar para uma sociedade mais justa e plural.

Há outros aspectos da literatura que tampouco podem ser subestimados. A literatura não só cava um túnel para dentro de sentimentos mais profundos, como também abre janelas por onde podemos alcançar outras paisagens de mundo. E assim é possível tocar o solo que nunca pisamos, sentir o sabor de pratos que não comemos, respirar fragrâncias desconhecidas, de forma que nossas bagagens simbólicas se renovam e se ampliam. Quando um adulto lê para uma criança, por exemplo, a comunhão do imaginário cria uma atmosfera mágica, uma nova oportunidade de conexão. Compartilhar aventuras pode ser um tipo diferente de abraço, um jeito especial de dar boa noite e desejar bons sonhos.

Por: Fernanda Zanelli – especialista da área de comunicação do Itaú Social e mestranda em ciência da informação, pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)

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Literatura e a temática negra

O racismo que estrutura a sociedade brasileira deixa sequelas em diversas dimensões, tais como econômica, política e social. Um dado que evidencia a gravidade desse quadro é que, sendo mais da metade da população brasileira negra (50,7%), segundo o último Censo (2010) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), está acima de 70% os que vivem em situação de extrema pobreza.

Nessa esteira, a dimensão cultural também carrega os reflexos do racismo estrutural. No campo da literatura, por exemplo, historicamente, pessoas negras são representadas em condições de subalternidade ou de maneira estereotipada, reproduzindo dinâmicas de uma sociedade escravocrata e restringindo simbolicamente a identidade negra a esse aspecto.

A literatura de temática negra é legítima quando traz consigo a riqueza da ancestralidade negra, do legado da negritude como fonte de identificação e reconhecimento, desconstruindo hierarquizações que estão no cerne da sociedade.

A prioridade de fomento à literatura desenvolvida por autores negros é fundamental, pois é também efeito do racismo estrutural o fato de que a população negra é frequentemente colocada no lugar de analisada e não de analista, ou seja, autores de suas próprias narrativas de mundo.

Literatura e a temática indígena

Embora seja comum nos referirmos aos povos indígenas como se pertencessem a uma categoria homogênea, é sempre bom lembrar que temos em território nacional cerca de 305 etnias e 274 línguas indígenas. Diversidade que carrega consigo características próprias: desde questões relacionadas ao vínculo com território, até costumes, crenças e práticas sociais específicas. 

Essa pluralidade abre fronteiras para um debate sobre a forma estereotipada com que os indígenas são representados na sociedade, remetendo à ideia romantizada de que são povos que vivem na floresta, sem contato com a civilização, como se sua legitimação como povo originário estivesse condicionada à não relação com a sociedade e o mundo contemporâneo. 

A literatura de temática indígena – quando condizente com o retrato da diversidade e dos povos indígenas como cidadãos de direito que compõem a sociedade – tem um papel fundamental de desconstrução desse estereótipo e, portanto, também do racismo que ele carrega.

Importante enfatizar que o uso da palavra temática é para distinguir a literatura que é produzida por autores indígenas daquela que faz referência à temática (mas não necessariamente foi produzida por indígenas). Sobre isso, o fato de os povos indígenas terem sido dizimados ao longo da história, e também colocados como primitivos em uma perspectiva colonizadora, contribuiu para a ausência sistemática dos autores indígenas no campo da literatura. A prioridade de fomento à literatura desenvolvida por autores indígenas é fundamental, já que desse modo podem exercer autoridade sobre visões de mundo que lhes são próprias.

Sobre a mediação de leitura para crianças

Toda criança tem o direito de …

1. Observar os livros e as pessoas lendo, ver como elas se comportam e reagem durante as leituras. 2. Familiarizar-se com os diferentes espaços onde os adultos realizam as leituras e pode escolher seus lugares prediletos para escutar as histórias ou ler sozinha. 3. Conhecer ou ler o livro com o seu corpo – sentar em cima, bater na capa, morder, etc. – e ao escutar uma história pode ficar sentada, deitada e em pé. 4. Escutar muitas histórias na voz de pessoas queridas todos os dias. Assim, os adultos podem demonstrar afeto, conversar, mostrar e nomear as coisas do mundo. 5. Aprender como um livro se organiza – identificar a capa, o início da história, virar páginas e terminar as histórias, bem como conhecer a diversidade de livros – tamanhos e formas, tipos de letras, ilustrações, autores e ilustradores. 6. Ouvir o texto escrito tal como o autor o criou, sem alterações feitas pelo adulto que o lê em voz alta. As palavras estranhas e diferentes ampliam o conhecimento. 7. Participar com seu silêncio, perguntar e conversar durante a escuta das histórias. As crianças pequenas falam espontaneamente sobre o que reconhecem, suas descobertas e dúvidas. 8. Brincar imaginativamente com os personagens, ilustrações, sonoridade das palavras e situações dos livros, criando sua própria história. Elas podem rir, sonhar, entristecer-se, movimentar-se, surpreender- se ou sentir uma pontinha de medo. 9. Reconhecer e conhecer por meio do livro várias situações do cotidiano das pessoas do seu grupo ou de grupos diferentes. 10. Escutar várias vezes a mesma história, sem necessariamente olhar para o livro e para as suas ilustrações e, se não gostar de alguma história, interromper a leitura.

Fonte: Acervo Leia para uma criança – Guia mediação de leitura

Amplie seus conhecimentos

A constituição de uma comunidade de leitores na escola
Texto escrito por Sandra Mayumi Murakami Medramo, Revista Emília e CEDAC, 2017.

Rascunho
Publicação literária, traz ensaios, resenhas, entrevistas, textos de ficção e ilustrações.

Vivendo e Aprendendo
O artigo aborda o tema das artes e atividades culturais para o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes.

Revista Quatro cinco um
Publicação dedicada ao campo do livro e da leitura, conta com editorias como resenhas, colunas, notícias e muito mais.

Como começar
Podcast mensal do Nexo sobre cultura, que explora a obra de um autor ou movimento, dos clássicos às novidades, do erudito ao pop. Alguns episódios da série abordam obras e autores da literatura infantil, incentivando a leitura para crianças.

Festival Leia em CASA
Neste episódio do Festival Leia em Casa, uma iniciativa do programa homônimo, a escritora e narradora de histórias Kiara Terra dá dicas de como ler para as crianças com verdade e paixão.

Seminário A escrevivência de Conceição Evaristo
Iniciativa do Itaú Social em parceria com a MINA Comunicação e Arte, o seminário buscou ampliar o debate sobre o conceito de Escrevivência, criado por Conceição Evaristo há 25 anos, e também marcou o lançamento da publicação “Escrevivência: a escrita de nós – reflexões sobre a obra de Conceição Evaristo”.

Leia para uma criança – 2020
A Campanha que marca os 10 anos do programa Leia para uma criança entrou no ar em outubro e traz duas obras inéditas para a coleção do programa: A visita, de Antje Damm e Com que roupa irei na festa do rei, de Tino Freitas e Ionit Zilberman.

Revista Emília
Publicação dedicada à democratização do livro e da leitura e à promoção de uma literatura de qualidade. Com uma seção dedicada à área educativa, reúne experiências e relatos de práticas para profissionais da educação.

Cursos gratuitos da plataforma Polo
Ambiente de formação do Itaú Social que reúne formações práticas, certificadas e gratuitas para profissionais de redes públicas, organizações da sociedade civil e todos aqueles que atuam pela melhoria da educação. Uma novidade é o percurso Multiletramentos, composto por cursos como “Leitura para bebês”, “Infâncias e leituras” e “Leitura para juventudes”. Saiba mais

Prática Inspiradora

Com o objetivo de fortalecer a leitura na primeira infância, a partir de uma perspectiva que articula saúde, educação e cultura, o projeto realizado em Parelheiros – pelas Organizações da Sociedade Civil IBEAC e Instituto Emília, em parceria com o Itaú Social – distribui gratuitamente exemplares de “seu primeiro livro” aos recém nascidos da região, bem como realiza formações voltadas à produção coletiva no campo da literatura. Conheça !

Mergulhe nesta pauta

Para falar sobre o campo da literatura no último decênio, Camila Feldberg – gerente da área de Fomento do Itaú Social e especialista em Sociopsicologia da Juventude e Políticas Públicas, pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) – conversa com:

Tino Freitas

Desde menino, o cearense Tino Freitas é apaixonado por histórias. Em 1999, mudou-se para a cidade de Brasília, onde vive até hoje e desenvolve diferentes projetos relacionados à leitura e à formação de leitores. O autor tem mais de 20 títulos publicados, sendo que alguns deles já receberam importantes premiações, como o Prêmio Jabuti e o Prêmio Bienal, além do Selo Altamente Recomendável para Crianças, da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil -FNLIJ. Em 2020 a campanha Leia para uma criança distribui para todo Brasil a sua obra Com que roupa irei para a festa do rei.

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FICHA TÉCNICA

Coordenador de comunicação: Alan Albuquerquer R. Correia | Edição e ensaios: Fernanda F. Zanelli |
Identidade visual: Rodrigo Souza | Gestão de tecnologia: Felipe José da Silva |
Leitura crítica: Camila Feldberg, Dianne Melo, Rodrigo Ratier e Tayrine Santana |
Produção editorial: Estúdio Cais  | Ilustrações: Veridiana Scarpelli | Design de Interface : Sintropika
Revisão ortográfica: Beatriz Gross