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Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Especiais

O mundo é o primeiro livro que aprendemos a ler

Parte da série "O valor da leitura: legado e inspirações para a nova década", este especial trata sobre os processos de ensino e aprendizagem que envolvem a leitura e a escrita.


Nesse episódio da série “O valor da leitura: legado e inspirações para a nova década” a pauta será os conceitos basilares para o campo da leitura. Debateremos termos como alfabetização, letramento e multiletramentos e ainda os desafios em torno do ensino e aprendizagem da leitura e da escrita, sob uma perspectiva histórica.  

Como o próprio tema suscita, preparamos este especial a partir de diferentes modalidades de conteúdo. De produções inéditas à curadoria de materiais de referência, o especial conta com ensaio, entrevistas em vídeos, dicas de cursos e até mesmo um podcast com uma convidada que é especialista no tema. Quer saber mais? Aproveite o conteúdo completo a seguir!

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A leitura e seus desdobramentos

Dona Maria Perpétuo ditava a carta para a filha, palavra a palavra. Não esquecia sequer do silêncio entre elas, as pausas corretas, os goles no café amargo. Edileuza Maria sabia, sem explicar o motivo, que não cabia a ela mudar letra única que fosse, nem para salvar a pele do castigo. Ainda que soubesse que o texto nunca seria lido pela autora. Dia seguinte postaria a carta, e seu pai, na outra margem do país, estaria a par de seus arroubos de adolescente.

Esta é uma memória que minha mãe me contou, enquanto eu escrevia as primeiras linhas desse ensaio sobre leitura. As lembranças com a mãe dela, minha avó. Uma mulher negra, nordestina, que apesar de nunca ter aprendido a ler e escrever palavras, sempre fora mestre em compreender as mensagens da vida. 

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Quem pode prever os efeitos que aprender a ler e escrever pode ter na vida de alguém?

Ainda, como descrever a sensação de  compor a primeira geração de Marias a fincar no papel a grafia de seu nome? O domínio da palavra escrita é um óculos que não se pode remover, porque muda para sempre a forma que se enxerga o mundo.

Ainda que seja assim, antes mesmo do processo de alfabetização, a convivência com as palavras já existe. A leitura do mundo precede a leitura das palavras”, disse o educador e filósofo Paulo Freire. Mesmo que este postulado seja antigo, ele está no coração deste ensaio pela relevância que ainda tem nos dias de hoje. Ele versa sobre uma concepção de letramento que extrapola o domínio do código, pois tem como premissa a leitura e a escrita como prática social. 

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Todos estamos imersos em um território letrado e essa forma de produção organiza nossas experiências sociais e culturais. A carta ao pai, o letreiro do ônibus, a receita do bolo, a regra do jogo, em toda parte as palavras dizem, nos colocam em um processo contínuo de decifração e de atribuição de significado. Em uma perspectiva contemporânea, o conceito de multiletramentos dialoga ainda com nossa capacidade de ler em diferentes modalidades textuais, aspecto fundamental para nos conectarmos em um mundo em constante mutação. A leitura e a escrita, portanto, são como mapas que nos permitem aprender com viajantes de todos os tempos.

A palavra é legado, ainda que por ela tomemos consciência de que resta a ser experimentado muito mais do que será possível saber ou contar”, como afirma o escritor e professor norte-americano Joseph Campbell, no clássico sobre mitologia Herói de mil faces. As páginas, mesmo irremediavelmente incompletas, registram uma parte significativa do testemunho humano sobre a vida. A consciência do homem sobre si e sobre o comum de suas circunstâncias.

Ler é ainda condição-chave para a autonomia. Na prática da leitura, o diálogo se multiplica, aprofunda, transborda, atravessa épocas, fronteiras, alcança vivos e mortos. Thaís Pinheiro, membro do coletivo Mães mobilizadoras de Parelheiros (zona sul de São Paulo), sintetizou com beleza e maestria o significado da leitura para a aprendizagem: “A leitura é como um copo d’água que lubrifica e cria um campo fluido e fértil para que outras coisas floresçam”.

Por: Fernanda Zanelli – especialista da área de comunicação do Itaú Social e mestranda em ciência da informação, pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP)

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Saiba mais sobre


Letramento

O conceito de letramento abarca diferentes sentidos, a depender da ótica mobilizada: antropológica, linguística ou psicológica, por exemplo. No recorte deste termo em relação à alfabetização, ele basicamente propõe uma ampliação na forma de compreensão do processo de aprendizagem, que extrapola o domínio do sistema alfabético-ortográfico, já que tem a premissa da leitura e da escrita como prática social. Desse modo, os sujeitos apropriam-se da leitura e da escrita, criticamente, considerando seus diversos contextos sociais. Isto é, não somente dominando um conjunto de competências, mas conectando esse conhecimento à realidade e fazendo uso dessas habilidades em diversas situações.  Saiba mais em Glossário Letramento, de Magda Soares, na plataforma do CEALE- Centro de Alfabetização, leitura e escrita da UFMG.

Multiletramentos

A convergência tecnológica e a divergência cultural caracterizam contextos em que os novos meios de comunicação e as comunidades globais interconectadas afetam diretamente os usos da linguagem. Refletindo as mudanças sociais e tecnológicas atuais, ampliam-se e diversificam-se não só as maneiras de disponibilizar e compartilhar conhecimentos, mas também de lê-los e produzi-los. No contexto contemporâneo, portanto, muitas são as menções a textos multimodais, à medida que incorporam em suas narrativas diferentes formas de organizar a informação, mesclando imagens (estáticas ou em movimento), músicas, fala, sonoplastias etc. Nesta perspectiva, o conceito de multiletramentos é um fato, já que o interlocutor precisa mobilizar múltiplos letramentos para compreensão da mensagem. 

A abordagem está em consonância com os preceitos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) – conjunto de aprendizagens essenciais a ser desenvolvido ao longo das etapas e modalidades da Educação Básica – de preparar o educando para a vida social e profissional e para o pleno exercício da cidadania. Das dez competências gerais da BNCC, duas abrangem o uso da tecnologia pelos alunos de maneira direta e expressiva. Enquanto uma se refere ao digital como uma das linguagens a ser utilizada, a outra foca no aprofundamento de seu uso de forma crítica, significativa, reflexiva e ética.

Amplie seus conhecimentos

As taxas de analfabetismo ainda são altas no Brasil?
Vídeo produzido pelo Canal Futura como parte do projeto Mentira na Educação, não!

Revista Na Ponta do Lápis
A publicação, desenvolvida pelo programa Escrevendo o Futuro, tem como objetivo  aprofundar os princípios teórico-metodológicos do ensino da Língua Portuguesa e ampliar o repertório cultural dos educadores.

A importância do ato de ler
Versão da renomada obra de Paulo Freire em audiolivro.

Entrevista com Magda Soares
Antônio Gois conduz uma conversa sobre  métodos de alfabetização com Magda Soares, no programa Conexão Futura, 2013.

Entrevista com Roxane Rojo 
Cristiane Mori conduz conversa sobre a pedagogia dos multiletramentos, produzida pelo programa Escrevendo o Futuro para o curso on-line Caminhos da Escrita, 2016.

Alfabetização em Angicos
Uma incrível experiência histórica de educação de adultos ocorreu numa pequena cidade do sertão do Rio Grande do Norte, em 1963. Foi em Angicos, no interior do estado, que o pedagogo Paulo Freire desenvolveu, na prática, as ideias que, anos depois, seriam a base de seu mais famoso livro: A Pedagogia do Oprimido. Conheça!

Plataforma do Letramento
Iniciativa da Fundação Volkswagen e do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – Cenpec. Espaço para reflexão, formação, disseminação e produção de conhecimento sobre letramento. A seção Experimente oferece diversos recursos didáticos para usar com os alunos, como sugestões de atividades de leitura, escrita e brincadeiras.

Cursos gratuitos do programa Escrevendo o Futuro
O programa Escrevendo o Futuro – iniciativa do Itaú Social e parceria técnica com o Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária – Cenpec –  oferece cursos on-line gratuitos para educadores de todo o Brasil por meio de um ambiente virtual de aprendizagem, com o objetivo de contribuir com a formação de educadores para o ensino da Língua Portuguesa, e foco na leitura e escrita. O curso “Leitura vai, escrita vem: práticas em sala de aula” oferece reflexões teóricas e sugestões práticas para os professores que queiram aprimorar dinâmicas para o ensino de leitura na escola.

Cursos gratuitos da plataforma Polo
Ambiente de formação do Itaú Social que reúne formações práticas, certificadas e gratuitas para profissionais de redes públicas, organizações da sociedade civil e todos aqueles que atuam pela melhoria da educação. Uma novidade é o percurso Multiletramentos, composto por cursos como “Leitura para bebês”, “Infâncias e leituras” e “Leitura para juventudes”. Saiba mais

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Prática Inspiradora

Parte integrante do programa Escrevendo o Futuro, a Olimpíada contribui para a promoção de equidade e qualidade na educação por meio de um concurso de produção de textos que premia alunos do 5º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Ensino Médio. A iniciativa é desenvolvida em parceria com o Ministério da Educação e coordenação técnica do CENPEC. A websérie Meu lugar tem histórias – Olimpíada de Língua Portuguesa: uma escrita sobre o Brasil percorre as diferentes histórias de seis estudantes e uma professora que, ao participarem da Olimpíada, vivenciaram um caminho de transformações, aprendizados e abertura para novas oportunidades.

ACESSAR

Mergulhe nesta pauta

Nesta entrevista sobre as reflexões acerca da alfabetização, letramento e multiletramentos, tendo como norte o debate nos últimos anos e perspectivas para o futuro, Claudia Petri – coordenadora da área de implementação regional e mestre em educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP – conversa com:

Cristiane Mori

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Cristiane Mori é Mestre em Linguística pela UNICAMP, professora do Curso de Pedagogia no Instituto Singularidades. É coordenadora de cursos on line do Programa Escrevendo o Futuro e atua com formação inicial e continuada de professores em redes públicas e privadas de ensino. Integrou a equipe de redatores da BNCC, em Língua Portuguesa – Ensino Fundamenta

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FICHA TÉCNICA

Coordenador de comunicação: Alan Albuquerquer R. Correia | Edição e ensaios: Fernanda F. Zanelli | Identidade visual: Rodrigo Souza | Gestão de tecnologia: Felipe José da Silva |
Leitura crítica: Camila Feldberg, Dianne Melo, Rodrigo Ratier e Tayrine Santana |
Produção editorial: Estúdio Cais  | Ilustrações: Veridiana Scarpelli | Design de Interface : Sintropika | Revisão ortográfica: Beatriz Gross