Guilherme Karsten
Escritor e ilustrador de livros infantis, entre eles Carona, que recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro Ilustrado em 2021


Por Mallu Britto, Rede Galápagos, Curitiba (PR)
Guilherme Karsten é autor e ilustrador de livros infantis, natural de Blumenau, Santa Catarina, onde reside. Começou sua jornada artística estudando publicidade e design gráfico, mas logo se aventurou no mundo da ilustração, onde se encontrou profissionalmente. Em 2010, criou suas primeiras ilustrações em um livro infantil, marcando o início de uma carreira na qual Karsten emprestou seu talento para mais de 30 livros, colaborando com autores brasileiros e estrangeiros.
Sua paixão pela escrita logo começou a se manifestar e, em 2017, lançou seu próprio livro como autor e ilustrador, intitulado Carona. Esse trabalho recebeu diversos prêmios, entre eles o Jabuti de 2021, na categoria Melhor Livro Ilustrado. O trabalho de Karsten vem sendo publicado em mais de 15 idiomas e acumulando uma série de condecorações no exterior, incluindo a Placa de Ouro na Bienal de Ilustrações de Bratislava, em 2019, e o Grande Prêmio Catavento de Ouro na China, também em 2019.
O estilo distintivo de Guilherme Karsten e suas histórias cativantes não apenas encantam, mas também estimulam a imaginação dos leitores. Ele acredita que a leitura na infância se torna uma experiência emocionante quando oferece momentos de interação e conexão com as histórias. É por meio delas que muitas vezes pais e professores podem se aprofundar em assuntos e fortalecer suas conexões, no ambiente familiar e na sala de aula.
Em conversa com Notícias da Educação, ele fala um pouco das suas influências, sobre a importância dos pais no desenvolvimento do gosto pela leitura das crianças, sobre literatura infantil brasileira e mais.
NNotícias da Educação — O que o influenciou a gostar de literatura e a pensar em ilustrar e escrever livros infantis?
GGuilherme Karsten — Eu não tive uma infância leitora; não lembro de ler livros quando criança, mas desde cedo me interessei pela ilustração, pelo visual. Sempre gostei de desenhar; esse era meu prazer em casa. Então, eu fui trabalhar num estúdio de ilustração aqui em Blumenau. Era exatamente o que eu gostava de fazer, o emprego dos sonhos. Nosso maior cliente era uma editora de livros infantis; então, para fazer as ilustrações, precisávamos ler clássicos de autores como Hans Christian Andersen, os irmãos Grimm e muitos outros. Nesse dia a dia, acabei me interessando não pelos livros em si, mas sim pelos ilustradores que ia conhecendo, pelo seu olhar e pela sua arte. Como eles conseguiam se conectar tão bem com os textos? Comecei a ler graças a isso e aí descobri outros artistas de que eu gostava e que escreviam também. Hoje acho que gosto mais de livros infantis do que dos títulos para adultos, apesar de lê-los também. Com o tempo, decidi que queria ser ilustrador de livros para a infância, algo que me interessava muito. É o formato narrativo que mais gosto de ilustrar. Depois de ler muitos livros, essas histórias ficam na tua cabeça enquanto outras vão surgindo. Percebi que também tinha alguma coisa para contar. Foi quando passei a ser escritor.
NVocê frequentemente cita em entrevistas que o seu intuito é fazer com que o hábito da leitura seja compartilhado entre as pessoas. Com quem você compartilha esses momentos?
GQuando eu era criança, não tinha esse momento de compartilhar a leitura. Ele era substituído pela música, por causa das predileções de meu pai, que, apesar de não tocar nenhum instrumento, gostava muito de escutar. A gente tinha esse hábito de ouvir CDs, comprava um álbum e ficava ouvindo o tempo todo. Hoje ouço muitos artistas que jamais ouviria e eu penso “isso me lembra minha infância”, me lembra o meu pai e minha mãe em casa. São os pequenos momentos que se transformaram em grandes memórias, que conectavam a gente como família, e eu acho que literatura tem esse poder de conexão. Faço literatura para conectar as pessoas. Acho muito legal uma criança ler um livro, mas é muito mais legal quando ela faz isso com todo mundo junto. O livro é uma peça importante, uma obra de arte por si só, conector de pessoas. Conecta olhares e corações. E aí está o tesouro. Tenho essa vivência aqui em casa, com meus filhos. Todas as noites querem que a gente conte histórias. E a gente conversa sobre elas. Quero que eles se divirtam e a partir disso vão conversando também sobre outras coisas.
NComo você encontra o equilíbrio entre imagens e textos na hora de montar o seu livro?
GSurge muito naturalmente, como cada um vai ganhando seus espaços. Nem sempre vem tudo na minha cabeça; algumas cenas são muito pontuais, enquanto há outras em que ainda nem sei o que vai acontecer. Porém, elas vão surgindo e tem momentos em que penso que poderia retirar algum texto ou preencher aquele espaço com ilustração, ou o inverso. Diria que texto e imagem surgem muito naturalmente ao mesmo tempo. Você vai construindo aquela ilustração e o texto vai ganhando o espaço dele junto.
“Por meio de uma história divertida às vezes chegamos a pontos sensíveis sobre os quais não é tão fácil falar.”
NCarona, de 2017, foi o seu primeiro livro publicado. Qual foi o impacto desse livro em sua carreira?
GAcho que o Carona foi uma experiência de pôr no papel coisas incubadas na minha cabeça havia muito tempo. São ilustrações que fui fazendo e que planejava poder usar em algum momento. Todas essas misturas de textos e imagens acabaram sendo canalizadas e filtradas para essa história. Para mim, era tudo novo, a primeira vez. Sem querer parecer arrogante, quando ouço outras pessoas dizendo que o livro trouxe um frescor, tenho a sensação de que ele representa uma novidade de estilo de ilustração e do tipo de literatura que estava sendo feita no Brasil. Confesso que foi muito sem querer. Notei que não são poucos os autores que surgem dessa mesma maneira. Carona acabou ganhando um Jabuti, o maior prêmio brasileiro, na categoria ilustração, e isso me abriu muitas portas. Eu já era conhecido nas editoras, pelo meu trabalho como ilustrador. Entretanto, eu tinha dificuldade de me tornar conhecido do público. Principalmente porque eu não moro no eixo Rio-São Paulo. O Carona espalhou o meu nome para todo o Brasil e para outros países. É o meu livro com o maior número de traduções. Já são 12 idiomas. Para um primeiro livro, é uma conquista incrível, que me trouxe muitas alegrias.

NQual o feedback do seu público e dos editores de suas obras no exterior?
GÉ um mar de gente. Com a quantidade de autores no mundo, você é apenas mais um tentando entrar. É difícil tornar-se mais conhecido, é uma construção. Porém o Carona teve uma repercussão porque eles perceberam que era algo novo, com um olhar global, transcultural. Ele conversa muito com o público asiático, por exemplo. Até há pouco tempo meus livros circulavam mais na China do que no Brasil. O AAHHHH! também fez muito sucesso de crítica de ilustração. E não é somente o volume de vendas e de leitores. A ilustração também foi bem recebida pela crítica. Tenho um livro chamado Você é um monstro?, um dos últimos que lancei, concorrendo a um prêmio na Inglaterra. Vejo que são poucos brasileiros que saem, que têm sucesso lá fora, mas aos poucos estamos dando a cara. Há muitos autores e ilustradores brasileiros construindo carreiras no exterior. E isso também ajuda a literatura infantil brasileira a ganhar corpo tanto aqui como lá.
“… as crianças gostam de livros que as deixem arrepiadas, seja aquele terror que tira a gente do lugar ou o humor escrachado, que fala de meleca, pum ou coisas do gênero. Nem sempre os livros precisam ter uma mensagem mais profunda para capturar a atenção delas.”
NComo os brasileiros podem contribuir no cenário global da literatura infantil?
GO Brasil tem muito lugar de fala sobre os temas dos desafios e das mazelas sociais. Você tem a emergência e o crescimento da literatura negra e indígena, falando com propriedade sobre assuntos contemporâneos. Não somos, por exemplo, um país europeu e branco que quer emular esse tipo de literatura. Aqui temos ancestrais que trazem isso na sua cultura. Por outro lado, a minha literatura não fala de tradição brasileira especificamente; não busco pontuar uma região ou um povo específico. Sempre tive vontade de fazer uma literatura universal. É o que gosto de fazer, pois não tenho um lugar de fala sobre muitas coisas. Acredito que os brasileiros têm muito a propor. Minha literatura tem muito humor e acho que nós temos também: sabemos nos divertir muito, rimos da vida e não a olhamos somente pelo lado negativo. Nós podemos ser aquele Brasil que já fomos há muitos anos, divertido e gentil; então o meu humor tem disso.
NE o que você aprendeu com as pessoas do exterior que você acha que poderíamos aplicar no nosso cenário?
GNós todos aprendemos muito todos os dias. O que vejo é que cada cultura tem suas especificidades; às vezes a minha literatura em alguns lugares não é tão comercial e num outro é. É difícil ser muito universal, porque cada país tem o seu entendimento. O americano, por exemplo, não gosta de temas muito ousados, como os relacionados à morte. Um dos meus livros, Ramon Fellini, que é um cão detetive, tem um peixe que desaparece devido a um gato. No mercado americano isso não é muito bem-visto. No início pensei que isso era uma bobagem, mas é a cultura deles, a gente não pode julgar. Recentemente, estava apresentando para a minha agente dois textos que escrevi e ela disse: “Nossa, Guilherme, que incrível, não tenho alteração nesse texto”. Ela disse que eu estou pegando o jeito de escrever para as crianças e isso é pelo tanto que a gente conversa com editores e outros autores. Você vai entendendo os públicos e na hora de escrever já sabe qual lado seguir, criando uma história mais palatável.
NHoje as crianças têm acesso a diversos estímulos que concorrem com a leitura. O que você procura colocar nos seus livros para que elas consigam focar na história?
GEu sei o que me ganha, que é uma história divertida, um humor que me tira do lugar. Os meus filhos também não sei se gostam porque são meus filhos, pois acho que posso tê-los influenciado a gostar das coisas de que eu gosto. O fato é que faço o meu trabalho querendo que a criança goste dele. Com foco no que acredito que ela goste. Talvez mais adiante a história possa se tornar mais densa e emotiva. Mas já nas primeiras páginas ela tem que chamar a atenção, seja pela qualidade da ilustração ou do texto. Se ganho a criança ali, tenho grandes chances de ter sua atenção pela história toda. Uma vez li uma crítica sobre histórias infantis, e a autora dizia que as crianças gostam de livros que as deixem arrepiadas, seja aquele terror que tira a gente do lugar ou o humor escrachado, que fala de meleca, pum ou coisas do gênero. Nem sempre os livros precisam ter uma mensagem mais profunda para capturar a atenção delas; os adultos é que gostam disso. Acho que se meus pais tivessem me mostrado um livro desses quando criança eu teria me interessado mais. Porém, creio que o livro não funciona tão bem se não tiver um adulto junto. É muito importante a mediação, ler com a criança. Se você só entrega um livro, ela não tem estímulo nenhum; mas se o pai ou a mãe estiverem junto, o estímulo é maior. A partir dos meus livros, as crianças podem ir para outras obras que falam de assuntos mais difíceis.
NQuando você vai às escolas, o que busca inspirar nas crianças?
GEu estou com crianças em escolas, quero que elas se divirtam, riam e que gostem. Uma professora de um colégio aqui de Blumenau me disse que as crianças entram na biblioteca e vão buscar os meus livros pra levar para casa. Tempos depois uma mãe me escreveu confirmando esse relato; foi muito legal. Quando estou com os pais, falo para eles que esse momento é muito importante, que eles são muito responsáveis por incentivar o hábito da leitura. Tenho um amigo, cujo chefe tem um filho pequeno, e meu amigo entregou meu livro para presentear a criança. O pai deu ao filho, mas, um mês depois, quando foi perguntar se a criança tinha lido o livro, a resposta foi não. Se o pai não cria o estímulo, isso não acontece. Outra coisa que quero que aconteça com os meus livros é que haja uma conexão e as crianças possam conversar sobre assuntos diferentes. Tempos atrás, estava numa sala de aula lendo meu livro Você é um monstro? e, ao final, um garoto disse que se identificava com os personagens, pois ele tinha seis dedos. As professoras até se surpreenderam ao ver que ele se sentiu à vontade para compartilhar isso, algo que poderia ser muito difícil de falar, mas que, com a ajuda do livro, ficou mais fácil. Isso para mim é o ápice! Meu livro criou uma conversa. Por meio de uma história divertida às vezes chegamos a pontos sensíveis sobre os quais não é tão fácil falar.
NVocê disse que tem uma conexão muito forte com a música, até por ligação com a sua família. Já pensou em expandir suas histórias para outras mídias, como áudio, vídeo ou outros formatos?
GEu gostaria, sim, porque para mim uma história nunca termina na última página; ela sempre tem chance de ecoar na cabeça das crianças. Por que não ecoar para outros lugares, para outras plataformas? Quero que as minhas histórias possam virar um desenho animado, uma linha de roupas, uma peça de teatro, e assim por diante. E pensar que tudo isso surgiu a partir de um livro. Como aconteceu, por exemplo, com Harry Potter, A fantástica fábrica de chocolate e tantos outros títulos. Há muitos formatos e suportes possíveis para as histórias e personagens. Tudo isso é muito interessante.