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O chamado da leitura

A chegada de livros do programa Leia para uma Criança a 60 escolas públicas de Cascavel, no Ceará, mobiliza milhares de famílias e educadores em uma série de ações de leitura para e com as crianças


Lara com o livro A visita, no novo cantinho de leitura criado pela mãe: “A parte que eu mais gostei foi quando eles começaram a ser amigos. Quando a gente tem um amigo, a gente tem com quem brincar”. Foto: Gisládia Nascimento

Por Luana Gurgel, Rede Galápagos, Fortaleza (CE)

Era uma tarde de sol no litoral do Ceará. No município de Cascavel, na região metropolitana de Fortaleza, Lara Nascimento, de cinco anos, se admirou com o pacote que a mãe trouxe para casa, cena pouco habitual nestes dias de isolamento. Um presente. Mas não era um dia de comemoração de nada, estranhou a menina. A mãe insistiu. Lara foi tateando o embrulho e logo rasgou o papel. Em seguida, uma surpresa: finalmente tinha nas mãos o primeiro livro de literatura infantil só dela. Emoção para a mãe e sorriso largo para a menina, que já era conhecida na escola pela desenvoltura com as letras e pelos sentidos que elas apresentam.

O livro era A visita, da escritora alemã Antje Damm. A dona de casa Gisládia Nascimento, mãe de Lara, havia sido chamada semanas antes pela escola para receber o exemplar que faz parte do programa Leia para uma Criança, do Itaú Social. A rede municipal de ensino havia recebido milhares de livros e, com eles, o convite para orientar coordenadores, professores e famílias para se prepararem para uma mediação de leitura de qualidade. A partir daí, uma série de pequenos e grandes eventos do universo da literatura infantil iria fazer parte do cotidiano de Lara e de mais de outras 3 mil crianças de 60 escolas da cidade. O Leia para uma Criança incentiva a leitura do adulto para e com a criança como uma oportunidade de fortalecimento dos vínculos familiares e de participação na educação. Em dez anos de atuação em todo o Brasil, o programa já distribuiu gratuitamente 60,2 milhões de exemplares a pessoas físicas que solicitam no site e a crianças e famílias em situação de vulnerabilidade, por meio de parcerias com bibliotecas comunitárias, organizações da sociedade civil e municípios. 

Voltemos a Gisládia, mãe de Lara. Quando ela foi chamada à escola, além do livro, recebeu o convite para criar uma situação de envolvimento da filha com o momento de leitura. Ao retornar à sua casa com o exemplar, manteve-o escondido da menina e, depois que ela dormiu, leu atentamente o livro. Sensibilizou-se com a história do encontro que muda a vida dos personagens. Gisládia dispensou uma série de cuidados afetuosos para valorizar a conquista e preparar a entrega do livro. Montou até um cantinho de leitura. “Fiz um cenário, uma plaquinha de papelão, para que fosse um momento especial porque a leitura é algo muito especial.” Lara aproveitou o espaço, nele foi e voltou nas páginas de A visita. A história ela sabe de cor, do jeito dela. “A parte que eu mais gostei foi quando eles começaram a ser amigos”, diz. “Amizade é muito importante; quando a gente tem um amigo, a gente tem com quem brincar, se divertir.” No livro, o elo simbólico de conexão entre a solitária idosa Elise e o garoto Emil é um aviãozinho de papel. A escola preparou diversas abordagens para trabalhar esse elemento e uma delas foi a aula de dobraduras. Lara conseguiu montar seu próprio aviãozinho grafado com o nome “Jade”, a amiga que deseja logo rever.

Preparação para mediar a leitura
A cidade recebeu 4.070 exemplares de livros com os dois títulos lançados pelo Leia para uma Criança em 2020. A visita foi trabalhado pela rede municipal de ensino de Cascavel, em março. Em abril o foco da ação foi o título Com que roupa irei para a festa do rei?, do autor cearense Tino Freitas. Quem fez a solicitação dos exemplares do programa para o município foi Rômulo Andrade, assessor técnico da Secretaria de Educação do município. Ele já conhecia o Leia para uma Criança como pessoa física e todo ano solicita os livros para ler com a filha. Já leram juntos dez títulos da coleção. Quando soube que era possível pedir livros para a secretaria, acionou o projeto para o município.

Clarisse Moura vestida de rainha de copas e coroada com um laço, pronta para o baile: uma professora da educação infantil sugeriu o uso de fantasias e as crianças se engajaram nas histórias, mudando o cotidiano das famílias. Foto: Virgínia Moura

Em novembro de 2020, Rômulo foi chamado para receber uma encomenda que chegara à secretaria. No pátio, viu dezenas de caixas repletas de livros. “Abri as caixas e me deparei com os kits do Itaú Social, acionei o secretário e os técnicos que trabalham com a leitura”, explica Rômulo. “Dois dias depois chegaram mais, e eu fiquei ainda mais surpreso.” Ao todo foram 37 caixas. Começava ali uma nova jornada para a equipe da secretaria. A partir da leitura e análise do material, a equipe decidiu trabalhar os títulos recebidos com os estudantes do infantil V e do primeiro e segundo anos do ensino fundamental. Uma vez decididos quais seriam os estudantes a receber os livros, era preciso preparar os educadores. Com a pandemia, a equipe preferiu se reunir com os coordenadores de cada uma das 60 escolas que receberiam exemplares. Após a preparação dessas equipes, era possível repassar a metodologia aos professores, sob acompanhamento de técnicos da secretaria. Nesse período, a secretaria também orientou os professores a acessarem cursos disponíveis no Polo, ambiente de formação do Itaú Social, especialmente os de mediação de leitura, como Infâncias e leituras e Mediação de leitura para juventudes

Rômulo Andrade fez a solicitação pelo portal do Leia para uma Criança e chegaram livros suficientes para trabalhar com alunos de 60 escolas da rede municipal de Cascavel (CE). Foto: SME/Cascavel (CE)

Mobilização para a entrega dos livros
Uma das estratégias escolhidas para trabalhar com as crianças foi a contação de histórias. Gleison Castro, técnico de formação de professores da Secretaria de Educação do município, tem experiência nessa atividade. Ele esteve à frente da reunião com os coordenadores. “Fiz a contação de histórias e passei a forma como deveriam trabalhar, a comparação de gêneros literários, abraçando outras linguagens artísticas”, explica. 

Após a preparação dos coordenadores, estes deveriam orientar os professores, que na sequência explicariam aos pais o desenvolvimento das atividades. Definida a abordagem metodológica, era o momento de garantir que 3.009 crianças recebessem o material, observando os protocolos de segurança necessários durante o contexto de pandemia. Isabel Costa, técnica formadora de língua portuguesa, esteve à frente da mobilização. Segundo ela, além das instituições na sede do município, há escolas a duas horas de distância e algumas em área de praia. Para chegar a essas mais distantes, em alguns casos foram usadas as mesmas rotas pelas quais estavam sendo feitas as entregas de kits de material escolar, de limpeza e de expediente das próprias escolas. Agora era preciso contatar os pais para receberem o material nas escolas. Mas a realidade das famílias é desigual; existem aqueles responsáveis que não têm acesso a telefone ou outro meio de comunicação digital. Nesses casos foi preciso entregar pessoalmente, inclusive em territórios de praia e de sertão, que fazem parte da geografia local. A Secretaria Municipal de Ensino também destinou parte dos exemplares ao acervo fixo de escolas, bibliotecas e núcleos de arte e cultura locais.

Gleison Castro, técnico da Secretaria de Educação do município, com coordenadores de escolas de educação infantil e ensino fundamental: contação de histórias como estratégia. Foto: SME/Cascavel (CE)

Dias de baile
Era hora de as crianças conhecerem Com que roupa irei para a festa do rei?, de autoria do escritor Tino Freitas e da ilustradora Ionit Zilberman. Para a distribuição desse segundo título a logística e a metodologia já estavam desenvolvidas. Mas surgiram novas ideias de abordagem, adequadas ao tema do livro. Se havia bichos vestidos em traje de gala, que tal levar as crianças também ao baile? A proposta feita pela professora Liana Miranda, que leciona na educação infantil, foi disseminada entre os alunos e mexeu com a rotina das famílias. “No trabalho com esse livro fizemos a contação de história em vídeo e depois eles criaram ilustrações para os trechos que mais gostaram”, explica a professora. “A gente também propôs que eles se vestissem para uma festa e orientou a confecção de uma coroa.” 

Alguns vídeos gravados com as crianças mostram o alto engajamento com as histórias. A aluna Ivy Lopes, cinco anos, não conseguiu decidir de qual dos livros gostou mais, mas não hesitou em narrar a história a seu modo, chamando atenção para as ilustrações: “Olha como é engraçado eles vestindo a roupa; olha que engraçado o jacaré de bota. Não tem como não ser engraçado”. E arrematou uma síntese da mensagem do livro: “Ali todos são reis”. Sua mãe, Ivna Lopes, explica que desde cedo estimulou o hábito de leitura. “Sempre que leio para ela peço um resumo.” 

Ivy Lopes conta sua versão da história Com que roupa irei para a festa do rei?: “Ali todos são reis”. Foto: Ivna Lopes

Outra aluna, Clarisse Moura, que tem sete anos e cursa o segundo ano do ensino fundamental, não esconde que sua leitura preferida foi Com que roupa irei para a festa do rei?. “Ele fala muito de fantasias e essas coisas que é muito legal conhecer.” Com a proposta das fantasias, ela escolheu uma já guardada em casa. “Eu me vesti de rainha de copas. Eu achava que parecia muito, porque o livro fala muito de reis e fantasias também”, conta Clarisse. Sua tia, Virgínia Moura, adaptou a fantasia que era de outro familiar e ajudou a encontrar uma coroa para essa nova rainha cheia de sorrisos. A tia narra como a menina já vestida de copas encontrou o adereço. “Clarisse experimentou a fantasia e disse que precisava de uma coroa.  Ela ficou em casa buscando algo que simbolizasse uma coroa”, conta Virgínia. “Até que finalmente pegou um laço e disse: ‘Pronto! Esta aqui é a minha coroa’”. 

Os alunos compartilharam vídeos e fotografias, cada um de uma forma, mas todos prontinhos para o baile de que tanto fala o livro. Além de criar esse espírito de baile de gala com as fantasias, contações e vídeos, a equipe conseguiu que as crianças conhecessem o autor de Com que roupa irei para a festa do rei?, o cearense Tino Freitas.

Tino Freitas em vídeo para Secretaria de Educação de Cascavel

Em um universo de coincidências, Tino é amigo de Isabel Costa, técnica de língua portuguesa da secretaria. Ele já vinha acompanhando pelas redes sociais a chegada e distribuição do material à cidade. O escritor entusiasmou-se ao saber que o título seria debatido entre as crianças. E quando Isabel pediu a Tino Freitas que gravasse um vídeo, ele concordou imediatamente. Os pequenos leitores puderam associar o rosto e a fala do autor àquela viagem à festa do rei, uma experiência concreta de valorização da literatura que agora faz parte da prática e do imaginário de crianças, famílias e educadores de Cascavel.


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