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Dez perguntas para

A leitura, a compreensão do mundo e a democracia

A neurocientista Maryanne Wolf fala como o equilíbrio entre a leitura digital e a impressa pode contribuir para uma melhor compreensão do mundo e, consequentemente, para o fortalecimento da democracia


Dez perguntas para
Maryanne Wolf
Diretora do Centro para Dislexia e Justiça Social na Universidade da Califórnia, doutora no Departamento para Desenvolvimento Humano e Psicologia da Universidade Harvard e defensora dos direitos de letramento de crianças e adolescentes

Maryanne Wolf: “A neurociência me leva a ajudar professores, cidadãos, formuladores de políticas e jornalistas a enxergar a inacreditável contribuição que a leitura é capaz de dar ao cérebro”. Foto: Divulgação

Por Gustavo Queiroz, Rede Galápagos, Curitiba

No livro O cérebro no mundo digital (Contexto, 2019), a neurocientista Maryanne Wolf destaca a potência da leitura diante dos desafios de nossa era. Após anos de estudos sobre a relação entre a leitura e a própria evolução humana, a professora na UCLA (Universidade da Califórnia) concluiu que a cultura baseada no letramento tem a capacidade de promover empatia, análise crítica e reflexão, aspectos que considera fundamentais para a permanência da democracia. Wolf participou do webinário “A leitura no mundo digital”, realizado em 2021 pelo Itaú Social.

Em seu livro, ela aponta que as telas facilitam o acesso à informação, mas podem diminuir o tempo de atenção. Por isso, em um mundo conectado, rápido e fracionado, a cientista acredita na necessidade do desenvolvimento do cérebro duplamente letrado, em que a leitura no ambiente digital deve ser complementar à exercida em meio impresso.

A pesquisa mostra que ler de forma profunda e analítica é fundamental para o desenvolvimento do cérebro. Isso permite o desenvolvimento de habilidades e aquisição de conhecimentos que fundamentam a compreensão do mundo desde os primeiros anos de vida.

Wolf afirma que existe uma relação entre a capacidade interpretativa do texto e a busca pela justiça social. Ao atualizar sua obra para os desafios do tempo em que vivemos, agravados pela pandemia de Covid-19, a pesquisadora aponta que, sem uma leitura profunda, a quantidade de informações que chegam ao leitor poderá dividir grupos, encobertar fatos e interromper o diálogo.

“Nós vamos precisar ainda mais de análise crítica no futuro, quando os problemas se alimentarem da falta de empatia como uma fonte para a guerra”, diz. Confira a seguir a entrevista completa.

NNotícias da Educação — Em um dos capítulos de seu livro, você abre a discussão sobre a leitura a partir do olhar da ciência e da poesia. Qual o significado que a leitura e a literatura têm para você e como essas visões se conectam e a levam a pesquisar esse tema?

MMaryanne Wolf — Nunca consegui escolher entre ciência e poesia. Minha graduação e meu mestrado foram em literatura inglesa. Mas entre os cursos eu passei um ano trabalhando com crianças que não tiveram a oportunidade de se alfabetizar e que viviam em uma área rural do Havaí onde não há escolas disponíveis. E essa experiência mudou a minha vida. Eu percebi que elas nunca poderiam vivenciar o que era a luz na minha vida, que são a linguagem e a poesia, porque elas nunca foram letradas. Então eu decidi que deveria aprender qual é o melhor jeito de fazer com que crianças aprendam a ler da forma como eu consigo. Levei isso ao laboratório de leitura da Harvard e percebi: é a neurociência. A neurociência me deu a oportunidade de estudar como o cérebro aprende a ler. É a ciência que me leva a ajudar professores, cidadãos, formuladores de políticas e jornalistas a enxergar a inacreditável contribuição que a leitura é capaz de dar ao cérebro.
Eu percebi também que uma coisa é falar sobre o processo e outra é falar sobre o conteúdo. Para mim é fundamental nunca perder a literatura e a poesia. É importante reforçá-las para que crianças tenham o potencial de se tornar alfabetizadas. Essa é a minha ciência. Então a resposta é que eu nunca escolhi entre ciência e poesia e acredito que, se você pegar uma parte do meu trabalho, poderá pensar que sou da área da literatura. Se pegar outra parte, poderá achar que sou da neurociência, ou da filosofia, ou da teologia. Então o processo de pesquisa é a neurociência, mas o conteúdo é a beleza da linguagem e como ela se expressa na literatura, na poesia e na não ficção.

“O que eu quero é que a análise crítica, a empatia e os processos de leitura profunda coexistam de modo que possam ser combinados com qualquer tipo de mídia.”

NQuando você fala sobre esse tema, é possível sentir que entende que a leitura funciona quase como uma necessidade básica para o cérebro.

MSim. Alguns escritores incríveis me ensinaram no passado o que a linguagem escrita significa para eles. Eu lembro de uma frase do Gustave Flaubert, autor de Madame Bovary, em que ele diz que a linguagem é como uma chaleira quebrada em que tocamos sons para os ursos dançarem, enquanto esperamos fazer música que mova as estrelas. E é isso que eu penso sobre linguagem e literatura. E isso me anima porque eu amo os fatos, mas amo também a linguagem que faz os fatos serem claros e compreensíveis para as pessoas. O melhor elogio que eu recebi sobre o meu livro recentemente foi de uma amiga, que não tinha lido porque achava que o texto era sobre o cérebro. Eu a convenci a ler e ela se surpreendeu quando descobriu que era também sobre poesia e ciência.

“O mundo mudou. Precisamos mudar com ele.”

NVocê cita a importância da neurociência para a leitura. Como essa ciência explica a nossa capacidade de ler? 

MPara mim a beleza de pensar sobre a conexão entre a neurociência e o cérebro começou com o primeiro insight que tive quando decidi escrever meu primeiro livro sobre leitura. Nós temos programas genéticos para nossos olhos, nossa língua, nossa capacidade de ouvir, de cheirar e de pensar, mas não é assim para a leitura. Então a descoberta foi muito simples: não existe nada no cérebro para a leitura. O ser humano não nasceu para ler. Então, o que nós fazemos para conseguir ler e o que no cérebro nos dá a capacidade de fazer isso?
Quando precisa aprender algo, como uma nova função cognitiva, o cérebro tem esse belo conjunto de princípios que ele pode reorganizar para fazer novas conexões entre aquilo que vê e a linguagem, ou entre aquilo que pensa e o sentimento.
No começo a leitura não era um circuito enorme. Ela era apenas um conjunto básico de redes no cérebro, em que a visão se conectava com uma palavra. Mas os seres humanos começaram a ver o potencial das funções simbólicas e essa rede se tornou mais complexa. O cérebro não para de adicionar conhecimento. Hoje nós temos um circuito que é quase uma fantasia, tamanha a complexidade que nós adicionamos a ele.

N O que significa o conceito de “plasticidade dentro dos limites”, usado em seu livro, e qual a relação dessa plasticidade com a leitura profunda?

MEsse é o centro da nossa discussão. A plasticidade, que nos permite partir desse circuito pequeno e chegar a um conjunto de redes, reflete o sistema de escrita. Tudo que faz você ser aquilo que é se reflete no texto escrito. Mas isso também significa que o meio em que nós lemos faz diferença nesse circuito. Nós temos um circuito acostumado a passar tempo no que chamamos de leitura profunda. Fomos ensinados a dedicar tempo para pensar no que estamos lendo no meio impresso. Mas nós vivemos em uma cultura digital, em que passamos 10 a 12 horas por dia lendo em telas. A tela tem a capacidade de nos dar acesso a informações sobre o que acontece ao redor do mundo. Não há dúvida de que com ela o conhecimento é acelerado de forma exponencial. Mas a velocidade com que nós lemos no digital e a natureza transitória de como as imagens na tela estão sempre passando de forma rápida diminuem os milissegundos que normalmente dedicamos à leitura profunda. Eu aprendi a começar e terminar meu dia lendo um livro, o que me acalma e preserva minha capacidade de ler.

NEm seu livro você menciona o italiano Italo Calvino por meio do conceito em latim festina lente, que traduz para “apresse-se devagar”. A leitura profunda exige maior concentração e atenção, mas temos o entendimento de que hoje lemos de forma mais fracionada no digital. É possível encontrar benefícios tanto na leitura no papel quanto na leitura nas telas?

MNão há como regredir em relação à tecnologia. Não digo que você deve ler apenas livros impressos, porque isso seria absurdo, reduziria nosso progresso enquanto espécie. Mas o que eu quero é que as novas gerações sejam ensinadas a desenvolver o processo de leitura profunda, que é mais fácil de acontecer no papel. Os primeiros 10 a 12 anos deveriam ser imersos na prática de leitura profunda, ao mesmo tempo que se pode aprender habilidades cognitivas digitais essenciais para nosso futuro, como a programação. A tecnologia é um produto dessa forma de cognição, que é extremamente essencial. Mas o que eu quero é que a análise crítica, a empatia e os processos de leitura profunda coexistam de modo que possam ser combinados com qualquer tipo de mídia.

“Os dois aspectos mais importantes da leitura profunda são a empatia e a análise crítica. A empatia leva à compaixão por meio do sentimento e do afeto por outras pessoas. Se você não lê coisas que encorajam a empatia, tende a ver os outros como inimigos em vez de aprender algo e ir além de si mesmo.”

NO pedagogo brasileiro Paulo Freire escreveu que, antes de ler a palavra, é preciso ler o mundo. Ele enfatizava a importância da leitura crítica. Esse é um conceito que você também considera fundamental?

MA análise crítica requer tempo. Quando você tem esses processos que precisam de um tempo incompatível com a rapidez da leitura digital, você encontrará um excesso de informação. Ao depararem com uma grande quantidade de informação, as pessoas tendem a permanecer em silos [ou bolhas]. Eu não tenho dúvida de que ter pessoas se apropriando de apenas um tipo de informação é um interesse político.
O paradoxo é que quanto mais informação o indivíduo recebe, mais ele tende a estreitar sua perspectiva, escolhendo apenas uma fonte e não procurando outros pontos de vista. O cérebro capaz de fazer uma leitura profunda deveria conseguir pegar um texto e fazer um julgamento autônomo sobre ele. É uma dança que acontece no lobo frontal do cérebro. O que ele faz é combinar o que lê com aquilo que sabe, de modo a ser capaz de refutar algo que não é verdadeiro. Se você estiver em apenas um silo de informações familiares, haverá um viés confirmatório. Nesse caso, quando a informação que você recebe bate com aquela em que acredita, você não só não está aprendendo como também está consolidando aquela afirmação como verdadeira, ainda que não seja.

NPor que você afirma que a leitura profunda está relacionada tanto com nossa habilidade de compreender um texto quanto com habilidades socioemocionais?

MEu diria que os dois aspectos mais importantes da leitura profunda são a empatia e a análise crítica. A empatia leva à compaixão por meio do sentimento e do afeto por outras pessoas. Se você não lê coisas que encorajam a empatia, tende a ver os outros como inimigos em vez de aprender algo e ir além de si mesmo. Então esses são os conceitos precursores que levam ao terceiro aspecto da leitura profunda, que é a reflexão. Eu adoraria que tivéssemos tempo para viver isso quando lemos. Nós vamos precisar ainda mais de análise crítica no futuro, quando as mudanças climáticas fizerem inimigos ao invés de amigos, ou quando os problemas se alimentarem da falta de empatia como uma fonte para a guerra. Como neurocientista, eu estudo como a leitura implica a forma como lidamos com a informação e usamos nosso conhecimento para construir sabedoria e empatia para a humanidade.

“A leitura pode nos ajudar a ir além das palavras, assim como fala Paulo Freire, para encontrar os significados que vão nos inspirar a agir da melhor forma como espécie.”

NEm outras ocasiões você afirmou que a literatura muda o curso da vida das pessoas. Isso ganha importância em uma sociedade que recebe novas gerações que experimentam conceitos menos fixos sobre as próprias identidades. Como a leitura impulsiona o desenvolvimento de crianças e adolescentes a um maior senso de justiça social e democracia?

MEssa é uma de duas possibilidades que temos hoje. Nós estamos nos tornando cada vez mais conectados e preocupados com a justiça social como sociedade, e não há nada que eu deseje mais neste momento. Mas ao mesmo tempo estamos estreitando nossos horizontes e nos dividindo entre grupos. Eles entram nesses silos de pensamento e eu nunca imaginaria que pessoas do meu país seriam tão incapazes de se comprometer e fazer acordos. Vejo duas forças nessa disputa: a divisão que as redes sociais podem promover e o espírito de conectividade que ao mesmo tempo elas conseguem realçar. Nós estamos em um momento que eu chamo de “dobradiça”, em que precisamos de pessoas para empurrar e propagar esperança e justiça.

NÉ impossível ignorar o meio digital como uma ferramenta de leitura à medida que a tecnologia avança. Você pode compartilhar experiências de ensino em que o digital ajudou a reduzir problemas de acesso à leitura?

MEu acredito que a leitura não é binária, de modo que a tecnologia pode ser usada de formas incríveis. Ajudei a criar o Curious Learning [em português, Aprendizado Curioso], uma iniciativa global de letramento midiático que já está na Etiópia, na África do Sul, na Nigéria e na Índia, onde tablets e celulares são usados para desenvolver o letramento em crianças que não têm acesso a escolas e professores. Eu sou extremamente engajada no uso da tecnologia de formas positivas, como na inclusão de crianças com dislexia. Ela pode ser uma ferramenta importante para automatizar algumas práticas para as crianças. Não há “sim” ou “não” para a tecnologia. O importante é avaliar a forma como a utilizamos.

NMikhail Bakhtin fala da primazia do contexto sobre o texto em relação à compreensão dos significados. A forma como pensamos afeta nossa forma de pensar? A leitura profunda, então, promove uma melhor compreensão?

MA leitura é uma de nossas armas secretas, quando estamos todos atrás da verdade e da sabedoria. A verdade não é somente algo estático. A leitura pode nos ajudar a ir além das palavras, assim como fala Paulo Freire, para encontrar os significados que vão nos inspirar a agir da melhor forma como espécie.

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