Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca

AGÊNCIA DE

Notícias

Dez perguntas para

“O livro ilustrado deve subverter o uso da imagem, passando do pragmático ao poético”

A autora e educadora fala sobre a importância da literatura infantil para o desenvolvimento da criança, sua compreensão do mundo e o entendimento de si mesma


Márcia Leite
Diretora editorial da Editora Pulo do Gato, especialista na área de leitura e literatura infantil e autora do livro Poeminhas da terra, selecionado pelo programa Leia com uma criança

Márcia Leite: “O bom livro infantil é aquele que favorece o desenvolvimento da empatia e do sentimento de pertencimento à condição humana”. Foto: Arquivo pessoal

Por Livia Piccolo, Rede Galápagos, São Paulo

Márcia Leite é sócia fundadora e diretora editorial da Pulo do Gato, pequena e premiada editora independente de livros ilustrados e ensaios relacionados à leitura, especialmente a literária. Alguns títulos da Pulo do Gato, que tem 11 anos de vida, receberam importantes prêmios nacionais e internacionais. Escritora de livros para crianças e jovens com mais de 35 anos de carreira, Márcia Leite une a paixão pelos livros para crianças e jovens com sua vocação pedagógica, pois foi professora e assessora de língua e literatura dos ciclos do ensino fundamental e médio por 35 anos.

Tem mais de 40 livros publicados por diversas editoras, alguns deles premiados e integrados aos programas governamentais e institucionais de fomento à leitura. Suas obras Do jeito que a gente é e Olívia tem dois papais foram finalistas do Prêmio Jabuti nas categorias Juvenil e Infantil, respectivamente. Já o livro Poeminhas da terra foi selecionado pelo programa Leia com uma criança, do Itaú Social, em 2016. Educadora com extensa prática escolar, participou, como coautora, de três coleções didáticas na área de língua portuguesa pelas editoras Atual e FTD. Márcia Leite acredita que “o papel social do livro acontece na triangulação entre escritor, leitor e o livro propriamente dito”. Entendendo a literatura como ponte, a autora aborda temas que ajudam as crianças e jovens a conhecer outras culturas e também a si mesmos.

NNotícias da Educação — Como começou a sua história com a literatura infantil?

MMárcia Leite — Começou quando eu era criança, como pré-leitora. Eu cobiçava uma coleção de livros de contos de fadas que havia em minha casa em uma estante alta o suficiente para dificultar o acesso às crianças, com a finalidade de que eu e meu irmão, que ainda não sabíamos ler, não a “estragássemos”. Mesmo com o obstáculo da altura, nós encontrávamos meios de pegar os livros e passávamos muito tempo “lendo” as ilustrações, inventando histórias para elas. Ao aprender a ler, ou seja, ao me tornar leitora, os livros nos foram disponibilizados. Um mundo de oportunidades se abriu para mim por meio da leitura. E eu nunca mais abandonei o prazer que um livro provoca em mim. Do papel de leitora na infância e na adolescência, passei ao de escritora quando me dei conta, quando professora alfabetizadora, de quanto me encantava criar histórias para meus alunos. Vê-los envolvidos pelo que eu contava me estimulou a escrever. 

NQuando você começou a publicar?

MLancei meu primeiro livro, A barriga, aos 25 anos, em 1986. De lá para cá publiquei mais de 40 livros por diversas editoras; alguns títulos foram premiados e integraram vários programas de leitura governamentais e institucionais, como é o caso de Poeminhas da terra. O fato de atravessar mais de três décadas acompanhando o mercado editorial, inicialmente na condição de autora, depois como editora, colaborou para que eu tivesse uma aprendizagem sólida do percurso da literatura para crianças e jovens. Não consigo imaginar minha história pessoal sem a literatura. Por meio dela eu estabeleço laços entre os mundos interior e exterior, me coloco no lugar do outro, sigo buscando o sentido da existência e da condição humana. 

A importância dos relacionamentos, os afetos e as transformações são temas presentes em meus textos. Pela ficção procuro explorar situações que envolvem o cotidiano das crianças ou jovens, seu mundo interior, seu imaginário, as relações familiares, o medo do desconhecido, o receio de crescer, a importância de nomear os sentimentos, as descobertas e angústias do adolescer, os vínculos sociais, as expectativas e as contradições do existir.

NComo surgiu a ideia para o livro Poeminhas da terra? Sua pesquisa e preparação para a escrita envolveu alguma formação específica sobre etimologia com foco em línguas indígenas?

MPoeminhas da terra surgiu da ideia de aproximar as crianças da riqueza da cultura indígena por meio das palavras, da língua e da poesia. A atual língua portuguesa é composta de incontáveis palavras de origem indígena. A maioria delas vem do tronco tupi e foi incorporada à língua portuguesa desde o período da colonização. O próprio nome Itaú é uma palavra de origem tupi: pedra negra. Temos estados brasileiros com nomes indígenas: Pará, Acre, Ceará, Paraíba, Piauí, Amapá, Paraná. Além dos nomes próprios, como nomes de estados, de cidades, de rios e de outros elementos das paisagens naturais, 80% dos nomes da nossa flora e fauna são indígenas, visto que o homem branco precisou aprender com os povos originários a nomear animais, plantas e frutas.

Minha ideia foi propor, por meio de brincadeiras com a linguagem, uma pequena homenagem à língua tupi-guarani pelo ponto de vista das crianças de uma aldeia idealizada, como talvez tenha sido há muitos anos e hoje nem existe mais. Os pequenos poemas, de poucos versos e estrofes, bons para serem memorizados e declamados, oferecem palavras que brincam com os sons, com os sentidos e com as imagens, aproximando o leitor, por meio do texto e das ilustrações, de conhecer o modo de vida e as tradições na hora de brincar, de comer, de pescar, de conviver com os animais… 

Não tenho formação nem especialização sobre línguas indígenas. Como escritora e educadora fiz pesquisas e me amparei em livros e dicionário de língua tupi-guarani antes de escrever os poemas de meu livro. Todas as palavras empregadas são dicionarizadas e constam nos dicionários de língua portuguesa por nomearem objetos, fauna, flora, mitologia e cultura etc. de alguns povos indígenas. São palavras incorporadas ao português do Brasil, com etimologia indígena. Como as palavras de origem africana. A literatura, principalmente a linguagem poética, não solicita que seus autores sejam especialistas. Assim como não se tem a expectativa de que antropólogos, indigenistas, historiadores sejam poetas.

Capa e quarta capa de Poeminhas da terra, selecionado pelo programa Leia com uma criança em 2016: a parceria de Márcia Leite com a ilustradora Tatiana Móes propõe uma homenagem ao cotidiano da vida na aldeia –– e uma leitura vertical de cada página, como se vê nesta e nas próximas imagens que ilustram esta entrevista.

NPode contar um pouco sobre a troca criativa com a ilustradora, a Tatiana Móes?

MTatiana Móes é uma excelente ilustradora e pesquisadora das artes visuais. Atualmente ela mora em Portugal, mas quando fizemos o livro Poeminhas da terra, ela, que é pernambucana, morava no Recife. Fizemos então uma parceria à distância, conversando muito por telefone, e-mail e por mensagens no celular. O fato de Tatiana ter mais familiaridade e conhecimento das artes visuais estimulou-a a mergulhar em estudos para definir como representaria as figuras humanas por meio da simbologia dos grafismos na pintura dos corpos e dos objetos, como traria para as páginas do livro o modo de vida das crianças nas cenas em que estão presentes, além da preocupação de apresentar ao leitor, por meio de imagens, os animais, frutas, alimentos e mitos citados nos poemas. Trabalhamos juntas com prazo bem estreito, e isso favoreceu que ganhássemos em harmonia e parceria, fundamentais para que o livro tivesse um equilíbrio entre o texto e as ilustrações. 

“Talvez a maior contribuição que os adultos podem dar aos pequenos seja ajudá-los a construir paredes seguras que permitam que se sintam mais confortáveis em habitar seu mundo interior.”

NPoeminhas da terra é um livro para ser lido na vertical. Por quê?

MA escolha pela leitura vertical foi intencional. Tatiana e eu tínhamos em mente a ideia de oferecer ao leitor uma nova possibilidade de leitura do texto e das imagens a partir do direcionamento do olhar de cima para baixo. Essa disposição das páginas propiciou que as ilustrações fossem pensadas de modo a explorar essa verticalidade usufruindo da costura do livro (entre as páginas) na criação de cenários e brincadeiras visuais com as ilustrações, reforçando as relações entre o que está em cima e o que está embaixo, o que vem antes e o que vem depois. Todos os recursos que acrescentam vivências distintas na exploração dos livros e na percepção do leitor são sempre muito bem-vindos na infância.

“Um bom livro estimula a imaginação, a criatividade, a curiosidade, as descobertas, favorece que a criança entre em contato com outros mundos, outras pessoas, outras formas de pensar.”

NComo foi a experiência de o livro Poeminhas da terra ser selecionado pelo programa Leia com uma criança, do Itaú Social, em 2016? 

MÉ uma grande satisfação ter escrito um livro que integrou o programa Leia com uma criança. Um livro só tem o papel social de livro quando acontece essa triangulação entre escritor/leitor/livro. Dessa forma, saber que nosso livro chegou às mãos de milhares de pequenos leitores pelo Brasil trouxe-nos a certeza de que conseguimos ultrapassar a difícil barreira que distancia o livro do leitor, e Poeminhas da terra conseguiu, assim, se transformar em ponte. Ponte entre o livro e o leitor. Ponte entre o escritor e o leitor. Ponte entre o leitor e o assunto do livro. Ponte entre línguas. Ponte entre culturas. Como escritora e como educadora há mais de 35 anos, senti uma alegria imensa com a oportunidade de estar novamente próxima das crianças, não mais como professora, mas como autora. Sei da importância da leitura para que as crianças se desenvolvam como adultos críticos, sensíveis e cidadãos.

NQuais são os caminhos para estimular crianças e jovens a ler mais, com a concorrência acirrada da internet e dos jogos eletrônicos?

MA sociedade contemporânea é imagética por excelência. Desde a infância a criança é estimulada a ler imagens em seu cotidiano, nas mídias, nos aplicativos de celular, nos jogos e programas, todos praticamente autoexplicativos e diretivos. Aos livros ilustrados cabe, portanto, subverter o uso e leitura da imagem do pragmático para o poético, levando o leitor ao território da ilustração e das artes visuais como um desafio que ampliará os significados do texto verbal. O livro ilustrado não acrescentará nada ao jovem se as imagens forem apenas referenciais e decorativas. 

Dessa forma, quando oferecemos aos leitores livros que sejam atraentes, juntamente com a disponibilidade do adulto de realizar uma leitura compartilhada e afetiva, com envolvimento e interesse, estamos, também, apresentando um outro “cardápio” de leitura, em que o leitor nunca será passivo como quando está diante de uma tela. O que estimula o leitor a prosseguir em sua jornada é perceber que cada livro pode ser uma experiência única e diversa, criativa e divertida, e não repetitiva ou apenas didática.

“Mesmo quando a criança não tem idade para compreender o sentido do texto, um bebê, por exemplo, ainda assim ela consegue ser afetada pela percepção e pelas sensações provocadas durante essa vivência.”

NNa sua visão, qual o papel da literatura infantil atualmente?

MAinda que muito se tenha avançado nas últimas décadas, especialmente no que diz respeito à qualidade literária e estética do livro infantil e juvenil, ainda há predominância de um tipo de produção editorial que atende diretamente às escolas: livros comprometidos, de alguma forma, com os currículos das disciplinas, com temas definidos, com passar ensinamentos e valores, além de conteúdos. Entendo a literatura como arte — seja para crianças ou adultos — e, como tal, ela não está a serviço de ensinar a ser assim ou assado, a pensar dessa ou de outra maneira, a transmitir uma única visão de mundo ou uma única mensagem. Para mim, o texto literário não pode estar associado ao propósito do didatismo; “ensinar” pela literatura é dar a ela uma atribuição que não lhe compete e que a reduz a um utilitarismo. Por esse motivo, penso que a literatura para infância deveria se ocupar e se preocupar em levar para suas páginas tudo aquilo que contribuirá para que seja um livro que convida a conversas e cheio de possibilidades de leitura, nunca um livro qualquer, ou, como ouvimos frequentemente quando se fala de livro para crianças: um “livrinho”.

Se entendemos que a literatura para infância tem um papel central na formação leitora desse indivíduo, então parece-me lógico que todos os que estão envolvidos em processos de fomento à leitura deveriam assumir o compromisso de oferecer o que há de melhor para quem está em formação. Difícil, eu sei, é estabelecer critérios comuns do que seja o melhor para a criança. Na minha prática como educadora, escritora e editora, entendo que esses critérios precisam levar em consideração as características estéticas e literárias do livro, a diversidade de estilos, a variedade de linguagens, o tratamento e originalidade na abordagem dos temas/conteúdos, a inovação dos projetos gráficos, dos formatos dos livros…

NO que não pode faltar em um bom livro infantil?

MUm bom livro estimula a imaginação, a criatividade, a curiosidade, as descobertas, favorece que a criança entre em contato com outros mundos, outras pessoas, outras formas de pensar. Isso desenvolve o conhecimento de mundo e a capacidade da criança de se colocar no lugar do outro. Em outras palavras, favorece o desenvolvimento da empatia e do sentimento de pertencimento à condição humana. Daí a importância de oferecer à criança histórias/livros que favoreçam a expansão das descobertas sobre o mundo e sobre si mesmas. Assim terão recursos para nomear aquilo que vivem e sentem, encontrarão condições para expressar seus medos, angústias, desejos, raiva, esperanças, frustrações, e assim por diante, por meio do uso da linguagem e do simbólico. Talvez essa seja a maior contribuição que os adultos podem dar aos pequenos: ajudá-los a construir paredes seguras que permitam que se sintam mais confortáveis em habitar seu mundo interior.

NPara finalizar, pode recomendar uma boa leitura para toda a família?

MNão sei se posso recomendar uma leitura que seja boa para todos os leitores (cada leitor é único e singular em seus gostos e interesses), mas acho que posso falar a respeito do que é um bom momento de leitura em família. Ler com e para uma criança é oferecer muito mais do que uma história. Trata-se de um momento único e possivelmente inesquecível de convivência, de aconchego, de intimidade, de partilha e, por esse motivo, cria e fortalece o vínculo afetivo e de confiança entre pais e filhos, entre adultos e crianças. Algo que se aproxima do ninar, do embalar, do pegar no colo, do acariciar. Mesmo quando a criança não tem idade para compreender o sentido do texto, um bebê, por exemplo, ainda assim ela consegue ser afetada pela percepção e pelas sensações provocadas durante essa vivência. Enquanto ouve a história, a criança também “lê” o adulto, suas expressões faciais, suas entonações, o ritmo, o tom da voz, as paradas de respiração durante a leitura. É costume que as crianças peçam que um livro seja relido ou uma história recontada. “Conta de novo?” É assim que conciliam a chance de saborear mais uma vez a narrativa, confirmando tudo aquilo que sentiram e descobriram durante a primeira leitura, mas também é uma forma de dizer ao adulto para que fiquem mais um pouco com elas, reforçando a sensação de que são amadas e de quanto amam aquele momento.

Assine nossa newsletter

Com ela você fica por dentro de oportunidades como cursos, eventos e conhece histórias inspiradoras sobre profissionais da educação, famílias e organizações da sociedade civil.