Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca

AGÊNCIA DE

Notícias

Que tal você fazer também?

A leitura gera conhecimento e autoconhecimento

Professora do ensino fundamental II e do médio da rede pública do município de Campinas fala sobre a importância da mediação de leitura para juventudes


Rosane Duran: amante de leitura e apaixonada pelo ensino, é professora da rede pública desde 1991. Foto: Arquivo pessoal

Por Kadija de Paula, Rede Galápagos, São Paulo
Depoimento de Rosane Aparecida Duran, professora do ensino fundamental II e do médio da rede pública do município de Campinas (SP) — e cursista do Polo

Formada em letras pela PUC de Campinas e em pedagogia pela Universidade de São Carlos, trabalho na rede pública de ensino desde 1991. Atuei como coordenadora de escola e professora de EJA (Educação de Jovens e Adultos) e leciono português na rede municipal de Campinas desde o ano 2000, atualmente como professora no ensino fundamental II e do médio. Aposentada pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo desde 2019, também atuei no sindicato dos professores (Apeoesp). Já dei aula em Campinas, Vinhedo, Sumaré e Hortolândia, em escolas públicas e privadas. Então eu passei por diversas situações. 

Minha vida de professora começou quando era criancinha. Antes mesmo de entrar na escola, eu já usava o muro do quintal como lousa e espaço de ensino. Gostava tanto da escola que convenci minha mãe, e a própria escola, a me matricular com cinco anos e meio no primeiro ano do ensino fundamental, que na época se chamava primário. Sempre fui amante da leitura, de livros e de bibliotecas. Também gosto muito de ensinar, sou apaixonada pelo ensino, embora a gente tenha aí alguns percalços na educação, que me deixam bem triste. 

Na minha época de estudante, não me lembro de frequentar muito as bibliotecas e talvez isso também tenha me feito buscar mais leitura em bancas de jornais. Quando era estudante, fiz várias coleções de autores e livros, nacionais e internacionais, clássicos, revistas científicas e holísticas. Então a minha vida é estar sempre me informando, aprendendo e buscando mais, e eu acho que é disso que os jovens precisam, de muita leitura para poder ampliar a consciência, para ampliar o mundo em que eles vivem. Porque a gente cresce numa bolha, numa família que nos molda e que a gente não consegue expandir se não ler. 

Como professora sempre continuei estudando, me informando, verificando se eu realmente estava dentro dos parâmetros. Sou assim, perfeccionista, o que por um lado é ruim, mas por outro me fortaleceu, porque me fez buscar cada vez mais, para não ser aquela professora ultrapassada, tradicionalista. Também respeito muito quem é tradicional porque tive professores assim, mas eu prefiro ensinar o novo e ampliar os horizontes dos alunos. Durante toda a minha caminhada como professora, sempre busquei me aperfeiçoar, fazer cursos, e foi aí que acabei conhecendo a Olimpíada de Língua Portuguesa e os cursos do Polo, o ambiente de formação do Itaú Social.

Durante a pandemia comecei a procurar cursos rápidos que não demandassem um comprometimento de muitas horas, semanas ou meses, porque eu queria fazer vários cursos, queria ampliar, e ao mesmo tempo equilibrar a paixão pelo trabalho com as demandas domésticas. A pandemia me fez olhar para mim mesma e perceber que preciso me cuidar, porque como apaixonada pelo trabalho eu só trabalhei, e as demandas familiares (sou mãe de três filhos) fui levando como aquela mulher guerreira, forte e empoderada, mas o negócio tem que ser um pouquinho mais tranquilo. Então foi nessa pesquisa por cursos rápidos que encontrei o curso Mediação de Leitura para Juventudes, que tem como objetivo apoiar o trabalho de mediadores na implementação de ações de promoção da leitura para jovens, fortalecendo a mediação que promove e reconhece o protagonismo juvenil.

Gostei muito do curso porque ele apresenta a leitura como elemento promotor de cidadania e de reflexão sobre ser no mundo. Isso me deu segurança de que estou no caminho certo como professora, de que aquilo que eu faço em sala de aula é exatamente o que o curso propaga, promover o conhecimento, levar a criança e o jovem para o despertar, através da leitura. O curso incentiva a construção de bibliotecas comunitárias e o incentivo à circulação de livros para que as pessoas possam ler mais. Além da importância do mediador como pessoa que possa ficar junto, lendo e despertando esse sabor de ouvir uma leitura. O curso me deu mais força, mais vontade de continuar trabalhando com essa questão da leitura. 

Numa das escolas da prefeitura, em um bairro muito complexo aqui em Campinas, logo que entrei na rede municipal, em 2000, tive um aluno que era hiperativo. Ele não parava quieto por um minuto e aquilo me dava um desespero total. Muitas vezes eu saía do trabalho muito triste e chorava em casa, desesperada com aquela situação. Eu fazia leitura e às vezes ele conseguia parar e prestar atenção; aquilo foi uma vitória realmente. Depois de muitos anos ele me encontrou nas mídias sociais e fez um relato lindo, contando que se tornou um contador de histórias aqui em Campinas. Ele disse que foram as aulas de leitura que o impulsionaram a estudar. Hoje em dia ele é professor, formado em pedagogia. Este é o poder da leitura: fazer com que os jovens leiam, além daquilo que eles estão acostumados, ou às vezes nem leem nada porque não tem acesso. Muitas vezes jovens chegam pra mim e falam: “Ah, eu queria trazer a Bíblia pra aula de leitura, tem problema?”. Aí eu falo: “Olha, problema não tem, mas na verdade a gente tem que fazer leituras diferentes, porque essa é uma leitura que você já faz na sua casa, já tem todo o aparato ali, então seria legal a gente ler outras coisas também”. Então eu vou orientando, dando acesso e ampliando as possibilidades para eles. 

A leitura para mim, seja ela qual for, tem que ter vontade para persistir nela. Embora eu creia que a gente tem que ler de tudo, tem coisas que a gente realmente não vai querer ler e que precisa de alguém mediando de fato. Porque sozinho, dependendo do processo de aprendizado, o aluno realmente não dá conta de desvendar todos os mistérios implícitos do texto. A leitura é um centro gerador de conhecimento e autoconhecimento fortíssimo. É um registro humano maravilhoso, propulsor de esperança, que propaga soluções. Às vezes no livro você está ali concentrado fazendo a sua leitura e aí diz: “Opa, mas olha quantas possibilidades eu tenho aqui de resolução de situações, problemas e aí, há! Você pode também se encantar e despertar novamente a esperança em você”. A leitura, quando ampla, pode tanto trazer o conhecimento científico quanto trazer o sonho e o despertar para um outro mundo, para olhar a vida de um jeito diferente, enxergar que tudo que está próximo da gente pode virar uma história, fazer parte de um registro. Você pode colocar o seu sonho na sua vida e transformar toda ela ali num livro, numa leitura. 

Saiba mais

Leia mais