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Boas lições

Jogar para aprender

Três instituições distribuíram jogos pedagógicos durante a pandemia para combater a evasão escolar, em Queimados (RJ)


Na creche, crianças exploraram possibilidades dos brinquedos. Foto: Rudy Trindade

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador (BA)

No último trimestre de 2019, a taxa de evasão escolar no Brasil era de 1,41%, na faixa etária de cinco a nove anos. Um ano depois, esse índice saltou para 5,51%. Os dados são da pesquisa “Retorno para escola, jornada e pandemia”, realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Pegando a todos e todas de surpresa, o coronavírus obrigou professores e gestores educacionais a uma adaptação repentina. Foi preciso correr contra o tempo para tentar evitar que milhões de crianças e adolescentes brasileiros tivessem o direito à educação e o desenvolvimento das habilidades comprometidos.

Em Queimados, município da região metropolitana do Rio de Janeiro, a Creche Iracema Garcia Estrela Maior atende crianças em vulnerabilidade social. Na matrícula, pais, mães ou responsáveis precisam apresentar comprovação de baixa renda para conseguir uma das concorridas vagas. Com mais de 30 anos de atuação, “a creche sempre lutou pelos menos favorecidos e sobrevive de doações”. A fala é de Maristela Hermsdorff, educadora que presta serviços de assessoria e captação de recursos à instituição, de forma voluntária.

Com a crise sanitária, as crianças deixaram de frequentar a creche. A pandemia teve efeitos ainda mais críticos para as pessoas de baixa renda, que passaram por uma diminuição de aproximadamente 28% de sua renda, enquanto a dos brasileiros que fazem parte dos 10% mais ricos sofreu impacto negativo de 17,5%, de acordo com outro levantamento da FGV. Buscando alternativas, Maristela encontrou a possibilidade de se unir a outras instituições do município com o propósito de amenizar as consequências da pandemia na educação.

O programa Experiências em Rede, do Itaú Social, tem como objetivo incentivar a construção de ações colaborativas entre organizações da sociedade civil de um mesmo município para que, juntas, contribuam no combate ao abandono e evasão escolar. Mais de 10 mil crianças e adolescentes foram beneficiados por ele no ano de 2021. Ao todo, 173 organizações de 41 municípios participaram do programa, entre elas, além da creche, o Centro Espírita Padre Joaquim das Almas e o Comitê Meu Peixinho Dourado, de Queimados.

Brincadeiras que ensinam
Jogando e Aprendendo foi o nome escolhido para o projeto coletivo. A proposta era proporcionar, por meio da ludicidade, o acesso à educação para as crianças que não podiam frequentar as escolas naquele momento. No início, foram contempladas com jogos pedagógicos aquelas atendidas pelas três instituições. “Quando a Secretaria de Educação tomou conhecimento do projeto e percebeu a sua importância, chamou as representantes das instituições para conversar”, conta Maristela. A partir desse momento, estudantes de cerca de dez escolas municipais também se tornaram público pretendido da iniciativa. Mais de 600 crianças foram diretamente impactadas.

A parceria com a prefeitura proporcionou um direcionamento mais efetivo em relação à escolha dos jogos pedagógicos, pois a sugestão da Secretaria de Educação foi que estivessem alinhados com os conteúdos programáticos trabalhados à distância. “Quando a professora queria ensinar sílabas, comprávamos jogos que estimulam a separação de sílabas. Crianças de famílias com maior poder aquisitivo talvez tenham recebido esses jogos das escolas ou dos pais, mas as que estão à margem da sociedade não têm acesso a esse material”, pontua Maristela.

Nas escolas, os jogos eram entregues à direção, que coordenava a distribuição. A Creche Iracema Garcia Estrela Maior estabeleceu um esquema próprio. As famílias iam buscar o material na própria creche, onde a professora explicava ao responsável pela criança como funcionava e qual o objetivo daquele material.

O brinquedo educativo vinha numa bolsa que continha também algumas fichas, como uma de orientação para os pais e outra de conceito, para que fosse feito o acompanhamento do desenvolvimento da criança. “O mesmo jogo trabalha cores, formas, numerais, algumas letras do alfabeto, motricidade fina”, enumera a educadora, ao usar como exemplo o Castelinho.

Bolsas com jogos pedagógicos foram entregues a mais de 600 crianças, em Queimados (RJ). Foto: Rudy Trindade

A cor das bolsas, um amarelo vivo, foi escolhida para chamar a atenção das crianças. “Funcionou porque conseguimos trazê-las de volta.” Algumas das escolas municipais já atuavam em modelo híbrido durante o projeto. De acordo com Maristela, gestores escolares e pais e mães das crianças atendidas pelas associações consideraram importante a iniciativa em rede. Na creche, estima-se que pelo menos 80% dos matriculados tenham voltado, gradativamente, a frequentar o espaço. “Acredito que a sociedade civil tem um potencial muito grande. Não precisamos ficar apenas esperando pelo poder público.”

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