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Histórias vivas, muito além das páginas

Pesquisador investigou de que forma o ensino da história e das culturas afro-brasileira e africana era feito em uma escola quilombola de Horizonte, Ceará


Geimison Falcão de Lima (à direita) em imagem feita durante sua pesquisa com a comunidade da Escola Municipal Quilombola Olímpio Nogueira Lopes: “Eu tentei imergir na comunidade, escutar as vozes que durante muito tempo foram silenciadas e transcrever aquelas memórias, mas é importante que os materiais didáticos sejam construídos a partir dos moldes de representação que esses povos manifestam”. Foto: Vídeo Edital Equidade Racial na Educação Básica.

Por Wallace Cardozo e Denise Lima, Rede Galápagos

Com aproximadamente 8,5 milhões de quilômetros quadrados, o Brasil tem quase a mesma quantidade de terra que a Oceania, continente composto de 14 países. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) garante que todas as instituições de ensino do enorme território brasileiro sigam as mesmas diretrizes. Na trajetória escolar, o termo “escravidão” aparece pela primeira vez nos anos finais do ensino fundamental. De acordo com o documento, é a partir do sexto ano que os estudantes devem desenvolver a habilidade de “diferenciar escravidão, servidão e trabalho livre no mundo antigo”. Já a escravização e o tráfico de pessoas africanas e indígenas são abordados com as turmas do sétimo, do oitavo e do nono ano.

Assunto das aulas de história, a escravidão e as suas consequências para a sociedade brasileira são temas atuais. A partir deles, é possível discutir as desigualdades, a violência policial ou o racismo, por exemplo. Para estudantes e professores negros, falar sobre o sofrimento de seus antepassados pode ser algo delicado, sobretudo porque os capítulos sobre a escravização costumam ser os únicos em que pessoas negras aparecem em evidência. Esse é também o tema de entrevista já publicada aqui com a professora Louise Marinho, que propõe outros referenciais visuais para abordar o período escravista nos livros de história.

Desde 2010, a Secretaria de Educação de Horizonte, no Ceará, implantou o ensino das relações étnico-raciais e da história e cultura afro-brasileira e africana nas matrizes curriculares dos anos finais do ensino fundamental. Desde a medida, todas as escolas do município são orientadas a estudar a história do quilombo de Alto Alegre, por exemplo. Quando Horizonte se tornou independente de Pacajus, em 1989, um território quilombola foi dividido entre os dois municípios. Assim, Alto Alegre ficou no território horizontino, enquanto o quilombo de Base está do outro lado da fronteira municipal.

O professor de história e pesquisador Geimison Falcão resolveu investigar o processo de implantação e de desenvolvimento da disciplina de história e cultura afro-brasileira e africana no município de Horizonte. Para isso, pesquisou em seu mestrado as práticas docentes utilizadas na Escola Municipal Quilombola Olímpio Nogueira Lopes, em Alto Alegre. Ele buscava entender de que forma era feita a abordagem do tema escravidão com estudantes quilombolas e quais os seus efeitos na comunidade escolar. Para isso, o acadêmico realizou entrevistas, examinou os materiais didáticos utilizados pelos docentes e observou aulas em duas turmas. Selecionado pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica, o estudo foi descrito por Geimison no artigo científico “O ensino da história local em uma escola quilombola no município de Horizonte (CE)”.

O Edital Equidade Racial na Educação Básica buscou a mobilização e articulação de escolas, redes de ensino, coletivos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil para viabilizar e fortalecer estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação. A iniciativa do Itaú Social contou com a realização do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e a parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A publicação digital que reúne todos os projetos selecionados pode ser acessada neste link

Educação e resistência
O critério utilizado para escolher a escola a ser pesquisada foi o número de matrículas de estudantes autodeclarados quilombolas. No artigo, Geimison explica que a pesquisa teve abordagem qualitativa, pois pretendeu construir significados por meio do contato direto com o contexto a ser estudado. Para isso, o autor acompanhou o cotidiano da escola Olímpio Nogueira Lopes, em Alto Alegre. Além da abordagem utilizada pelos professores ao falar da escravidão, interessava ao pesquisador o comportamento dos estudantes quilombolas diante do debate. “Não considero o ensino e a aprendizagem apenas como uma transmissão ativa de conteúdos por parte do professor e uma recepção passiva por parte do educando”, explica.

Geimison assistiu às aulas da disciplina de história e cultura afro-brasileira e africana em duas turmas de nono ano, entre fevereiro e junho de 2019. O período correspondeu aos dois primeiros bimestres do calendário escolar daquele ano. Além da observação direta, o professor estudou o Projeto Político-Pedagógico (PPP) da escola e as matrizes curriculares da disciplina. O pesquisador entendeu que os educadores poderiam explorar melhor as comunidades quilombolas que estavam no seu entorno, envolvendo moradores e lideranças. Ele defende que “é preciso realizar aulas de campo no próprio território porque o aluno quilombola se identifica, e o não quilombola passa a conhecer e dialogar com a diversidade”.

Quando a exposição proposta nas aulas não evoluía para além do processo histórico da escravidão, os estudantes negros demonstravam incômodo e desinteresse. De acordo com o relato de Geimison, aqueles que fazem parte dos quilombos costumavam ser mais incisivos nesses momentos e mais participativos na dinâmica escolar em geral. “Os alunos quilombolas conseguiam estabelecer relações com as especificidades históricas e identitárias do território em que vivem, ainda que as representações em sala de aula, por parte dos professores, não fossem aprofundadas.” Os educandos se posicionavam demonstrando desconforto a respeito de casos de racismo e xenofobia e de abordagens policiais abusivas. “Na maior parte das manifestações, a politização dos alunos quilombolas era muito forte comparada à dos não quilombolas. É um processo identitário, como define Stuart Hall”, pontua o pesquisador.

Durante a aula de uma das professoras — ao todo, três educadoras ministraram a disciplina durante o período de observação —, os estudantes moradores dos quilombos de Alto Alegre e Base contribuíram com a explanação ao compartilhar informações que não estavam no material didático. Em trecho do artigo, Geimison narra: “Eles afirmaram que a capoeira e o maculelê eram heranças culturais africanas e enfatizaram que essas expressões culturais ocorriam na comunidade”. Para o autor, essa foi mais uma demonstração de que os alunos não se comportam como leitores passivos, mas promovem associações com as suas experiências de vida.

  • Imagens registradas pelo professor Geimison registram expressões da identidade e memória da comunidade do território quilombola, como a produção de bonecas e esculturas e o cultivo de certas espécies vegetais com especial significado cultural. Fotos: Video Edital Equidade Racial na Educação Básica (link para o vídeo ao final do texto)

Consciência histórica antirracista
O mestrado requeria que o pesquisador propusesse uma intervenção para aprimorar o ensino da história local. Dessa forma, ao fim do trabalho de pesquisa, o então mestrando Geimison Falcão sugeriu e elaborou uma coletânea de textos didáticos intitulada “História, Memória e Identidade do Território Quilombola de Alto Alegre e Base”. As fontes para o material foram relatos dos próprios moradores da comunidade. Com isso, o autor pretende que a oferta da disciplina de história e cultura afro-brasileira e africana possa cumprir a ementa a partir de referenciais que valorizem a história da população quilombola local. O agora mestre em ensino de história entende que as diversidades culturais devem ser vistas como potencialidades para o processo educacional.

O ensino de história e cultura afro-brasileira já é obrigatório em todo o território nacional desde 2003, a partir da Lei nº 10.639. Em Horizonte, 40 educadores da rede pública municipal passaram por formações continuadas na temática étnico-racial entre 2006 e 2007. Como não há livro didático para a disciplina, os professores têm autonomia para escolher quais recursos utilizar nas aulas. A proposta de material didático elaborada por Geimison cria um conteúdo comum e agora disponível aos educadores do município.

O problema, no entanto, não está apenas no ensino fundamental. Mesmo na faculdade, Geimison encontrou dificuldades para estudar questões raciais, tema pelo qual sempre nutriu interesse. “Fiz graduação no início dos anos 2000 e não tive nenhuma disciplina referente a isso. No mestrado, havia disciplina optativa, mas poucos alunos se inscreveram para participar”, lembra. Para o historiador, é preciso estar atento para que a opressão não acabe sendo apenas redirecionada a outros grupos étnicos. “Muitas vezes, há uma supervalorização da África, que nos faz esquecer das heranças indígenas, e até das europeias, na formação da pluralidade cultural brasileira”, argumenta.

O pesquisador encerra o artigo defendendo que a educação deve promover identificação e estimular a participação ativa dos estudantes, não apenas nas aulas. Esse cuidado deve ser ainda maior quando os assuntos estão diretamente relacionados com as histórias dos educandos e de suas famílias e comunidades. No caso dos preconceitos e desigualdades, os alunos precisam ser envolvidos e sensibilizados para entender que estes fazem parte da estrutura da sociedade e que é seu dever combatê-las. “O racismo é sutil e explícito, é institucional e não institucional, recreativo e oficial. Precisamos de uma consciência histórica antirracista não só por parte dos negros, mas também dos brancos”, resume Geimison.

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