Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca
Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

WALQUÍRIA TIBÚRCIO – “Só haverá antirracismo se existirem mecanismos efetivos de enfrentamento”

Processos de expulsão de pessoas negras nas escolas e nas empresas evidenciam a necessidade de perceber o racismo institucionalizado


Walquíria Tibúrcio: “Uma sociedade que quer superar o racismo precisa reconhecer que ele existe”. Foto: Arquivo pessoal

Por Maria Fernanda Salinet, Rede Galápagos, Florianópolis

Extrapolar o discurso e passar à prática antirracista é o principal caminho para o enfrentamento à discriminação racial. Esta é, em síntese, a recomendação de Walquíria Tibúrcio, especialista em avaliação na Move Social, consultoria que apoia organizações na ampliação e qualificação dos impactos social e socioambiental. Nesta entrevista Walquíria destrincha o papel das instituições na construção do “imaginário coletivo das possibilidades de futuro” da população negra. 

A especialista lembra que cabe às empresas, escolas e organizações do terceiro setor realizarem enfrentamentos ao racismo institucional e chama atenção ao período histórico em que vivemos: “Para o movimento negro, é uma questão de vida ou morte”. No país, as pessoas negras tem 2,7 vezes mais chances de serem vítimas de assassinato do que as pessoas brancas, de acordo com o estudo Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Walquíria foi uma das convidadas especiais do Seminário Internacional de Avaliação. O evento, neste ano em sua primeira edição on-line, é promovido pelo Itaú Social, Fundação Roberto Marinho, Laudes Foundation, Fundação Maria Cecília Souto Vidigal (FMCSV) e Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (GIFE). No seminário, realizado nos dias 16 e 17 de setembro, ela participou de um debate sobre o tema “Equidade e avaliação no terceiro setor brasileiro e americano”. É possível acessar a roda de conversa no link no fim desta entrevista.

NNotícias da Educação – De que forma o racismo atua contra a garantia do direito à educação?

WWalquíria Tibúrcio – Quando consideramos que o racismo é estrutural, podemos afirmar que é reproduzido por todas as instituições. E a escola vai produzindo alguns processos de expulsão das crianças negras ao longo das suas trajetórias escolares. Nas escolas vimos um aumento dos casos de injúria racial; e muitas vezes elas se furtam de enfrentar a questão racial e vão silenciando as violências ou elas mesmas as reproduzem. Acho que a escola tem um papel de forjar o imaginário coletivo. E a partir do momento em que ela ajuda a forjar o imaginário coletivo de uma população negra que ocupa sempre determinados espaços, como subalternidade, ela vai na contramão de uma educação voltada para a equidade. A maior evidência é quando a gente olha qual é a proporção de homens negros de 19 a 24 anos que concluíram o ensino médio nas escolas públicas. Quase metade dos homens negros nessa idade, cerca de 44%, não concluíram o ensino médio no Brasil. Nessa mesma faixa etária, há 33% das mulheres negras. Comparado com mulheres brancas, são 18% que não concluíram o ensino médio. A evasão é muito alta, mas entre a população negra é ainda muito mais alta e muito mais expressiva, desde o ensino fundamental até o ensino médio. 

NPara além das cotas, quais outras políticas públicas seriam eficazes no combate ao racismo na educação?

WEsta questão traz um pouco da perspectiva do movimento negro brasileiro, porque é ele quem está nessa luta histórica, buscando aprovação de uma legislação antirracista. As cotas são uma das grandes vitórias, têm uma importância e relevância porque atuam justamente nessa construção do imaginário da possibilidade. Se você tem mais mulheres e homens negros, médicos e médicas, isso cria um imaginário de possibilidade para as crianças negras que estão na escola, que é se ver na possibilidade de assumir outro lugar. Mas a educação sozinha não vai resolver tudo. Enquanto sociedade, precisamos ativar outros espaços. Ainda especificamente na educação, existe a lei que determina o ensino obrigatório da cultura e história afrobrasileira na educação pública, sancionada em 2003. E graças à luta do movimento negro, há processos de formação de docentes para atuar na aplicação da lei. Às vezes a gente traz para o racismo um debate muito moral e isso é bastante prejudicial. É como se a gente falasse “bom, aquela pessoa é racista, a maçã podre, tirou a maçã podre e o resto tá perfeito”, e não funciona assim. Isso causa resistência nas pessoas, então quando assumimos que o racismo é uma prática estrutural, a gente precisa olhar para o todo, o que também é construir estratégia de formação de docentes.

“Quando se usa uma mesma régua para medir pessoas que partem de lugares diferentes, deixamos muita gente para trás. E quem fica para trás são as pessoas negras

NComo imagina que a educação deva ser? Além da formação dos professores, o que ela precisa fazer em relação ao que é hoje para de fato ser antirracista?

WAcho que não é só educação, mas quando pensamos em uma sociedade que consiga apontar a questão racial e trabalhar a partir dela, esse é o primeiro movimento. Uma sociedade que quer superar o racismo precisa reconhecer que ele existe. O racismo não acaba quando a gente para de falar sobre ele. Na verdade, ele ganha terreno quando não se aponta que está acontecendo, então precisamos pautá-lo institucionalmente nas organizações. O antirracismo só vai acontecer se existirem mecanismos efetivos de enfrentamento. Uma coisa é o discurso; ele é relevante, constrói algumas leituras e ajuda a sociedade a também a navegar no tema, mas não é o suficiente. Então, falar sobre o racismo, apontar como um problema e construir estratégias de enfrentamento é o principal caminho. As estratégias podem ser das mais sofisticadas, como é o caso das cotas, ou as que parecem mais simples, e não são, como visibilizar a história de mulheres negras que construíram esse país. As duas práticas reconhecem o racismo como problema e atuam sobre ele. Então, por exemplo, se uma escola particular não tem professores negros e negras, isso é um problema e precisa ser construída uma estratégia para que isso deixe de acontecer.

NNas organizações da sociedade civil existem mecanismos que promovem ações para melhorar o desempenho das instituições, entre elas a avaliação equitativa. Como o uso dos métodos e ferramentas de avaliação equitativa podem mudar o acesso a oportunidades?

WO processo de avaliação é sempre o julgamento de mérito. Ele olha uma realidade e analisa, se aquilo é bom ou é ruim. O primeiro movimento é perceber o que estamos chamando de bom e de ruim. Se a gente tem uma régua única para definir desempenho, a gente pode inviabilizar progressos, porque as pessoas não partem do mesmo lugar. Então, quando se usa uma mesma régua para medir pessoas que partem de lugares diferentes, como o vestibular, por exemplo, deixamos muita gente para trás. E quem fica para trás são as pessoas negras, porque ou elas não conseguiram concluir a escola ou concluíram passando por várias situações de silenciamento, de violências e de opressões. Assim, o primeiro movimento é construir ferramentas que apoiem as diferentes pessoas (negras, brancas, homens, mulheres) a conseguirem mostrar quais são as suas grandes potências, além de visibilizar as desigualdades. Na minha perspectiva, uma avaliação equitativa visibiliza mecanismos de pressão e apoia a gestão das escolas e das próprias organizações da sociedade civil no enfrentamento a essas desigualdades visibilizadas.

NComo as organizações do terceiro setor podem contribuir para a equidade de acesso à educação?

WAs organizações da sociedade civil (OSCs) atuam muito em parceria com as redes de ensino, construíram uma trajetória de legitimidade e respeito no campo educacional, por isso é importante que utilizem esse espaço para pautar a questão racial. Além de apoiar as redes a falar sobre isso, é preciso pensar como elas possibilitam esse processo de visibilizar a questão racial. Muitas vezes as escolas estão imersas no dia a dia e não conseguem dar vazão a tudo aquilo que está acontecendo e as OSCs podem atuar nesse processo de visibilização. E elas também precisam olhar para dentro de si mesmas, porque também vivem nesse mesmo mundo que é atravessado pela questão racial. Então é importante que as organizações construam caminhos efetivos de enfrentamento ao racismo dentro delas próprias. Quem é a sua equipe? Quem você contrata? O que você valoriza em um processo de contratação? Que tipo de experiência é exigida? As organizações podem querer pautar uma questão racial, mas contraditoriamente não tem uma equipe que é diversa e que reconhece a importância da representatividade, da diversidade para produzir soluções melhores para os problemas sociais.

“Se temos a grande maioria de pessoas brancas dentro de uma organização, num país que tem mais de 50% da população negra, estamos em um lugar racista”

NNo fim de 2018, a Move Social percebeu que era uma organização branca, que contava com apenas uma consultora negra. E decidiu que todas as novas contratações iriam priorizar pessoas negras e indígenas. Como foi participar dessa transformação?

WA Move é uma consultoria que conduz processos de avaliação e planejamento para qualificar e melhorar o impacto social das organizações, mas como falei das OSCs, ela também reproduz mecanismos racistas. O primeiro passo foi reconhecer que não ter pessoas negras em um espaço é racismo. Então, se temos a grande maioria de pessoas brancas dentro de uma organização, num país que tem mais de 50% da população negra, estamos em um lugar racista e que não se olha.  Primeiro, fizemos esse processo de tomada de consciência. Depois, construímos estratégias de políticas de ação afirmativa, como processos seletivos exclusivos para pessoas negras. Pois se eu sou uma pessoa negra, entro no site de uma empresa e não me vejo parte da equipe, eu nem mando meu currículo. As equipes de consultores e consultoras pauta isso, se importa com isso, traz isso para os processos com incômodos. Hoje a Move tem uma equipe interna de 50% de pessoas negras. Quanto à nossa prestação de serviço, eu lidero na Move o olhar para uma avaliação antirracista. Pensamos em como construir processos de avaliação que reconheçam a questão racial como fundante e fundamental para se ler a realidade. Para isso, temos construído processos formativos de letramento racial e de gênero na equipe.

NQual é a importância de crianças negras se sentirem representadas na mídia e na escola para a formação intelectual delas?

WA representatividade é construção da possibilidade de futuro. Não podemos dizer que nunca existiram pessoas negras na TV brasileira. Porém, elas estão ocupando sempre os mesmos lugares. Historicamente as pessoas negras são empregadas, são serviçais. Essa não pode ser a única possibilidade de futuro das crianças negras neste país, então para além das crianças se verem representadas na mídia, se questionar que tipo de representação é essa. Homens negros são sempre bandidos, sempre traficantes, sempre uma imagem negativa colada na representação das pessoas negras. A representação precisa extrapolar e questionar esses lugares, para construir um imaginário onde as pessoas negras ocupam espaço de poder e participam de tomadas de decisão. Acho que apresentar novos caminhos para crianças negras é criar a possibilidade de “poderia ser eu”. É a possibilidade que é dada às pessoas brancas historicamente e negada sistematicamente à população negra. É importante para as pessoas brancas porque elas precisam construir esse imaginário. No fundo é isso: pessoas negras precisam estar em todos os lugares e é preciso distanciar das pessoas negras essa representação negativa.

NEm 2020, as desigualdades por questões raciais ganharam destaque global. Um dos motivos é a pandemia do novo coronavírus, que afeta desproporcionalmente as minorias raciais e étnicas. Outro fator é a morte de George Floyd por um policial de Mineápolis, nos Estados Unidos, que desencadeou uma onda de protestos no mundo. Qual é o real impacto destes acontecimentos a longo prazo?

WEstamos vivendo um momento histórico e o movimento negro do mundo está num lugar que é uma questão de vida ou morte. Não é simplesmente garantir melhores salários, precisamos garantir a vida das pessoas negras. E a visibilização de casos de assassinatos tem trazido essa urgência e é quase uma coisa insuportável de se viver. Todo dia que você abre o jornal tem um caso, no Brasil todo mundo conhece essa frase: a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado. E isso não choca. Assim, percebemos qual é a valorização da vida negra no Brasil. O caso do George Floyd é bem emblemático e diz um pouco da população brasileira, porque algumas semanas antes, houve o caso do João Pedro no Rio de Janeiro e tiveram milhares de casos de crianças negras assassinadas dentro de casa, com um tiro, ou indo para a escola e a comoção não foi tão grande. O movimento negro, principalmente no Brasil, já vinha apontando a insustentabilidade dessa situação, e a Coalizão Negra Por Direitos é um dos grandes exemplos. A questão é como não deixar esse movimento ser um episódio, porque a gente viu a Blackout Tuesday, em que todo mundo colocou uma imagem preta no Instagram. Mas não pode ser só uma terça-feira, porque a cada 23 minutos há um jovem negro assassinado no Brasil. A pergunta é: como as pessoas brancas vão olhar para isso e entender que é preciso enfrentar o racismo todo dia?

“As pessoas têm tomado uma ideia de lugar de fala como uma possibilidade de se isentar do debate. ‘Sou uma pessoa branca, não posso falar sobre o racismo’ e isso não é verdade”

NMuito se fala sobre representatividade e lugar de fala, especialmente nas redes sociais. Há quem pense que, por não pertencer a uma determinada minoria, não possa falar sobre as opressões que esse grupo enfrenta. O que você pensa sobre isso e como brancos podem se posicionar contra o racismo?

WAs pessoas têm tomado uma ideia de lugar de fala como uma possibilidade de se isentar do debate. “Sou uma pessoa branca, não posso falar sobre o racismo” e isso não é verdade. Por exemplo, não vai poder falar sobre como uma pessoa negra se sente quando ela passa por uma situação de violência racial, porque ela nunca passou. Pode se solidarizar com uma pessoa negra, mas ela não sabe o que acontece de fato e o que isso gera depois, em termos de saúde mental, por exemplo. Mas ela pode falar sobre como a população branca impõe processos de violência racial à população negra. Passa por reconhecer os privilégios. Há muitas formas ativas de enfrentamento à questão racial sendo uma pessoa branca, como ler mulheres e homens negros, acessar, valorizar e visibilizar toda a produção intelectual da comunidade negra. Durante os processos seletivos, se questionar quais são os seus critérios invisíveis de seleção. É entrar em uma sala onde só tenham pessoas brancas e estranhar, porque hoje não tem um estranhamento. Só vamos construir um caminho efetivo, em um país que rechaça o racismo, se as pessoas brancas se engajarem na pauta antirracista.

NO número de estudantes pardos e negros matriculados nas universidades públicas no Brasil superou, pela primeira vez, o número de alunos brancos, alcançando 50,3%, de acordo com a pesquisa “Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil”, divulgada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatística). Mesmo assim, pessoas pretas e pardas representavam 64,2% dos desocupados e 66,1% dos subutilizados em 2018. E isso se mantém quando considerado o recorte por nível de instrução. Por que o aumento do acesso ao ensino superior não significou um aumento de empregabilidade?

WAs empresas, assim como as escolas, são formadas por um racismo institucional, então reproduzem práticas racistas no âmbito dos seus processos seletivos. Quando olhamos especificamente a porta de entrada, os processos seletivos estão plasmados por esses códigos ocultos que vão expulsando as pessoas negras. Existem mecanismos mais explícitos nos processos de contratação e exigências de características muito além das necessárias para ocupar vagas de estágio, como fluência em inglês, sendo que de 3% a 5% da população brasileira é fluente no idioma. E a fluência em inglês é conquistada a partir de um lugar para um determinado grupo, que é é majoritariamente branco. O próprio processo de entrevista, se o selecionador ou selecionadora não está consciente do viés racial na seleção, ele vai reproduzir e isso não é algo individual. Se a instituição não olha para isso como uma questão, os processos seletivos vão reproduzindo essas práticas e manter as seleções quase exclusivas para determinado grupo, para o grupo que já é o que ocupa aqueles lugares historicamente. Não dá para falar sobre o racismo sem considerar essa dimensão estrutural e como as instituições respondem a isso.