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Polo de desenvolvimento educacional
Notícias Dez perguntas para

LOUISE MARINHO – “O corpo negro tem o direito de ter outros referenciais visuais”

Professoras e artistas visuais propõem formas alternativas de abordar o período escravista para que não se reforcem estereótipos e violências contra a população negra


Dez perguntas para
Louise Marinho
Graduada em história e mestranda em direitos humanos e movimentos sociais pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Pesquisa sobre epistemologias produzidas por educadoras que se reconhecem como feministas negras.É coautora de artigo científico selecionado pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica, do Itaú Social e parceiros

Incômodo (5telas), de Sidney Amaral (2014), obra exposta no Museu Afro Brasil, em São Paulo: “É preciso pensar em outro lugar que não seja apenas o de descendente de pessoas escravizadas”, diz a pesquisadora Louise Marinho. Imagem: Google Arts & Culture.

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA).

Uma busca pelo verbete “escravidão” no Google Imagens entrega resultados que qualquer estudante brasileiro conheceu nos livros didáticos: gravuras de pessoas negras em posição de submissão, ou até sendo torturadas. Nessas mesmas representações históricas, pessoas brancas aparecem ora com status de poder, sendo bajuladas pelos escravizados, ora no papel de algozes, castigando-os.

Imagens como a pintura de Anastácia utilizando uma máscara de flandres são apresentadas aos estudantes ainda no início da adolescência. A Base Nacional Comum Curricular (BNCC), documento que define o que os alunos devem aprender em cada etapa da educação, sugere que “A escravidão moderna e o tráfico de escravizados” sejam estudados a partir do 7º ano do ensino fundamental II, série que tem estudantes com média de idade de 12 ou 13 anos.

O incômodo causado pela abordagem, entretanto, não atinge faixa etária definida. As historiadoras Louise Marinho e Milena da Cruz ministravam aulas voluntariamente num cursinho pré-vestibular popular quando foram provocadas à reflexão sobre a utilização dessas imagens em sala de aula. Um senhor negro de cerca de 80 anos, estudante, queixou-se com as professoras afirmando que, apesar da felicidade em participar do cursinho, não conseguia lidar bem com as aulas de história sobre escravidão e desigualdades, pois elas remetiam a todas as dificuldades pelas quais teve que passar ao longo da vida.

Desde então, as duas pesquisadoras têm buscado alternativas para tratar do tema sem “re-violentar” os estudantes negros nem reforçar estereótipos sobre essa população. Nessa missão, Louise e Milena levam aos seus alunos o trabalho de artistas visuais negros que propõem o aprofundamento do debate racial, como Rosana Paulino, Sidney do Amaral e Yhuri Cruz, e se baseiam nos escritos de estudiosas da educação, como a estadunidense bell hooks — a autora prefere que se escreva seu nome em letras minúsculas, afirmando que “o mais importante em meus livros é a substância, e não quem sou eu”.

A experiência das historiadoras com o tema resultou no artigo científico Olhares opositores e um futuro negro na educação: possibilidades para uma prática antirracista a partir de novos regimes de visualidade, um dos nove selecionados pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica. Entrevistamos Louise Marinho, uma das autoras do artigo, sobre abordagens alternativas para temas sensíveis em sala de aula.

O Edital Equidade Racial na Educação Básica buscou a mobilização e articulação de escolas, redes de ensino, coletivos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil para viabilizar e fortalecer estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação. A iniciativa do Itaú Social contou com a realização do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e a parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A publicação digital que reúne todos os projetos selecionados pode ser acessada neste link. Confira a seguir, a conversa com Louise Marinho. 

NNotícias da Educação — Num mundo cada vez mais multimídia, qual a importância de ressignificar as representações imagéticas do período escravista?

LLouise Marinho — Vários símbolos e signos, como as obras de Debret, ainda estão presentes em nossa cultura. Acredito que é cada vez mais necessário mostrar outras referências. A imagem do Yhuri Cruz que utilizamos nessa atividade é importante. Outros artistas como o Jaime Lauriano, que trabalhei este ano com os adolescentes do ensino médio, também são. Numa imagem e num vídeo de um minuto, ele consegue trazer vários elementos de uma história crítica sobre o Brasil. Eu, enquanto professora de história, tenho a sensação de que algumas redes sociais, como o Instagram, simplificaram algumas discussões no ensino. É como: “Professora, a gente sabe que o Brasil foi invadido pelos portugueses, a gente está há 300 anos nisso, e nada vai mudar”. O que, na minha geração, era uma perspectiva crítica da história virou quase um senso comum. As obras de artistas e autores negros, em que eles conseguem aprofundar esse pensamento, fazem os estudantes “virarem a chavinha”. Não dá mais para só falarmos “O Brasil foi invadido”. Ok, mas o que foi produzido? Por que vivemos num sistema em que se pode falar que há uma estrutura escravista? Fazemos isso com os artistas negros. Eu e Milena temos a preocupação de sempre trabalhar com esses artistas para que os alunos produzam outros regimes de visualidade mesmo, outras experiências visuais. Para que não fiquem no simplório e no senso comum das mídias, da televisão ou de influencers do Instagram que trazem uma discussão racial, nem nessas trends que surgem em razão do genocídio. E também para que não precisemos ficar presas ao livro didático, que é cada vez menos utilizado em sala de aula.

NDe que maneira obras como Negros no fundo do porão, de Johann Moritz Rugendas, reforçam estereótipos relacionados à população negra?

LAtravés da narrativa da dor. Toda vez que se for falar da escravidão, vai-se ficar na narrativa da dor, de que existe um corpo que pode ser torturado. Sabemos quanto é violenta a história da escravidão e tudo o que ela deixou em nossa sociedade, mas existem outras perspectivas para que não precisemos sempre retomar a da dor. Essa imagem [pintura Negros no fundo do porão] ficou guardada na minha memória e na de outras pessoas negras — e fica nos re-violentando constantemente. Uma alternativa é trazer outras histórias e pessoas importantes de resistência ou artistas que questionam essa narrativa. Rosana Paulino faz isso muito bem. Ela não quer apagar todo o sofrimento, mas propor a possibilidade de pensarmos que existe um futuro em que o corpo negro não precise passar pela dor nem ser constantemente lembrado de que passou por ela. Esses artistas são importantes porque trazem outras possibilidades de representação. O corpo negro é muito mais do que aconteceu na escravidão. Isso não quer dizer que vamos esquecer ou deixar de tratar disso na escola. Quer dizer que existem diversas formas de falar sobre esses processos traumáticos.

As pesquisadoras Louise Marinho e Milena da Cruz, em imagem do vídeo no site do Edital Equidade Racial na Educação Básica: reflexões sobre representatividade, propostas de outras referências visuais e visão de um futuro próspero na educação de crianças negras.

“Podemos construir um olhar crítico sobre a história do Brasil sem jogar na cara do aluno negro que ele seria o corpo açoitado, caso vivesse naquele período.”

NPor que artistas visuais negros e brancos retratam o período escravista de maneiras diferentes?

LEstudando Rosana Paulino, Yhuri Cruz e Sidney Amaral, artistas negros sobre os quais eu e Milena nos debruçamos mais, é a questão da experiência. Dentro de sua identidade racial, sabem o que “pegou” no processo da educação, quais são seus calcanhares de aquiles. Como artistas, sentiam a necessidade de trabalhar isso a partir da experiência deles, o que é totalmente diferente para artistas brancos. O lugar da experiência é diferente porque a branquitude não é questionada o tempo inteiro a se repensar enquanto indivíduo, em sua identidade ou subjetividade. Ou a entender o tom em que uma pessoa fala, um som que ela faz para outra pessoa, um olhar direcionado… Tudo isso vai marcar muito a sua identidade. Acho que isso faz com que eles tenham outra concepção de experiência e uma forma diferente de lidar com isso em suas obras. Parece que, para eles, só existe a possibilidade de falar, de novo, sobre quão violento e errado é o racismo. Para fazer essa denúncia, utilizam alguns símbolos que re-violentam pessoas negras, como imagens de corpos negros dilacerados. Uma falta de sensibilidade com esse corpo. Sidney dizia em suas palestras quanto ele queria retratar nas obras uma experiência de corpo que ele não havia vivido. Yhuri fala sobre quanto era importante para ele que Anastácia tivesse voz, vê-la fora da máscara de flandres. Já Rosana questiona: que memória construímos sobre esse corpo? Ela trabalha muito com a ideia de costurar outras experiências de corpo. Temos que pensar mais profundamente sobre como a branquitude conceitualiza a própria experiência porque o lugar da experiência é o que dá a resposta a essa pergunta.

NÉ possível estudar a escravidão negra sem evidenciar a crueldade do regime?

LTemos que dizer quanto as coisas foram violentas e quanto isso é estrutural. Não podemos negar essa memória porque, se fazemos isso, não conseguimos mostrar para a sociedade que ela precisa rever alguns aspectos. É possível falar sobre toda essa estrutura violenta sem re-violentar, se utilizarmos outros referenciais como fonte, para além do que já está no currículo, como Debret e Rugendas. Podemos construir um olhar crítico sobre a história do Brasil sem jogar na cara do aluno negro que ele seria o corpo açoitado, caso vivesse naquele período. Os alunos brancos podem perceber a necessidade de olhar para o corpo negro fora desse lugar do coitado: “Olha a história dele, dos seus antepassados…”. A ideia não é conciliar a memória, dizendo “Isso aconteceu, mas ainda estamos vivos”. É dizer que isso aconteceu, é violento e estruturante na nossa sociedade, mas o corpo negro tem o direito de ter outros referenciais visuais e de se pensar em outro lugar que não seja apenas o de descendente de pessoas escravizadas.

NEsse é o “olhar opositor” a que vocês se referem no artigo?

Lbell hooks é a nossa grande referência de mulher negra, de professora, intelectual, filósofa… Nesse conceito, ela diz que não adianta a nós apenas ter produtos e uma representatividade na mídia com corpos negros. Não adianta reivindicarmos apenas que estejam na televisão, nos filmes ou em outra mídia, mas a forma como eles estarão lá. Não é uma questão quantitativa, mas quase qualitativa. Estarão lá para agradar à branquitude? Sabemos que as questões da identidade racial e da valorização da cultura negra viraram uma commodity. As empresas ganham dinheiro com esse debate. Quando pensamos em imagem, temos que debater como as pessoas negras estão sendo retratadas. Estarem lá para continuar sendo objetificação da branquitude não é uma representatividade, não trará elementos para discutirmos e criarmos ferramentas antirracistas na sociedade. Como estão sendo retratadas? bell hooks diz que o olhar dos educadores, professores e artistas deve ser o de construir um olhar opositor, uma identidade racial negra que seja múltipla e que não fique realimentando as estruturas da branquitude. Temos que construir outros referenciais.

NA quem bell hooks atribui a responsabilidade de construir esse olhar?

LA todos, pessoas negras e brancas. Mas ela diz que nós, pessoas negras, precisamos ter um cuidado a mais porque essa busca por representatividade às vezes nos cega. Ficamos felizes e valorizamos porque cada vez mais os corpos negros de mulheres e homens estão na mídia, mas essa busca por uma representatividade acaba sendo muito superficial. Ela diz que construir outros olhares opositores é responsabilidade de todos, até porque ela é professora e tem muito cuidado numa perspectiva educativa mesmo. Esse é um tema sensível para a comunidade negra. Já passou da hora de buscarmos outras formas de representatividade.

NO que é e como promover um “conhecimento emancipatório”?

LEsse é o termo com que Nilma Lino Gomes trabalha em seus estudos. Ela e outros intelectuais que pensam o ensino antirracista falam que, para vencermos o racismo no Brasil, temos que dar um passo além das denúncias e construir um outro conhecimento. Ela traz a questão dos saberes emancipatórios, que tratam da experiência. Para a comunidade negra, a experiência é como se fosse a principal fonte do conhecimento. Isso é diferente do conhecimento ocidental, branco e hegemônico, que busca construir o conhecimento por meio da observação neutra, fria, documental… Nilma tenta separar cada vez mais a construção do conhecimento desse lugar em que a branquitude a colocou.

“Queremos um futuro próspero e seguro, em que as experiências das nossas famílias não sejam mais as histórias comuns do não acesso à educação.”

NEm que consiste a educação por meio dos afetos?

LEsse é um dos pontos que bell hooks e Nilma Lino Gomes têm em comum, e uma herança de Paulo Freire. A educação tem alguns sensos comuns que ainda precisam ser vencidos. Quando falamos da educação por meio dos afetos, se pensa na ideia do professor bonzinho, amigo dos alunos. Não é isso. A educação dos afetos, proposta pelos autores, é sobre a vivência desse aluno. Quando ele chega à sala de aula, o professor tem quase por obrigação saber quem ele é e que cargas traz. Como ele pode construir um conhecimento numa aula, aproveitando essa experiência do aluno, que não é uma tábula rasa. Ele tem vivência e saberes produzidos pela vida, pela família, por suas relações de amizade. O afeto que bell hooks propõe é que o professor saia do patamar de onde tem todas as informações necessárias para uma aula acontecer e olhe para o aluno como um sujeito que também é importante na aprendizagem. O mais importante. A forma como esse aluno chegou naquele espaço escolar é o que vai fazer com que ele possa produzir o conhecimento, e com que ele sinta que aprendeu na aula. Esse afeto propõe que o professor se pergunte quem é esse aluno e o que dessa experiência dele pode ser utilizado coletivamente com todos os outros.

NÉ comum que os livros didáticos deixem de mencionar, ou apenas citem brevemente, levantes e outras estratégias de resistência da população escravizada, o que pode passar a ideia de que a escravidão era aceita passivamente. Quais as principais dificuldades para contrapor narrativas hegemônicas na educação?

LEnquanto professora, mulher e sujeito, acho que a dificuldade está em pensar que todas essas revoltas e atos de resistência tinham outros projetos de país e de sociedade, que é o que Abdias [do Nascimento] defende. Existe uma possibilidade de se pensar a coletividade em outra formação para este país. Os quilombos são marcos civilizatórios. Há uma dificuldade de trabalhar com a branquitude a ideia de que os quilombos não eram apenas um espaço físico, mas tinham filosofia e proposta civilizacional próprias. Pensar ser antirracista inclui pensar em que proposta de civilização estamos construindo. Isso já foi pensado, e até já foi posto em prática, em todas essas resistências.

NNo título do artigo, vocês citam um “futuro negro na educação”. Que futuro possível é esse?

LNesse título, queremos passar a ideia de um futuro próspero e seguro, em que as experiências das nossas famílias não sejam mais as histórias comuns do não acesso à educação. O primeiro passo é garantir que as pessoas negras estejam nesses espaços, de forma segura. Na nossa experiência, por exemplo, alcançamos o espaço da educação superior, mas essa não era uma experiência segura. Em diversos momentos, eu e Milena fomos colocadas em situações que eram violentas para nós. Então, quando falamos desse futuro negro, é para que as pessoas negras tenham o direito à educação respeitado e possam exercê-lo, mas que seja uma experiência segura, em que a memória da dor não seja “gatilhada” constantemente.