Dez perguntas para
Olivia Maria Costa Silveira
Ex-secretária municipal de Educação de Pojuca (BA) e doutora em políticas de educação


Por Maggi Krause, Rede Galápagos, São Paulo
São muitos os desafios para os estudantes que passam do 5º para o 6º ano, ou seja, acabaram de terminar os anos iniciais do ensino fundamental e se iniciam nos anos finais. Em geral, incluem deixar uma turma de amigos de infância e a antiga escola, onde convivem com alguns professores de referência, em rotinas já estabelecidas, e enfrentar o desconhecido. “Muitas vezes, significa deixar de ser o maior dos pequenos para ser o menor na escola grande”, descreve a psicóloga Olivia Maria Costa Silveira, que tem mestrado e doutorado na área de gestão de avaliação de políticas educacionais e pós-doutorado em estudos interdisciplinares sobre a universidade, na Universidade Federal da Bahia. Ela atuou como secretária de Educação do município de Pojuca, na Bahia, de 2018 a fevereiro de 2023.
Junto com a professora Lys Vinhaes Dantas, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Olivia liderou o Projeto Sexto Ano, Transições e Participação: Diagnóstico e Intervenção no Colégio Municipal Presidente Castelo Branco. Olhar com cuidado para essa transição pode ser uma forma de resolver um gargalo crítico do 6º ano escolar: a alta taxa de reprovação (13,2% nas redes públicas) e de abandono (3%) dos estudantes. As transformações nos processos de ensino e aprendizagem, aliadas às mudanças entre a infância e a adolescência, motivam uma atenção extra. A escuta dos estudantes do colégio inspirou uma série de estratégias do Modelo de Apoio à Transição (MAT) do ensino fundamental anos iniciais para os anos finais, que pode ser utilizado por unidades escolares ou por redes de educação. Em Pojuca, onde o modelo foi construído e testado, o Plano de Governo do atual prefeito, eleito em 2020, inclui ações voltadas para o acompanhamento dessa transição.
A pesquisa que originou o MAT fez parte do edital “Anos finais do ensino fundamental: adolescências, qualidade e equidade na escola pública”, da Fundação Carlos Chagas e do Itaú Social, que fomenta, apoia e dissemina pesquisas para a construção de soluções e superação dos desafios no período escolar do 6º ao 9º ano. O edital impulsionou as autoras a pensar o projeto e também a operacionalizá-lo entre 2019 e 2021. O recurso financiou materiais das oficinas, viabilizou os deslocamentos de professores e alunos de graduação envolvidos, entre Pojuca, a Federal do Recôncavo, em Cachoeira, e a Federal do Ceará, em Fortaleza, além da produção de manuais. “A professora Sonia Penin, que supervisionou o projeto pela Fundação Carlos Chagas, nos provocou com a ideia de que o produto que criamos é uma tecnologia educacional que deveria ser patenteada”, ressalta Olivia, que dá mais detalhes sobre o processo e sobre o MAT na entrevista a seguir.
NNotícias da Educação — Como é o contexto escolar dos estudantes desse colégio e o perfil socioeconômico de Pojuca?
OOlivia Maria Costa Silveira — O Colégio Municipal Presidente Castelo Branco é a maior escola da rede municipal e no período do projeto tinha em torno de 1600 estudantes, abarcando 82% das matrículas dos anos finais do ensino fundamental. Funciona em tempo regular e em tempo juvenil, que é um programa para alunos com distorção idade-série, com objetivo de fazer a correção de fluxo sem colocar os adolescentes no ensino noturno. Pojuca é uma cidade de 39 mil habitantes localizada na região metropolitana, a 65 quilômetros de Salvador. Durante muitos anos o petróleo foi a principal fonte de renda da cidade; hoje, uma empresa de extração de ferro e a prefeitura da cidade são os principais empregadores.
NQuais são os maiores desafios dos estudantes na transição entre o 5º e o 6º ano e como a reflexão sobre eles deu origem ao projeto?
OEm 2018, quando saiu o resultado do Saeb 2017, a professora Lys Vinhaes Dantas, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), veio fazer uma oficina de resultados nas escolas da rede municipal de Pojuca. Durante esse encontro, chamaram muito a nossa atenção os depoimentos recorrentes de diretores e coordenadores das escolas dos anos finais do ensino fundamental. Eles se queixavam de não receber os estudantes com as competências que deveriam ter. E diziam que estavam entregando tudo direitinho para os alunos dos anos iniciais. Ou seja, ficava evidente a discrepância de percepção entre esses dois grupos, criando forte tensão. Como pesquisadoras, olhamos para o problema e vimos um fenômeno que precisava ser estudado. Isso coincidiu com o edital do Itaú Social, em 2019. Na época, eu tinha pouco tempo como secretária. Identificar que a disparidade de percepção também se refletia na dificuldade que os estudantes tinham na transição foi o impulso para iniciar o projeto. Percebemos que existe nos professores e coordenadores uma expectativa do aluno ideal e o que se recebe é um aluno real. Por parte do estudante, há todo um processo de estranhamento e isso não é percebido pelos profissionais. Muito do que o estudante não sabe tem a ver com ritos, mais do que com conteúdo. As dificuldades englobam mudanças na rotina, pois a cada aula troca o professor; também são diferentes a divisão do tempo de aula, como se organiza a merenda e até o roteiro dos ônibus.
NO que ficou mais evidente nos depoimentos dos alunos no início do 6º ano?
OUma fala muito reveladora é a seguinte: “Você deixa de ser o maior dos menores e passa a ser o menor dos maiores”. Os estudantes relataram o medo de violência, de ter que fazer coisas que não queriam, como sexo ou usar drogas. Ao que perguntamos: “Mas você passou por isso?”. Eles responderam que não, mas que tinham esse receio inicialmente. É compreensível, pois as escolas dos anos iniciais aqui em Pojuca têm menos de 250 alunos e aí você chega a uma com 1600. Isso faz com que estudantes e até os pais fiquem amedrontados diante do tamanho do colégio. As dinâmicas dos anos finais são mais parecidas com as do ensino médio do que com as dos anos iniciais, então se espera uma autonomia desses jovens que estão chegando que eles ainda não têm. E ainda há a passagem de criança para adolescente: também o corpo passa por uma transição.
“É uma questão para toda a educação básica essa de organizar o trabalho para o sujeito que está ali à sua frente e não para aquele que você gostaria que fosse. Se conseguirmos mudar as práticas nesse sentido, vamos avançar.”
NComo aconteceu essa etapa diagnóstica realizada na escola com os estudantes?
OFizemos o diagnóstico coletando a produção de estudantes em oficinas de desenho e de fotografia, entrevistamos o diretor e os coordenadores pedagógicos e tivemos grupos focais com professores e com 277 estudantes e do 6º ano. Além disso ouvimos um grupo de estudantes repetentes e outro de pais. Dentro do mundo de informações o que mais chamou a atenção foi justamente esse relato do medo. Porque não era um medo que se concretizava, era um medo imaginário de ter de fazer coisas que não se quer, de que vão apanhar dos maiores ou de que eles vão tomar nosso lanche. Quase que um relato de filme americano de adolescentes na escola. Os professores, em geral, também imaginavam que chegaria o aluno pronto. No colégio há uma professora que na primeira aula ensina aos alunos como organizar o caderno, pois percebeu que não sabiam, por ser diferente. Ela explica como se organizar com o horário, que não é mais preciso trazer todos os livros. São dinâmicas que parecem simples, no entanto causam muito sofrimento. As crianças chegam a contar que pensaram em não vir alguns dias, pois sentiam medo. E isso atrapalha a permanência na escola e o aprendizado.
NQual é o perfil de professor mais adequado para atender os alunos nessa fase do 6º ano?
OA primeira estratégia do Modelo de Apoio à Transição (MAT) é pensar no perfil do professor e do coordenador pedagógico. É importante que o coordenador tenha conhecimento e experiência nos dois ciclos (dos anos iniciais e dos finais) e que compreenda os processos biológicos e psicológicos da adolescência, tenha capacidade de desenvolver estratégias, de liderança e de estabelecer trocas com os professores, com profissionais de outras escolas e com a comunidade. Já os professores precisam saber estabelecer diálogo com seus pares, buscar a atualização de seus conhecimentos, ter uma atuação inclusiva e domínio de práticas pedagógicas e atentar para as questões ligadas à adolescência.
NQuais são as estratégias que devem ser iniciadas ainda durante 5º ano?
OAlgumas coisas em que pensamos são visitas guiadas dos alunos do 5º ano para os espaços onde acontecem as atividades do 6º. Além disso, os adolescentes do 6º ano podem contar o que acontece durante esse ano para as turmas de suas escolas de origem, atuando como embaixadores. Também dá para os do 5º ano escreverem cartas, bilhetes ou mensagens para que os mais velhos respondam. Estratégias como a enturmação devem acontecer antes da transição, assim como os momentos de planejamento conjunto entre os professores das duas etapas.
NEssas estratégias podem ser usadas em qualquer rede?
OSim, pensamos o MAT para ser implementado por qualquer rede, até por escolas privadas. Evitamos determinar se as ações deveriam ser cumpridas pela Secretaria de Educação ou pela escola, pois há contextos distintos. Em alguns lugares a rede muda de municipal para estadual do 5º para o 6º ano, o que não é o caso em Pojuca. As estratégias que propusemos podem ser utilizadas em qualquer ordem, mas recomendamos que o mapeamento da rede intersetorial seja feito antes, para saber o que há no território e é parte da rede de proteção da criança e do adolescente. Essas organizações podem apoiar as escolas com atividades culturais, esportivas ou relativas à saúde dos estudantes.
Os oito braços do MAT
Estratégias centrais do Modelo de Apoio à Transição (MAT) para os gestores escolares
- Escolha de profissionais para o 6º ano buscando observar o perfil do profissional que lida com estudantes em transição.
- Estratégias de enturmação para manter, em uma mesma sala, as redes sociais e afetivas do aluno, formadas em turmas/escolas anteriores.
- Política de pluridocência para os últimos anos do ensino fundamental — anos iniciais para favorecer a passagem do estudante pela aquisição de métodos como organização de materiais, cadernos e mochila ainda nos anos iniciais.
- Mapeamento da rede intersetorial de assistência e proteção à criança e ao adolescente para constituir uma rede intersetorial de proteção que inclua os equipamentos (Cras, Creas, Unidades de Saúde) em seu território.
- Interação entre escolas e profissionais do ensino fundamental — anos iniciais e anos finais para aproximar as visões de pedagogos e licenciados e estimular planejamentos e debates entre professores de 5º e 6º ano.
- Ações desenvolvidas pelas escolas para o acolhimento de estudantes e favorecimento da afiliação nos anos finais do ensino fundamental na primeira semana de aula e durante todo o ano letivo.
- Grupo de Acompanhamento aos Estudantes (GAE), que inclui uma metodologia para a implantação em 20 encontros.
- Estratégia complementar de acompanhamento de professores para que possam compartilhar suas experiências e buscar coletivamente estratégias de enfrentamento das dificuldades.
NComo funciona o GAE (Grupo de Acompanhamento aos Estudantes)?
OO GAE é oferecido só para alunos com vontade de participar ou que a escola identifica como os que têm maior dificuldade na transição. Ele foi pensado em 20 encontros, com um moderador, de preferência um professor da escola que tenha sensibilidade para a escuta sem julgamento. Há atividades programadas e registros em diário de bordo. Por exemplo, em um dos encontros pedimos que reúnam lembranças da escola antiga e propomos um momento para relatá-las. Em seguida, a ideia é que eles fotografem o ambiente novo. Também acontecem visitas guiadas e palestras com convidados sobre temas de interesse dos estudantes, como violência e sexualidade.
NO MAT é uma tecnologia de gestão, que demanda vontade política e ações articuladas na escola e fora dela. Quais são as principais dificuldades para implantá-lo na rede de ensino?
OA principal dificuldade reside em os atores educacionais compreenderem que é necessário dar atenção a esse momento de transição. Pensamos em estratégias de implementação que não geram custos, mas exigem trabalho extra até que virem rotina para a escola ou a rede conseguir articular os profissionais nessa direção. Na esfera pública, a dificuldade é ter esse olhar e cuidado como vontade política, para pautar o modelo de transição e transformá-lo em política pública. Caso eu não fosse secretária de Educação, esse material poderia ter passado em brancas nuvens. Aqui em Pojuca a proposta de acompanhamento da transição foi registrada como plano de governo e está sendo implementada em 2022. Neste mesmo ano, as supervisoras pedagógicas da Seduc aderiram ao projeto e estão ajustando as estratégias para a transição entre a educação infantil e os anos iniciais.
NDe que maneira melhorar o acolhimento e as estratégias para receber e manter os alunos no 6º ano ajuda a mitigar os altos índices de reprovação e evasão nessa etapa do ensino?
OEssa é precisamente a minha aposta no MAT, pois com essas estratégias conseguiremos diminuir esse efeito negativo. A evasão tem motivos externos e internos à escola e a reprovação tem mais motivos internos. Se passarmos a ter essa preocupação com acolhimento na transição, a ideia é minimizar os motivos internos, reduzindo a reprovação e a evasão e melhorando o fluxo. As medidas mais urgentes a serem tomadas pelos gestores municipais são as ligadas a planejamento pedagógico, enfatizando que, independentemente do ciclo escolar, estamos falando do mesmo estudante. Então, é preciso sair desse lugar de disputa entre professores, onde sobressaem culpa ou isenção. É uma questão para toda a educação básica essa de organizar o trabalho para o sujeito que está ali à sua frente e não para aquele que você gostaria que fosse. Se conseguirmos mudar as práticas nesse sentido, vamos avançar.
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