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A esperança que vem de barco

No município ribeirinho de Breves (PA), organização trabalha para garantir os direitos das pessoas com deficiência


As pequenas embarcações são a única forma de acesso à zona rural do município de Breves, no Pará. Foto: Arquivo APAE de Breves.

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Lauro de Freitas (BA)

A Ilha de Marajó, no Pará, concentra alguns dos piores números do Brasil no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), indicador que avalia o progresso, a longo prazo, em áreas como renda, educação e saúde. A nota mais baixa do país pertence à cidade de Melgaço, que faz limite com Breves, o 5.520º de 5.565 municípios avaliados. À margem do rio Parauaú, a população de Breves encontra dificuldade para acessar serviços básicos. “O local mais próximo é a capital do estado, que fica a 200 quilômetros daqui. Isso dá 12 horas de viagem de barco.” O relato é de Maíla Costa, uma das fundadoras da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Breves e mãe de Arthur, de 11 anos. Atualmente, ela está afastada da função de presidente da organização para se dedicar à conclusão do doutorado em desenvolvimento regional.

“Eu vivia a dificuldade de ser mãe de uma criança com deficiência num local em que não há médicos”, conta. Arthur é autista e, assim como outras pessoas com deficiência, não tinha a garantia de direitos básicos em Breves. Nesse contexto, familiares e amigos de pessoas com deficiência se uniram a alguns profissionais da região para criar uma instituição que facilitasse o acesso a políticas voltadas a esse público. Maíla conhecia alguém que trabalhava na Apae de Belém, o que facilitou o processo de fundação. Hoje, a Apae de Breves atende a 277 famílias.

Em 2020 e 2021, a associação foi contemplada pelo edital Comunidade, Presente!, do Itaú Social. Desde que foi reformulada por causa da pandemia de Covid-19, em março de 2020, a iniciativa beneficiou milhares de famílias com a distribuição de cestas básicas, kits com produtos de higiene e gás de cozinha. A ação foi realizada por intermédio das organizações da sociedade civil (OSCs) que já possuíam atuação em seus respectivos municípios. Em Breves, onde parte da população é ribeirinha, foram beneficiadas algumas famílias de locais de difícil acesso. “Às vezes, a ‘ponte’ era apenas um pedacinho de madeira. As pessoas nem acreditavam quando chegávamos para fazer as entregas”, lembra Maíla.

Jornada desafiadora
Em 2018, quando a Apae de Breves ainda era uma ideia, as primeiras reuniões aconteceram na casa de Maíla. E assim permaneceram até 2020, quando a associação finalmente conseguiu inaugurar a sua sede. Quinze dias depois, porém, foi preciso fechar o espaço devido à pandemia. Esse foi apenas um dos problemas trazidos pela Covid-19 para as pessoas com deficiência no município. Junto com a crise sanitária, veio a crise econômica, e o desafio ficou cada vez maior.

“É muito mais delicado ter que lidar com a deficiência quando se tem uma situação financeira desfavorável”, destaca a presidente licenciada da organização. Ela estima que Breves tem em sua população aproximadamente 10 mil pessoas com algum tipo de deficiência. “Não vemos essas pessoas nas praças ou trabalhando. Parte delas nem sequer sai de casa.” Cerca de 90% das famílias atendidas pela associação estão em situação de vulnerabilidade, que tem na insegurança alimentar uma de suas principais dificuldades.

Um mapeamento foi feito para entender onde estavam essas pessoas e a dimensão do problema. A princípio, foi estabelecido contato com instituições que já atuavam de alguma forma com as pessoas com deficiência no município, assim como com universidades e órgãos oficiais. A principal fonte de dados para o mapeamento, entretanto, foi o “boca a boca”. Quando a associação realizava uma visita de triagem ou acompanhamento, os atendidos voluntariamente indicavam onde moravam outras famílias de pessoas com deficiência.

Em Breves, metade da população mora na zona urbana. A outra metade mora na zona rural ou na ribeirinha. Atualmente, 77 famílias atendidas pela Apae compõem esse último grupo. Para chegar até elas, é preciso sair da cidade e pegar uma embarcação. “Levamos médicos, psicólogos, defensoria pública, parceiros voluntários e outros serviços que não estão disponíveis lá.” O acesso a sinais de telefonia e internet é precário, o que obriga que toda a comunicação com as comunidades rurais seja feita porta a porta.

Uma das colaboradoras da organização viajou numa rabeta — canoa equipada com um pequeno motor traseiro — para informar às famílias atendidas a data em que elas receberiam as cestas básicas. As rabetas também foram utilizadas para a entrega das cestas nas zonas ribeirinhas. Além das embarcações, a Apae de Breves contou com suporte da Universidade Federal do Pará, do Instituto Federal do Pará e da Polícia Militar para as questões relacionadas à logística. Os colaboradores que têm carro também estiveram à disposição.

A associação foi aprovada pelo programa Comunidade, Presente! em 2020 e 2021 e recebeu o apoio durante três meses em cada edição. “Por meio do edital, conseguimos beneficiar 196 famílias com a entrega das cestas básicas”, conta Maíla Costa. Todos os itens das cestas foram comprados no comércio de Breves. Assim, donos de pequenos mercados, trabalhadores da agricultura familiar e uma cooperativa de mulheres local também foram favorecidos pela iniciativa. Outra característica das cestas é que elas eram adaptadas de acordo com as necessidades da pessoa com deficiência. Por exemplo, “as crianças com paralisia não comem alimentos sólidos. Nesses casos, aumentamos a quantidade do leite, para o mingau, e incluímos fraldas descartáveis”.

Lista de itens das cestas básicas variava de acordo com as necessidades da família e da pessoa com deficiência beneficiadas. Foto: Arquivo APAE de Breves.

No contexto da pandemia e da dificuldade de acesso à informação, era necessário garantir mais do que alimentação. “Além das cestas, levamos orientação e kits de higiene e proteção. As pessoas ainda não entendiam direito o que era a Covid e os profissionais de saúde foram importantes no cuidado.” Ao todo, a Apae de Breves entregou 15 toneladas de alimentos e meia tonelada de material de higiene e limpeza. Em 2021, por meio do edital Leia para uma Criança, no qual a associação também foi contemplada, os kits para famílias com crianças incluíram livros. Nesses casos, fazia parte da entrega a realização de uma roda de leitura com os pequenos.

Ciente de que há muito trabalho pela frente, a mãe de Arthur sonha em garantir às famílias de pessoas com deficiência do município direitos básicos, como a saúde. “Um autista precisa de fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, neuropediatra, educador físico, psicopedagogo”, enumera. “Outras deficiências demandam outras especialidades.” Além disso, Maíla enfatiza que a inclusão no mercado de trabalho e a oferta de opções de lazer acessíveis são ações necessárias para que essas pessoas se sintam parte da sociedade.

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