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Dez perguntas para

“A confiança transforma o investimento social privado”

Especialista no tema fala sobre como a pandemia causou uma mudança no cenário filantrópico e defende que a destinação de recursos deve ser mais flexível


Dez perguntas para
John Rendel
Diretor de Editais da The Peter Cundill Foundation, conselheiro do Teach for All e diretor do ImpactEd

John Rendell: “Acredito que estamos no meio de uma grande onda de filantropia moderna, mas resta saber se podemos consolidar essa mudança, transformando fundos irrestritos como prática majoritária.” Foto: Arquivo pessoal

Por Eduardo Barella, Rede Galápagos, São Paulo

Se os gestores de uma empresa ou uma instituição filantrópica pretendem fazer uma doação em dinheiro para uma organização social, mas não confiam na forma como ela vai gerir esses recursos, então será melhor buscarem mais conhecimento sobre o papel das OSCs e como elas funcionam. É o que aconselha o britânico John Rendel, diretor de editais da The Peter Cundill Foundation (PCF), que tem como foco viabilizar apoio irrestrito para ações sociais, melhorando as condições de vida de crianças ao redor do mundo. Rendel tem autoridade para falar do tema. Antes de ser contratado em 2019 pela PCF, onde é responsável por selecionar entidades que recebem 9 milhões de dólares repassados anualmente pela fundação (criada nas Bermudas pelo investidor canadense Peter Cundill, falecido em 2011), Rendel fundou e liderou por mais de 15 anos a PEAS (Promoting Equality in African Schools), a maior rede de escolas secundárias não estatais de Uganda e Zâmbia, na África. A organização agora emprega mais de mil funcionários e educa 1% dos alunos do ensino médio em Uganda. Foi nesse período, quando procurava obter recursos para manter a PEAS, que Rendel se convenceu da importância do repasse de fundos irrestritos para entidades beneficiadas — forma de doação na qual a organização receptora tem total liberdade para usar o dinheiro obtido. Segundo ele, além de causarem menos impacto social a longo prazo, os fundos restritos (modelo no qual o dinheiro repassado só pode ser utilizado para determinados programas de uma entidade) acabam prejudicando a organização receptora, que às vezes tem dinheiro de sobra para uma parte de seu trabalho, mas não tem recursos para outras atividades essenciais, como pagamento de funcionários, por exemplo. Rendel afirma que a pandemia de Covid expôs ainda mais essa contradição, pois uma instituição que recebeu um fundo restrito em 2018 por três anos, por exemplo, ficou impedida de usar o dinheiro para outras prioridades. “Até entidades que doavam fundos restritos perceberam que as organizações receptoras precisam fazer coisas que não haviam planejado anteriormente; é um dinheiro desperdiçado”, afirma Rendel, que também atua como conselheiro do fundo Teach for All e como diretor não executivo do ImpactEd, organização que apoia escolas na avaliação de intervenções educacionais. Em 2021 Rendel participou do seminário Investidores Sociais e o Fortalecimento Institucional de Organizações da Sociedade Civil, organizado pelo Itaú Social, Instituto Unibanco, Laudes Foundation, Synergos e Gife. Na entrevista a seguir, Rendel fala sobre desafios e aprendizados na área de filantropia.

NNotícias da Educação — O senhor é diretor de uma fundação que faz doações e já esteve do lado oposto, como responsável por obter recursos, quando trabalhou com escolas em Uganda e Zâmbia. Quais foram as principais dificuldades que encontrou nessa posição de procurar investimento privado?

JJohn Rendel — Quando você está levantando fundos, há sempre uma grande lacuna na compreensão do que você faz e do que a instituição que prometeu fundos está buscando. Então, o desafio é explicar sua atuação de maneira clara e sucinta, para que o doador possa entender e se interessar. Muitas vezes, para conseguir isso, você tende a apresentar apenas parte do papel da sua organização, e não a organização como um todo. Isso faz com que o doador muitas vezes queira liberar um fundo restrito apenas para aquela área da organização que você apresentou. É quando surge o risco de cair numa situação na qual a organização recebe muitos fundos específicos e restritivos para diferentes partes de seu trabalho, mas não tem dinheiro suficiente para manter a organização em si, ou seja, acaba faltando dinheiro para pagar os profissionais que tocam o dia a dia da instituição, por exemplo. Esse foi o maior desafio que encontrei. Isso mostra que é preciso buscar sempre o tipo de financiamento correto, não apenas o valor correto. 

NComo essa experiência na África transformou seu perfil profissional e a maneira como você trabalha na Peter Cundill Foundation?

JAcredito que vir da posição de destinatário, de quem recebe esses fundos, me permitiu ter a perspectiva de quem recebe esses fundos e, mais recentemente, também de quem doa. Isso foi muito importante para mim. Significa que consegui construir uma confiança com parte das entidades receptoras, porque elas sabem que eu sei como é administrar uma organização em termos reais. Na prática, isso faz com que elas sejam mais honestas sobre alguns dos desafios que enfrentam. Isso me permitiu criar laços mais fortes com parte das organizações em que investimos. Desde que entrei na PCF encorajo a diretoria a conceder, principalmente, fundos irrestritos, em vez de fundos restritivos, pois sei quão necessários eles são. Acho que isso causou um grande impacto em nossos parceiros, e o retorno que recebemos tem sido muito positivo.

NComo lidar com o fato de que as fundações nem sempre têm dinheiro suficiente para desenvolver todos os projetos demandados pelas organizações sociais?

JPrimeiro, é essencial gastar algum tempo para analisar os parceiros potenciais e garantir que você está financiando as melhores oportunidades possíveis. Há uma grande variação no impacto que cada organização tem — algumas são excelentes, outras são medianas, outras são, na prática, ineficientes. O que tentamos fazer é usar esse tempo para estudar bem as entidades antes de conceder qualquer financiamento. Tentamos fazer a maior parte dessa avaliação sem gastar o tempo dessas organizações, avaliando documentos, informações e dados disponíveis, particularmente em seus websites, solicitando coisas simples como seus relatórios anuais, contas e documentos estratégicos que possam disponibilizar. Isso nos permite ter uma imagem do que fazem. Em seguida, geralmente marcamos reuniões com o parceiro potencial, pelo menos duas on-line. Às vezes até fazemos uma visita para ter um alto grau de confiança antes de investir. Quando você tem fundos finitos, a melhor maneira de fazer isso é trabalhar para escolher a melhor organização e depois estabelecer uma parceria de longo prazo com ela. No caso da PCF, nossa tendência é investir em poucas organizações, mas dando a elas fundos maiores.

“Acredito que estamos no meio de uma grande onda de filantropia moderna, mas resta saber se podemos consolidar essa mudança, transformando fundos irrestritos como prática majoritária.”

NO senhor chama a atenção para a assimetria de poder entre quem doa e quem recebe o dinheiro. Como isso afeta o relacionamento entre as partes?

JO grande impacto dessa assimetria de poder, como gosto de chamar, entre quem investe e quem recebe o investimento, é que às vezes é difícil para a organização receptora ter a confiança de dizer o que realmente precisa ser dito — seja a respeito de dar feedback sobre más práticas do investidor ou ser honesta sobre os desafios que enfrenta, porque ela não sabe como o investidor vai reagir. Como dizem, as pessoas não gostam de ouvir verdades; a instituição pode temer que o investidor não vá gostar disso. O trabalho que essas organizações fazem é muito difícil ou cheio de nuances. Ou seja, a assimetria de poder pode, às vezes, criar um ruído nessa comunicação e isso é um grande problema. É difícil para essas organizações pedirem investimentos irrestritos de longo prazo porque temem que os investidores não vão querer dar esse tipo de financiamento. Então, tendem a pedir o que acreditam que o investidor esteja mais disposto a repassar e não são claras sobre o fato de que esse apoio pode não ser o mais útil.

John Rendel no seminário Investidores Sociais e o Fortalecimento Institucional de Organizações da Sociedade Civil: “A desigualdade social cresceu muito com a pandemia, estimulando doações.” Foto: reprodução do vídeo.

NO que leva as organizações doadoras a investir majoritariamente em projetos com fundos restritos?

JO grande motivo de as fundações ou entidades doadoras controlarem rigidamente a maneira como o investimento é alocado é que muitas vezes elas não têm plena confiança em seu parceiro. Basicamente, costumam dizer: “Queremos controlar para onde vai nosso dinheiro porque não temos certeza de que vocês, de forma geral, vão usá-lo bem”. Essa preocupação, consciente ou inconsciente, é a maior razão de investidores optarem por fundos restritivos. Mas, na minha visão, se você não confia em seu parceiro, então simplesmente não deve dar dinheiro a ele. Um fundo restritivo não necessariamente vai resolver os problemas da organização receptora. Então, é comum um investidor querer restringir esse investimento para um determinado programa ou querer destiná-lo a um objetivo específico, para que possa dizer “eu construí uma sala de aula”, “ajudei uma criança a ser vacinada” ou algo semelhante. Sabendo disso, talvez você possa ter uma ideia um pouco mais tangível da mudança que tenha causado. O problema, no entanto, é que você acaba causando um impacto geral menor com esse tipo de investimento — pois é uma maneira muito menos eficiente de uma organização receber recursos.

NAs organizações veem o modelo de fundos restritos como mais eficientes para sua própria estratégia?

JConduzi um estudo não científico no Twitter perguntando a organizações que levantam fundos para tocar obras de caridade se achavam melhor receber 100 mil dólares como um fundo restritivo ou 50 mil dólares como um fundo irrestrito. A maioria, numa proporção de dois para um, preferia receber o valor menor. Isso mostra quanto valorizam o fundo irrestrito porque permite fazer as organizações crescerem e terem mais impacto a longo prazo. Concordo com essa constatação pelo fato de esse modelo ser muito mais eficiente. Quando você faz um investimento restritivo, ele custa muito mais para a organização receptora — pois acaba gerando custos mais altos de contabilidade, de aquisições, do levantamento desses investimentos, de relatórios, uma vez que é preciso fazer relatórios individuais para cada investidor. Então, tudo isso nos leva à conclusão de que uma doação irrestrita faz cada centavo investido ter um impacto muito maior. Sou um grande apoiador do modelo de investimento irrestrito.

“A maioria das organizações filantrópicas poderia, se quisesse, doar fundos irrestritos, bastando apenas se assegurar de que as práticas do receptor sejam ajustadas.”

NAté que ponto a preferência das organizações por fundos restritos se devem a imposições fiscais e burocráticas?

JAlguns investidores, como as grandes organizações de ajuda bilaterais que podem doar de um país para outro, têm uma responsabilidade implícita, uma responsabilidade democrática. Ou seja, precisam de uma contabilidade muito específica sobre a alocação de seus recursos — por isso é mais difícil para elas doar fundos irrestritos. Acredito que a maioria das organizações filantrópicas poderia, se quisesse, doar fundos irrestritos, bastando apenas se assegurar de que as práticas do receptor sejam ajustadas. Mas entendo que mesmo essas organizações bilaterais que fazem doações para grandes projetos podem ser mais flexíveis do que são. É tudo um princípio de maximizar essa flexibilidade com seu parceiro. Se você fez um investimento restritivo em 2018 pelo período de três anos, por exemplo, seguramente não contava com o surgimento da pandemia do novo coronavírus. Nem a organização receptora — que teve de continuar a usar o dinheiro da forma como havia se comprometido. Ou seja, essa organização teve de fazer algo totalmente inapropriado com esse dinheiro porque o mundo simplesmente mudou com a pandemia. Isso certamente ajudou os investidores a compreender o dano que fundos restritivos podem ter, porque viram que, de repente, todos fomos atingidos pela mesma mudança drástica. Os investidores perceberam que as restrições tinham de sumir, porque essas organizações precisam fazer coisas que não haviam planejado anteriormente. É claro que, na prática, organizações individuais precisam mudar constantemente os seus planos; e pedir que elas especifiquem no que vão gastar daqui a três anos, hoje, é muito restritivo e inflexível e leva a uma alocação de recursos ruim pela organização, o que significa um desperdício de dinheiro do investidor. Portanto é uma autoderrota filantrópica conceder investimentos restritivos. Vimos nos últimos tempos, principalmente durante a pandemia, uma real mudança de muitas organizações — elas estão percebendo que fundos irrestritos são muito melhores em quase todas as situações.

NO que pode ser feito em termos de legislação e controle para aumentar a confiança nas organizações que recebem doações?

JA criação de uma legislação adequada para essa estrutura pode encorajar práticas melhores, uma auditoria mais eficaz, nos conselhos dessas organizações. Isso certamente vai aumentar a confiança dos investidores para doar fundos irrestritos, pois terão a certeza de que essas diligências serão conduzidas pelo Estado e não necessariamente vão precisar fazer essas investigações eles mesmos.

NQual é o papel das fundações no apoio ao desenvolvimento institucional dessas organizações?

JHá diversas maneiras pelas quais é possível fazer isso como investidor. É muito importante garantir que, seja qual for o apoio que você der a uma organização, que seja de comum acordo com ela, para evitar imposições de quem doa. Mas temos consciência de que CEOs ou diretores executivos de organizações receptoras podem estar tão atarefados que é difícil para eles se afastar e ver a situação geral. Permitir que eles se retirem, que se afastem um período da administração e passem alguns dias com outras pessoas próximas a eles, para que tenham esse apoio necessário, é algo que tentamos fazer. Então, é menos sobre construir capacidades específicas e mais sobre permitir que essas mentes brilhantes estejam com colegas da área para que elas possam compartilhar desafios que sejam semelhantes a todos. Uma ideia que tenho sobre liderança dessas organizações é que, na maior parte do tempo — seja três meses, seis meses, um ano —, eles terão de tomar uma ou duas grandes decisões. Se tiverem de investir seu tempo pensando em quais são essas decisões e como tomá-las da melhor maneira possível, então esse processo vale tanto quanto qualquer trabalho que eles vão fazer durante esses três meses. Porque, como líderes, tomar essas decisões da forma correta causará um impacto maior na sua organização.

NNo Brasil, durante a pandemia ampliou-se muito o número de pessoas mais pobres e também cresceu a quantidade de milionários. Qual é o seu conselho de especialista para quem pode doar e ainda não doa e para quem já doa e pode fazer mais com suas doações?

JEm primeiro lugar, uma vez que você tenha dinheiro suficiente para ter segurança e uma boa vida, é sua responsabilidade doar o restante da melhor maneira possível, para maximizar seus objetivos filantrópicos. Não há razão para ter muito dinheiro parado, aplicado em investimentos, quando você tem o suficiente para levar uma vida confortável. O mundo precisa desse dinheiro. Há muitas oportunidades de doação por aí, então eu diria: disponibilize esse dinheiro, não o deixe como um legado na sua morte, disponibilize esses recursos já, porque garanto que você vai criar um impacto social grandioso hoje, maior do que em cinco anos. Doe esse dinheiro de maneira irrestrita, respeitando a experiência das organizações que está apoiando e reconhecendo que, mesmo que em geral ganhe muito dinheiro, isso não faz de você um expert em como gastá-lo bem. Então, seja respeitoso, doe o dinheiro de que as organizações precisam para ter um impacto maximizado. 
Há um outro aspecto importante. A desigualdade social cresceu muito com a pandemia, estimulando doações. Muitos investidores perceberam que o mundo mudou e que doações de fundos restritivos que faziam antes na verdade não eram apropriadas e mudaram a natureza dos fundos, de restritivos para irrestritos. Isso tem criado melhores relacionamentos com seus parceiros, pensando neles como uma organização, e não como um projeto específico dentro delas. E as organizações passaram a ser mais claras sobre a maneira como tomam decisões e criam impacto. Acho que esse foi um processo muito positivo e espero que isso dure para além deste período, no qual esperamos estar saindo da pandemia de Covid, para que esses comportamentos e mudanças permaneçam por muito tempo. Acredito que estamos no meio de uma grande onda de filantropia moderna, mas resta saber se podemos consolidar essa mudança, transformando fundos irrestritos como prática majoritária.

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