Dez perguntas para
Carlos Machado (Gyasi Kweisi Mpfume)
Ativista do Movimento Negro desde 1988, bacharel, licenciado, mestre e doutorando em história social pela Universidade de São Paulo


Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador (BA)
Aos 51 anos, o professor Carlos Machado sonha com uma educação diferente. Deputado do Estado da Diáspora Africana, ele acredita que o empoderamento de pessoas negras passa pelo direito ao pleno conhecimento do seu passado. “A história dos nossos ancestrais é grandiosa e não começa na escravidão.” No mestrado, pesquisou a população negra e escolarização na cidade de São Paulo nas décadas de 1920 e 1930.
Gyasi Kweisi Mpfume, seu nome africano, é ativista do Movimento Negro, bacharel, licenciado, mestre e doutorando em história pela Universidade de São Paulo. Educador desde 1999, também dá cursos sobre arte, filosofia e ciência africanas. Ele é colunista da revista Raça Brasil e autor dos livros Wakanda para sempre — tradições africanas milenares decifradas para entender o filme Pantera Negra e Gênios da humanidade — ciência, tecnologia e inovação africana e afrodescendente (2017).
“Somos quase 2 bilhões de seres humanos na Terra. Se fôssemos um país, este seria o mais populoso do mundo. Precisamos nos articular”, defende o professor, que dá aulas de história para estudantes do 6º ao 9º ano do ensino fundamental, em São Paulo. Carlos busca oferecer aos seus alunos conteúdos que provoquem reflexões. “Hoje, as potências do mundo são Estados Unidos, Rússia e China. Brancos e asiáticos. Onde estão as populações negras nessas disputas?”, questiona. Conversamos com o historiador Carlos Machado sobre a sua carreira, pesquisa e ensino da história dos povos africanos e a importância das articulações para os afrodescendentes.
NNotícias da Educação — Como é a experiência de ser um acadêmico negro que pesquisa sobre questões de raça?
CCarlos Machado (Gyasi Kweisi Mpfume) — Somos minoria na academia brasileira, apesar de sermos maioria na população. O desafio já começa por se propor a pensar fora do eurocentrismo, a caixa que foi construída para limitar o nosso pensamento. Esse é o pensamento da população branca, de como ela se vê no mundo numa narrativa em que os brancos são superiores. Nessa hierarquia, está em primeiro lugar o homem branco, depois a mulher branca. Mas nós, pretos, somos descendentes dos primeiros seres humanos que habitaram este planeta; a base de tudo é africana. O Homo sapiens existe há cerca de 300 mil anos. Apenas há 10 mil surgiram os amarelos e, posteriormente, os brancos. Então, por 290 mil anos só havia gente como eu, até que outros povos surgiram e ocuparam outros territórios. É importante entendermos que a nossa história não começa na escravização. Foram necessários muitos anos de reflexão para que entendêssemos que a base de tudo o que conhecemos em matéria de inovação, tecnologia e ciência veio do povo preto, originário do continente africano. E, de uns anos para cá, tenho a oportunidade de compartilhar esse conhecimento com outras pessoas.
“A nossa história é riquíssima e não a aprendemos nas escolas. É um desafio aplicar as leis de obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e cultura indígena porque as faculdades de educação não têm essas disciplinas.”
NNo mestrado, você pesquisou a escolarização dos afro-brasileiros nas décadas de 1920 e 1930 na cidade de São Paulo. Como chegou a esse recorte?
CAo ler um livro chamado E disse o velho militante, do jornalista José Correia Leite. Ele teve uma história muito triste na cidade de São Paulo. Um garoto que foi criado sem mãe e sem pai numa cidade em que fazia muito frio. Antes de ser desmatada e ter o seu clima bastante alterado, a capital paulista realmente era a “terra da garoa”. Ele viveu no pós-Abolição, quando a população negra foi largada para desaparecer. Leite sofreu muito e teve dificuldade para aprender a ler e escrever. Aproximou-se de outras pessoas negras, inicialmente através das festas, e conheceu as organizações do movimento negro que surgiam para lutar contra o racismo. No livro, ele conta sobre a sua participação nessas organizações e sobre o jornal O Clarim da Alvorada, do qual foi fundador e editor. Sua trajetória passa por falar dos problemas da população negra no século 20 e dos caminhos para resolver essas questões graves. Ele importou algumas ideias de Marcus Garvey, grande intelectual negro pan-africanista de origem jamaicana. Não sou o primeiro pesquisador a tratar disso. Meu orientador e eu achamos melhor investigar como a população negra pensou em alternativas para a sua própria educação. Ainda hoje, o povo negro sofre com a falta de instrução, e a realidade era muito pior naquela época. A história de organizações como a Frente Negra Brasileira é pouco conhecida pela população porque as narrativas são contadas pelos historiadores brancos. Graças a um importante trabalho de pesquisa de muitas pessoas, temos acesso a essas informações e hoje podemos transmiti-las aos estudantes da educação básica.
NCem anos após o período correspondente ao recorte da sua pesquisa, o acesso a uma educação de qualidade ainda é um privilégio de pessoas não racializadas?
CSim, porque as políticas públicas que deveriam ser destinadas à nossa gente foram oferecidas aos descendentes de europeus e asiáticos que vieram na segunda metade do século 19 e na primeira do século 20. Os brancos são donos de boa parte das terras do Brasil, os asiáticos também têm pedaços importantes, e a população negra possui um espaço muito pequeno de um território que, na verdade, é todo indígena e foi tomado pelos brancos. Quando produzi essa dissertação de mestrado, em 2009, notei que a maioria das escolas particulares pertencia a descendentes de europeus e asiáticos. Hoje, há um grupo maior de instituições de ensino negras no Brasil, como a Universidade Tuiuti do Paraná e a Universidade Zumbi dos Palmares. Em Salvador, tem a Escolinha Maria Felipa, uma escola de educação infantil que tem uma proposta de ensinar as histórias negra e indígena para as criancinhas. Existem pequenas escolas pan-africanistas em alguns bairros. Mas é muito pouco em relação à proporção da população. Ainda não despertamos para a importância da educação. A nossa história é riquíssima e não a aprendemos nas escolas. Estou tentando mudar isso onde leciono. É um desafio aplicar as leis nº 10.639/2003 (obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira) e nº 11.645/2008 (inclui história e cultura indígena) porque as faculdades de educação não têm disciplinas de história africana, história afro-brasileira, história indígena… Elas precisam existir, não como optativas, mas como matérias obrigatórias para que se formem professoras e professores capazes de proporcionar um novo olhar para a realidade.
NQuais estratégias de resistência do movimento negro nos séculos 19 e 20 você destaca?
CÉ importante dizer que onde houve escravidão no território brasileiro houve resistência. Vieram para o Brasil pessoas de diversos estratos sociais. Rainhas e reis, generais, soldados, agricultores, pecuaristas, pesquisadores, uma população diversificada. Uma das primeiras formas de resistência foi o quilombo, que era uma organização militar utilizada no continente africano e colocada em prática aqui. O quilombo também existiu em outros lugares do continente americano com outros nomes, como marronage, por exemplo. O conhecimento de técnicas e tecnologias militares veio junto conosco. Havia outras formas de resistência, como a capoeira, considerada a primeira arte marcial brasileira, e mulheres que tentavam envenenar os seus donos. A população negra era obrigada a ser católica, o que acabava sendo uma forma de ter um enterro digno, de amparar as viúvas e de obter alguma ajuda por meio das irmandades religiosas. André Rebouças foi um homem negro de uma família rica da Bahia. Ele descobriu o que era ser preto quando foi morar nos Estados Unidos e percebeu como os afro-americanos eram tratados. De volta ao Brasil, defendeu que a escravidão tinha que acabar, com a oferta de políticas de educação ou instrução pública e um pedaço de terra para cada família. Isso não aconteceu. Não houve reforma agrária ou preocupação em educar essa população porque o objetivo era a extinção da população negra. Com o tempo, o número de abolicionistas e de fugas das fazendas era cada vez maior e, quando a princesa Isabel assinou o documento, apenas 5% da população negra foi, de fato, libertada. Os outros 95% fizeram a sua própria abolição antes disso, com estratégias como a carta de alforria, em que as pessoas trabalhavam por fora para comprar a liberdade. Sempre houve resistência, suicídios, fugas em massa, ataques aos donos… Esse sistema de trabalho era muito violento e cruel e se mantinha por meio da força bruta, com agressões físicas e verbais, tortura e morte. As pessoas nunca aceitariam a escravidão passivamente.
NUma das tradições de povos africanos é a oralidade. Isso fez com que algumas dessas histórias atravessassem gerações…
CIsso nos fortaleceu e manteve viva a resistência. Ainda há muita história para ser contada. Muitos historiadores já pesquisaram sobre escravidão, mas pouco disso chega aos livros didáticos para a nova geração. Eu tenho 51 anos e muito do que sei sobre a nossa gente aprendi “na rua” ou lendo por conta própria. Os livros que estão na minha biblioteca falam sobre ciência, tecnologia e inovação produzidas por nossos ancestrais e nada disso a escola me trouxe. Hoje, dei uma aula em que apresentei aos estudantes alguns exemplos de tecelagens africanas. Tenho certeza de que eles são uns dos poucos no Brasil a ter contato com esse material porque o interesse da maioria dos professores é ensinar aquilo que aprenderam na universidade. Poucos são os que pesquisam além. Se queremos um país democrático de fato, será preciso arregaçar as mangas e ir para além dos livros didáticos.
“Os primeiros reinos e organizações políticas, os primeiros lugares a serem governados por mulheres estavam no continente africano. Os outros povos do mundo aprenderam conosco a cuidar da saúde, a utilizar os recursos minerais e a lidar com os animais.”
NEnredos de escolas de samba, letras de rap e frases grafitadas são exemplos de expressões artísticas que buscam contar a história que não está nos livros didáticos. Como você vê esse movimento?
CNão é de hoje. Essa realidade existe dentro dos terreiros de candomblé e de umbanda, locais muito importantes por protegerem as manifestações culturais e espirituais da nossa gente que eram perseguidas. Cultuar um orixá ou jogar capoeira eram práticas passíveis de prisão. Onde existe população negra existe resistência. Aprendi a minha história ouvindo as canções da música popular brasileira, os blocos afros de Salvador, como Ilê Aiyê, Olodum e Araketu, as escolas de samba do Rio de Janeiro e de São Paulo. Hoje em dia, é muito mais fácil porque existem podcasts, YouTube, redes sociais enormes em que é possível formar quilombos virtuais. A nossa gente manteve as tradições também por meio da sua arte. Com todo esse rico legado, porém, hoje temos um desafio grave. Estamos perdendo espaço na direção das escolas de samba, os mestres de capoeira são cada vez mais brancos, assim como as autoridades das religiões de matriz africana. Por outro lado, a maioria dos evangélicos é de pessoas negras, principalmente mulheres. Por causa dos discursos dessa espiritualidade de origem europeia e asiática, estamos perdendo espaço. Mas, ao mesmo tempo, eu nunca tinha visto uma articulação tão grande do movimento negro como a dos últimos anos.
NComo você vê o movimento de artistas de alguns gêneros musicais de grande audiência entre a juventude negra e periférica que reproduzem um discurso que enaltece a riqueza e a ostentação, uma realidade distante da situação da população atualmente.
CO rapper americano 50 Cent tem uma frase famosa: “Fique rico ou morra tentando”. Reflete bastante a realidade norte-americana exportada para o resto do mundo. Nessa narrativa, um homem de sucesso precisa ter muito dinheiro, carros, roupas e mulheres e exibir tudo isso. Isso influencia movimentos como o funk ostentação, mas é uma grande ilusão achar que é possível atingir tudo isso nessa sociedade que nos vê como inimigos. As estruturas militar, fundiária, econômica e política estão na mão dos eurodescendentes. Tomaram conta de tudo. Em vez da ostentação, o nosso caminho precisa ser o de uma educação que ensine a ter orgulho de quem se é, a conhecer e valorizar a própria história. Assim, esse mesmo jovem saberá quem foi Mansa Musa, homem preto que foi o mais rico do mundo. É importante entender como a nossa gente produziu riquezas. Os europeus chegaram ao continente africano e o subdesenvolveram. Hoje, muitas pessoas não querem ser associadas à imagem de pobreza e miséria com a qual a África é retratada. A nossa história está para além disso e não começa com a escravidão. Os primeiros reinos e organizações políticas, os primeiros lugares a serem governados por mulheres estavam no continente africano. Os outros povos do mundo aprenderam conosco a cuidar da saúde, a utilizar os recursos minerais e a lidar com os animais. Nossa história é grandiosa. Espero que, com o passar do tempo, mais pessoas consigam entender isso para que possamos, finalmente, viver o que diz uma frase do afrofuturismo: “O futuro é ancestral”.
NComo você enxerga o fato de os museus europeus exibirem artigos que originalmente pertenciam à África e às Américas?
CA Europa Ocidental, principalmente, reúne os lugares mais visitados do planeta. Pessoas de lugares que foram colonizados por países europeus viajam para lá e isso gera riqueza para eles. Somos educados pela mídia tradicional para enaltecer a Europa. Quando uma pessoa negra passa a ter dinheiro, logo quer visitar países como França, Alemanha, Itália, Portugal ou Estados Unidos. Pega o dinheiro que produziu e o deixa ali, financiando e fortalecendo o Ocidente. Existe uma estratégia dos governos africanos para reparação dos bens culturais e sagrados que foram roubados. Eles pensam que, no futuro, as pessoas poderão ir a Angola, Congo, Benin, Etiópia, Costa do Marfim, Gana, Senegal, Gâmbia, entre outros lugares, para apreciar esses mesmos itens, dessa vez nos nossos países. As relações Sul-Sul precisam estar também no campo do turismo. Olha que coisa mais linda poder viajar para um país de onde vieram os seus ancestrais. Quantos dos nossos bisavós e tataravós quiseram voltar para as suas terras e não puderam… E aí, no século 21, quando a pessoa tem condições de fazer isso, o primeiro lugar a que vai é justo o continente que colonizou, escravizou e oprimiu os seus ancestrais. A mudança só vai vir de dentro da nossa cabeça porque o sistema está funcionando muito bem como está, à custa do desemprego, adoecimento e morte da nossa gente. Tem um reggae que fala assim: “A saúde do povo daqui é o medo dos homens de lá, a consciência do povo daqui é o medo dos homens de lá”. Por sua vez, o Ilê Aiyê diz que “a evolução da raça pode abalar o mundo”.
NDiferentemente da população negra, as pessoas brancas costumam conhecer a árvore genealógica de sua família e a origem dos seus ancestrais e sobrenomes. Como reparar a negação do direito à própria história?
CIsso sempre me incomodou. Eu perguntava à minha família de onde vieram os nossos ancestrais e recebia respostas como “Tem espanhol na nossa família”. E era assim com outras famílias negras com que tive contato; ressalta-se o lado europeu. Um lado que não teve uma relação tranquila porque, quando se é propriedade de alguém, essa outra pessoa pode fazer com o seu corpo o que ela quiser, então não entendo que orgulho é esse. Fiz duas vezes esses testes genéticos de ancestralidade. Inicialmente, deu uma quantidade grande de genes africanos, em segundo lugar europeus e em terceiro indígenas. Da África, encontraram Nigéria e Camarões. Um tempo depois, resolvi refazer o teste porque o banco de dados e a tecnologia do laboratório aumentaram. O novo resultado deu uma outra origem africana: o sul da Bacia do Congo, onde hoje é Angola. Nos Estados Unidos, existe o teste African Ancestry e algumas pessoas têm utilizado os resultados para solicitar dupla cidadania em países africanos. Aqui, tem-se medo de mexer nesse vespeiro. Quando o dólar baixar, pretendo fazer esse outro teste, mas acredito que o cenário ideal seria um teste genético gratuito para cada pessoa brasileira afrodescendente, para que saibamos pelo menos de que lugar do continente africano vieram nossos ancestrais. Isso é um mínimo de reparação porque o Estado brasileiro lucrou muito com a escravidão. O Brasil é o segundo país mais rico das Américas e está entre as dez maiores economias do mundo. Essa potência se deu graças ao trabalho forçado a que nossos ancestrais foram submetidos.
NNo Brasil, a maior parte da população é formada por pessoas pretas e pardas. Entretanto, mesmo no período eleitoral, questões relacionadas ao combate ao racismo pouco aparecem em campanhas e planos de governo. Por que um tema tão importante é evitado nesses espaços?
COs partidos políticos do Brasil, desde o século 19 até os dias de hoje, foram e são organizados em sua maioria por homens brancos que disputam o poder. Entendo que o ideal para nós é uma articulação a ponto de construirmos partidos políticos negros que representem as nossas pautas. As pessoas negras até existem nos partidos, contudo não disputam os mais altos cargos, como prefeituras de capitais ou governos de estados. Há uns dias, vi um cartaz enorme sobre o dia da mulher negra latino-americana e caribenha. Foi a primeira vez na vida que presenciei algo assim. Hoje vemos apresentadores de TV, jornalistas e professores universitários pretos. A ocupação desses espaços é um pequeno avanço. Precisamos poder sonhar e pensar grande. Planejar o que queremos para a nossa comunidade, cidade, estado e país. Pensar de forma desimpedida e independente. Não faz sentido ficar implorando por espaço se somos a maioria da população. Servimos como votantes, mas ainda pensam por nós. Isso não pode acontecer. Temos que pesquisar representantes negros e buscar enxergar o mundo de acordo com a nossa perspectiva. Assim, as coisas começarão a mudar.
Saiba mais
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