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Notícias Dez perguntas para

“Literatura feminista negra e educação: quem fala de nós somos nós”

A partir de experiência com educação escolar quilombola, pesquisadoras desenvolvem artigo que discute modelos de fortalecimento do combate ao racismo e ao sexismo


Dez perguntas para
Viviane Marinho Luiz e Márcia Cristina Américo

Doutoras em educação, educadoras sociais, feministas e articuladoras do Coletivo Mulheres Quilombolas na Luta. Viviane é membra da Associação Quilombo Ivaporunduva. Márcia, da Associação dos Remanescentes de Quilombo de São Pedro. Ambas em Eldorado (SP).

As pesquisadoras Viviane e Márcia, autoras do artigo “Literatura negra feminista — uma proposta de enfrentamento ao sexismo e ao racismo epistemológico”: foco na realidade de crianças de comunidades quilombolas. Imagem: Vídeo/Ceert

Por Ana Luísa Pereira, Rede Galápagos, Curitiba. Jornalista, mãe de três e pesquisadora pela luta antirracista na comunicação

Quando falamos em quilombo, o que vem à sua mente? É uma oportunidade para refletir se essa é uma ideia ainda carregada de estereótipos ou se você reconhece (e conhece) esse território e a relevância dessas comunidades no combate ao racismo estrutural. Segundo a Fundação Palmares, há no Brasil cerca de 3.500 quilombos, entre eles as cerca de 50 comunidades situadas no Vale do Ribeira, estado de São Paulo. É nessa região que as pesquisadoras Viviane Marinho Luiz e Márcia Cristina Américo, aquilombadas em comunidades vizinhas, vêm desenvolvendo pesquisas sobre educação escolar quilombola e maneiras de combater duas esferas de opressão vividas por mulheres negras desde a infância: o racismo e o sexismo. Ambas são doutoras em educação e professoras da rede municipal de ensino. Juntas produziram o artigo Literatura negra feminista: uma proposta de enfrentamento ao sexismo e ao racismo epistemológico”, selecionado pelo Edital Equidade Racial na Educação Básica. Para as autoras, falar em equidade em educação é também falar em racismo epistêmico, representatividade, ações afirmativas e sobre a importância da rede de mulheres negras na ocupação dos espaços.

O olhar que reconhece e valoriza o território e o saber local numa perspectiva de abundância é elemento comum nas pesquisas das autoras. Do trabalho realizado na academia e no dia a dia do quilombo, as professoras desenvolveram o livro Roça é vida, material para ser utilizado nas escolas que conta a história de uma família quilombola e sua rotina na roça. O livro está disponível para download aqui. Nos quilombos da região, as famílias desenvolvem a roça de coivara, técnica tradicional de plantio reconhecida como patrimônio cultural imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Tradição, experiência e resistência estão presentes na realidade que se reflete no trabalho das pesquisadoras. “A gente quer tirar esse olhar enviesado de que o quilombo e a roça são lugares de miséria. Temos muita fartura, propomos um retorno à coletividade e à conexão com a terra”, diz Márcia Cristina. “Cada vez mais vemos filhos de quilombolas retornando da universidade para a roça, contribuindo para que esse espaço de resistência e de luta permaneça vivo. É a luta pelo não esvaziamento do quilombo na sociedade.” Na entrevista a seguir as pesquisadoras falam da produção do artigo selecionado, da experiência de vida na comunidade quilombola como professoras de ensino público e do contexto a partir do qual propõem a discussão sobre a educação quilombola.

O Edital Equidade Racial na Educação Básica buscou a mobilização e articulação de escolas, redes de ensino, coletivos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil para viabilizar e fortalecer estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação. A iniciativa do Itaú Social contou com a realização do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e a parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A publicação digital que reúne todos os projetos selecionados pode ser acessada neste link

NNotícias da Educação — Vocês se apresentam como aquilombadas e têm uma história de luta em comunidades quilombolas. Poucas pessoas conhecem a realidade de um quilombo. Como desmitificar e reconhecer esses espaços?

Cristina — No artigo a gente demarca bem esse conceito de aquilombadas para não termos o esvaziamento do que é ser quilombola, que é aquele que nasce, cresce e vive no território. O conceito aquilombar-se, cunhado pela pesquisadora Barbara Oliveira Souza, remete à luta histórica. Significa existir em plenitude dentro do território. Esse é um movimento de defesa pela existência física, cultural e social das comunidades quilombolas desde a escravização. Hoje, eu estou aquilombada na luta das comunidades quilombolas da porteira pra dentro. Na perspectiva da gestão dentro do território e na luta dentro dos movimentos sociais, aquilombar-se é um termo político. 

Viviane — O próprio formato de escrita desse artigo diz muito sobre o que é ser e estar aquilombada. Hoje sou membra da comunidade, mas a gente usa esse termo pra dizer que não nasceu num quilombo. Eu passei a morar na comunidade em 2012 e hoje tenho uma família quilombola, mas nosso campo sempre esteve ligado à educação dentro do movimento de mulheres negras, ou seja, de ativismo social. E esse termo aquilombar diz respeito à nossa trajetória de luta, tentando uma pedagogia revolucionária e a articulação do movimento de mulheres. Mas, além disso, somos professoras no município, entendendo a alfabetização das crianças quilombolas como um ato político e revolucionário. Sempre digo que ler a história é a nossa contribuição.

“Trabalhar com a criança quilombola é uma forma coletiva de contribuição para pensar o espaço que ocupamos na sociedade.”

NQuanto a história pessoal e a questão da representatividade influenciaram e ainda influenciam na luta e na pesquisa?

Cristina — A representatividade é fundamental, principalmente na infância. Quando eu era criança, lembro que às vezes encontrava em alguma revista uma imagem de uma mulher negra e eu guardava aquilo, pra fazer um portfólio. O que significa que eu nunca me via representada, nem nos livros didáticos nem na televisão. E isso é importante para perceber quanto o pensamento colonial atravessa a nossa existência. Mulheres periféricas, mães, entramos na academia e percebemos que somos as únicas. Vamos para esses espaços, de mestrado, doutorado, para resolver as nossas questões, ou seja, a educação é um processo de elaborar as nossas histórias, tão permeadas pelo racismo e pelo machismo. Pessoalmente, a minha entrada na universidade foi por meio da luta do movimento social negro, pois eu fui cotista. Então, acho que todo esse trabalho que venho desenvolvendo é também uma forma de devolver para a sociedade tudo isso, sabe? Esse movimento de retornar para o quilombo e voltar para a base faz muito sentido para nós, também porque é uma escolha trabalhar com a base. Trabalhar com a criança quilombola é uma forma coletiva de contribuição para pensar o espaço que ocupamos na sociedade.

Capa e detalhe de ilustração do livro Roça é vida, de Viviane Marinho Luiz, Márcia Cristina Américo e outros autores, editado pelo Instituto Socioambiental (ISA), em 2021: “Dentro do quilombo as crianças estão sempre brincando juntas. Nós falamos que elas são a menina árvore e o menino rio. Tem que haver esse olhar de que não há brinquedo de menino, brincadeira de menina”, diz Viviane.

“É preciso ultrapassar essa barreira de que a história negra e quilombola se restringe aos dias 13 de maio e 20 de novembro.”

NComo aprimorar o olhar dos educadores e da escola em geral para a qualidade do que está sendo lido em sala de aula?

Viviane — Trabalhamos a questão da literatura pensando a infância como base, e isso é primordial. Temos a felicidade de estar — como costumamos dizer — em um laboratório aberto, uma universidade aberta. Temos a oportunidade de fazer esse diálogo de dentro do quilombo, diretamente com as crianças da comunidade. Elas dão aula sobre território. No contexto quilombola, o mais velho é o guardião do conhecimento, e as crianças respeitam isso. Então, no contato diário com os avós, elas acabam tendo excelentes contadores de histórias. Por isso, o professor que vai trabalhar com esses pequenos precisa saber contar as histórias, pois é alto o nível de exigência e de vivência das crianças. Acaba sendo um desafio, mas também é uma alegria poder contar história em sala de aula como um ato político, como uma forma de valorizar a criança da roça para que ela se veja sendo representada. Agora, quanto ao sistema de educação de forma geral, é preciso entender que, para qualquer ação, é preciso partir do racismo estrutural. Nesse sentido, estamos pensando constantemente na formação de professores. A falta de investimentos na educação afeta toda a estrutura de ensino, e é preciso ultrapassar essa barreira de que a história negra e quilombola se restringe aos dias 13 de maio e 20 de novembro.

NNa prática, como um educador pode aprimorar o uso das pluralidades na educação infantil?

Viviane — Dentro do quilombo as crianças estão sempre brincando juntas. Nós falamos que elas são a menina árvore e o menino rio. Tem que haver esse olhar de que não tem brinquedo de menino, brincadeira de menina. Temos duas campeãs de futebol na nossa comunidade. Pra que isso aconteça, precisa ter um olhar que venha de dentro da experiência de vida das mulheres. O nosso livro Roça é vida faz isso, esse enfrentamento. Temos que fortalecer a identidade da criança, e isso passa pelo combate ao racismo e ao machismo.

Cristina — As mulheres na comunidade estão em todos os espaços, na diretoria da associação, na liderança, trabalhando na roça, então a criança acaba percebendo que o trabalho é coletivo. Quando olho para as comunidades quilombolas, vejo uma proposta político-epistêmica, pois elas propõem modos diferentes de viver. É uma proposta de retorno à coletividade, a pensar o coletivo. No entanto, somos atravessadas também pelo machismo, e é interessante observar como as mulheres vão burlando isso e, mesmo sem saber sobre o feminismo negro, se organizam contra essas opressões. Então, tem que ter essa visão e pensar essa proposta, de mulheres, homens, crianças num viver mais coletivo, e que está diretamente ligado ao dar, receber e contribuir. É preciso reciprocidade numa comunidade.

“Sou pós-doc por decorrência de políticas públicas. A discussão de políticas públicas é uma forma de ir desmontando esse racismo institucionalizado. E tem que ser por meio de cotas, pois ainda vivemos um processo de colonização no nosso país.”

NUma pesquisa feita pelo Inep mostra que apenas 3% dos doutores são negros e que, entre os professores do ensino superior no total, só 23% são mulheres negras. De que forma aquelas que conseguem acessar esse espaço podem agir de modo a mudar essa realidade?

Cristina — Podem mudar essa realidade por meio da nossa rede. Para você ter ideia, nessa minha jornada acadêmica, já consegui levar mais duas ou três pessoas para a universidade. E pra isso nós vamos apresentando as pessoas para os professores, orientadores e vamos ocupando, nos organizando. Isso faz parte da nossa estratégia de luta. Por exemplo, quando entrei na universidade não tinha nenhum núcleo específico de professores que discutiam a temática. Com a nossa chegada, muitos deles reconheceram a importância dessa ocupação. É claro que as ações afirmativas e políticas públicas são fundamentais. Eu sou pós-doc por decorrência de políticas públicas. Hoje, infelizmente, temos um esvaziamento de financiamentos e bolsas. Então pensar esse nosso processo de ocupação continua na discussão de políticas públicas e é uma forma de ir quebrando, desmontando esse racismo institucionalizado. E tem que ser por meio de cotas, pois ainda vivemos um processo de colonização no nosso país.

NA epistemologia e o saber científico são sexistas e ainda eurocêntricos. Quanto isso precisa ser revisto?

Viviane — Acho que uma chama a outra. Faço referência à vivência e à inspiração de outras mulheres negras. E são tantas: Sueli Carneiro, bell hooks, Nilma Lino Gomes, Carolina Maria de Jesus e muitas outras. Por isso, uma chama a outra. Quando nós estamos desenvolvendo uma pesquisa na universidade, as teóricas do feminismo negro estão conosco lutando. Isso oxigena a academia. Então, nós temos que reconhecer os nossos, nas nossas bancas, na pesquisa, e assim enfrentamos o racismo e o sexismo. Eu tive o privilégio de poder fazer um doutorado-sanduíche em Angola e o meu orientador tirou de mim a obrigatoriedade de passar o tempo escrevendo, de ter de entregar um texto ao final do período. Então fiquei seis meses vivendo em Angola. Nesse tempo fui ao encontro dos coletivos feministas e organizações de mulheres angolanas. Essa interconexão com as feministas angolanas contribuiu muito para a minha pesquisa. Passei a participar de um coletivo em que as manas iam me buscar na porta da universidade. Assim, aos poucos, a gente se conecta e rompe o patriarcado. Temos que ser sempre uma chama para que outras possam vir.

NVocês já participaram de cursos de formação para professores com essa temática? Quanto a universidade e os governos federal, estaduais e municipais ainda podem melhorar nesse sentido?

Viviane — Sim, participamos sempre. Ainda há pouco fizemos um encontro de formação continuada com um grupo de professores do município, usando uma sequência didática do livro Roça é vida que preparamos especialmente para esse encontro. Inclusive, nosso livro foi trabalhado na primeira escola quilombola do estado de São Paulo, a Escola Estadual Maria Antonia Chules Princesa, aqui no Vale do Ribeira. Isso tudo foi pensado por nós, devido à nossa formação voltada justamente à formação escolar quilombola. Estamos sempre apontando essa necessidade. A questão maior é que, além de querer fazer, é lei. Está garantido pela resolução nº 8 de 2012 — que assegura as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar Quilombola na Educação Básica. O município que não pensa na formação e na elaboração de sequências didáticas nesse sentido está omitindo um direito da comunidade quilombola e se opondo à base legal. Nós temos que exigir o direito de que nossa história seja contada de forma valorativa por nós.

Cristina — Este ano, o município de Eldorado tem se esforçado para atender à reivindicação das lideranças que ocuparam a prefeitura e o departamento de educação na região. Então existe uma preocupação de implementar a resolução, mas não é porque eu quero, é porque tem o movimento organizado batendo na porta do poder público. Hoje temos um núcleo de educação que foi criado por quilombolas e aquilombados que já têm uma formação em educação, ou seja, tem esse olhar e a militância. E isso não é dado. É uma luta permanente, que tem de ser travada todos os anos.

NA mudança na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e a Lei do Estatuto da Igualdade Racial colocaram na pauta das editoras o apoio à produção com temática afro-brasileira e africana, uma vez que torna obrigatório o estudo da história da África e da cultura afro-brasileira nas escolas, preferencialmente nas disciplinas de artes, literatura e história do Brasil. Como incentivar a produção de autoras negras e sua adoção nas escolas?

Viviane — Esse é um baita desafio. O nosso livro foi produzido coletivamente e teve o apoio do Iphan, mas temos muitas coisas escritas que acabam não tendo circularidade. Quem faz produção independente ainda tem muita dificuldade de acesso ao mercado editorial, e no nosso caso, partindo do pressuposto territorial, estamos mais invisibilizadas ainda, pois não estamos no contexto urbano. Acredito que nem 10% do que a gente produz é publicizado. Ainda falta muita política pública nesse sentido.

“Queremos contestar essa ideia de que quem não estuda vai pra roça. A gente pode estudar muito e ir para a roça, sim. Inclusive, muitos engenheiros, biólogos, agrônomos vêm pra roça para adquirir esse conhecimento.”

NComo foi a produção do livro Roça é vida?

Cristina — Foi um processo de escrita muito prazeroso. O projeto do livro surgiu de uma demanda do GT da Roça, grupo de agricultores de 19 comunidades quilombolas do Vale do Ribeira. Existia um recurso para isso, e nos foi solicitada a criação de um livro sobre a escrita da roça para que os filhos e filhas das comunidades pudessem se ver representados. No livro, contamos detalhes sobre a roça de coivara, técnica desenvolvida nos quilombos e que foi reconhecida como patrimônio histórico imaterial pelo Iphan e para isso recorremos a alguns dossiês e artigos que validaram esse reconhecimento. Então, esse também foi um processo de luta. Durante a construção do livro tivemos vários encontros com as comunidades para escutar os mais velhos e aqueles que estão na roça para podermos desenvolver o enredo e pensar no que seria importante estar no livro. Ou seja, tivemos também um processo de escuta. Quando o livro ficou pronto, apresentamos a escrita para o GT e para a comunidade. A criação da arte também foi um processo de diálogo com os ilustradores, que são pessoas que também estão na militância e que entendem a questão da narrativa negra na literatura. O Deco, ilustrador, produziu a tinta a partir da terra do quilombo, e a gente consegue perceber na arte uma estética e uma poética da roça. É muito lindo quando a gente vê os quilombolas folheando e se veem representados nessas ilustrações.

Viviane — Essa narrativa também foi um tributo às mulheres das comunidades. Optamos por buscar essa ligação com a ancestralidade fazendo uma conexão com a mãe terra, a mãe África, num sentido valorativo. A escolha dos nomes das personagens tem muito essa simbologia; logo no início da história trazemos já a personagem Tradição, para mostrar um pouco esse conhecimento intergeracional; a Fartura, para tirar esse olhar enviesado de que a roça é lugar de miséria; e assim por diante. E o reconhecimento do Iphan, que apoiou o projeto, só dialoga com aquilo que fazemos há mais de 400 anos nos quilombos. É importante entender a roça como vida, e esse nome do livro, tão simples, traz toda a complexidade da resistência e da luta das comunidades quilombolas. Também falamos sobre negação de direitos por parte do Estado, ou seja, a obra faz denúncias. Mas não se restringe a isso, pois possui também uma proposta pedagógica para ser trabalhada em sala de aula com a esperança de possibilidade de vida no território.

NQual foi o movimento gerado pela produção do material na realidade das crianças quilombolas?

Viviane — Pensando na questão pedagógica, a gente pode dizer que, quando o conhecimento parte daquilo que as crianças já sabem, a devolutiva é mais exitosa. Agora, quando a gente reflete sobre o contexto da escolarização, temos que pensar na realidade em que vivemos hoje, de aulas remotas, em que muitas vezes os pais e avós têm dificuldades de ensinar a criança. Mas com o nosso material se sentem capazes de contribuir porque aquela é a realidade que eles conhecem. Então, o que tentamos fazer foi criar uma sequência didática do livro que fez uma aproximação com essas famílias, que nesse contexto pandêmico que vivemos têm que se virar sendo “professoras” das crianças.

NVocês optaram por utilizar o termo “roça”, que ainda é carregado de estereótipos. Qual a importância dessa escolha e como ela se reflete na aceitação do povo da roça?

Cristina — Escolhemos esse nome porque, na comunidade, roça é roça. Não tem outro nome. As pessoas não dizem que vão para o campo, para a agricultura. Elas vão pra roça, e isso é dito de forma valorativa. É da roça que temos a nossa soberania alimentar. E abordamos sempre esse ponto. Muitos professores dizem: “Se não estudar vai pra roça”. Como se fosse uma coisa ruim. E isso precisa mudar; afinal, roça pra gente é tudo, é saúde, é vida. Inclusive, essa foi uma fala de uma das participantes das rodas de escuta que fizemos e foi quando percebemos que esse seria o nome ideal. A roça nos possibilita estar e viver dentro do território e é quem nos gera alimentos e quem gera comida até para os animais, pois se planta a mais para poder deixar para os animais. Então a escolha do termo foi proposital. Queremos contestar essa ideia de que quem não estuda vai pra roça. A gente pode estudar muito e ir para a roça, sim. Inclusive, muitos engenheiros, biólogos, agrônomos vêm pra roça para adquirir esse conhecimento.

Viviane — Tem também a questão da memória afetiva. Todo mundo tem uma lembrança boa da roça, da comida saudável, saborosa, dos chás, enfim, do cuidado, mesmo quem está num contexto urbano.