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Dez perguntas para

ROSINHA – “Tem histórias que fazem parte do nosso DNA”

A ilustradora pernambucana fala sobre seu interesse pelas artes indígenas e a importância da oralidade e da contação de histórias como porta de entrada para a leitura e a educação


Dez perguntas para
Rosinha
Ilustradora e autora de livros infantis, com mais de 50 livros publicados. Ilustradora de Os olhos do jaguar, de Yaguarê Yamã, que compõe a coleção Leia para uma Criança 2021. Também se dedica à formação de leitores e ilustradores

Momento do processo de criação de Rosinha para Os olhos do Jaguar desenho a lápis e cores no Photoshop

Por Kadija de Paula, Rede Galápagos, São Paulo

Rosinha é ilustradora e autora de livros infantis. Nasceu no Recife, onde cresceu escutando histórias na rua e em casa. Estudou arquitetura na Universidade Federal de Pernambuco, mas, assim que se apaixonou pela literatura para crianças e jovens, fechou o escritório e passou a se dedicar à ilustração e à formação de leitores. A ilustradora mora em Olinda e busca imprimir em seus livros as riquezas das manifestações populares, da dança, do Carnaval e dos contadores de histórias que formam a sua realidade. Já publicou mais de 50 livros e recebeu, entre outros, o Prêmio Jabuti e o Prêmio Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) de melhor ilustração. Há seis anos criou a Usina de Imagens, uma escola de formação de ilustradores onde compartilha sua experiência.

Quando trabalhou no programa de formação de leitores do Centro de Cultura Luiz Freire, em Olinda, Rosinha teve um contato mais próximo com a cultura dos povos indígenas de Pernambuco. Foi então que ela se encantou com o mundo simbólico e mágico da arte indígena e buscou conhecer mais sobre as culturas tradicionais do nosso país. Atualmente os grafismos indígenas fazem parte do repertório estético de Rosinha e podem ser vistos em: Mãe-d’água: uma história dos cariris, de Tkainã e Laura Bacellar, publicado pela editora Scipione; Histórias do Xingu, de Orlando e Cláudio Villas Bôas, publicado pela Companhia das Letrinhas; Como surgiu: mitos indígenas brasileiros, de Daniel Munduruku, pela editora Callis; e mais recentemente em Os olhos do jaguar, de Yaguarê Yamã, pela Jujuba Editora. 

O título infantil Os olhos do jaguar foi selecionado pelo programa Leia para uma Criança, que em 2020 propôs um edital para que os livros da edição 2021 considerassem a representatividade dos povos negros e indígenas. O segundo título escolhido pelo edital foi Enquanto o almoço não fica pronto…, da escritora Sonia Rosa, ilustrado por Bruna Assis Brasil, que conta a história de uma família negra que, em casa, aguarda o momento da refeição.

A capa do livro: Rosinha e Yaguarê se conheceram no Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens. Imagem: reprodução

Cerca de 1 milhão de exemplares de cada uma das obras serão distribuídos gratuitamente a organizações da sociedade civil, bibliotecas comunitárias e órgãos públicos, com foco em municípios com altos índices de vulnerabilidade social. O programa também disponibiliza versões audiovisuais e em braile das obras selecionadas. As instituições interessadas em solicitar os livros podem ter mais informações neste link.

Na entrevista a seguir, Rosinha fala sobre a criação das imagens para Os olhos do jaguar e sobre suas perspectivas como autora de livros infantis. 

NNotícias da Educação — Os olhos do jaguar é uma história dos povos sateré-maués e maraguás que foi passada de geração para geração até chegar a esse livro de autoria do Yaguarê Yamã. Como foi essa conexão com Yaguarê?

RRosinha — Conheci o Yaguarê no Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, que acontece todo ano no Rio de Janeiro. Existe uma presença indígena muito forte lá, graças ao Daniel Munduruku, diretor do Instituto Uka — Casa dos Saberes Ancestrais, que organiza um estande e seminário de literatura indígena no salão. Por muitos anos eu também trabalhei com a fundação na implantação de bibliotecas, e dava cursos de formação de leitores no salão. Então eu e Yaguarê sempre nos encontrávamos por lá. 

NE como aconteceu o convite para você ilustrar o livro?

RNa verdade foi um convite da editora, que conhece bem o meu trabalho e a recorrência de temáticas indígenas nas minhas ilustrações. Normalmente a editora faz essa junção e o meio de campo entre autor e ilustrador, que na verdade são duas autorias. Acho que o ilustrador fica numa posição mais privilegiada. Sempre imagino o autor recebendo o livro, tanto para o bem quanto para o mal. Às vezes me perguntam se vou deixar alguém ilustrar algum texto meu, e eu acho que ainda não estou preparada para isso. Em geral, ou apresentamos um projeto juntos ou a editora convida o ilustrador para trabalhar um texto que já existe. Esse foi o caso em Os olhos do jaguar, mas é claro que o fato de eu já ter essa conexão com o Yaguarê cria uma relação de carinho. É diferente trabalhar com um autor que a gente não conhece e com um autor que a gente conhece e admira. 

NVocê conta que se aproximou da cultura dos povos indígenas quando trabalhou no Centro de Cultura Luiz Freire, em Olinda. Como foi essa experiência ?

RHá muitos anos o Centro de Cultura Luiz Freire tem uma Escola Indígena. Antes de trabalhar no centro me convidaram para fazer um livro; na realidade, para produzir uma espécie de catálogo dos povos indígenas no Brasil. Depois é que me contrataram para trabalhar com professores na formação de leitores. Por dez anos trabalhei com formação de professores na prefeitura do Recife, mas foi no Centro de Cultura Luiz Freire que tive a oportunidade de me conectar com muitos professores indígenas, tanto durante o meu contrato quanto em parcerias posteriores. 

“Os indígenas usam muito as cores da terra, preto, vermelho, marrom, e nesse livro eu escolhi usar uma paleta mais vibrante.”

Rosinha, que também já ilustrou outros livros de temática indígena para Munduruku e Tkainã: “Esses universos vão se povoando e o trabalho vai surgindo. É muito bonito porque aí pintam coisas que você nem imaginava”. Foto: Jo Capusso

NFoi a partir dessa experiência que você começou a trabalhar com temáticas indígenas?

RSim, e isso depois me levou a fazer um outro trabalho muito bacana, com Tkainã: Mãe-d’água, uma história dos cariris. A editora convidou a gente para se encontrar em São Paulo e durante uma semana ele foi me mostrando como eram os grafismos do povo dele daqui do Nordeste. Foi com ele que aprendi sobre os grafismos indígenas e entendi um pouco desse espírito e seus significados. Tkainã me apresentou a perspectiva visual do grafismo bidimensional indígena. Foi uma experiência muito bonita porque ele me mostrou uma perspectiva que não conseguia ter antes.

Grafismos de Rosinha para o livro Mãe-d’água: uma história dos cariris, de Tkainã e Laura Bacellar, publicado pela editora Scipione, 2009

NA história contada em Os olhos do jaguar se passa em um cenário colorido, cheio desses grafismos que agora fazem parte do seu repertório estético. Como você chegou a essa combinação de grafismos e cores?

RFiz os desenhos a mão e depois colori no Photoshop, mas foi o primeiro livro em que usei essa técnica. Os trabalhos anteriores que abordam essa mesma temática eu fiz com pincel e acrílica. Gosto muito de ir mexendo. Nunca uso uma técnica só, e junto com a experimentação tem sempre a pesquisa. Pesquiso muito sobre a cultura, por exemplo as cores que eles usam. Não necessariamente para seguir, às vezes até para transgredir, como foi o caso em Os olhos do jaguar. Os indígenas usam muito as cores da terra, preto, vermelho, marrom, e nesse livro eu escolhi usar uma paleta mais vibrante. Os outros livros que fiz com temáticas indígenas até que seguem esses tons de terra, mas esse é um conto mais leve e por isso escolhi transgredir nas cores. 

Detalhe de ilustração de Os olhos do jaguar: o personagem inãbu (passarinho)

NVocê criou um grafismo diferente para cada um dos animais de Os olhos do jaguar. Como surgiram esses personagens?

RBom, eles geralmente surgem a partir da pesquisa. É um processo engraçado. Primeiro você pesquisa, lê o texto, pesquisa de novo, e aí a coisa acontece. É claro que a gente tem uma ideia geral antes de mergulhar no trabalho, mas muita coisa acontece no caminho. É um processo: você vai fazendo, aí surge um erro, você aproveita, acaba puxando um pouco os contrastes de tamanho, os contrastes de cor. Tentando buscar uma personalidade para cada personagem. No caso dos animais vou buscando as características, os signos para criar um animal que seja muito meu.

Desenho de Rosinha para Os olhos do jaguar antes de colorir

NEm que momento você passa a ter consciência desse processo?

RAté pouco tempo atrás eu não tinha tanto essa consciência e fazia tudo mais intuitivamente, mas, agora que tenho uma escola de formação de ilustradores, a Usina de Imagens, eu preciso pensar nessas coisas. Em geral, quando pegamos um trabalho, a nossa cabeça se volta para isso. Passamos a perceber coisas que não víamos antes, a ter olhares para coisas novas que começam a chamar a atenção, e tudo isso vai se somando. Aí também nesse caso tem o fato de eu já ter feito esses outros trabalhos para Munduruku e Tkainã nessa mesma temática. Esses universos vão se povoando e o trabalho vai surgindo. É muito bonito porque aí pintam coisas que você nem imaginava.

“Em Os olhos do jaguar Yaguarê transpõe uma contação oral para o texto, e eu acho isso incrível como forma de não perder essas histórias que são um patrimônio da humanidade.”

Ilustração de Rosinha para Como surgiu: mitos indígenas brasileiros, de Daniel Munduruku, pela editora Callis, 2011

NOs olhos do jaguar terá ampla distribuição por meio do programa Leia para uma Criança, que visa democratizar o acesso a livros infantis de qualidade para crianças que vivem nas regiões mais vulneráveis. Você pode falar sobre a importância da leitura para a educação?

REm Os olhos do jaguar Yaguarê transpõe uma contação oral para o texto, e eu acho isso incrível como forma de não perder essas histórias que são um patrimônio da humanidade. Elas fortalecem a cultura em uma gama de versões que se criam a partir da oralidade. Não é à toa que essas histórias sobrevivem tanto tempo, porque elas carregam uma sabedoria ancestral, uma sabedoria do humano. Se não fosse isso, elas não sobreviveriam, porque tem trezentas mil histórias que nascem, morrem e ninguém toma nem conhecimento delas. Mas eu acho que a literatura oral, toda essa poesia popular, é de suma importância, porque ela é o arcabouço da vida das pessoas. Tem histórias que fazem parte do nosso DNA, não precisa nem contar, a gente nasce e elas já estão lá, porque o avô contou, a mãe contou, o pai, o tio, e para mim é isso, essas histórias são o DNA da gente. Essa é a famosa cultura. A nossa cultura tem esse nascedouro e depois ela vai se refinando, se diversificando, mas a origem está nessas histórias orais — que bom que a gente ainda consegue registrar e dar acesso a uma sociedade que não tem mais essa vida, nem esse tempo de contação e escuta. Isso já acabou, infelizmente. Hoje em dia nós criamos e recriamos esse ambiente quase que de uma forma artificial, mas é importante não perder essa origem. Porque é através dessas histórias que se desenvolve o interesse pela leitura; a oralidade é uma porta de entrada para a leitura e a educação.

NComo você desenvolveu o interesse pela leitura ?

RMeu pai tinha muitos livros e eu cuidava deles, tinha carinho por esses objetos. Então tive uma relação com o objeto “livro” desde cedo, mas não tinha consciência disso. Meu pai lia poesia para nós quando éramos crianças. Na época, eu não me interessava muito, gostava mais de ler mitologia, mas o que me atraía mesmo eram as contações de histórias. A Marli, que trabalhava lá em casa, toda noite me contava uma história. Ela era uma espécie de babá, apesar de essa não ser a sua função, mas eu era muito apegada a ela porque me sentia cuidada. Até hoje, sempre que alguém me conta alguma história eu desligo do mundo. Tenho essa coisa de realmente entrar na história e me transportar para outra dimensão. Lembro de sentar na rua de noite para escutar histórias. A maioria das histórias que ouvi na vida foram as que escutei desse rapaz do interior, que morava na minha rua, e as da Marli lá em casa. Devo a Marli uma profunda memória de afeto e amor pelas histórias. 

Ilustração de Rosinha em Mãe-d’água: uma história dos cariris, de Tkainã e Laura Bacellar, publicado pela editora Scipione, 2009

NComo você incorpora esse aspecto da oralidade e da contação de histórias na formação de leitores?

RSempre que dou aula de formação de leitores, eu peço aos professores que criem esse ambiente de contação, seja na escola deles, na rua ou em casa. Hoje em dia os pais leem um livro para os filhos, mas não existe essa espontaneidade de “Ah! Lembrei de uma história”. A gente não tem mais esse acesso às ruas como espaço público nas grandes cidades nem a esse tempo. Então a gente precisa criar esse ambiente. Como eu dei muita aula no interior, para professores e comunidades, em um processo pedagógico de formação, inclusive no Centro de Cultura Luiz Freire, trabalhei com professores populares de comunidades para criar esse movimento de leitura. Sempre incentivei os dois: o livro, que é um produto cultural importantíssimo, e a contação de histórias orais, que tem um ritmo e um dinamismo diferente, mas os dois são igualmente muito importantes.

O jaguar e o tatu grafismos indígenas fazem parte do repertório estético de Rosinha

Perguntas-bônus para Rosinha

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