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YAGUARÊ YAMÃ – “Essa história é um pedido para que a gente volte à origem”

Autor indígena selecionado pelo edital Leia para uma Criança fala sobre a literatura infantil como forma de quebrar preconceitos e aproximar as crianças dos olhares dos povos tradicionais


Dez perguntas para
Yaguarê Yamã
Escritor, professor, geógrafo, artista plástico, líder indígena e autor de mais de 30 livros infantis, entre eles Os olhos do jaguar, que compõe a coleção Leia para uma Criança 2021

O autor Yaguarê Yamã: ensinamentos de povos originários no conteúdo de livros infantis. Foto: Arquivo pessoal

Por Jullie Pereira, Rede Galápagos, Manaus

Desde a infância Yaguarê Yamã escuta histórias de dois povos indígenas que compõem sua ancestralidade e estiveram associados por muito tempo: os maraguás e os sateré-maués. Os maraguás vivem na região do rio Abacaxis (ou Guarinamã), nos municípios amazonenses de Nova Olinda do Norte e Borba. Falam a língua maraguá, dialeto misto de nheengatu e aruak. Entre eles, as histórias são contadas às crianças pelos malilys, ou pajés, na mirixauaruca, ou casa de conselho. Na vida adulta, Yamã se apaixonou pela poesia e pelas artes plásticas. E foi no formato do conto ilustrado que encontrou a potencialidade das narrativas de sua própria vivência como homem indígena. 

Yaguarê Yamã é autor de mais de 30 livros, entre eles Os olhos do jaguar, ilustrado pela artista pernambucana Rosinha. A obra conta a história de um jaguar, um tatu e um passarinho. É uma dessas histórias que Yamã conheceu na infância e que agora, seguindo a tradição dos povos originários, transmitem o ensinamento a crianças, pais e educadores. Esse título infantil foi selecionado pelo programa Leia para uma Criança, que em 2020 propôs um edital para que os livros da edição 2021 considerassem a representatividade dos povos negros e indígenas. O segundo título escolhido pelo edital foi Enquanto o almoço não fica pronto, da escritora Sonia Rosa, ilustrado por Bruna Assis Brasil, que conta a história de uma família negra que, em casa, aguarda o momento da refeição.

Cerca de 1 milhão de exemplares de cada uma das obras serão distribuídos gratuitamente a organizações da sociedade civil, bibliotecas comunitárias e órgãos públicos, com foco em municípios com altos índices de vulnerabilidade social. O programa também disponibiliza versões audiovisuais e em braile das obras selecionadas. As instituições interessadas em solicitar os livros livros podem ter mais informações neste link

Yaguarê Yamã mora em Parintins, no Amazonas, estado onde vivem muitas das 305 diferentes etnias indígenas no Brasil (que falam 274 línguas, segundo os últimos dados do IBGE). Em outubro Yaguarê será um dos participantes da série de encontros Jenipapos: Redes de Saberes, iniciativa voltada a educadores das organizações apoiadas pelo Itaú Social com o objetivo de destacar a literatura de autoria indígena, de origem ancestral e da oralidade. A formação é uma iniciativa do Itaú Social com a realização da Mina Comunicação. No livro Os olhos do jaguar os leitores também encontrarão palavras em nheengatu e maraguá, com traduções para português. Na entrevista a seguir, Yamã enfatiza a importância da linguagem, fala sobre o valor da literatura indígena para crianças e discute a proposta e os significados de seu livro. A conversa gerou novos aprendizados para esta repórter. Agora participo do grupo Nheengatu Tradicional, no WhatsApp, em que todo dia aprendo palavras da língua de seus povos. 

NNotícias da Educação — Qual é a origem da história de Os olhos do jaguar?

YYaguarê Yamã — No cotidiano indígena não existem essas distinções do que é infantojuvenil, fábula, conto etc. O que existe é a mitologia, as nossas vivências e entidades. Essas histórias em que os animais falam, que mostram o enredo fantástico dos animais, que têm um tom de ensinamento, os povos indígenas entendem como literatura. Essa história surge justamente para isso, para conscientizar as crianças e ensinar sobre a vida.

NEla é própria do povo maraguá ou também é contada em outros povos?

YOs olhos do jaguar é contada pelo povo sateré-maué. A minha mãe é do povo maraguá, mas esse povo por muito tempo foi tido como parte do povo sateré. Só em 2004 ele foi considerado um povo diferente por causa dos seus costumes e tradições. Não se sabe exatamente qual povo contou primeiro, pois ela é transmitida há gerações, mas, mesmo sendo antiga, traz um tema muito atual, que é o bullying.

A capa do livro: “É mais fácil as pessoas gostarem do que somos nos conhecendo de fato”, diz Yaguarê

NComo foi o seu trabalho com a Rosinha, que ilustrou o livro?

YDesde que participamos de eventos no Rio de Janeiro, ela tem observado as ilustrações que faço, mas não conversamos antes de ela começar o trabalho. Faço muitos grafismos étnicos e ela, com certeza, observou e compreendeu realmente a representatividade. Eu luto muito, falo muito sobre representatividade e sou muito exigente com relação aos ilustradores que vão trabalhar com meus livros. No caso dela, ela respeitou isso. Estou falando principalmente sobre as diferenças. Se são trezentos povos indígenas no Brasil, você não pode fazer uma coisa como se fosse de todo mundo, né? Se é de um povo determinado, você tem que fazer a pesquisa sobre esse determinado povo. A Rosinha foi muito feliz, é uma grande ilustradora.

“O preconceito acontece quando a gente não conhece algo. Como gostar de algo que não conhecemos? A partir do momento em que a gente passa a conhecer, a gente valoriza. É isso o que falta com os povos indígenas.”

NNo livro a gente percebe que o jaguar não é um animal muito amigável. Mesmo assim, no final ele encontra outro parceiro para ajudá-lo. Qual é a ideia?

YOs velhos contam essa história em duas partes, como se fossem duas histórias diferentes. Tem o primeiro momento, que fala sobre o jaguar: ele resolve desdenhar do colega, esse colega vai ficando chateado e depois resolve se vingar. Essa história recomeça com a chegada do passarinho, que demonstra ter um coração bom, misericordioso. Ele não quer ser revanchista, ele quer ajudar. São os dois ensinamentos da história.

Yaguarê Yamã e seu filho — que tem o mesmo nome que ele — no rio Abacaxis (Guarinamã) no estado do Amazonas, em imagem publicada no livro Os olhos do jaguar: “Todas as lições são boas”. Foto: Daniel Gulassa.

NVocê pode falar um pouco sobre o inãbu (passarinho)? Como esse passarinho é na vida real?

YNa mitologia indígena esse passarinho é muito esperto e a figura dele se mistura um pouco com a figura do pajé, porque ele faz pajelança. Tanto que para curar o jaguar ele voou e encontrou essas essências da natureza, ele sabia o que era um olho de acauã, como se fazia uma cola, ou seja, ele é um médico da floresta entre as aves, ele soube usar todos esses apetrechos.

NEssa parte da cura me lembrou que em casa nós utilizamos banha de cobra para curar feridas e meu avô traz do interior. Essa cena retrata um pouco da medicina tradicional indígena?

YEssa cena parece boba, mas é uma dessas lições, esse valor que devemos dar para a medicina tradicional indígena, para os saberes dos caboclos. Parar um pouco com essa ignorância, com esse preconceito, olhar para isso com melhores olhos e saber que tem coisas boas que precisam ser reconhecidas. O preconceito acontece quando a gente não conhece algo. Como gostar de algo que não conhecemos? A partir do momento em que a gente passa a conhecer, a gente valoriza. É isso o que falta com os povos indígenas.

NVocê pode falar um pouco sobre o uso das palavras em nheengatu na sua obra?

YEm todos os meus livros eu faço questão de fazer um glossário com palavras em nheengatu, porque temos que levar o conhecimento pra gente de fora; se vamos combater o preconceito, é dessa maneira. Estamos cada vez mais fugindo da nossa origem, e essa história reforça esse pedido para que a gente volte à origem, volte à nossa essência.

“Para o adulto a gente tem que ensinar que o indígena não vive nu. Esse pensamento é muito arraigado no pensamento do paulista, do carioca.”

NQual é o impacto que você espera que a literatura indígena tenha na formação de crianças e adolescentes não indígenas?

YO objetivo da literatura indígena é pegar o que temos de melhor e levar para a cidade. É mais fácil as pessoas gostarem do que somos nos conhecendo de fato. E esse processo é ainda mais fácil com as crianças. Ou seja, o meu ganho é muito, o ganho do movimento indígena é muito. Em vez de a criança crescer com o pensamento errado sobre o nosso povo, ela já cresce com o entendimento certo do que somos.

NEssa transmissão do conhecimento é mais difícil para o adulto?

YPara o adulto a gente tem que ensinar que o indígena não vive nu. Esse pensamento é muito arraigado no pensamento do paulista, do carioca, mas o trabalho com as crianças é realmente o bônus que a gente conquista.

NO que nessa obra é mais significativo para você?

YTodas as lições são boas. Desde evitar o bullying, porque é uma atitude ruim de uma pessoa ignorante, até perceber que no meio de toda essa situação tem pessoas boas, as pessoas se mantêm boas, mesmo no meio de quem tem rancor no coração. O jaguar com certeza vai pensar duas vezes antes de ser valentão.