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Dez perguntas para

“Tem histórias que fazem parte do nosso DNA”

A ilustradora pernambucana fala sobre seu interesse pelas artes indígenas e a importância da oralidade e da contação de histórias como porta de entrada para a leitura e a educação


Perguntas-bônus para Rosinha

NAntes de se tornar ilustradora e autora de livros infantis, você estudou arquitetura. Como foi essa transição?

RFoi uma transição sofrida. Sempre adorei a arquitetura, mas odiava duas coisas que sem elas eu não podia fazer arquitetura, que eram: os clientes e a prefeitura. Trabalhar sozinha, sentar, detalhar, fazer o projeto todo eu adorava, agora esse contato não. Aí na realidade a literatura meio que caiu assim, não foi que eu olhei e falei: “Ah! Vou fazer isso!”. Não, não foi assim. Na verdade eu fui fazer um curso a convite de uma amiga. Eu estava grávida do meu terceiro filho, e ela me chamou para fazer um curso com um psicólogo que trabalhava com crianças através da literatura infantil — aí eu me encantei. E acho que isso já estava na alma, porque quando ia a livrarias eu não era atraída pelos livros de arquitetura; ia atrás dos livros infantis, sempre, desde a época de estudante, mesmo durante a faculdade, e ficava absolutamente encantada com os livros infantis.

NQual foi o seu primeiro trabalho como ilustradora?

RBom, eu tenho três filhos, e os três são praticamente da mesma idade, porque nasceram em um período de dois anos e dez meses, então eles são uma escadinha. Aí os três chegavam em casa querendo umas músicas que eu não conhecia, que na verdade eram cantigas de roda em novas versões. Aí fui à escola, pedi à professora que anotasse as músicas e fiz um livrinho com desenhos para cada música. Doei à escola para distribuir a outras mães que eu imaginava estarem na mesma situação de busca por essas músicas. Então uma amiga minha levou o livro a uma editora regional chamada Bagaço, e eles gostaram e publicaram. Som coração foi o meu primeiro livro publicado, em 1994. Tinha até uma pauta de flauta. Aí essa mesma amiga, que também escrevia, me chamou pra ir com ela pra Bienal de Livro de São Paulo. Eu tinha ido a São Paulo uma única vez e havia detestado. Porque fui para um seminário de arquitetura e na época eu vi tudo muito cinza; a minha vontade era de lavar os prédios, que pareciam muito sem cor em comparação com toda a cor que a gente tem aqui. Mas aí fui com essa amiga à Bienal do Livro, e lembro dessa sensação porque ela se renova, de sentir que: putz, este é o meu lugar. Eu nunca tinha sentido isso antes — foi uma sensação de pertencimento. Além disso, poder trabalhar em casa, para mim, não tem preço. Acho que eu estudei arquitetura para construir a minha casa e para poder trabalhar aqui dentro. Só pra isso, pra mais nada. 

NQual é o projeto em que você está trabalhando agora?

REstou terminando um livro que é uma história de uma aranha que derruba um muro, uma aranha rebelde que tem uma conotação política de derrubar muros. Estou fazendo também um livro sobre a idade do Recife, mas assim que eu terminar esses livros quero voltar a me dedicar aos livros de bebê, que eu adoro fazer, e a um outro sobre sentimentos. É um “sentimentário”, assim como o bestiário, ou um catálogo de sentimentos, mas esse não é para bebês. Os livros que eu faço vão saindo. Tenho essa temática do oral e do popular, que sempre foi a minha realidade das manifestações populares da dança, do Carnaval, dos contadores de histórias, e isso está muito próximo dos livros de bebês, das cantigas das lendas, só que com uma narrativa em que eu acabo recriando desenho mais de contraste, elementos mais soltos que a criança possa fixar para si, se familiarizar com a sonoridade da poesia, mas principalmente a brincadeira com os pais e o desenvolvimento dessa relação. 

NComo surgiu a sua escola de formação de ilustradores, a Usina de Imagens?

RHá seis anos eu e a Anabella López, que é argentina mas mora aqui, criamos essa Usina de Imagens, onde o objetivo é formar ilustradores, a partir da nossa experiência. Porque a gente não tem uma escola de ilustradores aqui. Tem algumas cadeiras de ilustração nas universidades, mas isso não dá conta da formação mesmo. O nosso é um curso de três anos de formação, em que a gente realmente passa para os alunos tudo que a gente aprendeu na prática, e, como nós também não tivemos escola, agora a gente precisa sistematizar para ensinar. O ilustrador brasileiro é absolutamente autodidata. Acho que os da nova geração é que estão começando a receber alguma formação, porque vão pra fora, e com internet tá tudo mais democratizado; pelo menos a gente tem notícia, porque antes nem isso a gente tinha. Mas, como formação profissional de ilustradores, a nossa escola é a primeira aqui. Justamente para suprir essa carência, que principalmente eu senti na minha formação. Anabella nem tanto, na Argentina, ela teve acesso à escola de ilustração, onde ela não só estudou mas também ensinou.

Ilustração de Rosinha em Histórias do Xingu, de Orlando e Cláudio Villas Bôas, publicado pela Companhia das Letrinhas, 2013

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