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“Só se aprende a ler lendo”

Programa Círculos de Leitura incentiva jovens à leitura de obras clássicas, em mais de 200 escolas no Ceará


No Programa Círculos de Leitura, os estudantes são protagonistas e contam com apoio dos educadores. Foto: Rosa Gomes

Por Wallace Cardozo, Rede Galápagos, Salvador (BA)

Nos últimos anos, o estado do Ceará tem se destacado no quesito alfabetização. Os resultados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) de 2019 mostram que os estudantes cearenses do 2º ano do ensino fundamental foram aqueles que alcançaram maior média de proficiência na avaliação de língua portuguesa, em comparação com todos os outros estados brasileiros. O relatório indica que “os dois primeiros anos do ensino fundamental têm como foco a alfabetização das crianças”.

Os bons números são consequência de uma política pública aplicada pelo governo há quinze anos. O Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic) tem como objetivo garantir que os estudantes desenvolvam as habilidades da leitura e da escrita até a conclusão do segundo ano do Ensino Fundamental. Para isso, apoia a gestão das escolas e oferece formação continuada e material escolar aos professores. Hoje, o programa é mais abrangente, mas manteve a sigla porque trocou o termo “alfabetização” por “aprendizagem”. Antes de ser expandido para todos os municípios do Ceará e de se tornar uma referência nacional, o programa foi testado no município de Sobral.

Círculos de Leitura
Cerca de 200 quilômetros distante da capital, Fortaleza, Sobral é uma importante cidade cearense e serve como um polo para os pequenos municípios ao redor. Para cursarem uma faculdade, os moradores dessas pequenas cidades precisam ir até Sobral. Rosa Gomes é natural de Reriutaba e passou pelo processo de sair de sua terra natal para estudar pedagogia. Algum tempo depois de se formar, voltou a morar na cidade-polo. Dessa vez, ela estava lá para atuar como coordenadora pedagógica municipal e viu de perto o início da aplicação do Paic.

“Hoje o Ceará é destaque nacional porque as nossas crianças estão alfabetizadas aos sete anos”, orgulha-se a pedagoga. Ela continua trabalhando com o desenvolvimento do hábito de ler, na Secretaria de Educação (Seduc) do estado, mais especificamente na Coordenadoria de Protagonismo Estudantil (Copes). Rosa é uma das educadoras sociais do programa Círculos de Leitura, desenvolvido pela Copes em parceria com o Instituto Fernand Braudel. 

A iniciativa tem como objetivo promover a leitura de obras clássicas. Para isso, aposta no protagonismo dos estudantes e convoca entre eles os que ocuparão a função de multiplicador. “Os multiplicadores são orientados para realizar os momentos de leitura junto às turmas. Nada tem tanto potencial quanto um jovem falando para outro jovem.” A educadora relata que a leitura do livro Kafka e a boneca viajante, do escritor Jordi Sierra i Fabra, ajudou estudantes que tinham dificuldade de se expressar.

O Documento Curricular Referencial do Ceará (DCRC) prevê o desenvolvimento de competências socioemocionais, e o programa Círculos de Leitura cumpre esse papel. Com encontros semanais ou quinzenais, os jovens, voluntariamente, conversam sobre a leitura da vez. Eles são incentivados a escrever cartas durante a experiência. No final de cada ano, há um concurso e as cartas são editadas para compor um livro, cujo destino é a biblioteca da respectiva instituição de ensino.

Bom e velho: clássico
No início de 2021, um tweet de Felipe Neto dividiu opiniões na internet. O youtuber afirmou que obrigar adolescentes a ler obras clássicas “é um desserviço das escolas para a literatura”. Na ocasião, Felipe foi bastante criticado por profissionais da educação, principalmente professores de língua portuguesa e de literatura. Para a educadora Valéria Gerbo, “os clássicos não podem se perder no tempo, pois fazem parte da cultura de um determinado período”.

Valéria também é educadora social no programa Círculos de Leitura, que incentiva a leitura de clássicos do cânone literário. Para ela, a experiência com o programa prova que os adolescentes e jovens podem se interessar por livros antigos. “São obras clássicas e, às vezes, densas, mas os estudantes gostam porque elas trabalham temas atuais.” Citando como exemplo Crime e castigo, de Fiódor Dostoiévski, a professora argumenta que “é possível trabalhar perspectivas filosóficas, psicológicas e morais, três temas relevantes no contexto contemporâneo”.

Durante seu trabalho no programa, Valéria percebe alguma dificuldade dos estudantes com a linguagem utilizada pelos autores clássicos. “O papel do professor é facilitar a compreensão. Quando não há mediação, a tendência é que o aluno encontre dificuldade.” Uma alternativa incentivada por ela é a abordagem da obra, em sala de aula, por módulo ou por tema. Para a educadora, a observação da confusão com a linguagem serve para reforçar a importância do incentivo à leitura de obras clássicas. “Promove o enriquecimento vocabular, o que, aos poucos, vai melhorando o entendimento. Só se aprende a ler lendo”, conclui.

A Seduc dividiu os 184 municípios do Ceará em 20 Credes, sigla para Coordenadoria Regional de Desenvolvimento da Educação. O programa Círculos de Leitura tem atuação em todas elas. Mais de 260 municípios recebem os livros para as rodas de leitura, e 13 educadores sociais, como Rosa e Valéria, são responsáveis por coordenar o andamento da iniciativa nas Credes. Todos eles fizeram o curso Monitoramento para OSCs, disponível no Polo, o ambiente de formação do Itaú Social.

Integrante da equipe de educadores sociais do Círculos de Leitura, a professora Rosa Gomes é responsável por três Credes. Foto: Arquivo pessoal

O acompanhamento de programas abrangentes como o Círculos de Leituras envolve lidar com muitas informações, dados e estatísticas. Os educadores sociais precisam acessar e atualizar planilhas que dizem, por exemplo, quantos são os professores e os multiplicadores envolvidos na iniciativa. Esses números ajudam a compreender a dimensão do programa e possibilitam a definição dos passos seguintes. Rosa Gomes, educadora social da Seduc, reconhece que “às vezes se fazia o monitoramento no automático”. Ela diz que a formação foi muito bem-vinda porque já há uma estrutura de acompanhamento, responsável por uma rede muito grande. “A melhoria da educação passa pelo olhar do gestor sobre os números.”

Valéria Gerbo: “Muitas literaturas clássicas continuam atuais com o passar dos anos”. Foto: Arquivo pessoal

O Círculos de Leitura atua em escolas públicas de tempo integral do Ceará. Parte do público atendido é formada por pessoas em situação de vulnerabilidade. Os pais de alguns dos estudantes são analfabetos ou semianalfabetos, o que pode dificultar a comunicação com os educadores. Rosa lembra que a utilização de gráficos, incentivada após o curso, ajudou também nesse desafio. “Hoje, o coordenador consegue acompanhar os alunos através de gráficos, ao fim de cada mês. Isso é apresentado em reuniões e é mais fácil para o entendimento dos pais.”

Valéria Gerbo relata que teve um pouco de dificuldade no início da formação, por causa da linguagem, que considerou muito técnica. Com o tempo, entretanto, conseguiu fazer as adaptações necessárias ao conteúdo, em relação ao seu trabalho na Seduc e no Círculos de Leitura. No final, a educadora diz ter entendido a importância de dar a devida atenção aos indicadores e da integração das equipes no processo de monitoramento. “São várias etapas, do monitoramento ao planejamento das ações para mudar aqueles indicadores. Todos devem estar conectados para alcançar os objetivos.”

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