Ir para o conteúdo Ir para o menu Ir para a Busca

AGÊNCIA DE

Notícias

Dez perguntas para

“Para estudantes negros, a inserção precoce no mercado de trabalho não é uma escolha, é uma necessidade.”

Pesquisador analisa perspectivas educacionais de alunos negros do Amapá diante de desafios socioeconômicos e do racismo — e aponta como a comunidade e a escola podem contribuir para uma mudança de cenário


Dez perguntas para
João Paulo da Conceição Alves
Doutor em educação pela Universidade Federal do Pará (UFPA). É professor adjunto II da disciplina política e legislação da educação brasileira, líder do Grupo de Pesquisa em Educação, Trabalho e Formação Humana (Gefor) e membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Trabalho e Educação (GEPTE/UFPA).

Professor João Paulo da Conceição Alves: “É importante ter uma escola democrática e com qualidade, onde o sujeito negro se reconheça”. Foto: Arquivo pessoal

Por Ariel Bentes, Rede Galápagos, Manaus (AM)

Professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) no campus de Abaetetuba, localizado a cerca de 150 quilômetros da capital, Belém, João Paulo da Conceição Alves desenvolve pesquisas na área de políticas públicas educacionais. Dedica-se principalmente às que discutem contradições da sociedade e falam sobre grupos historicamente excluídos. É esse o foco de seu artigo O ensino médio na Amazônia “negra”: indicadores e perspectivas de alunos negros sobre o mercado de trabalho no Amapá. O trabalho é um dos selecionados na categoria Artigo Científico do Edital Equidade Racial na Educação Básica, realizado pelo Itaú Social com o intuito de estimular estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação.

“Para estudantes negros, a inserção precoce no mercado de trabalho não é uma escolha, é uma necessidade Eles diziam: ‘Pensar em ensino superior para quê? Eu preciso me manter vivo e alimentar a minha família’”, relata o professor João Paulo ao relembrar as entrevistas com os dez estudantes que fizeram parte da pesquisa. Na entrevista a seguir, ele fala sobre o processo de desenvolvimento da pesquisa e o papel e a importância da escola e de profissionais da educação na vida de estudantes negros. 

O Edital Equidade Racial na Educação Básica buscou a mobilização e articulação de escolas, redes de ensino, coletivos, centros de pesquisa e organizações da sociedade civil para viabilizar e fortalecer estratégias de enfrentamento das desigualdades raciais na educação. A iniciativa do Itaú Social contou com a realização do Ceert (Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades) e a parceria do Instituto Unibanco, da Fundação Tide Setubal e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A publicação digital que reúne todos os projetos selecionados pode ser acessada neste link.

NNotícias da Educação — Qual foi a motivação para pesquisar questões de trabalho e raciais? O que mais chamou sua atenção durante o desenvolvimento da pesquisa?

JJoão Paulo da Conceição Alves — A minha orientadora no mestrado, na Universidade Federal do Amapá (Unifap), tinha pesquisas relacionadas a questões étnico-raciais e desde então eu me aproximei mais do tema. Além disso, o Amapá é um dos estados com maior número de comunidades remanescentes de quilombos, com grande demanda e campo de pesquisa para investigar. No processo de produção da pesquisa, a primeira questão é o desafio teórico. De minha parte não existe preconceito teórico, mas de maneira geral diversas pesquisas tratam a questão étnico-racial como um debate pós-moderno, em que é preciso resolver situações particulares em vez de pensar no conjunto. Assim, deixamos de lado um aprofundamento do debate e, por exemplo, não discutimos questões de classe dentro do contexto racial. O segundo ponto é a questão da mulher negra. Os dados, tanto nacionais quanto os da região amazônica, revelam uma desvantagem maior das mulheres negras até em relação ao homem negro. É a precarização da precarização. Não podemos deixar de falar também da questão quilombola, em que essa herança não é reconhecida; e da qualidade social da educação. É preciso estudar e refletir se os estudantes negros do Amapá possuem acesso ao saneamento básico, boas condições alimentares e financeiras, e não avaliar somente o seu nível de escolaridade. 

NA maioria dos alunos negros apresenta como perspectiva uma inserção precoce no mercado de trabalho. Como isso pode impactar o futuro dos estudantes e o mercado de trabalho local?

JOs estados da região Norte têm baixos índices de desenvolvimento humano. Isso obriga alunos, em sua maioria negros das escolas públicas, a se inserirem de forma rápida no mercado de trabalho devido às condições econômicas. Quando falo em condições econômicas, eu me refiro à subsistência mesmo, à qualidade de vida e a condições básicas para a sobrevivência humana. Por isso, para estudantes negros, a inserção precoce no mercado de trabalho não é uma escolha, é uma necessidade. Eles diziam: “Pensar em ensino superior para quê? Eu preciso me manter vivo e alimentar a minha família”. Outro ponto a destacar: há elementos mostrando que, quando o aluno pensa em ingressar no ensino superior, ele cogita apenas cursos considerados “menos prestigiados e concorridos”, como as licenciaturas. 

O professor João Paulo da Conceição Alves propõe que a abordagem sobre racismo e inclusão comece cedo, ainda na creche: “É um espaço extremamente importante para a educação básica e que possui um caráter fundamental para transformar a sociedade”. Imagem: Video do site Edital Equidade Racial na Educação Básica

“É necessário que o plano político-pedagógico contemple esses alunos com ações e projetos que valorizem a identidade negra e mostrem a sua importância na sociedade.”

NA vulnerabilidade econômica é o principal fator para que esses estudantes priorizem o trabalho em relação à universidade. Durante a pesquisa, algum deles já tinha trabalhado ou estava trabalhando?

JAlguns já estavam trabalhando informalmente, o que é uma face da precarização das condições de trabalho. Outros tinham tarefas domésticas, mas o que foi consenso é que todos vislumbravam um emprego após a conclusão do ensino médio. Essa inserção na informalidade também não é uma opção, é por falta de oportunidades no mercado formal. Nesse caso são os chamados “bicos”, aquele serviço imediato que proporciona um dinheirinho para manter a família.

NQual o papel da escola e da comunidade para com esses estudantes negros?

JA escola tem um papel fundamental no processo de inserção desses sujeitos na sociedade. É importante dizer também que a escola não é uma ilha, cercada pela sociedade em todos os lados; ela é parte do contexto social — e precisa propor ações que incluam quem faz parte de grupos historicamente excluídos no âmbito educacional. É necessário que o plano político-pedagógico contemple esses alunos com ações e projetos que valorizem a identidade negra e mostrem a sua importância na sociedade. A comunidade pode ser uma aliada nas ações e na construção de uma escola democrática e diversa, na qual os alunos negros se reconheçam nesse plano e nos recursos didáticos. 

NA Lei 10.639/03 prevê a obrigatoriedade do estudo de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas de ensino fundamental e médio. Como observou essa medida na prática na escola que fez parte do estudo?

JAo refletirmos se as escolas cumprem ou não essa lei, ou a parcialidade dela, percebemos uma série de problemas. Um deles é que muitas vezes o currículo escolar não está preparado para abordar esse debate e o assunto não faz parte da mente e do contexto da escola ou não está desenvolvido. Isso nos leva a crer que há descrédito ou uma minimização do debate étnico-racial. É uma discussão importante, mas, observando a realidade do bairro e da sociedade, esse descrédito pode estar relacionado à dificuldade na autoidentificação e à suposta democracia racial.

“A escola precisa estar atenta para situações de racismo. Mas essa é uma questão também para a comunidade daquele bairro, que precisa pressionar para a criação e a execução de políticas públicas.”

NAo abordar o mito da democracia racial, você fala sobre os sérios problemas de identificação racial no Brasil e, principalmente, no Norte do país. Dos dez entrevistados no artigo, seis se autodeclararam como “moreno”, “moreno-claro”, “pardo”, “claro”, “amarelo” e “mestiço”. Isso dificultou o processo de escolha dos estudantes? 

JA ideia da mestiçagem é hegemônica na sociedade, e no caso dessa pesquisa a maioria dos entrevistados se autoidentificou como “morena” ou “morena-clara”. São muitas tipificações que acabam fechando na concepção de mestiçagem e isso está presente na mente dos alunos, no imaginário da sociedade e até na dos próprios professores, que não reconhecem isso como um problema. A suposta democracia racial ainda é muito viva e presente, e aqui no Brasil o racismo tenta se esconder nas sutilezas, palavras e “piadas”.  Para o artigo, a escolha dos sujeitos partiu da autodeclaração dos alunos. Aos que se dispunham a participar e eu perguntava se se autodeclarava negro, ou negra, e a resposta era positiva. Porém, durante a entrevista o termo mudava e notavam-se certa vergonha e timidez, o que é compreensível também. Era evidente o desconforto, que se apresentava por meio de uma longa pausa, cabeça baixa e olhar desconfiado.

NEm um dos trechos do artigo você anota que “o aluno acima admite dentro de um ambiente sutilmente velado a existência do racismo e ainda enfatiza o processo de mestiçagem como perspectiva de ‘escape’ ou salvação e, ao mesmo tempo, como eventual correção ou, ao menos, suavização de um problema: o racial”. Algum dos entrevistados negou a existência do racismo no ambiente escolar?

JNão, isso foi diferencial inclusive. É comum ter um ou dois que digam que “isso aí é conversa”, ou que não existe. Todos admitiram a existência do racismo e de práticas racistas na sociedade e nas escolas. Todos afirmaram que já presenciaram situações racistas. Nunca com eles próprios, mas com os outros. Isso é algo a ser pensado também, pois passa a ideia de que somos ilhas cercadas de racistas, mas que nunca nos reconhecemos no lugar de quem já sofreu com ele. É sempre “o outro”. 

“Mais do que nunca a mobilização social é importante para que a gente pense em alternativas imediatas que resolvam as questões étnico-raciais.”

NO racismo afeta pessoas negras ainda na infância, fase em que muitas vezes as crianças já percebem as diferenças raciais. Nesse caso, como a educação básica pode atuar na construção das perspectivas?

JImagine uma criança negra na educação infantil pensando ou lidando com situações como essa. São as primeiras a sofrer discriminação; e a escola precisa estar atenta para isso. Isso também é uma questão externa, em que a comunidade daquele bairro precisa pressionar para a criação e a execução de políticas públicas. No âmbito escolar, a educação pode começar, por exemplo, apresentando figuras, elementos inanimados e desenhos diversos, fora da hegemonia já existente. Esse debate precisa ser iniciado cedo e isso pode ser feito ainda na creche, espaço extremamente importante para a educação básica e que possui um caráter fundamental para transformar a sociedade.

NCom a pandemia da Covid-19, o que você acredita que pode ter mudado na visão de futuro dos estudantes negros que concluíram o ensino médio em 2020 ou vão concluir em 2021?

JAcho que o cenário tende a ficar mais dramático, por causa das condições sociais dos alunos que antes da pandemia já vislumbravam a inserção precoce no mercado de trabalho. No cenário global, a pandemia por si só já é complicada, mas as condições políticas que o Brasil vive hoje tornam a situação ainda mais difícil. O ressurgimento e o fortalecimento da extrema direita têm dificultado imensamente o avanço do debate político. Por isso, mais do que nunca a mobilização social é importante para que a gente pense em alternativas imediatas que resolvam as questões étnico-raciais.

NDe que forma a sociedade civil e organizada pode contribuir para a melhoria dessas perspectivas e mudar esse cenário?

JOs ataques, principalmente à população negra, são fortes e é preciso fazer vigilância, se organizar em sindicatos, centros comunitários, instituições estudantis e acadêmicas que possam responder rapidamente aos ataques que estamos sofrendo covardemente em tempos de pandemia. Há uma série de reformas administrativas a ser votadas e instituições que estão em processo de privatização. Logicamente, são medidas que afetam mais a população negra. São ataques contra o patrimônio público e contra o avanço da sociedade. Agora a mobilização da sociedade é mais do que necessária. 

Leia mais

Assine nossa newsletter

Com ela você fica por dentro de oportunidades como cursos, eventos e conhece histórias inspiradoras sobre profissionais da educação, famílias e organizações da sociedade civil.